Opinião VOLUME 01 Depois de meses de expectativa, fica
difícil pra mim, cinéfilo e fã, tecer comentários sobre KILL BILL.
Não dá pra esconder uma certa decepção ao ver que o filme,
como esperado, propõe-se apenas a divertir, num formato
de metralhadora de referências a um universo específico
de cinema, o popular cinema B violento de kung-fu, policiais B,
faroestes, filmes de samurai e um certo tipo de filme erótico
e de ação da década de 70, com gatas-com-sede-de-vingança.
Também não dá pra evitar dizer que, como cinéfilo doente
e tendo um bom grau de intimidade com esse universo
cinematográfico, também achei o filme espetacular.
É algo parecido com o que Brian De Palma fez com o seu
próprio cinema no magistral e pouco festejado Femme Fatale.
Definitivamente, não é filme para todos. Dessa vez,
Tarantino partiu para uma celebração juvenil tão exagerada
do seu amor pelo cinema 'menor', que quem não entrar
nesse clima pode perguntar-se afinal a que veio o filme,
ainda por cima num formato de épico de mais de 3 horas
de duração, com o seu complemento Volume 2, que nós
só veremos em outubro. Não vou gastar muitas linhas:
KILL BILL é um carrossel alucinado de prazeres visuais
e sonoros que precisa ser assistido e, se possível, curtido
em cada fotograma. Não é filme para promover discursos
críticos analisando a obra. Eu poderia gastar parágrafos
inteiros citando as referências explícitas e implícitas
e aparentemente infinitas que existem no filme (Bruce Lee,
Sergio Leone, seriados Kung Fu, Besouro Verde etc. etc.)
Não que eu conheça tudo isso, mas a internet já disponibiliza
do 'tudo-que-você-quer-saber-sobre-KILL-BILL', basta procurar.
Mas não é preciso decifrar todas essas referências para
'entender' o filme. Melhor relaxar e apreciar a maestria
de Tarantino na forma maleável como o roteiro é construído,
em capítulos num vai-vém cronológico bem arquitetado
(incluindo um longo trecho em desenho animado de primeira)
e, isso todo mundo já sabe, na brilhante trilha sonora
de hits pop obscuros e vinhetas sonoras que você reconhece
'não sabe bem de onde'. Sem falar na genial edição
de imagens (em largo CinemaScope muito bem usado)
e efeitos sonoros, deixando claro que jovens cineastas
da geração dos efeitos especiais e montagem digitais
ainda têm muito o que aprender sobre como se faz Cinema.
E não dá pra deixar de comentar a celebração apaixonada
de Tarantino pelo girl power: O filme foi feito de presente
para Uma Thurman, que está perfeita no papel central
da 'Noiva' vingativa, e ainda conta com Lucy Liu, Daryl Hannah,
Vivica A. Fox e a novata francesa Julie Dreyfus, todas para
fazer você esquecer de vez a bomba dupla de As Panteras...
Opinião VOLUME 02 Muito se tem falado sobre KILL BILL 2 elevar a qualidade do primeiro volume, revelando um Quentin Tarantino mais maduro, fazendo uma apaixonada declaração
de amor às mulheres, especialmente a Uma Thurman, para
quem ele escreveu o filme. A crítica adora 'valorizar' os filmes com essas observações. Pois bem, KILL BILL 2 tem essas qualidades sim, mas é bom mesmo porque é diabolicamente pop, divertido e moderno como pouca coisa no cinema comercial atual.
Essa questão da maturidade artística de Tarantino já estava
no maravilhoso Jackie Brown, seu filme anterior que já era uma tremenda homenagem às mulheres e um dos seus filmes mais sofisticados. A maior qualidade desse novo KILL BILL 2 é sua surpreendente (e coerente) mudança de tom, revelando aos poucos, para deleite do espectador, uma grande história de amor que amarra toda a saga épica de 4 horas de duração de maneira brilhante. KILL BILL, agora sim, revela-se um filme com começo, meio e fim (e várias brechas narrativas geniais).
Mudando o tom para o faroeste ocidental, Tarantino exercita todo
o seu assombroso conhecimento do western spaghetti de Sergio
Leone, nunca fazendo homenagem vazia, mas sempre partindo
do cinema do grande mestre italiano para construir sua própria
visão do mundo, através dos olhos do rato de locadora que sempre foi, um eterno meninão. E o prazer com que Tarantino
faz isso é contagiante. Tecnicamente, o filme dá uma rasteira
em todo esse cinema adolescente sufocado em efeitos especiais digitais e edição estroboscópica que Hollywood empurra nos multiplexes. Como filma bem esse rapaz! As sequências
de ação e luta estão entre as mais bem editadas que você
verá no cinema esse ano. É incrível como ficam anos-luz
à frente em elegância narrativa, precisão sonora e direção
de arte, diante do lixo que domina o 'cinema diversão' atual.
Ainda, nessa conclusão Tarantino recupera a maestria
dos ótimos diálogos, coisa rara também no cinema atual.
Ah, e tudo bem que a Noiva/Mamba Negra/Beatrix Kiddo
de Uma Thurman é ótima, mas reparem também na excelente performance de Daryl Hannah, a venenosa Ellen Driver.
Uau, ela está fantástica! Pra mim, praticamente rouba todas
as cenas em que aparece. KILL BILL 2 conta uma saga
pop sangrenta que caminha suavemente para revelar-se
filme sobre gente de verdade. Tarantino faz, numa tacada
de mestre, a divertida expressão de artes-marcias 'técnica-mortal-de-explodir-coração-com-cinco-toques' mudar completamente de sentido ao longo do filme. A tal técnica vira poesia pop romântica fulminante no final. Confira e aplauda!
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