Opinião Lembro que falei sobre Um Grande Garoto que não havia problema algum em filmes comerciais, feitos com
os clichês narrativos de Hollywood. É possivel um bom resultado
em entretenimento, desde que o filme seja honesto, não apele
para pieguice mecânica e seja feito pelas pessoas certas,
aquelas que realmente tem algo em comum com o assunto
do filme. É o caso desse Escola de Rock. Richad Linklater,
o diretor, é uma autoridade em cinema teen e cultura pop.
O cara fez Dazed and Confused, Antes do Amanhecer,
Suburbia, o fascinante desenho digital Waking Life
e Antes do Pôr-do-sol. Não é preciso dizer mais nada.
Historinha simples sobre um loser que sonha ter uma banda
de rock mas não tem dinheiro nem pra pagar o aluguel do apê
que divide com um amigo que largou o rock, arrumou uma
namorada (chata, é claro) e trabalha agora como professor
numa escola primária tradicional. O tal loser é Jack Black,
que consegue pegar no trambique uma vaga de professor
substituto emergencial na tal escola. Impossível imaginar
qualquer outro ator funcionando tão bem no papel. Jack tem
realmente uma banda de rock na vida real, é irresistivelmente
engraçado e veste a camisa do personagem com incrível
naturalidade. Ele acredita no personagem, compra a idéia,
por mais bobinho que o roteiro possa parecer. O reforço
vem do ótimo elenco mirim. Sem exageros didáticos
ou melodramáticos, estão todos lá: a garotinha com vocação
mercenária para agenciar a banda, o tímido que compõe
canções cool escondido dos pais, o rebelde que solta sua
energia quando toca bateria, a negra gordinha que tem
um gogó privilegiado e o garotinho afetado que gosta
de Liza Minneli e tem vocação para ser o figurinista da banda.
Sem destaque em especial, estão todos naturalmente legais,
valorizados por um roteiro sem histeria, sem piadas grosseiras,
contado com simplicidade, sem nenhum sinal de linguagem MTV.
Outro grande acerto do filme é não tentar mostrar o rock
como um assunto sério, destacando artistas mais respeitados
e influentes. Ao contrário, as aulas destacam os ídolos mais
populares de gêneros duvidosos como o heavy metal e o rock
de arena, o que as crianças realmente percebem como ícone
de rebeldia e modelo de vida roqueira. O importante é estar sempre contra 'o Homem', como ensina Jack Black nas aulas.
'O Homem' é toda forma de autoridade, sejam as grandes
corporações, os políticos, a diretora da escola, o papai,
a mamãe etc. Sem ser cínico nem ingênuo, Linklater tem
consciência que o sonho acabou, o rock morreu, mas acredita
que é saudável exercitar a rebeldia contra o 'o Homem',
nem que seja só na escola primária, eh eh eh
Numa hilária cena em que Jack Black ensina os alunos a escrever
canções de rock, o grande segredo é: responda rápido, o que é
que te deixa muito irado? Não receber mesada, ter que estudar
matemática etc. são as respostas. E viram exatamente os refrões
das músicas criadas pelos alunos. Mais honesto, impossível.
Muitos podem achar o filme infantil demais, um Jack Black For Kids. Pode ser, e não há problema algum nisso. Afinal, não
é toda hora que você vê um filme 'infantil' tão legal assim.
E se tem um filme em que realmente é engraçado e vale a pena
ficar até o final dos créditos, esse filme é Escola de Rock,
com um delicioso ensaio musical quase improvisado de Jack
Black com os alunos, todos eles músicos de verdade,
tocando realmente seus instrumentos. Melhor impossível.
Como curiosidade, repare nos créditos de abertura,
bem parecidos com os do nacional Durval Discos.
|