Opinião Não sou nem candidato a cineasta, mas tem filme
que eu olho e penso: Putz, eu queria ter o talento pra fazer
um filme assim sobre esse tema! Foi exatamente essa
a
sensação que eu tive ao ver Elefante pela primeira vez.
Da segunda vez, achei alguns problemas. Estranhei também
na revisão o fator estético por demais virtuoso mas,
de certa forma, achei o filme melhor ainda. Em parte,
porque em meio a mediocridade narrativa que reina
no cinema médio americano, é animador saber que é também de lá
que vem essa experiência tão radical e única sobre
os adolescentes do mundo atual. E simplesmente porque
esse filme não sai da minha cabeça. Justo porque é
daqueles filmes que não procuram explicar nada, restando
ao espectador tirar as suas conclusões. Daí que tem quem
fique admirado, como eu, e quem deteste, dizendo que é mais
um filme vazio e estetizante do chamado 'cinema de arte'.
Acompanhando a uma calculada distância e em formato
temporal circular (ou seja, o filme vai e volta no tempo
de um único dia, repetindo as mesmas cenas de pontos
de vista diferentes, causando incômoda sensação de não
avançar dramaticamente), vemos o cotidiano de um grupo
de alunos de classe média ianque, em longos e precisos
planos-sequência. O que vemos é aquela vida em que nada
de muito importante acontece, mas na iminência de que algo
de muito terrível (e inexplicável) irá acontecer. E acontece.
Mas Gus Van Sant o tempo inteiro, inclusive no final,
evita qualquer tipo de julgamento. Que ele use rapazes
e garotas de beleza angelical, andrógina, quase etérea,
parece intencional, deixando mais claro ainda que
nenhuma força 'superior', divina, virá a interferir nos fatos.
São também todos atores estreantes e não-profissionais.
Elefante foi devidamente ignorado na festa do Oscar,
mas ganhou antes a Palma de Ouro 2003 de melhor filme
e direção, surpreendendo os favoritos Dogville e Sobre
Meninos e Lobos. Entendo como a vontade do festival
em incentivar os filmes mais ousados esteticamente
mas também de conteúdo humano tocante. Tocante aqui
não significa melodramático, pois Elefante causa
estranheza pela frieza clínica com que observa seus
personagens num dia fatal numa escola americana.
O dia é aquele do massacre de Columbine, também objeto
do documentário de Michael Moore, Tiros em Columbine,
embora os créditos façam questão de declarar que não
se trata de uma história nem de personagens reais.
Cinema em estado puro, de um minimalismo instigante,
Elefante é filme mais para ser visto, sentido, não analisado.
Gus Van Sant pede ao espectador que tente reaprender
a olhar e perceba que nem tudo na vida tem uma explicação racional. Elefante, como poucos filmes, é uma experiência
radical
entre você, a sala escura, as imagens projetadas
na tela e o mundo real que acontece lá fora. Filmão.
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