

Kinemeite de Julho
Kinemeião de Julho



Dicas de Cinéfilo

UM HOMEM SÉRIO ![]()
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A Serious Man 2009 EUA 1h46min RT 8,8
de Joel & Ethan Coen com Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Sari Lennick, Fred Melame
Em DVD pela Universal
OPINIÃO O mercado distribuidor/exibidor está cada vez menos confiável. Mesmo que
um
filme seja nomeado ao Oscar principal, aplaudido pela crítica e tenha no cartaz
nomes como Joel e Ethan Coen, ele pode não estrear numa sala perto de você. E se for
uma
daquelas obras-primas raras nos cinemas é que a situação complica de verdade.
Vide o caso de Um Homem
Sério. É compreensível que tal obra seja lançada com modéstia
pela Universal, pois se trata
um filme muito pessoal dos irmãos cineastas (em alta com
o sucesso de Onde Os Fracos Não Têm Vez e Queime Depois de Ler) que discorre sobre
fé, inércia e metafísica,
através do judaísmo, religião pouco popular no Brasil. Mas
daí a lançá-lo
em ridículas 8 cópias? Os mais de 40 mil espectadores brasileiros não foram
o
suficiente para garantir uma exibição em Recife, e Um Homem
Sério foi distribuído
em DVD ainda em abril. É criminoso nos obrigar a assistir a um dos mais visualmente
elaborados filmes dos Coen na tela da TV, e não numa sala de cinema.
Seco e preciso como todo bom filme by Coen Bros., Um Homem
Sério se passa no
subúrbio americano do final dos anos 60 e traz como objeto o professor de física
Larry Gopnik. Como o título entrega, ele é um homem sério, correto e limpinho.
É um judeu de fé, um marido e pai esforçado e um trabalhador decente. Fora isso
ele não faz o menor esforço para alterar o status quo de sua vida singela. Portanto,
Gopnik acha que há algo de errado com seu 'carma', já que seu mundo começa
a desabar pouco a pouco: sua filha Sarah é uma ladra, seu filho Danny é problemático,
seu irmão Arthur é uma ameba que vive às suas custas, sua mulher Judith o trai com
um homem chamado Sy Ableman e um aluno coreano
o ameaça por tê-lo reprovado.
Suas crenças são postas à prova, e cada vez que ele procura a ajuda de um rabino,
Gopnik ganha mais perguntas e menos respostas. Existe mesmo um ser superior
julgando suas atitudes? Vale a pena ser um homem sério? Pode ele
atribuir esse adjetivo
a si mesmo? O melhor de tudo é que
se trata de uma
comédia, e uma bastante cruel.
Em Um Homem
Sério os Coen estão confortáveis ao demonstrar o quanto entendem
e dominam a arte de fazer filmes. Todo cinéfilo dá aquele sorriso no canto da boca
quando se depara com certas cenas. Por exemplo: quando Gopnik fuma um baseado,
os irmãos
criam um esquema de signos com a iluminação, as lentes (Roger Deakins,
muito obrigado)
e o som
para situar a condição do protagonista. Várias cenas depois
esse esquema volta, dessa vez acompanhando outro personagem, e é impossível conter
as risadas; ou ainda na sequência
inicial que narra uma fábula judaica, dando todos
os índices das questões a serem postas
sob uma estética retrô; e ainda na genial cena
em que Gopnik chega a uma conclusão após um longo cálculo feito num quadro com giz.
Os irmãos também conduzem
os magníficos atores com a competência de sempre,
os traços e características físicas
dos intérpretes
se encaixam com seus personagens
à perfeição; e Stuhlbarg lidera
o elenco
com sensibilidade. O roteiro é tão bom que não
é necessário entender todos os termos do judaísmo para compreender os diálogos
e o próprio enredo do filme, já que eles sobrevivem no contexto. Um Homem Sério
é um absurdo de apuro técnico e ainda mais absurdo na serenidade e bom humor
com que fala sobre assuntos... sérios.
O martírio psicológico
de Gopnik e família deságua num final abrupto e inacreditável
de tão irônico e cruel,
é como se os Coen decidissem que, após se divertirem com
as desventuras de seu
personagem e perceberem que ele atingiu algum esclarecimento,
eles
queriam se divertir um pouco mais. Pena que o personagem
não ouviu ao rádio
de seu
filho Danny. Porque para o rabino Marshak e para os Coen,
o segredo para
as divagações
filosóficas que movem Larry Gopnik está no som
da Jefferson Airplane.
Talvez eu gostasse ainda mais do filme caso ele mexesse com meu coração tanto
quanto mexeu com meu cérebro, provavelmente a especificidade dos temas e o meu
pouco conhecimento do judaísmo tenha
sido uma barreira. Felizmente isso não
comprometeu
a fruição, Um Homem Sério é um filme tão universal quanto particular
dos excelentes irmãos Joel e Ethan Coen.
O DVD infelizmente vem ausente de extras.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

O SERVIÇO DE ENTREGAS DA KIKI ![]()
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Majo no takkyûbin/Kiki's Delivery Service 1989 Japão 1h43min RT 10,0
de Hayao Miyazaki com as vozes de Minami Takayama, Rei Sakuma, Keiko Toda
Em VHS nacional e DVD importado pela Disney, download
OPINIÃO Enquanto é motivo de alegria finalmente ter a oportunidade de assistir ao
maravilhoso
Ponyo nos cinemas brasileiros, é triste
constatar que existem apenas dois
dos outros nove filmes do mestre japonês da animação Hayao Miyazaki disponíveis no
Brasil, sendo estes os premiados O Castelo Animado (2004) e A Viagem de Chihiro (2001).
A única maneira de conhecer melhor a obra deste gênio é através da internet e da importação
de seu trabalhos em DVD ou VHS. Se clássicos como a fantasia adulta Princesa Mononoke
(1997) e Meu Amigo Totoro (1988) mal ganharam chance por aqui, que dizer dos filmes
menos conhecidos, como o encatador O Serviço de Entregas da Kiki? Lançado em 1997
em VHS pela Disney Brasil, o filme foi um sucesso estrondoso de vendas (reza a lenda
que vendeu mais de 1 milhão de cópias no país) e chegou a ser exibido na TV paga,
mas foi esquecido pela casa do Mickey e não vê previsão para seu lançamento em
formato digital. Vale a pena procurá-lo, assim como toda a filmografia do Miyazaki.
A Kiki do título (dublada por Kirsten Dunst na versão americana) é uma garotinha
de 13 anos que está prestes a efetuar sua cerimônia de passagem para o mundo adulto
e se tornar uma bruxinha emancipada. Sim, bruxa, com direito a vestido preto,
vôos na vassoura e um gato
preto falante e muito abusado chamado Jiji. O rito
de passagem consiste em se mudar para uma cidade onde não existam bruxas
e passar a viver lá, vivendo experiências que a façam crescer como pessoa e feiticeira.
A cidade escolhida é Koriko e lá ela conhece pessoas que modificam sua maneira
de encarar a vida, como o menino Tombo - que logo se apaizona por Kiki - ; a jovem
e misteriosa pintora Úrsula, que mora na floresta; e Osono, uma senhora prestes a dar luz
e que é dona da Padaria Gutiokiban. Esta praticamente adota Kiki e a contrata como
entregadora de suas encomendas, que chegam aos clientes via vôo de vassoura.
A espirituosa garota enfreta os desafios de seu novo emprego e da inevitável
maturidade, inclusive tendo seus poderes de bruxa ameaçados.
O Serviço de Entregas da Kiki é tão atemporal quanto qualquer outro filme
do cineasta japonês. Mesmo sendo de 1989, soa tão atual quanto Ponyo. E também
possui as mesmas características que tornaram Miyazaki um autor consagrado:
a animação incrivelmente bela e detalhada, a inexplicável magia inerente ao
ambiente em que a história se passa, e os personagens cativantes, misteriosos
e de características que enriquecem sua personalidade. Preste atenção na cena em que
Kiki chega à Koriko, um desbunde visual de encher os olhos. O enredo é simples e singelo,
mas abordado com densidade filosófica e psicológica, sem jamais se tornar pedante
para crianças
ou adultos. E ainda é divertidíssimo, graças principalmente ao gato Jiji.
Espécie de parente longíquo de Marvin, o robô de O Guia do Mochileiro das Galáxias,
Jiji vive de mau-humor e fazendo comentários sarcásticos e bem humorados, dominando
quase todas as cenas em que aparece. Aliás, Miyazaki demonstra inteligência ao anular
o alívio cômico quando a história fica um pouco mais séria, sem prejudicar a presença
do personagem felino. A delicada trilha sonora de Joe Hisashi, que musicou a maioria
dos filmes do diretor e também o recente A Partida,
é uma delícia para os ouvidos.
Concluindo a trama num clímax tenso, cômico e arrebatador, O Serviço de Entregas
da Kiki é o antídoto perfeito para o cinismo vigente em produções voltadas para crianças,
independente do meio de comunicação: uma história honesta e verdadeiramente
mágica
sobre abandonar a infância sem perder o encanto de viver.
E quanto à
Kiki, ela faz parte
do time de adoráveis
heroínas do mestre Miyazaki,
ao lado de Chihiro, Nausicaä, Sofi,
princesa Mononoke e da mais nova Ponyo. Está em boa companhia.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA ![]()
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Bring Me The Head of Alfredo Garcia 1974 EUA/México 1h53min RT 8,3
de Sam Peckinpah com Warren Oates, Isela Vega, Robert Webber, Gig Young
Em DVD pela Lume Filmes
OPINIÃO Fresquinho nas prateleiras de todo o Brasil, Tragam-me A Cabeça de Alfredo
Garcia é o segundo de três clássicos de Sam Peckinpah a serem lançados pela Lume Filmes
(o primeiro foi Assassinos de Elite, de 1975, e o próximo será Pat Garrett & Billy The Kid,
de 1973,
previsto
para agosto), distribuidora responsável pelos lançamentos mais
importantes desse formato que é cada vez mais ameaçado pela pirataria. Enquanto
as versões 'sólidas' dos filmes ainda persistem,
a dignidade dos DVDs
brasileiros
se mantém com o lançamento desse
bizarro western/road movie, joia que só viu
a luz por aqui na época de seu lançamento nos cinemas e recentemente na TV paga
ou via download. Perfeito para chamar os amigos cinéfilos e assistir em grupo nessas férias.
História simples, personagens complexos: um poderoso rancheiro mexicano clama
o título do filme quando descobre que tal homem engravidou sua jovem filha. Dois
caçadores de recompensa americanos investigam seu destino, e acabam por encontrar
o pianista Bennie (Warren Oates, excelente), que por sua vez descobre que sua namorada
Elita (Isela Vega) tem informações sobre o paradeiro de Garcia, a esta altura já morto
e enterrado. O casal parte em busca do cadáver (e da cabeça), numa jornada
tortuosa e violenta cujos fins são alterados pelos caminhos mal traçados. Tragam-me
A Cabeça
de Alfredo
Garcia é um legítimo filme B, com cenas de nudez, tiroteios
e algums momentos de pura escrotice, tudo bem amarrado pela mão de Peckinpah,
mestre nas cenas violentas, montadas alternando tomadas em slow-motion e em velocidade
natural. A primeira sequência causa um forte impacto no espectador, e após a introdução
do argumento, o tom do filme fica mais divertido. M é nos quinze minutos finais que
temos a prova do porque Peckinpah considerava este o seu filme mais pessoal.
O anti-herói Bennie, que vive bêbado
e de conduta machista, está interessado apenas
na recompensa e arrasta Elita consigo
na busca pela cabeça. Antes mesmo de chegar
em seu destino, Bennie já sofre interferências em sua personalidade por Alfredo Garcia,
primeiro amor de sua namorada. Sua relação com as mulheres e com o mundo cão
ao seu redor se transforma
gradualmente. Um dos motivos que levou Peckinpah
a fazer este filme foi para replicar as acusações de misoginia.
As mulheres de Alfredo Garcia são sacralizadas por Bennie/Peckinpah, mesmo que
apanhem, levem tiros e sejam mortas. A fúria crescente nos atos do protagonista
é intensificada quando observa os caçadores de recompensa americanos tratando
mulheres como cães, o que o relembra dos maus tratos sofridos por Elita. Já a filha
do rancheiro e as mulheres da casa, sempre silenciosas, são responsáveis pelas
palavras definitivas da trama. A própria Elita é uma mulher corajosa, de fibra, e bem
feminina.
Estão todas acima dos homens do filme, que não enxergam além da própria
ganância
e parecem sempre ter certeza que estão no controle da situação. A cabeça
de
Garcia, que jamais chegamos a conhecer profundamente, oferece um novo prisma
à Bennie, um homem todo atrapalhado e trágico, mas que tem cojones de herói
e defende sua nova e solitária moral. O final, que rima brilhantemente com o início,
lembrou-me o de O Grande Roubo do Trem, de Edwin S. Porter, mas com um significado
novo e invertido em relação ao moralista filme de 1903. Um detalhe que engrandece
ainda mais Tragam-me
A Cabeça
de Alfredo
Garcia, filme que incomoda, diverte,
choca, e se aventura
em questões existencialistas sem perder o prumo, pra ficar
guardado pra sempre na sua cabeça.
