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O cinema de Jules Dassin | 1911 - 2008



> Depois de conhecer em DVD os filmes desse grande cineasta, me senti na obrigação
de finalmente fazer essa matéria sobre Jules Dassin (1911-2008), que teve seus principais
filmes lançados por aqui em DVD, por diferentes distribuidoras. Dassin está entre
os diretores que eu 'descobri' nessa era digital (outro exemplo seria Eric Rohmer).
Ator, diretor, roteirista e produtor, Dassin é norte-americano de família de imigrantes
judeus russos. Depois de dirigir 7 filmes para a MGM, Dassin passou para o primeiro
time com os seguintes filmes abaixo, realizados um por ano a partir de 1947.
Em 1950, Dassin foi vítima do macarthismo, denunciado como 'comunista'
pelo colega preso Edward Dmytrick, também grande diretor de cinema.

Jules Dassin preferiu o exílio e, com a ajuda do produtor Darryl F. Zanuck, foi para
Londres, onde realizou Sombras do Mal (Night and the City), produzido por Zanuck.
Depois desse filme, produtores europeus estavam informados que os filmes de Dassin
não poderiam ser exibidos nos EUA e o diretor passou por dificuldades, só voltando a filmar
em 1954, realizando na França o grande sucesso Rififi, premiado com melhor direção
em Cannes. Dassin conheceu a atriz grega Melina Mercouri, com quem casou e realizou
dois sucessos: Nunca aos Domingos (Pote Tin Kyriaki, 1960), que é o único dessa lista
ainda não disponível em DVD - romance musical sobre um turista americano que apaixona-se
por uma prostituta grega, rendeu indicações ao Oscar de melhor atriz, direção e roteiro
original para Jules Dassin, assim 'perdoado' pela Academia de Hollywood, ganhando o Oscar
de melhor canção - e Topkapi, de 1964. Jules Dassin e Melina Mercouri não tiveram filhos.
Um filho de Dassin, Joe Dassin, tornou-se famoso cantor na França, até morrer tragicamente
em 1980. Dassin também perdeu Melina, vitima de câncer, em 1994. Uma filha dele,
Julie Dassin, é atriz. Abaixo, os filmes de Jules Dassin, em DVD nas melhores locadoras:



1. BRUTALIDADE
Brute Force EUA 1947
Vigoroso como o seu título, Brutalidade é um dos pioneiros do 'drama de prisão', no caso,
com o olhar crítico de Dassin sobre a sociedade americana. O filme lançou Burt Lancaster
ao estrelato, como um preso que comanda um plano de fuga em grupo de uma prisão
comandada por um sádico diretor. Ainda hoje o filme impressiona pela violência, pelo eletrizante
desfecho e pelas interessantes cenas que apresentam as mulheres do filme, esposas e amantes
dos presos, mostradas em flashbacks que esclarecem o motivo da prisão de cada um.
Aurora DVD



2. CIDADE NUA
Naked City EUA 1948
Com esse filme, Dassin faz um híbrido de noir e neo-realismo. Trama policial cheia dos típicos
personagens do gênero, Cidade Nua é uma ousada produção filmada inteiramente nas ruas
e em locações reais de Nova York. A abertura clássica mostra uma cidade que nunca dorme
e um crime na madrugada é apresentado com narração em off: Existem oito milhões de histórias
na Cidade Nua. E esta é uma delas.
A ação policial de investigação do crime acontece em feiras
de rua, cortiços urbanos e pontes de NY, registro documental de como era a cidade em 1948.
Continental DVD



3. MERCADO DE LADRÕES
Thieves' Highway EUA 1949
Ambientado no submundo dos feirantes da California, Mercado de Ladrões conta a história
de um ex-soldado (Richard Conte) que retorna da guerra para encontrar o seu pai paralítico,
vítima de chefões da máfia das transportadoras de alimentos. Com vários personagens imigrantes,
o filme evidencia os preconceitos e os males do sistema capitalista 'livre' americano, através
de um melodrama simples e eficiente. Nas madrugadas em que investiga as docas, Conte será
ajudado e se apaixonará por uma prostituta italiana vivida pela bela Valentina Cortese. Cenas de ação
e perigo com caminhoneiros nas estradas completam esse filme bem construído, com a marca de Dassin.
Fox Classics DVD



4. SOMBRAS DO MAL
Night and the City Inglaterra 1950
Sombras do Mal foi o primeiro filme realizado por Dassin fora dos EUA. Harry Fabian
(Richard Widmark, excelente) é um perdedor que vive de pequenos trambiques e tenta
sua última chance no submundo do boxe e luta livre. O filme inicia com o narrador:
A noite e a cidade. A cidade é Londres. A noite, é qualquer noite. Fabian já começa
o filme correndo de uns capangas. E fugirá até o final, sempre suado, esbaforido,
num traço de realismo além dos personagens estilizados do gênero noir. Quando
já está totalmente encurralado, sem saída, Fabian ainda arrastará para o seu inferno
vários personagens que gravitam à sua volta, incluindo a mulher que o ama mas ele
não consegue, não pode corresponder. Filmão. Existe em DVD um fraco remake
homônimo de 1993 com Robert De Niro, Jessica Lange e Eli Wallach. Esqueça.
Fox/Oregon DVD



