Opinião 'Abertura oficial da Mostra SP 2006, 19 de outubro. Cerimônia e festa. Tô fora... Preferi assistir um filme fora
da Mostra, ainda em cartaz aqui em SP, única sala, último
dia em cartaz. Não dava pra perder.' O filme era Amantes Constantes (Les Amants Réguliers, 2005), curiosamente
com muitos pontos em comum com Os Sonhadores,
de Bernardo Bertolucci. É sobre o maio de 68 em Paris, sobre
os jovens estudantes burgueses que foram às ruas enfrentar
a repressão ao histórico movimento estudantil. Até o ator
é o mesmo de Os Sonhadores, o francês Louis Garrel. Mas
as semelhanças param por aqui. Enquanto o filme de Bertolucci era quase apenas um exercício voyeurista e fetichista sobre
três belos jovens no turbilhão da revolução, Amantes Constantes vai bem além, num filme desconfortável
no melhor dos sentidos, instigante, intimista, doloroso.
O filme tem apenas uma cópia no Brasil e é o primeiro
filme de Phillipe Garrel
lançado comercialmente aqui,
que nos chega graças à curadoria rigorosa do cinema
da Fundaj em trazer o melhor do cinema para nós.
Dirigido pelo pai de Louis, Phillipe Garrel, em tom
autobiográfico, o filme mimetiza a estética da nouvelle vague, com montagem livre, enquadramentos vanguardistas, para
mergulhar o espectador no que teria sido viver aquele clima
de momento tão particular da História, sobre a juventude
que queria mudar o mundo. O tom intimista, a fotografia
em seco preto-e-branco, a economia narrativa e as três horas
de duração tornam o filme difícil até para públicos de 'cinema
de arte', mas a viagem é recompensadora. Um filme duro,
crítico e direto na maneira como aborda o envolvimento
com drogas, o sexo livre, a alienação, mas também de uma
beleza poética e melancólica sobre essa geração que acreditava
num ideal de liberdade que não tem mais espaço no mundo atual, mas, de alguma forma, perdura. Louis Garrel está impecável aqui, dirigido pelo pai. Clotilde Hesme, a namorada
dele, encarna uma garota daquela época com uma atuação encantadora, somente o seu rosto enquadrado em longos
planos fechados tornam difícil acreditar que aquelas imagens
não sejam registros documentais reais de 1968.
Belo filme, grande cinema, Os Amantes Constantes
é um dos lançamentos mais preciosos de 2007 em Recife.
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