> Em fevereiro de 2002, nos Cinemails 83, 85 e 86, fiz uma
matéria especial sobre seis bons filmes americanos que ninguém
viu em 2001. Dois deles já passaram por aqui, o razoável
Gostosa Loucura, com boa atuação de Kirsten Dunst
e o instigado Waking Life, experimento inovador em vídeo
digital de animação. Três deles têm dificuldade em sair
comercialmente no Brasil: The Fluffer e L.I.E. por terem
conteúdo homossexual e Startup.com por ser documentário.
O último dos citados é o caso mais misterioso: Donnie Darko,
produção independente que conta com participações de Drew
Barrymore e Patrick Swayze no elenco e uma das trilhas sonoras
mais cool dos últimos tempos. Donnie é Jake Gyllenhaal, jovem
ator em ascensão em Hollywood, talentoso e notado pela crítica
desde O Céu de Outubro. Ele também está em Por um Sentido
na Vida, com Jennifer Anniston. Ainda em cena, a ótima
Jena Malone, a sumida Mary McDonnel e uma Katharine Ross (Butch Cassidy & Sundance Kid) envelhecida e irreconhecível.
Com potencial para ser o primeiro grande cult do terceiro milênio,
Donnie Darko está estreando em novembro na Inglaterra.
Nos EUA faturou só 500 mil dólares, exibido em restrito circuito
de cinquenta e poucas salas. Custou U$ 4,5 milhões de dólares.
O cartaz do filme, com a estranha cabeça de coelho, esteve
em todas as listas de melhores cartazes de cinemas em 2001.
Opinião O filme detona genialmente toda a cultura teen propagada pelos filmes 80's de John Hughes. Para esquecer
tudo o que você já assistiu sobre angústia adolescente suburbana, Donnie Darko faz de Jake Gyllenhaal um
Holden Caulfield em versão entortada à moda David Lynch.
Não é obra-prima, não é perfeito, mas já é cult de cabeceira!
Donnie Darko aborda sonambulismo, viagem no tempo, ficção
científica, esquizofrenia, alucinações, premonições apocalípticas.
Mas, é claro, também não é sobre nada disso. Tudo pode ser
visto como um retrato da adolescência moderna (o filme
se passa em 1988) num mundo que há muito tempo já perdeu
as ilusões românticas da década de 60. Donald 'Donnie' Darko
é desesperado, ansioso, solitário, rebelde e perturbado como todo adolescente esperto. Tudo começa com um estranho
desastre aéreo que não vale a pena descrever aqui.
A partir desse fato, Donnie é guiado por Frank, um coelho
gigante com cara de metal (!!?!), que lhe diz que o mundo vai
acabar em 28 dias... Está gostando? Você ainda não viu nada! Nem eu vou contar mais, pra não estragar. O que mais
impressiona é o diretor ser um novato, Richard Kelly, de apenas 26 anos. Das duas uma: ou é um acidente autoral ou esse cara
será um diretor interessante nos próximos anos. Muitos já
o acusam de ser pretensioso. Bem, o que ele fez com orçamento apertado, rodando Donnie Darko em apenas um mês, é criatividade, inventividade e bem-vinda pretensão, pois não.

Donnie e a namorada, em momento E.T., percebem algo
de estranho no ar. No cinema, ao lado do Coelho Frank...
Impressiona também a inesgotável fonte de referências incluídas
no filme. Começando por Holden Caulfield, o ícone adolescente
do livro O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Saliger.
Cinéfilos atentos irão notar: The Evil Dead de Sam Raimi,
A Última Tentação de Cristo de Martin Scorsese, Beleza Americana (numa sequência praticamente clonada do filme
de Sam Mendes), E.T. de Steven Spielberg (com as bicicletas
e a festa de Halloween), Um Lobisomem Americano em Londres de John Landis, a série De Volta Para o Futuro e até efeitos
especiais que remetem a O Segredo do Abismo, de James
Cameron. No clima visual e sonoro, a influência mais clara
é a do cinema de David Lynch. E numa cena, Donnie e seus
amigos filosofam sobre a sexualidade dos Smurfs...
A trilha sonora: quem viveu a cultura pop da década de 80
irá arrepiar-se com os primeiros acordes, logo na abertura,
de The Killing Moon, uma das mais belas canções da banda
Echo & The Bunnymen (Bunnymen = Coelho Frank?). Ainda
na trilha, Simple Minds, Joy Division, Tears for Fears, The Church
e Duran Duran, com uma utilização impagável do hit Notorious.
É quase desaconselhável para menores de 25 anos, eh eh
Nos fóruns da Internet discute-se o final 'inexplicável' e por
que diabos Donnie Darko se passa nos anos 80. Assim
como em Mulholland Drive, de David Linch, não há nada
de 'inexplicável' no final e até o sinistro coelho Frank
é explicado coerentemente. Quanto aos anos 80, bem,
o diretor tinha 14 anos na época em que situou seu filme...
Precisa dizer mais alguma coisa?
Vale muito a pena conhecer site oficial www.donniedarko.com
Novo cartaz para a Director's Cut
> O filme foi lançado nos EUA em 2001. Elogiado pela crítica, fracassou nas bilheterias. Lançado em VHS/DVD, virou
culto instantâneo entre cinéfilos do mundo inteiro. Agora em
2004 foi relançado nos cinemas dos EUA numa nova versão com minutos adicionais. Nessa nova versão, a música nos créditos
de abertura, The Killing Moon, foi retirada por problemas
de direito autoral. O filme fracassou novamente nos cinemas.
Donnie Darko está disponível no Brasil em VHS/DVD. |