5. RIFIFI
Du Rififif Chez Les Hommes França 1954
Esse é o grande filme de Dassin, realizado na França. Entre o realismo e o expressionismo,
a trama é sobre um roubo de jóias realizado por um grupo de homens fracassados liderados
pelo gangster Tony (Jean Servais, em atuação inesquecível). O filme ficou famoso pela
sequência do roubo, meia hora totalmente em silêncio, filmando o roubo detalhadamente,
provocando um suspense incomum. Melhor direção em Cannes, Rififi era considerado
por François Truffaut como o melhor filme noir que ele já viu.
Aurora DVD



6. TOPKAPI
Topkapi França/Inglaterra 1964
Quem gosta do gênero ladrões-chiques-grandes-roubos e nunca viu Topkapi, não sabe
o que está perdendo... Um dos larápios da trama é um acrobata que consegue passar
em tudo que é brecha de parede (soa familiar, Danny Ocean?) O grande roubo é feito
com um deles pendurado por fios para burlar o sistema de alta segurança no piso
de um museu (soa familiar, Ethan Hunt?) Não por acaso, os créditos finais de Ocean's 13
são uma justa homenagem aos créditos hipercoloridos de Topkapi, que tem no elenco
Maximilian Schell, Melina Mercouri e Peter Ustinov, Oscar de melhor ator coadjuvante.
N Line DVD



7. NUNCA AOS DOMINGOS
Never On Sunday/Pote Tin Kyriaki EUA/Grécia 1960 1h31min RT 8,6
de Jules Dassin com Melina Mercouri, Jules Dassin, George Foundas
CINEMA APOLO | segunda 07/07, 19h
ENTRADA FRANCA seguido de conversa com Fernando Vasconcelos


> A sessão especial mensal do precioso projeto Cineclube Apolo exibe o famoso, grande
sucesso de bilheteria, premiado em Cannes e no Oscar, Nunca aos Domingos, do grande
Jules Dassin, filme pouco conhecido pelas novas gerações de cinéfilos, que terão aqui uma
ótima oportunidade de asssisti-lo no cinema. Jules Dassin (1911 - 2008) foi resgatado na era
digital com 6 grandes filmes lançados no Brasil em DVD. Leitores do Kinemail já sabem que
me tornei um fã apaixonado pela obra e história de vida desse diretor e, como Nunca aos
Domingos
permanece inédito no Brasil em DVD, é com enorme prazer que estarei
conversando com os espectadores após essa sessão, que é gratuita. Espero você lá!

Nunca aos Domingos tornou-se um marco do cinema como uma adorável e subversiva
comédia musical que conta a história de uma prostituta grega, que trabalha no Porto de Pireu,
e tem como norma nunca atender os clientes aos domingos, dia em que quer descansar.
Até que aparece um turista intelectual interessado nela... O filme foi indicado aos Oscar
de melhor atriz, direção e roteiro original e faturou a estatueta de melhor canção, para
Never on Sunday
, grande sucesso pop em 1960. Transformou em estrela a atriz grega
Melina Mercouri, que ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, nesse papel
escrito para ela por Jules Dassin, que também, caso raro, atua como o ator principal no filme.

Além da importância da obra cinematográfica de Jules Dassin, vale informar sobre a personalidade
marcante que foi a belíssima atriz Melina Mercouri (que faleceu em 1994). Exilado na França
por causa da perseguição anti-comunista da Hollywood dos anos 50, Jules Dassin viveu na Europa,
casou com a grega Melina Mercouri e, ironicamente, nos politicamente intensos anos de 1968 até 1974,
o casal Dassin & Mercouri, notórios combatentes do regime ditatorial que então vigorava na Grécia,
viu-se obrigado a novo exílio. Com o retorno da democracia, Mercouri tornou-se membro do parlamento
grego e, mais tarde, Ministra da Cultura. Após o falecimento da esposa em 1994, Dassin continuou
morando, até a sua morte em abril de 2008, na rua que leva o nome da esposa, onde administrava
a Fundação Melina Mercouri. Nunca aos Domingos fica como um legado leve e divertido, mas também
libertário e inteligente, desse casal fascinante, que faz parte da história do cinema.
Fernando Vasconcelos | 03.07.2008

Na platéia, em Nunca aos Domingos

Ôpáááááá!!!! Adorei Nunca aos Domingos de Jules Dassin. Já tinha
antes assistido Brutalidade, mas são coisas totalmente distintas.
Não foi uma sessão comum, foi uma experiência única, cinema não
é só o filme, é a platéia, é o clima da platéia, e essa sessão foi realmente
privilegiada. Os espectadores tiveram a oportunidade de conhecer, através
de uma agradável conversa com Fernando Vasconcelos, a vida e a obra desse
cineasta tão peculiar. Me apaixonei pela Sessão Cineclube do Apolo, é realmente
um espaço dedicado ao bom cinema, estranho que ainda não seja muito conhecido.
Luiziana Fernandes | luiziana@hotmail.com

Nuncas aos Domingos. Delícia de filme. Ontem
foi uma das noites que melhor dormi esse ano :)
Osvaldo Neto | http://vaeveja.blogspot.com

Oi, eu estava lá no Apolo na última segunda-feira e assisti a sua palestra.
Queria saber se você conhece algum site pelo qual eu consiga baixar filmes
como aquele, o Nunca aos Domingos, e os outros filmes do Jules Dassin.
Miguel Rodrigo dos Santos | migueldali@hotmail.com