Viva Peckinpah! DVD necessário na coleção.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

AQUELE QUE SABE VIVER ![]()
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Il Sorpasso 1962 Itália 1h45min
de Dino Risi com Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Catherine Spaak
Em DVD pela Versátil
por Fernando Vasconcelos
OPINIÃO Realizado em 1962, com a Itália já recuperada da Segunda Guerra,
o filme capta
a atmosfera hedonista e consumista da era dos automóveis conversíveis,
da vida
de playboy, das festas na praia ao som do rock e twist de Peppino di Capri
e do sexo
e amor livre dos anos 60. Embora não comente nenhum filme de Dino Risi
no seu
documentário Minha Viagem à Itália, sabe-se que Martin Scorsese também
adora Aquele Que Sabe Viver. O título original Il Sorpasso pode ser traduzido como
A Ultrapassagem, título rico em significados depois que você assiste ao filme.
Com belo roteiro de Dino Risi, Ettore Scola e Ruggero Maccari, o filme narra
o encontro de Bruno Cortona (Vittorio Gassman cativante, extraordinário),
um quarentão narcisista, sedutor, desesperado por uma juventude que já lhe escapa,
e Roberto Mariani (vivido pelo ator-ícone francês Jean Louis Trintignant, aqui
bem novinho em um dos seus primeiros papéis como protagonista), um tímido
estudante de Direito. Em feriadão religioso tradicional, Roberto resolve ficar em casa
estudando para provas. Bruno, passeando pela cidade deserta, precisa de um telefone
e sobe ao apartamento de Roberto. (Obs. Roteiro impossível na era do celular eh, eh)
Daí, um convite para almoçar é o início de uma viagem de aventuras e descobertas
que Bruno oferece à Roberto, durante imprevisíveis dois dias e duas noites, dirigindo
em alta velocidade, farreando, paquerando garotas por onde passam etc. e diálogos
impagáveis, como quando Bruno comenta, ao passar por um ciclista: '- Ciclismo
é um esporte anti-estético, engrossa as pernas. Eu prefiro jogar sinuca...'
O carro é um personagem à parte: tem foto de Brigitte Bardot colada no painel,
que tem um incrível toca-discos (sim, para LPs de vinil!!) portátil e uma buzina
que será maravilhosamente usada quase como trilha sonora ao longo do filme.
Entre porres de vinho, bailes em clubes, festas na praia, Roberto descobrirá
que Bruno é um boa-vida, com ex-mulher, uma filha estonteante (Catherine Spaak)
e conta bancária instável e, aos poucos, também homem solitário, melancólico,
tentando esconder-se numa imagem de eterno curtidor das boas coisas da vida.
No final, uma mudança radical de registro de comédia para drama fecha
o filme com chave de ouro. É daqueles finais inesquecíveis pra cinéfilo.
Entre as grandes sacadas do humor gaiato de Dino Risi, num dos diálogos entre
Bruno e Roberto, Vittorio Gassman comenta sobre uma balada pop no som
do carro: - Essa música tem aquela coisa, a solidão, a incomunicabilidade,
e aquela outra coisa que está na moda, a alienação, como nos filmes de Antonioni.
Você viu O Eclipse? Antes que Roberto comece a responder, Bruno já completa:
- Eu dormi, tirei uma boa soneca. Mas é um grande diretor, esse Antonioni!
Dino garante que o próprio Antonioni se divertia muito com essa cena de
Aquele Que Sabe Viver, um filme perfeito, lindo, que eu recomendo e desejo
que vocês
experimentem o mesmo encanto que eu tive ao assisti-lo/descobri-lo.
Boa hora pra ver o filme, em homenagem ao grande Dino Risis que se foi.
Vou logo avisando, a única locadora daqui de Recife onde encontrei o DVD
foi a Classic Video, na Torre. Pra comprar, você encontra na Livraria Cultura.
Visto em 29/08/2007
Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br

NARCISO NEGRO ![]()
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Black Narcissus 1947 Inglaterra 1h40min RT 10,0
de Michael Powell & Emeric Pressburger com Deborah Kerr, Kathleen Byron, David Farrar
Em DVD pela Editora NBO
OPINIÃO Em Mopu, no alto do Himalaia, um antigo harém chamado 'A Casa
das Mulheres' pertencido a um general, tranformou-se em Casa da Santa Fé
através das freiras
do Convento da Ordem das Servas de Maria em Calcutá.
O local, adornado por pinturas eróticas em suas paredes, precisa ser reorganizado
a fim de se tornar uma escola cristã e um hospital, e cinco jovens freiras britânicas
encabeçadas pela Irmã Clodagh (Deborah Kerr) aceitam o convite de morar em Mopu
para trabalhar
e pregar o cristianismo entre os habitantes. Mas as memórias daquelas
paredes, uma persistente presença masculina e lembranças recalcadas do passado
individual das
freiras terminam por atrapalhar os planos do convento e obrigar essas
mulheres a rever suas crenças, desilusões e sexualidade. Michael Powell, diretor
do cultuado Peeping Tom - A Tortura do Medo,
e seu frequente colaborador Emeric
Pressburger fizeram de Narciso Negro um clássico britânico que ficou pra história
pela natural polêmica causada, pelo excepcional visual do filme (vencedor dos Oscar
de fotografia e direção de arte), ambição cinematográfica e honestidade ao tratar
de um tema
que facilmente poderia descambar para o panfletário ou folhetinesco.
O sufocante melodrama é tão vertiginoso quanto o ambiente em que se passa.
O que impressiona é que nada foi filmado em locação e todos os cenários, pinturas
e miniaturas convencem
na construção do espaço, e a elaborada fotografia
de Jack Cardiff (Guerra e Paz)
nivelou o uso do technicolor a um alto patamar,
quase um parâmetro para a época. São fatores essenciais para o desenrolar
da trama graças ao poder que a montanha exerce nos personagens, incluíndo
a macabra floresta que ganha destaque perto do clímax. Os personagens humanos,
no caso, estabelecem-se como icônicos, mesmo que às vezes as soluções do filme
para eles sejam um pouco excessivas. A Irmã Clodagh de Deborah Kerr serve como
base moral e fio condutor de nosso entendimento da situação. Mas é a Irmã Ruth,
interpretada
pela ótima Kathlyn Byron, que se destaca por sua progressiva perda
de lucidez e über-sexualidade que se liberta selvagemente ao se sentir seduzida
pelo cínico
Sr. Dean (David Farrar). A beleza de Narciso Negro está no não
julgamento de seus protagonistas - ainda que Ruth quase vire uma vilã de filme
de horror - já que existe a consciência das necessidades corpóreas por parte do mais
devoto
dos personagens.
Por falar em narciso negro, ainda existe o núcleo indiando
cujos
destaques
são
Dilip Rai, príncipe encarnado pelo indiano Sabu e que usa
um perfume
da fragrância que dá título ao filme; a jovem nativa Kanchi (a bela
Jean
Simmons),
que
seduz o príncipe; e a inesquecível Angu Ayah (May Hallat), velhinha
algo
governanta das freirinhas e seu humor sarcástico e convicções fortes. Todo o elenco
acerta no tom. Com excessão de um ou outro detalhe equivocado ou exageradamente
artificial, o belo Narciso Negro sobreviveu ao tempo e mantém ainda hoje
os aspectos
que
foram aclamados na sua época. O DVD traz biografias, trailer
e fotos de arquivos mostrando detalhes por trás das cenas da produção.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

STARDUST - O Mistério da Estrela ![]()
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2007 Inglaterra/EUA 2h07min RT 7,6
de Matthew Vaughn com Claire Danes, Charlie Cox, Michelle Pfeiffer, Robert De Niro
Em DVD pela Paramount
OPINIÃO O britânico Matthew Vaughn
costumava produzir filmes de seu parceiro
Guy Ritchie, como Snatch - Porcos e Diamantes e Jogos, Trapaças e Dois Canos
Fumegantes. Logo ele sentou na cadeira de diretor e fez Nem Tudo é O Que Parece
(Layer Cake), thriller cômico que ganhou hype, lançou Daniel Craig ao mainstream
e virou cult no mundo todo. A boa recepção de público e crítica mostraram que pular
para o cinemão hollywoodiano era uma questão de tempo. Acabou caindo de pára-quedas
em Stardust - O Mistério da Estrela, baseado na obra de Neil Gaiman. O filme passava
por uma pre-produção complicada, com vários diretores e atores entrando e saindo
do projeto, como Terry Gilliam, Scarlett Johansson e Sarah Michelle Gellar. Gaiman
sugeriu à Paramount o nome de Vaughn, que topou a proposta do amigo. Em 2007
a fantasia estreou com números fracos, mas se tornou querido entre os poucos
que visitaram. No Brasil passou quase despercebido no cinemas, e o Dicas de Cinéfilo
aproveita o lançamento do ótimo e absurdo Kick-Ass, dirigindo por Vaughn,
para recomendar uma assistida a esse conto de fadas inusitado.
O primeiro acerto de Vaughn nesse filme foi não levar a história à sério. Até porque
ela é sobre um jovem rapaz chamado Tristan Thorn (Charlie Cox) que promete à
mimada patricinha-de-época Victoria (Sienna Miller) uma estrela cadente como
prova de seu amor, e só assim ela se casará com ele ao invés do arrogante Humphrey
(Henry Cavill). Por acaso, uma estrela cai do céu neste dia. Ela se chama Yvaine (Claire
Danes) e parou na Terra porque o Rei de Stormhold (Peter O'Toole), no leito de sua
morte, arremessou um colar de rubi para os céus. O colar é uma aposta feita pelo Rei:
o primeiro de seus quatro filhos vivos que capturá-lo, tomará o trono. Enquanto isso,
a bruxa Lamia (Michelle Pfeiffer) também entra na corrida pela estrela, já que o
coração desta garantirá vida eterna para ela e suas irmãs. A palavra de ordem
é diversão e por 2 horas Vaughn oferece aventura, ação, romance, comédia e horror,
gêneros que funcionam de acordo com o humor e idade de quem assiste, mas estão
dispostos ao enredo de forma coerente e uniforme.
O equilíbrio entre o extremamente brega e a sátira ácida aos filmes fantásticos
põe Stardust acima da mediocridade. Vaughn sabe que nós conhecemos todos
os arquétipos apresentados, logo ele brinca com nossas expectativas e faz dezenas
de referências durante o filme. É como se os personagens tivessem certa consciência
de que
estão ali para nos entreteter, no melhor espírito Sessão da Tarde das antigas,
e o melhor exemplo são os fantasmas dos falecidos filhos do Rei e seus comentários
sarcásticos.
O elenco entra na brincadeira. Pfeiffer está em perfeita forma, e não é só física;
Cox é um simpático anti-herói desajeitado; Miller, que também esteve em Layer Cake,
nasceu para esse tipo de papel; Mark Strong, um dos filhos vivos do Rei, mostra porque
agora é o vilão-sensação de Hollywood (Shelock Holmes, Robin Hood e o próprio
Kick-Ass); Robert De Niro aparece no personagem mais improvável de sua carreira
(contar mais estraga) e diverte
em sua aparição, assim como as hilárias participações
de O'Toole e Ricky
Gervais. Só Claire Danes que parece não se encontrar no filme,
por mais que sua beleza
se encaixe como uma luva em sua peronagem. A parte técnica
também merece
créditos pela concepção visual, Stardust é 'cafonamente' lindo.
Interessante também
é ver como o filme ganha uma sobriedade repentina no meio
da magia, ficando próximo
do cruel e do perverso (os assassinatos são ligeiramente
atenuados com criatividade
para não chocarem tanto), detalhes que só enriquecem
a experiência. E quando
o inevitável final feliz enfim acontece fica difícil se arrepender
de ter participado
da brincadeira. O clichê do 'filme para toda família' cai bem em Stardust,
mas ele é bem menos ordinário que tal
frase. Stardust está para as fantasias
assim
como Kick-Ass está para os filmes de super-heróis: desconstrói o gênero para o qual
pertence com ousadia e irreverência, fazendo-o sobreviver por mais um dia.
O DVD tem erros de gravação, making of, cenas inéditas e trailer.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

HELVETICA ![]()
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2007 Inglaterra 1h20min RT 8,8
de Gary Hustwit com Michael Bierut, Neville Brody, Dimitri Bruni, Massimo Vignelli
Em DVD e Bluray pela Plexifilm (importado) ou download
OPINIÃO Com exceção dos designers gráficos e pessoas que tenham qualquer
conhecimento sobre fontes e tipografias, o documentário Helvetica é, de início,
um enigma. O que um filme sobre um tipo de letra teria de interessante a oferecer?
Poderia ser uma chata matéria de telejornal caso o diretor e designer Gary Hustwit
não soubesse exatamente o quê e com quem
falar sobre uma das fontes mais
famosas que existem. Para a minha surpresa, Hustwit conseguiu realizar em seu
primeiro filme
o que a maioria dos cineastas tenta durante toda uma carreira:
expandir a nossa percepção ao revelar e explorar um universo por trás de algo
simples como uma tipografia. Bom, 'simples' não é bem a palavra.
Para um tema incomum, Hustwit preferiu seguir um caminho usual em se tratando
de documentários, investindo em entrevistas com pessoas importantes do design -
entre elas Matthew Carter, criador de fontes como Verdana e Tahoma, e Massimo
Vignelli, que incorporou pesado a Helvetica em seus trabalhos, como na popular
marca da American Airlines, a mesma há 43 anos - e fazendo um apanhado
histórico de seu objeto de estudo, visitando lugares e personalidades que fizeram
com que a Helvetica ganhasse a importância que tem hoje.
