Opinião Eis aqui um filme sobre o qual é quase impossível
falar mal, tamanha a delicadeza, honestidade e candura
do roteiro.
Alguns vão dizer que não é grande coisa,
por conta da expectativa
do hype festivo que se criou
em torno do 'filme da filha de Coppola'. Outros podem
comentar: - O que é que tem nesse filme para ser indicado
ao Oscar? Bem, esses não sabem o que dizem...
Não lembro agora quando o Oscar colocou entre os cinco
principais
indicados um filme tão simples e pequeno assim. Encontros
e Desencontros é uma das maiores ousadias recentes
do reconhecimento da Academia. Mais que merecido.
Raro no cinema americano ver filme tão pessoal e realista.
O roteiro da própria Sofia Coppola é fruto de experiências
pessoais da diretora, que vive nesse mundo onde é normal
de um dia pro outro ter que ir a trabalho para um hotel
do outro lado do mundo, numa cultura completamente
estranha. Partindo dessa idéia, Sofia coloca em cena duas pessoas casadas, de gerações diferentes: um homem que
já viu a sua vida passar e uma garota que tem toda uma vida pela frente. Diretora nata, Sofia mostra uma sensibilidade enorme e puramente cinematográfica na condução
do envolvimento de Bob Harris (Bill Murray, aqui no seu melhor) e Charlotte (a adorável, talentosa, apaixonante... Scarlett Johansson, de apenas 19 anos). Sofia prefere economizar
nos diálogos e deixar seus personagens encontrarem-se naturalmente, tendo como cenário a cidade de Tóquio,
filmada aqui como um personagem a mais, um cenário
de estranhamento cultural amplificado pela alteração
do tempo, provocando insônia em Bob e Charlotte, misto
de fuso horário com desconforto existencial. É muito bonito
como Sofia capta isso em imagens. Ainda, eu não lembro
no momento qual filme tenha mostrado com tanta
naturalidade o tedioso e asséptico clima da vida
em hotéis, no caso um luxuoso cinco estrelas.
Sofia Coppola confessa gostar muito do cinema de Wong
Kar-wai. Ela reconhece a influência de outros cineastas
em seu trabalho, inclusive papai Francis Coppola. A bela
cena de abertura, por exemplo, é sua homenagem ao Lolita
de Stanley Kubrick. Mas estão em Kar-wai as referências
mais constantes. Lembrei até de Amor à Flor da Pele, afinal,
não fosse a existência dos cônjuges, ali se constrói
a possibilidade de um par, um casal. O filme lembra ainda
Um Homem, Uma Mulher, Desencanto, Felizes
Juntos, Amores Expressos, ou seja, está em excelente companhia.
Classificar Encontros e Desencontros de 'comédia' é uma
estupidez. Só se for a comédia/tragédia da existência humana.
Abro um parêntesis para comentar a trilha sonora cativante,
pontilhada de músicas pop para comentar o estado dos personagens. Just Like Honey do Jesus and Mary Chain
na cena final, é de chorar. Se há algum deslize formal,
acho que ainda é a maneira excessiva (assim como
em Virgens Suicidas) como Sofia usa constantemente
a música para sublinhar os sentimentos dos personagens.
Mas como apreciador de música pop, acho delicioso ver
momentos como o karaokê com japas legais e maluquinhos,
quando Charlotte, de forma irresistivelmente sensual
e espontânea, canta Brass in Pocket, do Pretenders:
Cause I'm gonna make you see/there's nobody else here
No one like me/cause I'm special, so special
Gotta have some of your attention/give it to me
E Bill Murray atacando desafinado e arrasadoramente
engraçado e melancólico More Than This, do Roxy Music:
It was fun for a while/ there was no way of knowing/
Like a dream in the night/ who can say where we're going?
More that this/you know there's nothing/tell me what...
Grande ator esse Bill Murray que, entre engraçadíssimas
cenas improvisadas, consegue aos poucos tornar
crível, comovente, quase trágico um personagem
que você não vai esquecer. Sorry, Sean Penn, Jude Law,
Johnny Depp, vocês são muuuito gente fina mas Kinemail,
nesse Oscar, está torcendo por Bill Murray!
Encontros e Desencontros não é nenhuma obra-prima
mas é definitivamente a confirmação do talento de Sofia
Coppola como diretora. E, em meio a tantos épicos grandiosos
de Hollywood, é muito bom ver um filme sobre gente,
daqueles que compartilham sentimentos com o espectador, daqueles que você recomenda com carinho e empolgação
para as pessoas que você gosta. Não deixe de ver.
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