Opinião Consagrado pelo público e crítica no Festival
de Cannes do ano passado, esse surpreendente desenho
animado recebeu 3 indicações ao Oscar 2004, reconhecimento
da Academia para um trabalho que esbanja originalidade,
incluindo ironia ferina com o american-way-of-life: Reparem
nos personagens grotescamente obesos, usando camisetas
I Love Big numa Belleville (paródia de Nova Iorque) onde
até a Estátua da Liberdade é gorda e empunha um sorvetão
e, na citação mais radical, vemos um cocô em forma de Mickey
Mouse boiando na bacia de um banheiro em um pardieiro.
Filme conta, praticamente sem diálogos, a história
do garotinho incrivelmente melancólico Champion,
órfão criado pela avó, a portuguesa Madame Souza.
Ela percebe que Champion tem jeito para velocípedes
e bicicletas e, no passar dos anos, submete-o a um
treinamento rigoroso para torná-lo um campeão
de corridas de bicicletas. A certa altura da trama,
encantadora de tão imprevisível, Champion é seqüestrado
por homens de preto e mais não deve ser contado para
não estragar o prazer de degustar essa maravilha
de desenho animado, visualmente estonteante,
com humor inspirado nas gags visuais de Jacques Tati
e direção de arte completamente diferente de qualquer
tendência atual dentro no gênero. As crianças vão curtir,
mas os adultos é que vão babar com a riqueza de composição dos personagens. Champion parece uma versão em cartoon
do pianista de Polanski, Adrien Brody! Seu cão Bruno
é um show à parte. As velhinhas trigêmeas que dão nome
ao filme são inesquecíveis, responsáveis por números
musicais contagiantes. Filmes como esse e A Viagem
de Chihiro ofuscam hits americanos como Procurando Nemo,
indo bem além do encantamento pela técnica ou humor referencial, conquistando o espectador pela originalidade inesperada. As Bicicletas de Belleville já tem seu lugar
garantido entre os melhores filmes de 2004.
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