Mas Helvetica vai além
do formato clássico do documentário ao questionar seu tema. Por que a Helvetica
é importante? Qual a interferência que ela causa na vida social? Quais as implicações
que a 'Revolução Helvetica' trouxe consigo? Um grande grupo de especialistas,
um mais nerd que o outro, são pura eloquência e empolgação ao discorrer sobre
tais questões com argumentos que passam pelo efeito sensorial, econômico, político,
psicológico, estético e artístico causado pela fonte. Assisti a esse debate com uma
mistura de fascinação e
incredulidade, tamanha obsessão que alguns entrevistados
e às vezes o próprio filme chegam a atingir. Para exemplificar, a designer
norte-americana Paula Scher relembra dos tempos em que era 'moralmente oposta'
a Helvetica porque era a fonte usada pelas corporações e pelos militares na época
da Guerra do Vietnã.
A fonte, uma das mais limpas e legíveis e influentes
já desenhadas (a conhecida Arial do seu PC é uma prima pobre redesenhada
a partir da Helvetica), é questão de amor
e ódio para alguns.
Helvetica é, assim como a própria tipografia, limpo e preciso. Talvez não tão enxuto
quanto poderia de ser, mas cheio de detalhes enriquecedores. Entre um depoimento
e outro, Hustwit apresenta vários clipes com imagens capturadas de vários lugares
onde a fonte é utilizada (e, acredite, ela é mais popular do que se imagina), musicados
por temas econômicos de bandas como Caribou e El Ten Eleven. Não se
desespere
se começar a procurar a Helvetica no seu habitat por um tempo, nem se a encontrar
com uma frequência assustadora. Mas agradeça a Hustwit e seu filme
caso você
se pegue
refletindo sobre os menores e mais 'insignificantes' detalhes
presentes
ao seu redor e encontrando valores e questões não percebidos anteriormente.
Sim, Helvetica é poderoso a esse ponto. Jamais lançado no Brasil, você pode
encontrar o documentário em DVD e Bluray para importação ou para download.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

FORA DO JOGO ![]()
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Offside 2006 Irã 1h25min RT 9,5
de Jafah Panahi com Sima Monbarak-Shahi, Shayesteh Irani, Ayda Sadeqi, Golnas Farmani
Em DVD pela Sony (importado) ou download
A Dica de Cinéfilo dessa semana é Fora do Jogo, emocionante filme do iraniano
Jafah Panahi, que foi notícia recentemente ao ser preso pelo governo do Irã por rodar
filmes que discordam do regime e pela greve de fome feita por ele.
Panahi já foi solto,
mas seus filmes continuam proibidos em sua terra natal. Fora do Jogo nunca foi
lançado no Brasil, e o texto a seguir foi escrito por Fernando Vasconcelos durante
a Mostra Internacional de São Paulo em 2006. Concordo com cada palavra.
Filme perfeito para se assistir em época de Copa de Mundo.
por Fernando Vasconcelos
OPINIÃO Pra última sessão dessa terça dei uma chance ao cinema iraniano, tão festejado
nos anos 90 (com filmes realmente excelentes) mas fora do hype cinéfilo nos últimos anos.
Escolhi Fora do Jogo (Offside, 2006), a mais recente fita de Jafar Panahi, autor de um
dos primeiros sucessos do cinema iraniano no Brasil, O Balão Branco (1995), também seu
primeiro filme. Dele também são O Espelho e O Círculo. O que me encanta mais no cinema
feito no Irã é a capacidade espantosa que seus roteiristas e diretores têm de fazer um filme
coeso, bem resolvido, a partir de pequenas histórias cotidianas que muitos acreditariam
não ser suficiente nem pra um curta metragem. Fora do Jogo conta a história de seis
garotas tentando entrar no estádio onde acontece o jogo que classificará o Irã para
a recente Copa do Mundo 2006. No Irã, entre outras regras sociais, as mulheres
são proibidas de assistir jogos de futebol nos estádios.
De forma absolutamente natural, sem forçar a barra da 'mensagem política', Panahi
acompanha de forma ágil e documental (se não me engano, o filme foi rodado
literalmente durante a tal partida de futebol, o que confere o seu incrível realismo)
a trajétória dessas garotas que conseguem furar as catracas de entrada mas são
barradas no caminho para as arquibancadas por um grupo de seguranças militares.
Fora do Jogo é um exemplo de cinema instigante, inteligente, que nunca põe
o discurso acima da ação, nunca segue o caminho mais esperado, que está sempre
dois passos a frente do espectador e, por isso, torna-se empolgante.
Com humor nas discussões entre as garotas e os jovens seguranças (fantásticos atores),
com inocência emanada nas horas decisivas do jogo e momentos de surpreendente
suspense quando um segurança procura nos banheiros do estádio uma garota fugitiva,
Fora do Jogo é um filme completo, sem uma nota fora do lugar, que caminha para
um final tocante e de grande beleza, quando as meninas são levadas pelos seguranças
num furgão, junto com um garoto com fogos de artifício (também proibidos no estádio)
e a cidade em festa pela classificação do Irã. São 90 minutos de puro cinema, o primeiro
filme dessa Mostra em que eu acompanhei a salva de palmas ao final da sessão.
É imperdível. Aliás, que vergonha
que o cinema brasileiro nunca tenha feito nada
em cinema sequer parecido com esse filme iraniano sobre essa nossa chamada
'paixão nacional'...
Visto em 24/10/2006 na 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br

O INQUILINO ![]()
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Le Locataire 1976 Inglaterra/França 2h06min RT 8,9
de Roman Polanski com Polanski, Isabelle Adjani, Melvyn Douglas, Shelley Winters
Em DVD pela Cinemax
OPINIÃO Aposto que Roman Polanski não imaginava que um dia desceria uma espiral
do terror parecida com que seu personagem Trelkovsky sofre em O Inquilino, dirigido
pelo próprio em 1976. Acusado de dois estupros ocorridos há cerca 30 anos,
o polonês
está na Suíça em prisão domiciliar praticamente impossibilitado de se comunicar
com
o mundo. Enquanto é comparado ao demônio por parte da imprensa, seu novo filme
O Escritor Fantasma recebe apoio da crítica e do público por onde passa. A persona
do diretor está cada vez mais intricada para nós que vemos que de fora, e continuará
nesse rumo enquanto houver pressão externa cobrando pelo seu passado. O Inquilino
é exatamente sobre isso, mas no caso de Trelkovsky, a desintegração da personalidade
é gerada por um passado que não pertence a ele.
No caso, o passado é o de Simone Choule, ex-moradora de um apartamento francês.
A jovem acabara de tentar suicídio, pulando de sua janela por razões misteriosas.
Trelkovsky descobre isso ao alugar o apartamento de Choule para o estranho Sr. Zy
(Melvin Douglas), velhinho ameaçador e que preza pelo silêncio. Quando a antiga inquilina
morre no hospital, o polonês consegue o apartamento, eventualmente conhecendo
fatos e pessoas bizarras que fizeram parte da vida de Simone Choul, como sua amiga
Stella (Isabelle Adjani) e seu 'admirador secreto' Georges Badar (Rufus). A paranoia
começa quando os vizinhos o acusam de fazer barulhos constantes durante a noite,
mesmo quando ele não está presente, e um banheiro social que fica de frente para
a janela de Trelkovsky apresenta movimentos que vão além da compreeensão deste.
Tem algo de Kafka, algo de Hitchcock e certo humor negro no filme.
O Inquilino faz parte da 'trilogia involutária dos apartamentos sombrios', iniciada
em Repulsa ao Sexo e seguido de O Bebê de Rosemary. Divide características
com ambos, como personagens
de sanidade mental instável e solitários, frequentes
alucinações, paranoia e conspirações
da vizinhança, tudo filmado com homogênea
elegância e genuína tensão. A opressão de um sociedade desestabilizada sobre
um personagem isolado é tema recorrente em Polanski, e ainda mais forte em O Inquilino.
Provavelmente por ser este um filme de horror psicológico aterrador, com momentos
de gelar a espinha. A cena em que Simone grita no hospital quando Trelkovsky
e Stella vão visitá-la ficará gravada no meu imaginário como tatuagem, e as macabras
cenas do já mencionado banheiro também são difíceis de esquecer, graças também
ao fotógrafo Sven Nykvist. Contribui para o suspense
um incômodo criado pela frequente
sensação de estar sendo observado (ou ouvido) e pela dúvida nunca abertamente revelada
do porquê das tensões entre os vizinhos e Trelkovsky (é por causa dos barulhos?
Por que ele é um polaco na França? Ou é por causa da antiga moradora?), isso
mexe com os nervos do protagonista e com os de quem assiste.
Ao final, O Inquilino submerge de vez no terror psicológico, e perturba ver Polanski
nos derradeiros minutos, menos por sua performance e mais pelo seu figurino drag.
Muitos podem se frustrar com a 'conclusão inconclusiva', culpa da falta de costume.
O Inquilino não é um filme de explicações nem procura uma lógica, está mais para
uma montanha russa cheia de loops. Daqueles filmes para se assitir à noite quando
não há ninguém em casa. Com sorte, Polanski encontrará uma solução menos trágica.
Como curiosidade, o diretor francês Jacques Audiard, do premiado O Profeta, que exibe
semana que vem no Festival Varilux,
fez parte da equipe do filme como assistente de montagem.
DVD do Cinemax inclui filme em seu formato widescreen original e galeria de posters.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

IF... ![]()
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1968 Inglaterra 1h51min RT 9,6
de Lindsay Anderson com Malcolm McDowell, David Wood, Richard Warwick, Christine Noonan
Em DVD pela Lume
OPINIÃO No alegórico If..., do diretor Lindsay Anderson, a protagonista é College House,
uma típica escola britânica para meninos que serve cenário para os personagens.
Como Mick Travis (Malcom McDowell, antes de estourar com Laranja Mecânica) que,
assim como seus colegas, está voltando para as aulas após férias. Com um denso bigode,
reflexo de sua ainda pueril rebeldia, Mick detesta o ambiente escolar. A College House
funciona como uma ditadura, onde a obediência e a disciplina andam sorrateiras pelos
corredores à procura de um infrator. O diretor escolhe alunos Seniores para ajudar
no controle dos alunos Junior, utilizando métodos violentos de repreensão. Mick também
acredita na violência, mas tem uma concepção própria, idealizada sobre o assunto.
O choque entre opressão e rebeldia atinge o estopim quando Mick e seus amigos são
penalizados por beber na escola.
Inspirado em Zero de Conduta de Jean Vigo, If..., que apesar de fazer parte no divisor ano
de 68 e de ter absorvido as influências
da contracultura, foi filmado meses antes do evento
mais significativo do movimento,
as revoltas estudantis em maio daquele ano.
O filme de Anderson capturou o espírito
jovem em voga quase fez um presságio dos atos
rebeldes que aconteceram logo em seguida, e ainda soam controversos se pensarmos
nos famigerados casos de alunos invadindo suas escolas com metralhadoras. Teorias
defendidas à parte, If... é de um apuro técnico primoroso. Anderson trabalha sobre uma
atmosfera repressora, com os imponentes cenários da escola representando não só uma
instituição de ensino de método rígido, mas quase um presídio. Tanto que na única sequência
onde dois personagens saem para a rua, o filme se desprende da narrativa e se desenrola livre
e imprevisível, exibindo a mesma sensação de liberdade dos protagonistas. As tomadas
em preto-e-branco, tão questionadas na época, foram uma escolha técnica resultante
de um defeito de iluminação, e que acabou se tornando um estilo. E o filme ainda evita
trilhas sonoras, utilizando-se apenas de canções de coral de garotos nas cartelas que
dividem a narrativa em capítulos, o que acrescenta na atmosfera alegórica.
If... foi um sucesso surpresa de bilheteria, venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes
e influenciou uma geração, o que serviu como mais uma prova de seu acerto na representação
do zeitgeist de 68, para a surpresa da Paramount, que investiu pesado no fiasco Barbarella
no lugar do filme de Anderson. Trunfo de um filme que sobre transportar o macro para o micro
de forma audaciosa, ressonante e até mesmo fantástica,
especialmente em seu final
de abordagem quase surrealista, cheio de fúria. Um clímax horripilante que encerra o filme
de maneira assustadoramente profética. Na época, muitos protestaram contra a violência
de If..., colocando-a em questão algo incitador. Engraçado como o filme parece ser um
contra-argumento em si mesmo, especialmente por causa de seu intrigante e desafiador título.
A Lume Filmes disponibilizou If... em DVD meses atrás, procure e descubra um dos filmes
mais importantes da new-wave britânica.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
ITALIANO PARA PRINCIPIANTES ![]()
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Italiensk for Begyndere 2000 Dinamarca 1h37min RT 8,8
de Lone Scherfig com Anders W. Berthelsen, Anette Støvelbæk, Peter Gantzler
Em DVD pela Imagem
OPINIÃO Quando o Dogma 95 foi criado pelos dinamarqueses Lars von Trier
e Thomas Vinterberg e vivia seu auge
com filmes como Os Idiotas e Festa de Família,
dos respectivos diretores, o movimento era relevante enquanto cinema rebelde.
Hoje pouco se fala sobre o que aconteceu com o Dogma, e seus criadores parecem
mais preocupados em filmar suas viagens particulares. Felizmente, alguns
diretores interessantes mostraram-se ao mundo junto com Dogma, como Harmony
Korine (Gummo),
o experiente ator francês Jean-Marc Barr (Lovers) e a também
dinamarquesa Lone Scherfig, diretora de Italiano Para Principiantes. Scherfig
também comandou Educação, que foi indicado a 3 Oscar incluindo melhor filme,
e que está em pré-estreia
no Recife essa semana.
