Opinião O novo filme do provocador diretor Michael
Haneke é um desses casos de obras contemporâneas
que, ao mesmo tempo, expandem as possibilidades
da linguagem cinematográfica e questionam em tom adulto
os conflitos morais do ser humano, focado na delicada
situação da luta de classes e racismo na Europa,
em especial na França, colonizadora da Argélia.
Caché parte de um argumento tão trivial que parece filme americano: Família francesa bem de vida vê sua agradável
segurança desmoronar a partir de estranhas fitas de vídeo
que registram a casa deles. Inicialmente não são ameaças, apenas uma incômoda confirmação de que alguém vigia
a família. As fitas (e alguns desenhos infantis em cartas anônimas) começam a deixar o pai descontrolado (Daniel
Auteuil, numa atuação magnífica). A essa altura o espectador
já percebe que o pai tem alguma culpa no cartório.
A tensão desdobra-se para a esposa e o filho adolescente.
Está formado a trama clássica hitchcockeana. Mas
Haneke não está interessado no formato tradicional
de mistério-reviravolta-descobre-se o culpado e fim.
Contar mais não vale a pena. Basta esclarecer que o filme
é sobre essa culpa. Essa monstruosa sensação de culpa,
explicada por fatos cruéis de uma infância não esquecida,
mas soterrada, escondida, o Caché do título. Quem for
ao cinema procurando a velha fórmula fácil de Hollywood
vai arrepender-se. Haneke não usa trilha sonora e, num
artifício técnico simplesmente genial, filma de uma maneira
que o espectador nunca sabe se está vendo 'o filme'
ou o videotape filmado. Perturbador. Logo no início do filme,
a platéia terá a experiência visual mais inesperada
dos últimos tempos e, embora o final seja em aberto,
muitos insistem numa discussão inútil de que no longo
plano estático final de Caché está a solução do mistério.
Não se engane. Mas, na dúvida, preste muita atenção nessa
cena final. A vida não é um filme que termina em uma
cena. A vida continua e, se você sair do limitado 'quem
gravou as fitas?' pode colocar o filme em perspectiva e ver
a complexidade infinita das questãos que Haneke aborda.
E se aquele plano final for alguém gravando um filme?
Por essas e outras, Caché é o meu melhor filme do ano.
TRIVIA Com a repercussão mundial de Caché, Hollywood
já convidou Michael Haneke para fazer um remake
de seu filme mais radical e conceitual, o perturbador
Funny Games-Violência Gratuita, de 1997 (tem em DVD).
Previsto para 2007, com Naomi Watts no elenco, já foi
iniciada pré-produção do remake. Tomara que dê pra trás...
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