Opinião O título original de Na Captura dos Friedmans
trazum jogo de palavras que se perde na tradução, mas
que merece ser resgatado. Além de significar 'prender',
'aprisionar', o verbo capturar em inglês quer dizer também
'registrar', 'preservar em fotografia ou em imagem'.
A nuança diz muito sobre a intenção do cineasta Andrew
Jareki na abordagem empregada no documentário. Diz muito
porque mostra a intenção ambígua do documentarista de não
apenas reconstruir a trajetória da família Friedman, mas,
também, mostrar como um assunto complicado e delicado como
o que é abordado no filme não é algo que pode ser apreendido
por meio de uma representação bidimensional. Essa
representação é feita no filme, mas as respostas para as dezenas
de dúvidas expostas ao longo desse retrato não são respondidas.
Pelo contrário, conduzem propositadamente à dúvida.
Utilizando, então, a estratégia de construir incertezas
e dúvidas em vez de oferecer respostas ou esclarecimentos,
Jarecki reconstitui a dramática aniquilação da família
do título, feita em pedaços depois que o pai e o filho mais
novo são acusados de abusar sexualmente dezenas de meninos
que freqüentavam aulas de computação em sua casa.
Valendo-se da estranha (sintomática?) mania da família
de registrar tudo em vídeo, até os momentos mais dramáticos
da sua trajetória, Jareki recria o drama dos envolvidos
contrapondo diversas linhas de condução, levando a crer
na culpa dos acusados, depois jogando pitadas de dúvida
no espectador, culpando a mãe, a paranóia da sociedade?
norte-americana ou a polícia, para no fim não deixar nenhum
ponto verdadeiramente esclarecido. Dessa forma, Jareki
encontra um tom adequadíssimo ao delicado assunto abordado
e constrói um filme incrível e perturbador.
Carol Ferreira | carolferreira@hotmail.com
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