Educação é escrito por Nick Hornby, tem um elenco de estrelas, produção caprichada
e, mesmo independente, atingiu uma parcela razoável do público. Não há muito do Dogma
no filme, nada na verdade. Scherfig teria se aproveitado do manifesto para entrar
no mainstream? Ou tudo aconteceu por acaso? É quando Italiano Para Principiantes
é posto em questão. Primeiro filme da diretora e décimo segundo do Dogma, trata-se
de uma comédia romântica (opa... Regra nº8: São inaceitáveis os filmes de gênero)
sobre um grupo de pessoas cheias de problemas familiares e/ou financeiros que
se encontram num curso de italiano promovido pela prefeitura. São personagens
de facil identificação, são de carne e osso. É simpático mas, baixada a poeira do Dogma,
sobra o que não foi com o hype. E não é nada de inovador, original e nem mesmo
tão preso às regras que ajudaram na concepção do projeto.
O estilo
naturalista pregado pelo movimento está lá, mas só porque um filme não
segue um modelo hollywoodiano não significa que ele seja menos comercial.
Sente-se um maniqueísmo por parte do roteiro de Scherfig, a narrativa é sabotada
pela conveniência. Muitas vezes você está à frente do filme, só na expectativa do que já
é esperado acontecer, característica mór da comédia romântica nossa de cada dia.
E ainda tem os personagens dos italianos sexy e de sangue quente, estereótipo
cansado e que não ganha novos contornos aqui.
O filme só não cai na mediocridade
total porque Scherfig não
abusa de sentimentalismos e Italiano Para Principiantes
tem bastante humor e também sua parcela
de sinceridade. Os atores também tiram
de letra nas performances. Mas se existe algo realmente curioso no filme é sua obsessão
com a morte, fator importante na redenção de todos os personagens. Matar um
personagem quando não se precisa mais dele pode até parecer uma solução
fácil
de roteiro, mas no caso
de Italiano Para Principiantes é uma escolha corajosa,
já que não é apenas um deles que abandona o filme no meio. Encantou e ainda deve
encantar boa parte de seus espectadores, mas é inegável que o filme só ganhou
notoriedade devido
às circunstâncias
da realização.
Vale como curiosidade do Dogma 95.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
A PROPOSTA ![]()
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The Proposition 2005 Austrália 1h44min RT 8,7
de John Hillcoat com Guy Pearce, Ray Winstone, Danny Huston, Emily Watson
Em DVD pela Califórnia Filmes
OPINIÃO O músico, cantor e compositor australiano Nick Cave, mais conhecido
como líder da banda The Bad Seeds, tem uma saudável relação com o cinema.
Em 1987 apareceu em Asas do Desejo, de Wim Wenders, tocando algumas
canções com sua banda. No ano seguinte conheceu o então estreante na direção
cinematográfica
John Hillcoat, com quem trabalhou em Ghosts... of the Civil Dead
contribuindo na feitura do roteiro, na composição da trilha sonora e na interpretação.
Logo em seguida participou de Johnny Suede ao lado de Brad Pitt e sob o comando
de Tom DiCillo, e durante toda a década de 90 compôs trilhas para vários curtas
metragens. E antes de fazer uma ponta no pouco visto O Assassinato de Jesse James
Pelo Covarde Robert Ford em 2007, Cave escreveu o roteiro de A Proposta,
um western moderno que, como nas melhores revisões do gênero, subverte esse
estilo tão americano e simultaneamente o traz de volta à vida com brutalidade,
poder e palpável ressonância pós-sessão. Hillcoat dirigiu o filme para o parceiro.
A Proposta do título é o que o Capitão Stanley (Ray Winstone) oferece para
Charlie Burns (Guy Pearce), irmão do meio de uma família fora-da-lei. Para salvar
o caçula Mike (Richard Wilson), Charlie tem que ir em busca do mais velho e perigoso
dos irmãos, Arthur (Danny Huston), que estuprou e assassinou a família Hopkins
com sua gangue. Stanley acredita que a prisão de Arthur e companhia poupará a vida
do mais jovem, mesmo que outros membros
da sociedade queiram a cabeça dos Burn.
Será que Charlie e, principalmente, a comunidade em que eles vivem, estão prontos
para aceitar essa proposta? 'Essa terra será civilizada', diz o Capitão Stanley. Nick Cave
é niilista e impiedoso, mas há certa poesia incrustada nos personagens
quando
se chega ao fim da sanguinolenta redenção. Mais do que um estudo sobre moralidade,
civilização e fraternidade, A Proposta é um filme sobre um estado de espírito.
Assim como na mais nova colaboração Cave/Hillcoat, o ainda em cartaz A Estrada,
A Proposta é um primor em execução técnica. Cuidadosa recriação de época
e caracterização, montagem e mise-en-scène intensas, brilhantes performances
dos atores e fotografia tão bela quanto sufocante em seu Cinemascope. Hillcoat
mostra-se mestre em criar uma ambientação adequada para seus filmes,
e a comunidade
retratada neste não precisa de muito tempo em tela para causar
angústia
pela falta de perspectiva dos locais. O final do século XIX no deserto
australiano estava algo próximo do 'terra de ninguém', onde o preconceito
contra
aborígenes
e a violência descontrolada dominavam (por violência eu digo cabeças
estouradas a tiros, torturas, corpos empalados e por aí vai). Tanto Stanley, quanto
Arthur e Charlie Burns
tem noções particulares de comunidade - um prega o amor
e a família, o outro a civilidade -
, e se no fundo eles desejam a mesma coisa,
o choque de ideias mal articuladas, contrastantes e impostas na base da agressão
impedem um consenso. A proposta de Stanley, por mais cruel que seja, é mais 'pacífica'
e razoável que a execução dos Burn, tão desejada pelo personagem de David Wenham,
tendo em vista as condições. Mas para Cave e seu roteiro, é impossível escapar
da dualidade das coisas. A sequência da ceia de Natal ao final do filme é nada menos
do que perfeita e pontua A Proposta com uma nota desnorteante e que retorna
à memória de tempos em tempos.
Saia com o coração arrasado pelas canções
compostas por Cave e pela sempre ótima Emily Watson, que empresta delicadeza
e amargura à sua Martha, mulher de Stanley. E que Nick Cave faça mais filmes.
Obs.: A Califórnia Filmes lançou o filme em DVD num assassino formato fullscreen (tela cheia)
quando o formato original de A Proposta é Cinemascope.
Recomendo altamente que o leitor
importe ou baixe o filme e o assista como foi feito (em tela larga).
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.co
ALICE ![]()
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Alice ou La Dernière Fugue 1977 França 1h28min
de Claude Chabrol com Sylvia Kristel, Charles Vanel, André Dussolier
Em DVD pela Lume Filmes
OPINIÃO Não é por acaso que a protagonista desse estranho filme de Claude
Chabrol se chama Alice Carol. E também não é à toa que a Lume Filmes resgata
essa injustamente esquecida obra e a lança em DVD na mesma época em que outra
Alice toma os cinemas de assalto. Mas não se engane. A única coisa que esse Alice
francês de 1977 e o novo desperdício de milhões promovido por Tim Burton tem
em comum é a matéria prima que inspirou as interpretações pessoais de cada cineasta.
E se Burton realizou uma fantasia mercenária sem imaginação, não se pode acusar
Chabrol de ter seguido um caminho rendondindo. Alice é um filme verdadeiramente
perdido nas 'maravilhas' do país da moça, tão confuso quanto a própria. Há um claro
respeito à obra de Lewis Carroll que nenhum efeito especial mirabolante pode pagar.
A Alice de Chabrol é interpretada pela sex symbol Sylvia Kristel, a eterna Emmanuelle.
No ótimo monólogo inicial entende-se porque Alice não é feliz com seu marido,
um homem detestável. Decidida, ela se despede dele e segue viagem em seu carro
sem um destino em vista. No caminho, o parabrisa de seu carro quebra e ela é socorrida
por
Henri Vergennes
(Charles Vanel), senhor que oferece o conforto de sua mansão
por uma noite.
Logo Alice percebe que está presa num universo irracional e sombrio
onde ela está sempre sendo vigiada. Não há respostas.
Resta entrar na toca do coelho.
Não é um conto sobre fantasia, realidade ou desejo apenas, mas sobre uma mulher
presa em seus próprios labirintos
e sem a menor idéia de como sair. O fato de Kristel
ser a atriz escolhida para interpretá-la traz algo de interessante para sua Alice.
Em certo momento do filme, uma Kristel nua (sem botox nem silicone!) e muito sensual
está no quarto de hóspedes da mansão de Vergennes se preparando para um banho.
Barulhos estranhos ocorrem no ambiente, um relógio parado começa a funcionar e vozes
denunciam que alguém a observa e brinca com ela, pede para que ela 'não pense'.
Alice tenta cobrir seu corpo, assustada. De repente, o 'tempo' pára novamente.
É uma das melhores sequências do filme e me fala muito sobre a personagem.
Alice acredita que terceiros a observam como um objeto, incluindo seu marido,
e ela é consciente do que sua beleza causa nas pessoas (os homens do filme a lembram
constatemente disso). A figura de Kristel, que era ícone erótico nos 70, faz um
intertexto inteligente com esse traço de Alice.
Se o universo
animalesco - e que toma
conta do miolo do filme, quase que totalmente silencioso e visual -
da mulher
for contextualizado para o lado psicológico, pode-se interpretar tais cenas como
pistas do passado
da personagem e a bizarra cena da comemoração em família
parece guardar chaves que enriquecem o filme como estudo de personagem.
Alice ainda é vencedor em criar uma atmosfera opressora e sublime, a fotografia
do antigo colaborador de Chabrol, Jean
Rabier, é essencial na construção.
Aliás, os efeitos visuais do filme são basicamente realizações de fotógrafo
e montagem, com criativo uso de lentes em certa tomada de suspense. O final
aterrador pode não cair no gosto de muitos e parecer auto explicativo, mas encerra
o filme com
classe. Mais uma vez a Lume Filmes demonstra sua importância
para o mercado audiovisual brasileiro, pois Alice só está disponível em DVD
em sua terra natal, versão Área 2. Nem nos EUA o filme existe em mídia digital.
Mais um motivo para você trocar o espetáculo vazio em 'terceira dimensão' que está
em cartaz por essa pérola escondida de Claude Chabrol. Só temos a agradecer.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.co
GAROTA FANTÁSTICA ![]()
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Whip It 2009 EUA 1h51min RT 8,4
de Drew Barrymore com Ellen Page, Marcia Gay Harden, Juliette Lewis, Kristen Wiig
Em DVD pela Califórnia Filmes
OPINIÃO Quando uma popular estrela de cinema decide dirigir um projeto,
vários narizes se torcem em desaprovação. Quando essa estrela é Drew Barrymore,
que nunca foi grande atriz mas é sempre
uma figura carismática, o preconceito
se atenua. Em 2008 ela chamou suas colegas atrizes, incluindo uma Ellen Page
recém saída de uma indicação ao Oscar (e que abandonou Arraste-me Para O Inferno
para estar aqui), pediu para que Shauna Cross adaptasse seu próprio livro chamado
'Derby Girl', sobre meninas competindo no esporte Roller Derby, juntou uma equipe
e filmou. No ano seguinte, estreou Garota Fantástica (tradução apelativa de Whip It,
ou Chicoteie). Surpresa não foi o filme em si, mas a calorosa recepção da crítica.
Barrymore parece ter seguido os conselhos de seu mentor Steven Spielberg enquanto
transformava essa batida historinha de auto aceitação
em um filme de esportes
e conflitos familiares convincente, otimista, feminista - no melhor sentido
da expressão - e radiante, como a própria
atriz/diretora parece ser em pessoa.
O enredo
é uma tecla já muito batida: Bliss Cavendar (Page) é uma jovem de 17 anos
moradora de Bodeen, Texas, que participa de concursos de beleza para agradar
sua mãe Brooke (Marcia Gay Harden). Não encontra um rumo na sua vida.
Por engano
acaba conhecendo o Roller Derby, perigoso esporte onde apenas mulheres sobre patins
competem em uma pista oval, e decide tentar a novidade. Inclua a melhor amiga Pash
(Alia Shawkat), o novo namoradinho e uma gangue de parceiras e rivais de time.
Pronto, você sabe como isso vai acabar desde os primeiros minutos, mas Barrymore,
consciente dos clichês com que lida, traz um frescor que faz a experiência parecer novidade.
O segredo está nos relacionamentos entre personagens, como a mãe e o pai, interpretado
por Daniel Stern. Apesar do tom cômico e de diversão geral que toma a fita, o casal
jamais apela para a histeria ou exageros ao discutir com Bliss, e quando Brooke
condena as escolhas da filha nós vemos uma mãe preocupada com a saúde desta,
e não um arquétipo simplório que achávamos que ela fosse. As companheiras de time
de Bliss, as Hurl Scouts, são como qualquer time em filmes de esporte, cada uma
com sua particularidade, mas todas com a mesma paixão. Kristen Wiig, como a capitã
Maggie Mayhem, é a mais interessante. E se Barrymore arranca algumas risadas
como Smashley Simpson, a antagonista Iron Maven (Juliette Lewis) é o exemplo
ideal de como funciona o esporte feminino e o espírito do filme: as moças sentam
o cacete uma nas outras, mas há um respeito maior entre elas que está acima
de qualquer regra. Algo também notável é como as mulheres e os homens estão
socialmente nivelados no filme. Elas são as estrelas do show, mas nem por isso
eles resumem-se a meros alívios cômicos ou pares românticos.
