Opinião Como bem falou um crítico que li, 'Melhor
não se ater à sinopse: resumido ao enredo, o novo
filme do italiano Gianni Amelio soa a sentimentalismo
barato. Um garoto com uma grave deficiência, encontra
pela primeira vez, aos 15 anos, o pai que o abandonou.'
E nada poderia ser mais equivocado do que pensar
que esse filme é um daqueles SuperCines de 'doença
da semana'. Mesmo bem elogiado, confesso que fiquei
com um pé atrás, afinal 'filme de deficiente físico'
não é muito a minha praia e cito aqui o oscarizado
espanhol Mar Adentro, que tem seus méritos mas não
foge muito da convenção melodramática do gênero.
O que me chamou atenção em As Chaves de Casa
foi a assinatura do diretor italiano Gianni Amelio,
veterano documentarista, realizador de poucos filmes
de ficção, de quem eu guardo uma boa memória
do excelente Lamerica - O Sonho de Chegar, 1994, drama
quase documental sobre albaneses imigrando para a Itália
em condições miseráveis. É com esse mesmo registro
herdado do neo-realismo que Amelio aborda a relação
de pai e filho deficiente em As Chaves de Casa. É difícil
ver o tema ser tratado com tanta dignidade e nenhum
melodrama fácil como o diretor faz aqui, apoiado
por uma dupla de bons atores (Kim Rossi Stuart
e Charlotte Rampling) e a coragem de realizar
o filme com um garoto realmente deficiente físico
e mental, o cativante Andrea Rossi, perfeito.
Realizado como um road movie (carros e trens estão
sempre em movimento na tela), o que exacerba o estado
de constante fragilidade emocional no desenvolvimento
de relação tão especial entre seus personagens,
é praticamente impossível definir o que é real ou
encenado, diante da naturalidade com que Kim Rossi
Stuart reage ao garoto. Os momentos de carinho
e contato físico entre eles é algo comovente. Mas
o filme não pretende só arrancar lágrimas do espectador.
Apesar do final profundamente humanista e otimista
(com uso de uma música brasileira na trilha sonra),
o olhar do filme sobre o assunto é realista, deixando
claro que o amor não resolve tudo, quem lida com
esse tipo de situação sabe que os momentos difíceis
serão muitos e dolorosos, como na vida real. E uma cena
sombria com a mãe de outra criança deficiente é essencial
para perceber que o final do filme não é facilitador.
Mas As Chaves de Casa é bom cinema mesmo porque
transcende a questão da doença. É um filme sobre pais
e filhos. E um dos melhores recentes sobre o assunto.
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