Opinião O novo filme do lendário diretor William Friedkin
(O Exorcista, Operação França) está sendo chamado de 'um
dos piores filmes do ano' e de 'um dos melhores filmes do ano'
ao mesmo tempo. Eu fico com o segundo time e só tenho
a certeza que filmes que provocam reações tão díspares
são os que interessam. Friedkin já era considerado um
veterano que ficou pra trás e, surpresa!, pegou um texto
de uma peça de sucesso no teatro e, munido de um magro
orçamento B de apenas U$ 4 milhões de dólares e uma
dupla de atores sensacionais, realizou com alma de diretor
jovem e enfurecido um dos filmes mais eletrizantes que
você verá em 2007. Possuídos ganhou esse título aqui
pela possibilidade comercial de associação com O Exorcista.
O título original é Bug, inseto, e o filme será sobre a forte
relação entre uma garçonete solitária com um ex-militar
perturbado, num decadente motel de beira de estrada.
Possuídos é um filme B sim e é preciso entrar nesse clima
para melhor apreciá-lo. Com o desenvolvimento absurdo
da trama, muitos espectadores podem achar o filme risível
mas esse que vos fala não, muito pelo contrário.
Muitos
críticos condenaram o fato de que o filme não consegue
ir além do escopo teatral. Eu discordo. Assim como Mike
Nichols pegou o explicitamente teatral Closer - Perto Demais
e realizou um filmaço, William Friedkin faz o mesmo aqui.
Nos dias atuais em que a paranóia faz parte do cotidiano
do homem urbano, o filme apresenta a solitária
Agnes
(Ashley Judd) que leva a vida do bar, onde trabalha como garçonete, para o quarto de motel, onde divide farras
de cocaína e álcool com uma amiga lésbica que a apresenta
ao estranho e retraído Peter. Ele esclarece que não quer
envolvimento sexual com Agnes, o que a deixa à vontade
para dividir carências com ele. A atração sexual
logo acontece,
enquanto o ex-marido de Agnes (o astro de jazz pop Harry Connick Jr., bombado e de meter medo)
reaparece, libertado
da prisão. Após o primeiro contato íntimo com Agnes,
Peter
revela-se altamente perturbado por insetos que ninguém vê
mas Agnes acredita, a ponto de dividir com o amante
a mesma obsessão pelos insetos invisíveis. O que se segue
é uma evolução desgovernada de um amor para algo paranoicamente
destrutivo, que isolará Agnes e Peter
de tudo e todos, num desses filmes em que a sintonia
direção e atores gera material de uma força impressionante.
Espécie de Império dos Sentidos cronenberguiano, Possuídos
tem Ashley Judd (atriz linda e sub-aproveitada em lixos
hollywoodianos)
no melhor papel da sua vida e o também
excelente e menos conhecido Michael Shannon num papel
dificílimo, à beira do ridículo, exigindo total compromisso
do ator, tanto emocional quanto fisicamente. Michael Shannon
sempre foi coadjuvante (fez o ótimo militar fanático religioso
voluntário para a Guerra do Iraque em As Torres Gêmeas
de Oliver Stone)
e ganha atenção no cinema neste filme,
no papel que ele já dominou em anos da peça de teatro.
A entrega
de Ashley Judd e Michael Shannon aos personagens
é alucinante, despidos literalmente de qualquer pudor.
E esse filme bota William Friedkin de volta à cena, provando
que bom cinema pode ser feito com pouco dinheiro. Indispensável é muito tesão e vontade de levar ao espectador
emoções e sensações que ficam como insetos que coçam,
arranham, incomodam. Isso sem falar que Possuídos também
pode ser visto como uma metáfora sobre
as grandes paixões, aquelas que fazem amantes perderem a razão e terem vontade
(e pavor) de
se isolar do mundo à sua volta, como se uma
doença contagiosa tomasse conta de tudo. Love, you know... |