Como de costume, Ellen Page engradece o filme e eu nunca a vi melhor. Ellen jamais
se confunde com suas antigas personagens (e há muito o que se comparar com Juno),
talvez por ela nunca ter exibido tantas facetas numa só. Todo o elenco a acompanha.
A trilha sonora não podia ser mais divertida, vai de Ramones, Breeders e Dolly Parton
a Clap Your Hands And Say Yeah e Kings of Leon. Até 'Domingo no Parque' se ouve.
Pena que as sequências de Roller Derby não consigam passar do aceitável, impressão
de que faltou uma pós-produção
mais cuidadosa, menos apressada. A energia de diretora
estreante e o apego ao material devem ter impedido Barrymore de enxugar Garota
Fantástica um pouco mais. Tropeços de uma atriz cujo primeiro trabalho na direção
respeita o espectador mais do que metade dos filmes onde atuou, e sua postura é mais
honesta do que a maioria das pessoas por quem
já foi dirigida. O suficiente pra mim.
Difícil é não terminar com um ligeiro sorriso estampado no rosto.
Obs.: A versão nacional do DVD, além de vir vazia de extras, está em tela cheia.
Indico a importação do DVD/Blue-ray estrangeiro ou mesmo o download do filme,
já que ele foi filmado em bem utilizado e largo CinemaScope.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
INTERVENÇÃO DIVINA ![]()
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Yadon Ilaheyya / Divine Intervention 2002 Palestina 1h32min RT 8,1
de Elia Suleiman com Elia Suleiman, Manal Khader, George Ibrahim, Amer Daher
Em DVD pela Pandora
OPINIÃO Intervenção Divina é puro cinema do primeiro ao último segundo.
Quase não há diálogos, e quando ocorrem estão lá apenas para acrescentar
às inesquecíveis imagens
minunciosamente planejadas por Elia Suleiman.
O cineasta palestino nascido numa Jerusalem dominada
por Israel filmou algo
que lembra um selvagem
devaneio com ares de autobiografia fantástica e um olhar
incomum e audacioso sobre sua terra natal, 'uma crônica de amor e dor' como entrega
o subtítulo.
Em sua base, Intervenção Divina é
um conjunto de esquetes
que
contextualizam a condição político-social dos palestinos
que vivem em Israel
ao mesmo
tempo em que criticam e satirizam a situação, interligados pelo olhar de Suleiman.
O humor é no melhor estilo
Jacques Tati, observando os costumes e as relações
dos conterrâneos do diretor com uma deliciosa ironia. E o filme ainda tem um estilo pop
que a princípio parece paradoxal ao denso silêncio que permeia as sequências,
mas são essenciais. É absurdo e é brilhante.
A estrela do filme é o próprio Suleiman (Um personagem? Ele mesmo? Uma versão?),
que retorna a Jerusalem para acudir seu pai doente. Enquanto isso ele mantém
um caso com uma misteriosa mulher, cujo amor é consumido na fronteira com Ramala
numa bizarra e ardente coreografia de mãos. Soldados
israelenses exibem uma
desumanidade esdrúxula, vizinhos perdem a noção de respeito, a cidade afunda
no cinismo e na ignorância. Suleiman, com sua marcante mecha branca e fisionomia
caricatural e pitoresca,
mas com um traço
de melancolia, apenas assiste, mantendo
a mesma expressão durante todo o filme. Os múltiplos significados das cenas são atingidas
no
efeito
Kuleshov
e nos planos gerais estáticos onde você escolhe pra onde olhar.
E apesar da óbvia tendência pró-Palestina, o diretor não aponta vilões ou mocinhos,
as coisas acontecem por força das circunstâncias. Ou de seus desejos mais malucos.
Em Intervenção Divina tem-se um
Suleiman niilista quanto a uma solução do conflito
palestino. Ele sabe e observa o que acontece, ridiculariza, e 'encerra' a história com
um final tão catártico quanto adequadamente ridículo. Uma bela ninja palestina vinda
dos céus chutando o traseiro de soldados israelenses dançarinos, simples e genial.
Uma grande piada visual sobre um assunto tão explorado e prostituído pela mídia,
refrescante de se ver. O que dizer sobre o balão vermelho com o desenho de Yasser Arafat?
E quando
a mulher cruza a fronteira desfilando ao som de música eletrônica, o que não
faria
feio
numa propaganda de perfume?
Ou ainda a cena em que Suleiman e um israelense,
cada um em seu carro, se encaram parados frente a um semâforo aberto, atrapalhando todo
o trânsito e resumindo todo o conflito em uma única
cena? Cinema arguto, penetrante, e mais
divertido que muito blockbuster. Uma das obras-primas da década passada, assim como
O Que Testa do Tempo, mais recente filme de Suleiman que conclui a trilogia iniciada
em Crônica de Um Desaparecimento, ainda inédito no Brasil. Intervenção Divina
é um filme universal e que pede
para ser visto. Portanto assista o quanto antes.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
CLAMOR DO SEXO ![]()
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Splendor in The Grass 1961 EUA 2h04min RT 8,3
de Elia Kazan com Natalie Wood, Warren Beatty, Pat Hingle, Audrey Christie
Em DVD pela Lume
OPINIÃO Assistir a Clamor do Sexo, um dos clássicos de Elia Kazan que acabou
de ser lançado em DVD pela milagrosa Lume Filmes, em tempos de hedonismo
e banalização da sexualidade causou-me sentimentos mistos. Por um lado fiquei
grato por não ter nascido e crescido num tempo e numa sociedade tão repressora
e moralista como a americana dos anos 20 e 30, onde sexo antes do casamento
era garantia de uma passagem só ida ao inferno na Terra. Por outro, a maturidade
emocional conquistada pela protagonista Deanie Loomis, encarnada por Natalie Wood,
após enfrentar a hipocrisia de seus próximos é algo tão belo quanto raro de se perceber
em pós-adolescentes contemporâneos (inclui-se aí os personagens desesperados
e neuróticos da série American Pie) e, muitas vezes, em adultos já emancipados.
Sendo a sexualidade algo particular e complexa para se generalizar,
a repressão e a super-sexualização são caminhos tão opostos quanto
tortuosos para lidar com o assunto, e acredito que uma consciência sexual
sadia vem naturalmente, se o sexo for tratado da mesma forma.
Infelizmente não é o que acontece com Deanie. Bela, jovem e louca para ativar
sua vida sexual, a moça briga com a própria consciência em ceder ao seu também
jovem e belo namorado Bud Stamper (Warren Beatty, estreando no cinema).
Bud vem de uma família rica e seu pai, um caipira machão e extremamente ambicioso,
quer que ele não perca seu tempo com Deanie e que invista numa carreira acadêmica.
Já a garota, perdida nos seus impulsos sexuais reprimidos, recebe conselhos equivocados
de sua mãe, que crê que não há prazer para mulher no sexo. O casal mantém a castidade
até o limite, enquanto a irmã de Bud, Ginny, afunda na promiscuidade. A consequência
da intervenção social e fincanceira no relacionamento de Bud e Deanie é destruidora,
e amor e altruísmo são peças chave na resolução do romance. O título original do filme
foi retirado de uma obra do poeta romântico inglês William Wordsworth. O esplendor
na relva, o calor da juventude, o momento que se perde para nunca mais.
Clamor do Sexo segue a cartilha do melodrama com todos os prós e contras que vem
com o gênero, e Kazan é excelente em retratar os dilemas do casal, a interferência
das convenções sociais e do conformismo com sua ambições de épico romântico.
Os personagens, incluíndo Ginny Stamper, são vítimas de suas inevitáveis idealizações,
criaturas trágicas. E se existe um inegável moralismo por parte do próprio filme
(basta ver o destinos de Ginny e do pai de Bud, representantes do excesso), há também
certa confrontação às regras. A cena em que uma desestabilizada e agressiva Deanie
discute com sua mãe na banheira e desconta todo seu tesão canalizado em ódio na mulher
é surpreendente, acentuada pela atuação memorável de Natalie Wood. Aliás, o processo
de amadurecimento de Deanie é comovente e sem sentimentalismos, como o poema
de Wordsworth. Clamor do Sexo influenciou e ainda influencia o cinema (tem muitas
coisas em comum com A Última Sessão de Cinema, realizado dez anos depois e já
comentado aqui no Dicas de Cinéfilo, e também com o ainda inédito em Recife Educação),
graças a maneira brutal com que expõe a vida pré-revolução sexual no interior americano.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
SOUTHLAND TALES - O FIM DO MUNDO ![]()
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Southland Tales 2007 EUA 2h25min RT 3,6
de Richard Kelly com Dwayne Johnson, Seann William Scott, Sarah Michelle Gellar
Em DVD pela Universal
OPINIÃO Ainda me pergunto como Richard Kelly conseguiu levantar dinheiro para filmar
seu recente A Caixa. De diretor promissor graças a repercussão de Donnie Darko entre
os cinéfilos, Kelly passou a ser malvisto por causa do muito detestado Southland Tales
-
O Fim do Mundo que, em maio de 2006, foi exibido numa versão inacabada de 160 minutos
no Festival de Cannes, onde a maioria dos que assistiram considerou o filme um desastre
completo e fadado ao fracasso. Mais de um ano depois a produção estreou em alguns cinemas
americanos, com 20 minutos a menos e efeitos finalizados. A profecia feita em Cannes
acabou se realizando e
Southland Tales foi um imenso fracasso financeiro e de crítica.
Confuso, incoerente, pretensioso, intricado e inassistível foram alguns dos adjetivos
que o filme recebeu. E eu concordo plenamente com todos, exceto com o último.
Como o próprio título do filme denuncia, Southland Tales tem várias tramas e subtramas
que se desenrolam paralelamente numa Los Angeles alternativa em 2008, três anos após
um ataque nuclear
destruir parte do estado do Texas. O epicentro seria
Boxer Santaros
(Dwayne 'The Rock' Johnson), famoso ator de filmes de ação que tenta conseguir dinheiro
para financiar a produção de um roteiro seu chamado The Power, ao lado da atriz pornô,
apresentadora e cantora pop Krysta Kapowski (Sarah Michelle Gellar, engraçada), mais
conhecida como Krysta Now. Ela mantém um relacionamento com Boxer e pretende deslanchar
a própria carreira com a ajuda da diretora de filmes eróticos Cindy Pinziki (Nora Dunn) que,
por
sua vez, é uma rebelde que apóia um grupo de neo-marxistas cuja intenção é derrubar
o governo federal e a USIDent, espécie de coorporação que controla
cada passo
dos cidadãos.
Enquanto isso, Roland Taverner (Seann William Scott)
se disfarça de policial para concluir
um plano de extorsão política junto aos neo-marxistas, ajuda Boxer na composição de seu
personagem no filme, e lida com seu duplo Ronald. Esses
e muitos outros contos da terra
do sul
são narrados em capítulos por Pilot Abilene (Justin Timberlake), astro do cinema que lutou
na guerra do Iraque, foi usado como cobaia
e voltou para Los Angeles com o rosto desfigurado.
Southland Tales comenta a política e a sociedade contemporânea através de uma distopia
futurísca com ares de noir, referências cristãs e alguma comicidade, sempre com um olhar
sarcástico. A impressão que causa à primeira vista é a de que Richard Kelly parece tão perdido
quanto nós enquanto vemos o filme. Mas ele não tem
só uma ideia a ser desenvolvida,
e sim dezenas. Observá-las é uma odisseia que, se vista com o devido humor, pode ser divertida.
Southland Tales peleja para funcionar como um todo - sua grande falha - mas ganha força
quando
percebemos a excelência de seus pedaços - seu grande trunfo. Ou Kelly é um gênio
e estamos muito atrás de sua capacidade ou sua pouca experiência e muita ambição acabaram
sendo a pedra no meio do caminho de sua avidez de jovem cineasta talentoso. Saberemos
com o avançar de sua carreira e do efeito do tempo sobre Southland Tales. Não deixa
de ser curioso ver o filme sambar entre momentos puramente verborrágicos e outros fantásticos.
Da cabeça de Kelly saiu um sem número de personagens curiosos, como o Barão Von Westphalen,
cientista interpretado pelo ótimo Wallace Shawn, e sua gangue que inclui a mística Serpentine
(Bai Ling) e Dr. Katarina Klutzer (Zelda Rubinstein, de Poltergeist e recém falecida). Também
temos Miranda Richardson
como
Mama Mae Frost,
comandante da USIDent, esposa do senador
Bob Frost (Holmes Osborne) e mãe de Madeleine
Frost Santaros (Mandy Moore), esposa de Boxer
Santaros.
Já os membros do grupo neo-marxista são interpretados
por vários atores
vindos
da comédia (Dunn, Cheri Oteri,
Jeneane Garofalo, Amy Poehler),
que tentam transpor
o humor estranho do texto de Kelly para o filme.
Vê-los
representando pessoas que não
são necessariamente cômicas é engraçado por si só. Todos esses personagens e outros,
como os
de Lou Taylor Pucci, Jon Lovitz e Christopher Lambert, ganham espaço
no filme,
mesmo que muitas vezes não fique claro sua importância na narrativa. São personagens-signos,
prato cheio para quem quiser interpretá-los de acordo com o Evangelho de Richard Kelly.
