Opinião Esse filme é o complemento de A Conquista
da Honra, mostrando a batalha de Iwo Jima do ponto
de vista dos japoneses. Cartas de Iwo Jima venceu
o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, mas concorre
ao Oscar como melhor filme. Afinal, é um filme japonês
ou americano? Definitivamente, é um filme americano.
Filmado no Japão, com elenco japonês e falado em japonês,
Cartas de Iwo Jima é um olhar autoral e comovente
de um grande diretor americano sobre a falta de sentido
da guerra.
É meu filme predileto dos cinco concorrentes
à estatueta dourada, embora as chances sejam mínimas.
Exibido nos EUA com legendas e status de 'filme de arte',
faturou irrisórios U$ 10 milhões nas bilheterias
ianques, ou seja, foi ignorado pelo público americano.
E foi um grande sucesso nos cinemas do Japão.
Embora considere A Conquista da Honra bom, até mais
complexo nas questões abordadas e montagem descontínua
em três tempos distintos, o que eu adoro em Cartas de Iwo Jima é a sua clássica simplicidade, sua narrativa direta
como relato de guerra que remete aos grandes diretores
de um cinema que não existe mais. Ford, Hawks, Aldrich,
Lean e Kurosawa estão presentes não em citações explícitas,
mas numa forma de olhar o homem, o mundo, e no ofício
de fazer cinema. Isso me emociona de uma forma especial.
O roteiro simples começa com a descobertas de cartas
dos japoneses enterradas no solo árido e escuro da ilha,
em 2005. Através da leitura dessas cartas, Eastwood leva
o espectador a procurar conhecer e entender o 'inimigo'
a partir de alguns das centenas de soldados japoneses
que enfrentaram americanos num ataque assustadoramente
desigual. De um lado, mais de 20.000 soldados americanos equipados com o melhor suporte bélico imaginável.
Do outro, japoneses despreparados, lutando com poucas
metralhadoras, rifles, escondidos em cavernas estratégicas
do ousado plano do General Kuribayashi (Ken Watanabe,
excelente, uma injustiça não ter sido indicado como ator).
O que vemos é um espetáculo de horror, nos momentos
brutais como o suicídio de um grupo encurralado,
e delicadeza, nos flashbacks em que vemos garotos como
Saigo (Kazunari Ninomiya, astro pop no Japão) serem arrancados
de suas famílias para lutar pela pártria. Filmado quase
em preto e branco, direção de fotografia soberba de Tom
Stern
(também não indicado ao Oscar!), Cartas de Iwo Jima
é mais um belo filme de um diretor veterano, que não
precisa mais provar nada pra ninguém, apenas faz os filmes
que quer fazer. Privilégio de poucos cineastas americanos.
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