Opinião Poucos cineastas atuais têm uma obra tão coesa
quanto o espanhol Pedro Almodóvar. Depois dos espetaculares
Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe e Fale Com Ela, criou-se
enorme expectativa sobre esse seu novo filme, Má Educação.
Por abordar memórias autobiográficas, religião, relacionamentos
homossexuais, pedofilia etc. esperava-se polêmica e provocação.
O resultado foi que a crítica recebeu Má Educação com certa
frieza e o consenso de que o filme decepciona quem esperava
mais uma obra-prima. Avaliação apressada. Má Educação está
sim entre os melhores filmes de Almodóvar. Todos os elementos
de seus filmes estão aqui, trabalhados num grau de complexidade
e sofisticação cada vez mais impressionantes. O filme talvez
não seja tão arrebatador quanto suas obras mais recentes
porque aqui Almodóvar aborda as paixões, o sexo, as relações
humanas sob ótica mais pesada, remetendo aos personagens
dos filmes policiais noir americanos, onde não há salvação
para ninguém, todos são vítimas de seus desejos e paixões
frustradas. Leve-se em conta ainda que, dessa vez, o universo
é exclusivamente masculino e homossexual. Fazia tempo que
eu não via tanto homem se agarrando num filme exibido
num multiplex de shopping! Tudo isso pode criar um
distanciamento da platéia diante de material tão radical.
E, além de paixão e sexo, o cinema de Almodóvar é,
sobretudo, uma reflexão pessoal sobre o próprio cinema.
De Hitchcock aos melodramas com divas do cinema da década
de 50, passando ainda pela metalinguagem de um filme que está
sendo rodado dentro do próprio filme, Almodóvar escancara
sua paixão pelo cinema num roteiro inteligentíssimo, onde
fica cada vez mais claro a obsessão do diretor pela imagem
e o que ela representa para os personagens. Assim, cada
personagem é mais de uma pessoa, em tempos diferentes,
incluindo a já emblemática figura almodovariana do travesti.
Má Educação narra o reencontro de dois amigos/amantes.
Na infância, Enrique e Inácio descobriram o amor e o desejo
sexual juntos, na escola. Um deles sofre tentativa de abuso
sexual do padre e professor Manolo. Na maturidade, Enrique
(Fele Martinez, de Os Amantes do Círculo Polar e Abre Los Ojos)
é cineasta (e alter-ego do próprio Almodóvar). Inácio torna-se
um travesti viciado em drogas, eternamente infeliz por ter sido
separado de Enrique na infância. O padre Manolo abandonou
o hábito e é agora um pai de família, mas continua em contato
com o travesti, a quem ajuda, e exerce clandestinamente sua
homossexualidade seduzindo rapazes suburbanos, como Juan
(o latin-star Gael Garcia Bernal), que quer ser ator e se passa
por Inácio, num reencontro forjado com Enrique, cheio de
interesses obscuros. Embora caiba criticar um certo oportunismo
na escolha de Gael Bernal para os papéis centrais, a verdade
é que o elenco está excelente, especialmente Gael Bernal,
num papel múltiplo, ousado e difícil para um jovem ator.
Almodóvar orquestra sua tragédia romântica com rigor
estético, gerando algumas sequências memoráveis.
Num momento crucial de choque psicológico, um personagem
é literalmente partido ao meio num split-screen dos mais
originais vistos recentemente. Noutra sequência, num jogo
de sedução entre Henrique e Inácio/Juan numa piscina,
entre olhares e corpos semi-nus, Almodóvar arma uma
sequência brilhante de planos e movimentos de câmera que
registram uma situação de carga incrivelmente homoerótica
e ambígua, como perceberá mais a frente o espectador.
Má Educação pode não ser um filme dos mais palatáveis
diante dos ultimos de Almodóvar, que conquistaram
o grande público e até o Oscar. Mas, equivocadamente
considerado por muitos como um filme mais cerebral,
é nesse projeto pessoal que Pedro Almodóvar reforça sua
paixão pelo cinema, levada ao extremo quando a palavra
Passion é literalmente ampliada até tomar todo o espaço
da tela em CinemaScope. É bonito pra se lascar. Não perca.
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