Southland Tales é um delírio cinéfilo que foi longe demais, e para o bem. Fica claro que Kelly
se divertiu e fez um filme com aspirações cult (a cena musical com Justin Timberlake ao som
da The Killers, a trilha sonora por Moby, as várias referências a outros filmes,
os quadrinhos lançados
com os primeiros capítulos da saga, o visual fantástico), e ele não facilita a visita de ninguém.
Mas não se pode acusar suas experimentações de não sair do status quo do cinema atual,
fugir
da mediocridade e do formulaico. Southland Tales é filme válido pela atitude excêntrica,
audaciosa e subversiva de Richard Kelly. Ele pode não ter feito o grande sucesso do último
final de semana, mas definitivamente fez
um filme singular e intrigante.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
EU, VOCÊ E TODOS NÓS ![]()
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Me and You and Everyone we Know 2005 EUA 1h31min RT 8,2
de Miranda July com Miranda July, John Hawkes, Miles Thompson
Em DVD pela VideoFilmes
OPINIÃO Fato 1: Seres humanos não sabem lidar com relacionamentos amorosos
Fato 2: Aqueles que acreditam que sabem vão quebrar a cara cedo ou tarde. Todo
dia estreiam no multiplex trocentos
filmes que usam e abusam da palavra amor
(devem ter uns 3 em cartaz agora) para atrair os pobres seres humanos que vivem
tão intrigados com esse sentimento. Quase nenhum desses filmes consegue sair
do lugar-comum, dizer algo que não tenha sido dito antes ou mesmo proporcionar
uma experiência essencialmente romântica. Eu, Você e Todos Nós, que foi exibido
nas sessões de arte há alguns anos atrás, é uma feliz exceção. Primeiro por ignorar
a idéia do cansado amor romântico já tão explorado em filmes do gênero e colocar
os pés no chão nas relações interpessoais
dos vários personagens. Segundo, por ser
um filme terrivelmente, estranhamente, irresistivelmente fofo.
O filme é a estréia da americana Miranda July (que deve ser prima da Zooey Deschanel)
nos longas, e ela também é uma das protagonistas. Eu, Você e Todos Nós acompanha
a vida de vários personagens lidando com suas concepções sobre o amor. Richard
(John Hawkes) é um atendente de loja de sapatos que acabou de ser abandonado
pela esposa, que preferiu ficar com outro. Ele se encanta por
Christine (July), que ganha
a vida como taxista de idosos e é artista nas horas vagas. Christine trabalha para
uma casal de velhinhos cuja mulher está muito doente. Já os filhos de Richard
embarcam em suas próprias viagens amorosas: Peter, o mais velho, descobre
a sexualidade com duas adolescentes
promíscuas, e o caçula Robby
acha sua própria
idéia de amor eterno através de um chat on line. Sylvie, a vizinha
dos irmãos, é uma
menina obcecada em comprar eletrodomésticos e materiais para o lar, já que aguarda
pelo seu marido.
Esses e outros personagens, cada um mais interessante que o outro,
são observados por July sob um olhar inesperado, e por isso mesmo prazeroso.
A estética 'indie', que já virou um template do cinema moderno, pode incomodar
alguns, mas a abordagem agridoce de July e seu jeito incisivo de mexer em certas
feridas e tabus
estão acima das
convenções
de estilo. Eu, Você e Todos Nós
exala sinceridade e isso é que faz o filme ser tão adorável. Miranda ama seus
personagens, deixa isso bem claro e quer que nós os amem também, o que não
é muito difícil. O universo onde o filme se passa remete a uma mistura
de Todd Solondz
com Robert Altman, mas
a capacidade da mulher de criar situações imaginativas,
brilhantes
em sua maioria, as sutis conexões que ocorrem em tela, e sua maneira
peculiar de observação fazem de Eu, Você e Todos Nós uma obra única.
Poucas vezes
no cinema se vê cenas tão espirituosas como a do pássaro no teto do carro ou
a do encontro no banco da praça.
E Miranda
ainda entrega um dos melhores conceitos
de amor
já proferidos no cinema, não importa o gênero, e vindo de uma criança: ))<>((.
Falar o que é esse símbolo, além de ser ousado demais, estraga a rica significação
e a surpresa de assistir ao filme. Mas posso dizer que
esse conjunto de sinais resume
bem o que é Eu, Você
e Todos Nós. Estranho, poético, cru, engraçado, sinistro e,
finalmente, muito romântico. Recomendado.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
STARMAN - O HOMEM DAS ESTRELAS ![]()
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Starman 1984 EUA 1h55min RT 7,8
de John Carpenter com Jeff Bridges, Karen Allen, Charles Martin Smith
Em DVD pela Sony
OPINIÃO The Dude. Jeff Bridges dificilmente será lembrado por outro papel
que não seja o da comédia dos irmãos Coen O Grande Lebowski. Sabe-se lá
explicar a demora pelo reconhecimento da Academia, sendo ele um dos grandes
atores que Hollywood já teve. Mas antes de conquistar o Oscar por Coração Louco
(e bem depois de ser indicado pela primeira vez por A Última Sessão de Cinema,
comentado aqui no Dicas de Cinéfilo), Bridges estrelou Starman, romance sci-fi
dirigido por John Carpenter e feito para estourar durante as férias de verão de 84.
Não foi um grande sucesso, mas rendeu mais uma
indicação ao Oscar para Bridges
e hoje é considerado cult. Está agora disponível em DVD e Blue Ray no Brasil.
Jenny Haden (Karen Allen, recém saída do sucesso de Caçadores da Arca Perdida)
é uma solitária mulher que acabou de perder Scott (Bridges), o homem que amava.
Numa noite, uma nave espacial cai perto de onde ela mora e de lá sai um alienígina
que, através de fotos e de uma mecha de cabelo, toma a forma do falecido Scott.
Depois
de uma tensa apresentação, o 'homem das estrelas' convence Jenny a levá-lo
para o Arizona, onde a nave mãe irá buscá-lo em dois dias antes que ele morra.
A busca pelo conhecimento e a (re)descoberta de sentimentos será inevitável.
Há ainda uma subtrama envolvendo esforços das autoridades em descobrir
onde estão mulher e alienígina disfarçado. Starman não é exatamente original
nem é o melhor momento da carreira de Carpenter (aqui obviamente com aspirações
spielberguianas), mas funciona por dois simples motivos: pela crença da equipe
em estar fazendo um filme de entretimento comovente, ainda que
despretensioso,
e pelo talento da dupla central de atores, especialmente ele.
Os primeiros 15 minutos de Starman são brilhantes, simples assim.
Usando quase
nenhum diálogo, os personagens e a trama são apresentados através apenas
de imagens, num dos melhores exemplos de como se escrever o primeiro ato
de um roteiro, algo tristemente em falta até no mais caro blockbuster moderno.
A cena é tocante, expositiva sem ser explicativa, e logo em seguida torna-se tensa,
curiosa e finalmente solidifica o enredo. Depois disso nós sabemos o que virá
a acontecer e imprevisibilidade não é forte do filme, mas charme e empolgação
sobram pelas bordas. Mesmo em seus momentos de pieguice, Starman se sustenta
graças a verossívil performance de Jeff Bridges, que realiza a tarefa de interpretar
um E.T. inofensivo, indiscreto, boa 'gente' e descuidado que descobre o que há de bom
e ruim em ser um humano com destreza excepcional, sendo mais do que o próprio
roteiro e filme pedem. Ele e Karen Allen colocam o filme um nível acima do escapismo
puro, e mesmo que não passasse disso ainda seria uma boa Sessão da Tarde,
tendo em vista o encanto com que Carpenter filma a história. Também é interessante
perceber como os efeitos e a trilha sonora envelheceram bem: são obviamente
oitentistas e ultrapassados, mas não dá pra imaginar o mesmo filme
sem estes.
Filme onde o espetáculo e a sensibilidade coexistem sem se atrapalharem.
Uma doce surpresa do passado e uma curiosidade para novos fãs do The Dude.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
O SEGUNDO ROSTO ![]()
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Seconds 1966 EUA 1h47min RT 8,7
de John Frakenheimer com Rock Hudson, John Randolph, Salome Jens
Em DVD pela Lume Filmes
OPINIÃO 'Quem são segundos? A resposta é aterrorizante demais para por
em palavras...' O slogan de O Segundo Rosto não poderia ser mais honesto.
A perturbadora história, baseada num livro de David Elly, é narrada através
de imagens tão singulares e carregadas de significado que palavras não podem
definir a experiência de assisti-las. Esse thriller sci-fi de John Frankenheimer
perdeu-se no tempo desde que fracassou nos cinemas em 1966,
mas é redescoberto
no Brasil
pela Lume Filmes, que o lança em DVD neste mês. Livremente inspirado
no mito de Fausto, O Segundo Rosto já começa com os créditos do mestre
Saul Bass, um montage de um rosto distorcido que funciona acertadamente
como a nota inicial do filme. Em seguida conhecemos Arhtur Hamilton (John Randolph),
homem de 50 anos
que está sendo procurado pelo seu amigo Charlie. Mas Charlie
está morto, e Arthur custa a acreditar no que está acontecendo. Charlie
faz uma proposta a Arthur:
pede para que ele visite uma misteriosa companhia
(que curiosamente se esconde atrás de uma fábrica de carne) e peça por
uma vida completamente nova.
E é o que acontece eventualmente.
A companhia forja a morte de Arthur usando um outro corpo e transforma
o homem fisicamente, dando a identidade
de um pintor chamado Tony Wilson,
e o manda para um local distante e paradisíaco para viver a vida desejada
pelos homens de sua idade.
Nessa segunda fase do filme, Tony (agora
interpretado
por Rock Hudson) descobre que mudar de identidade para viver la vida loca
não é o que ele imaginava, e que voltar atrás é uma opção perigosa.
São os riscos
de vender a alma ao diabo. É uma bizarra viagem que Frankenheimer conta num
tom pesado de paranoia com o apoio do gênio da fotografia James Wong Howe,
que fez um trabalho notável com as lentes
e profundidade de campo, fotografando
com uma estranheza ímpar e riqueza visual admirável, quase alucinógena.
Foi a única indicação ao Oscar do filme, o que foi uma injustiça pois Rock Hudson
está em um de seus melhores momentos e também merece créditos.
A primeira reflexão que o filme geralmente provoca é sobre a paranoia da classe
media,
que acredita que 'tinha uma vida antes do casamento e hoje não tem mais',
e visto sob esse prisma o filme soa moralista no final. Mas será que ao escalar o astro
Rock Hudson para o papel de Tony, não estaria Frankeheimer querendo dizer
outra coisa? Hudson foi um galã que passou por um casamento frustrado e que
depois teve sua homossexualidade descoberta pelo grande público.
Uma interessante
analogia entre a vida de Hudson e seu 'segundo rosto' e o filme de Frankenheimer
pode ser feita, já que há alguns traços na história que
fomentam essa idéia,
como a 'fidelidade eterna' entre Arthur e Charlie, a beleza física pós-operatória,
a vida que Arthur/Tony
leva depois do recomeço, a cerimônia do vinho à Baco...
mas que ainda leva
a um final moralista. Até lá, O Segundo Rosto oferece muito
o que pensar e, principalmente, muito o que se ver. Joia rara a ser descoberta.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA ![]()
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The Last Picture Show 1971 EUA 2h06min RT 10,0
de Peter Bogdanovich com Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybill Shepherd
Em DVD pela Sony Pictures
OPINIÃO No início dos anos 70 o cinema americano passou por uma drástica
transição. O produtor deixava de ser o pivô na produção de um filme e os estúdios
começaram a perder o direito ao corte final, enquanto os diretores, inspirados
nas idéias de diretor-autor de Jean-Luc Godard e da nouvelle vague, brigavam
pela visão própria dos filmes que faziam. Nessa leva de diretores
rebeldes
estava o narcisista novaiorquino Peter Bogdanovich. Fã inveterado de cinema,
ele se tornou amigo de alguns de seus ídolos como Orson Welles, Howard Hawks
e John Ford, que inflaram o ego e ajudaram a deslanchar a carreira do então jovem
diretor. Foi quando Bogdanovich adaptou o livro The Last Picture Show com
a ajuda
do autor Larry McMurtry (Laços de Ternura e roteirista de Brokeback
Mountain),
seu segundo filme. Independente do que tenha acontecido com a carreira
do cineasta ou do que se ouve sobre ele, A Última Sessão de Cinema revela
porque Bogdanovich foi um dos diretores mais importantes de sua época.
Na pequena e fictícia cidade texana de Anarene, os anos 50 começam devagar.
Sonny (Timothy Bottoms, de Johnny Vai à Guerra) e Duane (Jeff Bridges) são
amigos que passam o tempo no cinema de Sam The Lion (Ben Johnson)
e na lanchonete do mesmo, entretendo a garçonete Genevieve (Eileen Brennan).
Enquanto isso, a belíssima Jacy Farrow (Cybill Shepherd) começa a descobrir
sua sexualidade e seu poder sobre os homens. A vida dos três personagens avança
com uma insuspeita inocência até que, aos poucos, eles se perdem num emaranhado
de situações e sentimentos que os tiram, inconscientemente ou não, da inércia
da cruel Anarene. Sonny envolve-se com Ruth Popper (Cloris Leachman), mulher
de meia idade e esposa do treinador; Duane revê seus conceitos de amizade
e masculinidade ao se apaixonar por Jacy, que se vê cada vez mais promíscua.
Sua mãe Lois (Ellen Burstin) afunda numa vida indesejada enquanto relembra
seu passado e trai seu marido com Abilene (Clu Gulager). E no cerne dessa cidade
estão o bom e velho cinema Sam The Lion e seu filho doente Billy (Sam Bottoms,
irmão de Timothy).
A Última Sessão de Cinema se virou para o interior literal dos Estados Unidos
com olhos destemidos e incisivos
procurando o interior
de seres
humanos postos
numa condição de isolamento. O que encontrou foi uma sociedade que se
autodestrói às escondidas, que não amadurece e precisa transgredir para sobreviver.
As personalidades trágicas de Anarene são filmadas com curiosidade e estranha
discrição por Bogdanovich, que faz transparecer com naturalidade a melancolia
destes
se sobrepondo às máscaras sociais usadas. Foi uma pancada nos americanos
(muitos torceram o nariz na época) e,
ao mesmo tempo, uma evocativa elegia
ao nostálgico fim de um lugar e de uma era, seja temporral ou cinematográfica,
com uma autenticidade
perturbadora e efeito universal. As cortantes cenas finais
são para ficar guardadas na memória. A Última Sessão de Cinema também
conta com notáveis fotografia e montagem, além das performances brilhantes
de todo o elenco, incluíndo Jeff Bridges,
Ben Johnson
e as adoráveis Ellen Burstin
e Cloris Leachman, ambas em personagens especiais
no filme (os quatro foram
indicados ao Oscar, Johnson e Leachman venceram na categoria de coadjuvantes).
O DVD lançado pela Sony em 2004 faz jus ao filme. Além de apresentar a versão
do diretor com oito minutos a mais de duração, traz um recente documentário
de uma hora chamado The Last Picture Show: A Look Back, contando sobre
o processo de produção do filme
através de depoimentos de Bogdanovich, elenco
e equipe, e outro realizado alguns anos após o lançamento oficial de A Última
Sessão de Cinema explicando porque o filme foi relançado com um minuto a mais,
além dos eventuais trailers e filmografias. E se o material adicional peca pela falta
de legendas, vale o investimento pelo valor do filme em si. Se a palavra 'clássico'
está relacionada a uma seleta lista, Bogdanovich pode se orgulhar por seu filme
fazer parte dela. Enquanto o conceito
de cinema existir, independente de qual for,
A Última Sessão de Cinema será lembrado com doce nostalgia.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
FOME ANIMAL ![]()
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Dead Alive/Braindead 1992 Nova Zelândia 1h39min RT 8,5
de Peter Jackson com Timothy Balme, Diana Peñalver, Elizabeth Moody, Ian Watkin
Em DVD pela WorksDVD
OPINIÃO Em 1987, um pequeno e nojento filme chamado Bad Taste (aqui
conhecido como Trash - Náusea Total) revigorava a cena B apostando no
bom humor e no gore absoluto.
Vinha da Nova Zelândia, foi feito da
maneira
mais caseira
possível com ajuda de amigos e vizinhos e trazia como protagonista
o próprio diretor, Peter Jackson, então com 25 anos de idade. Como o sucesso
absoluto do filme, Jackson conseguiu um orçamento um pouco mais robusto
para realizar seu próximo projeto, chamado Fome Animal, onde ele mais
uma vez transpôs para a tela suas obsessões com sangue, desmembramentos
e criaturas bizarras. Isso tudo bem antes dele atingir o estrelato com a trilogia
dos anéis e o remake do gorila gigante.
Em Fome Animal, uma ratazana infectada com uma doença estranha morde
seres humanos e acaba presa numa jaula de zoológico. O local é frequentado
por Lionel Cosgrove (Timothy Balme, idêntico ao Steve Carrell), um inseguro
rapaz que vive com sua mãe Vera (Elizabeth Moody), megera que controla
a vida do filho para não perdê-lo de vista. Essa relação edipiana é abalada
pela adorável Paquita (Diana Peñalver), neta de macumbeira que acredita
que Lionel é o amor da sua vida. Os dois acabam namorando, mas, num infortúnio,
Vera é mordida pela ratazana doente no zoológico e é infectada. Ela morre e,
inexplicalmente, volta à vida com muita vontade de comer carne humana.
É quando o lado carniceiro do filme atinge níveis altíssimos, numa série
de imagens grotescas e nauseantemente engraçadas.
Fome Animal investe seu humor negro na sátira à sociedade neozelandesa
dos anos 50 e seus costumes, (desaprovação do romance interracial, importância
do status social) com o apoio de hilários personagens que, cada vez que se tranformam
numa criatura canibal, garantem gargalhadas misturadas com ânsias de vômito.
Aliás, Jackson apresenta uma variedade impressionante e inventiva de
maneiras para
se trucidar uma criatura. Cabeças despencam, agulhas
entram em lugares incômodos,
pessoas se partem ao meio, explodem em pús verde, engolem cachorros inteiros
e por aí
vai, culminando num banho de sangue onde nosso herói salva o dia com
com um cortador de grama afiadíssimo em punho. É de fazer você se afastar da TV
pra não terminar ensaguentado. E o melhor, sem perder a humildade nem levando-se
a sério
em hipótese alguma. Com o fracasso de Um Olhar do Paraíso, faço aqui meu
humilde pedido à Peter Jackson: faça como Sam Raimi e retorne às origens.
É bom pra botar o pé no chão novamente e
honrar esse gênero tão malvisto
e malquisto em Hollywood. Quem gosta de 'terrir gore', está sempre faminto por mais.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES ![]()
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An American Werewolf in London EUA 1981 1h37min RT 8,8
de John Landis com David Naughton, Jenny Agutter, Griffin Dunne
Em DVD pela Universal
OPINIÃO A Universal Studios é conhecida como a casa de vários monstros
do cinema e produtora de uma série de filmes baseados neles, como Drácula,
Frankenstein, a Múmia,
o Homem Invisível, o Monstro da Lagoa Negra e um dos
mais famosos, o Lobisomem. Frequentemente estrelados por Boris Karloff, Bela
Lugosi e John Carradine, esses filmes tornaram-se fonte de dinheiro para o estúdio,
que produzia pelo menos um desses filmes por ano. 1941 foi o ano de
O Lobisomem,
protagonizado por Lon Chaney. Nessa crise criativa que vive a nova Hollywood,
surgiu a oportunidade de refazer esse clássico, e este estréia nesse fim de semana
no Brasil com Benício del Toro estrelando. Dica de cinéfilo: esqueça esse remake,
passe na locadora e descubra essa outra versão da história do homem que vira
lobo
produzida pela própria Universal em 81: Um Lobisomem Americano em Londres.
Não há nada de novo na história: dupla de amigos americanos viajam à Londres,
terra da lendária criatura. Lá são atacados pela besta, que é encoberta pelos
moradores locais.
Jack (Griffin Dunne) morre e David (David Naughton) é mordido
pelo bicho. David sofre
de alucinações após o ocorrido, e percebe que algo nele está
mudando, para a preocupação de sua namorada enfermeira Alex (Jenny Agutter)
e do Dr. Hirsch (John Woodvine). Cada vez mais consciente de sua condição graças
às visitas do cadáver de Jack, David vê-se dividido entre seu novo instinto assassino
e o perigo que é para os próximos. John Landis (Os Irmãos Cara-de-Pau) dirige
o thriller num tom que mistura horror e comédia com perfeição. Ciente de que um
homem peludo mordendo gente não é algo para se levar à sério, Um Lobisomem
Americano em Londres jamais tenta ser mais do que é: um filme B enxuto com
um monstro convincente, piadas, sexo, trilha cool e diversão trash.
O ponto alto dessa versão, além da despretensão, é o incrível trabalho de Rick Baker,
também maquiador do novo lobisomem. A sequência da tranformação de David
é algo agoniante e surreal, inacreditável em seus detalhes como as mãos e os pés
que crescem, os pêlos que nascem e o rosto que se projeta para frente. Baker ganhou
um Oscar por seu trabalho nesse filme, nada mais justo.
O remake perde feio nesse
quesito ao utilizar apenas maquiagem digital na hora da transformação, o que tira
credibilidade e verossimilhança. O protagonista
David Naughton também
merece créditos
pela sua atuação 'selvagem', ele se divertiu e nós o acompanhamos. Existe também
uma abrupta cena de acidente que choca pela crueldade e pelo realismo
com que
é mostrada, e o final num cinema pornô é uma joia. Aqui no Dicas de Cinéfilo já falei
sobre dois outros filmes de lobisomem, os ótimos Possuída e Diabel. Um Lobisomem
Americano em Londres se junta ao time dos clássicos modernos sobre a criatura
lupina (que não inclui os Anjos da Noite nem esse novo remake de quinta categoria).
Assista em noite de lua cheia.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
ESTRANHOS PRAZERES ![]()
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Strange Days EUA 1995 2h25min RT 5,9
de Kathryn Bigelow com Ralph Fiennes, Angela Bassett, Juliette Lewis
Em VHS e download
OPINIÃO A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas começa a década
hospedando um embate estilo Davi e Golias no Oscar 2010: de um lado, com 9 indicações,
o blockbuster Avatar, filme de maior bilheteria da história e com efeitos visuais nunca vistos
antes;
do outro, também com 9 indicações, o pequeno e arrasador Guerra ao Terror,
que arrebatou fãs ao oferecer um olhar peculiar sobre a Guerra do Iraque. Como nas
melhores brigas, seus respectivos diretores James Cameron e Kathryn Bigelow já foram
casados. E como nos melhores casamentos, o casal trabalhou junto em contribuições
que os fizeram crescer pessoal, profissional e artisticamente. O filho desse matrimônio
foi Estranhos Prazeres (ainda não lançado em DVD por aqui) que não poderia definir
e mesclar melhor as identidades cinematográficas de seus autores.
Em
Estranhos Prazeres tem-se o choque de um roteiro de boa premissa desenvolvido
na base do lugar-comum e uma direção competente e imaginativa que faz de tudo para
que os chavões do roteiro não pareçam tão repetitivos. Baseado numa história própria,
Cameron, com ajuda do co-roteirista Jay Cocks, pôs no papel ideias que viriam a influenciar
(e muito) sua última e colossal empreitada: numa Los Angeles alternativa, o século XX está
prestes a acabar. Num mundo mergulhado no crime e na violência, Lenny Nero (Ralph Fiennes)
é um ex-policial que trabalha ilegalmente com gravações squid, pequenos discos que contém
memórias, emoções e trechos da vida copiados diretamente do córtex de um ser humano,
e que podem ser revisitadas por outra pessoa, desde que esteja disposta a pagar para viver
a vida de um estranho por certo período de tempo. O próprio Lenny costuma reviver
seu passado com Faith (Juliette Lewis, sexy e descobrindo seus dotes vocais), sua jovem
ex-namorada que agora é uma famosa vocalista de uma banda de rock. A vida de Lenny
sofre uma guinada quando ele recebe um disco anônimo com a gravação de um homem
assassinando uma prostituta amiga de Faith. Logo ele vê-se preso numa teia de intrigas
e assassinatos, e conta com ajuda de sua amiga Macey (Angela Bassett, excelente) e Max
(Tom Sizemore) para
desvendar
o caso e salvar sua vida e a de Faith.
É um thriller
neo-noir sci-fi que só não vira um samba do Na'vi doido graças a mão firme
de Bigelow ao juntar as subtramas com alguma coerência.
São fascinantes as similaridades entre Estranhos Prazeres e Avatar. E não me refiro
apenas a 'cena-gêmea' onde um homem sem pernas redescobre o prazer de correr
ao testar
um disco squid (meu queixo foi ao chão), mas aos conceitos de 'ser o outro' que ambos
os filmes dividem.
Os protagonistas só conseguem ser felizes quando não estão em seu
próprio corpo, e se em Avatar essa idéia é utilizada com extrema pieguice e melodrama,
em Estranhos Prazeres ela tende a melancolia e a triste aceitação de uma realidade
indesejada por parte dos angustiados personagens. Ainda assim, o filme esquece do assunto
quando decide focalizar na investigação do assassino, deixando a impressão de que
as gravações squid são apenas muletas narrativas
para que o crime e a resolução deste
se desenrolem.
Com todos os problemas de roteiro, Estranhos Prazeres tem saldo
positivo
por ainda ser um thriller de ranger os dentes. A ágil e movimentada câmera
de Bigelow fazem as
2h25min de duração parecem bem menos
do que são. As incríveis
cenas das gravações squid, filmadas com câmeras especiais para que a sensação de ponto
de vista fosse a mais real possível, são brilhantemente coreografadas por Bigelow, assim
como as pontuais sequências de ação e pancadaria. Visualmente o filme é puro anos 90
(hoje está mais para retrô futurista), o que é bastante curioso tendo em vista que
as filmagens ocorreram apenas cinco anos antes
do tempo diegético. Estranhos Prazeres
sastifaz como entretenimento e como um olhar bizarro num futuro 'anos 2000' que não
é tão passado assim. Quanto ao duelo dos ex, direção se sobrepõe ao roteiro, ponto
pra Bigelow. No dia 7 de março veremos se o pussy power vai desbancar o rei do mundo...
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
DESONRA ![]()
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Disgrace Autrália/África do Sul 2008 1h59min RT 8,4
de Steve Jacobs com John Malkovich, Jessica Haines, Eriq Ebouaney
Em DVD pela Flashstar
OPINIÃO O apartheid, época terrivelmente desumana e racista na história da África
do Sul, foi um tema recorrente nos filmes do ano passado. Cada um a sua maneira,
Distrito 9, Invictus e o menos popular Desonra analisaram as feridas causadas
pelas deturpadas leis segregadoras na sociedade sulafricana. Distrito 9 usa
o gênero sci-fi para fazer uma alegoria documental sobre alienígenas presos
em Joanesburgo com eficiência e Invictus oferece um prisma positivista ao mostrar
Nelson Mandela supostamente unindo a nação através do esporte. Desonra também
é forte em alegoria, mas é praticamente um anti-Invictus: uma cruel história onde
seres humanos
miseráveis buscam redenção frente a desgraça, narrada com uma
veracidade perturbadora e longe de entregar resuloções baratas a problemas tão
profundos. Como de costume, poucos viram o filme ou sequer ouviram falar dele,
e sendo um filme tão pequeno em custos, sem efeitos visuais ou star power,
foi lançado diretamente nas locadoras do Brasil nesse mês.
Em Desonra conhecemos David Lurie (John Malkovich), professor universitário que
costuma passar um tempo com prostitutas. Ele se interessa por uma de suas alunas
e praticamente a força a sair com ele, drogando a garota e transando com ela quando
esta se encontra desmaiada. O caso segue até que a aluna decide revelar às autoridades
da universidade o que está ocorrendo, causando a demissão do niilista David. Ele, por
sua vez, muda-se para Eastern Cape para morar com Lucy, sua filha lésbica e recém
abandonada pela
esposa. Alguns dias depois, três rapazes negros invadem a casa deles,
estupram
Lucy, roubam e queimam parte do rosto de David. Lucy prefere não denunciar
o crime alegando que na cultura sulafricana é normal estuprar, pondo David em situação
crítica com sua filha, com o lugar e com sua própria masculinidade e humanidade.
O poder das imagens que se assiste não é mérito apenas do livro no qual foi inspirado
(Disgrace, do vencedor do prêmio Nobel J. M. Coetzee), mas da honesta e elegante
direção do australiano Steve Jacobs e do roteiro intrigante de Anna Maria Monticelli.
Desonra não apela para emoções fáceis e não eufemisa a história, o que pode causar
um saudável desconforto em quem assiste. Desconforto necessário para se compreender
o espírito pós-apartheid que impera no lugar. Além disso, David Lurie é um homem
destestável logo de início, e Malkovich é certeiro na performance de um personagem
tão cheio de camadas, assim como a estreante Jessica Haines. Não será um problema
se você souber admirar as brilhantes sequências do crime e do perdão à família da
aluna, apenas para citar exemplos. O gosto amargo na boca é forte , especialmente
no final que, ainda que difícil de aceitar, é relativamnete esperançoso e compreensível.
Desonra perturba pelas suas imagens, e ainda mais por não esconder o sentimento violento
nascido do choque político na África do Sul. Filme arrasador que merece ser descoberto.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
MINHA ADORÁVEL LAVANDERIA ![]()
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My Beautiful Laundrette Inglaterra 1985 1h37min RT 10,0
de Stephen Frears com Gordon Warnecke, Daniel Day-Lewis, Saeed Jaffrey
Em DVD pela Platina
OPINIÃO Durante o governo da infame Primeira-ministra Margaret Thatcher
na Inglaterra dos anos 80, muitos estrangeiros partiram para o país em busca
das promessas de riqueza. Em Londres, a família paquistã Hussein estabeleceu
uma vida estável liderada por Nasser (Saeed Jaffrey), mantendo pequenos negócios
e algumas atividades ilegais, sem medir esforços ou escrúpulos para conseguir dinheiro.
Nasser contrata seu sobrinho Omar (Gordon Warnecke) para trabalhar lavando carros,
a fim de ajudar seu irmão alcoólico Ali. A mãe de Omar suicidou-se e Ali vive na miséria
por causa de seus ideais socialistas, que vão de encontro ao Thatcherismo.
Omar é um jovem e ambicioso rapaz, que logo pede para o tio para gerenciar
um de seus negócios, uma quase falida lavanderia. Nasser gosta da idéia e dá permissão
para seu sobrinho, já mirando num casamento entre ele Tania Hussein (Rita Wolf).
O que Nasser não sabe é do relacionamento especial que existe entre Omar
e Johnny (Daniel Day-Lewis), garoto que costumava andar com um grupo de jovens
punks brancos e que ajuda Omar a reerguer a lavanderia.
Minha Adorável Lavanderia é ponto alto na carreira do inglês Stephen Frears.
Extremamente atento ao tempo e à época em que vivia, ele confeccionou, em parceria
com o roteirista Hanif Kureishi (Vênus, Recomeçar), uma crônica autêntica e detalhada
da situação econômica e social da Londres de Thatcher, destrinchando as tensões raciais,
o ódio aos imigrantes asiáticos e um romance gay sem apelar pra propaganda
nem levantar bandeiras.
É uma descrição de um trecho da história britânica fascinante
por não ser 100% fiel ao realismo e nem dar uma pretensiosa aula ao espectador,
que é capaz de entender e se indentificar com ambiente e personagens mesmo sem
ter vivido naquele lugar naquela época.
Universal, atemporal e ao mesmo tempo
tão particular.
É curioso como Minha Adorável Lavanderia vive e respira anos 80 - dos cabelos
e das roupas aos neons e à trilha sonora - mas jamais soa velho, preso àquela década.
A cultura oitentista choca-se com a então moderna câmera de Frears, que faz um
cinema quase mágico, fazendo um paradoxo que deu sobrevivência ao filme.
Também interessante é o olhar do diretor inglês sobre o casal homossexual.
Praticamente não há uma trama quanto ao relacionamento de Omar e Johnny,
eles simplesmente namoram e trabalham juntos em prol da lavanderia. Nunca
se questionam quanto à sair do armário e nenhum dos outros personagens demonstra
grande
interesse na relação dos dois. O romance é coadjuvante na narrativa, mas
é protagonista no significado da história e em poder imagético, amor belamente
filmado.
Também é extraordinário o elenco, especialmente o sumido Warnecke e Day-Lewis,
em início de carreira e já se mostrando imensamente maduro. Filme essencial,
independente de sua visão política, raça, orientação sexual ou local onde mora.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
LUNAR ![]()
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Moon Inglaterra 2009 1h37min RT 8,9
de Duncan Jones com Sam Rockwell, Dominique McElligot, Kevin Spacey
Em DVD pela Sony
OPINIÃO O ano passado foi curioso quanto a filmes de ficção científica, ou sci-fi.
2009 viu o retorno de Star Trek surpreender até os trekkies mais xiitas e conquistar
público, crítica e prêmios; Distrito 9, que pegou os cinemas de supetão com um enredo
intrigante e efeitos que vão além de seu relativo baixo orçamento; e o filme-evento
Avatar, bem mais interessante como avanço tecnológico que como cinema.
Mas, abaixo do circuito mainstream, o indie britânico Lunar agradou cinéfilos
sedentos por um cinema mais interessado no personagem que no espetáculo.
Não que Lunar não tenha uma queda pelo fantástico. Algumas imagens construídas
digitalmente são de grandiosa beleza plástica, assim como são a maioria das tomadas
que se passam no ambiente externo da Lua, impressiona o que foi feito
com tão poucos
recursos. Felizmente, o filme não se deixa encantar por seus méritos técnicos,
focando no dilema do protagonista Sam Bell. Personificado com entusiasmo pelo
excelente Sam Rockwell (Os Vigaristas, Frost/Nixon), Sam é um astronauta que está
prestes a terminar seu contrato de três anos na estação da empresa Lunar. Logo
no começo do filme aprendemos que a Lua é abundante
do gás hélio-3, e que tal
elemento é um combustível limpo e em demanda na Terra, onde o gás é raro.
O trabalho de Sam é periodicamente colher e enviar o hélio-3 para a Terra. Como
a comunicação com seu planeta natal é complicada e escassa, o único relacionameto
que Sam cultiva é com o robô ajudante GERTY (voz de Kevin Spacey). Faltando apenas
duas semanas para seu contrato acabar, Sam sofre um acidente na colheitadeira
e é resgatado pelo robô. Crente que está sofrendo de alucinações, ele volta
ao local do acidente
e faz uma surpreendente descoberta que coloca em jogo sua identidade e sanidade.
Há ecos óbvios de 2001 - Uma Odisséia no Espaço e várias referências a outros filmes
de ficção científica, mas o que faz de Lunar um exemplar
proeminente no gênero
são as questões morais e existenciais que se colocam. Não é 'original' tampouco
revolucionário, mas providencia uma inteligência que faz falta no mainstream.
Duncan Jones exibe ambição em sua estreia atrás da câmeras, e merece créditos
por isso, mas preciso confessar que às vezes a
narrativa parece emperrar, dando
a impressão de se estar assistindo a um simples exercício de estilo. Nada que afunde
o filme, mas manter a tensão é essencial num filme desse tipo. Sorte de Jones
ter Rockwell dominando a tela, ele coloca Lunar no bolso e dá vida ao filme.
A trilha sonora de Clint Mansell também é mais um memorável trabalho do compositor.
Para fãs do gênero é um presente. O DVD vem com making of, comentários
e material especial sobre o filme.
Curiosidade: O diretor Duncan Jones é filho de David Bowie. Qualquer
referência a Space Oddity não é mera coincidência...
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
O SEGURANÇA FORA DE CONTROLE ![]()
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Observe and Report EUA 2009 1h50min RT 5,0
de Jody Hill com Seth Rogen, Anna Faris, Michael Peña, Ray Liotta
Em DVD pela Warner
OPINIÃO Uma das comédias mais engraçadas de 2009, senão a melhor comédia,
não passou nos cinemas.
Lançado em abril nos EUA, Observe and Report dividiu
a crítica e foi rejeitado pelo público, acusado de
ser um filme perverso, hediondo,
vulgar, obsceno, subversivo, deprimente e com um humor negro demais.
E eles estavam certos. Fazer o quê se os yankees são tão castos e politicamente
corretos? O Segurança Fora de Controle (obrigado por mais uma tradução tosca,
Warner Bros. Brasil) é tão sujo, demente, pesado e brutal que é impossível
conter o choque à primeira vista. E também é impossível conter as gargalhadas.
Ronnie Banhardt
(Rogen) é um segurança bipolar que trabalha num movimentado
shopping. No local ocorre uma investigação de ataques
cometidos por um tarado
que se mostra para mulheres indefesas no estacionamento, comandado pelo detetive
Harrison (Liotta). Quando Brandi (Faris), garota da sessão de perfumaria por quem
Ronnie é apaixonado, é atacada pelo tarado, o jovem segurança se une aos seus
parceiros Dennis (Peña), Charles (Jesse Plemons), John e Matt (John e Matt Yuan)
para procurar o criminoso
e se vingar. Mas o temperamento e os métodos de Ronnie
são bem peculiares. Adicione piadas racistas, sexistas, muita violência, drogas, nudez,
diálogos ácidos e personalidades destetáveis para ter uma idéia
do quão cruel o filme é.
O diretor Jody Hill (do inédito The Foot Fist Way), com suas influências Tarantinescas,
abandona qualquer eufemismo e pisa na jaca, para o horror
dos puritanos e para
a diversão dos seres humanos que sabem diferenciar
cinema de realidade.
Observe and Report funciona como uma assustadora alegoria americana,
sob a ótica de Jody Hill. Ronnie
é o típico americano médio, gordo, alienado e com
problemas familiares. Ele não é gostável, é grosso, mal-educado e não tem modos
nem para se relacionar com a gentil atendente da cafeteria, mas lá no fundo
nutre o desejo de ser
admirado por ser um herói, mesmo sem perceber que sua
definição de heroísmo seja um tanto quanto deturpada. Ronnie vive em seu mundinho
fechado e, quando não entende ou não sabe o que fazer, recorre à violência.
O shopping é síntese perfeita da nação norte-americana (e, por consequência,
dos países de cultura americanizada) e Ronnie caracteriza o homem que cresceu
nesse lugar. O fato de Ronnie ter um pé na realidade talvez seja o que mais amedronta
no filme, e isso é desagradável de se constatar. Observe and Report ainda tem o melhor
desempenho da carreira de Seth Rogen, que nunca caiu tão bem num papel,
e da sempre hilária Anna Faris. A cena em que seus personagens tem um encontro
está em algum lugar entre o muito nojeto e o extremamente cômico. Destaque também
para Michael Penã como o estereotipado Dennis, também muito engraçado, e à trilha sonora
rock'n'roll. O DVD vem no formato original widescreen e com erros de gravação nos Extras.
Obs.: Quentin Tarantino elegeu Observe and Report um dos melhores filmes de 2009.
Precisa de mais algum motivo para ir agora à locadora?
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
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Dicas de Cinéfilo Especial 2009
> Com a chegada do Blu-Ray, alguns videntes previram o fim da era do DVD,
mas o disquinho ainda tem força nesse mercado de cinema que já perde espaço para
o download. Independente da forma com que se assiste a um filme (o cinema
ainda é o lugar favorito do Kinemail), o importante é que os cinéfilos saiam lucrando.
Então, esse Dicas de Cinéfilo Especial de fim de ano traz uma lista dos lançamentos
em DVD mais importantes, interessantes e necessários
de 2009 sem ordem
de preferência
+ 15 filmes que você ainda não viu no seu DVD Player (não legalmente, rsrs).
Encabeçando a lista de lançamentos está Infâmia, de William Wyler, e a lista completa
segue abaixo, logo após a crítica. Bons filmes em 2010! :)
Top Ten Kinemail DVDs 2009
1. INFÂMIA ![]()
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The Children's Hour EUA 1961 1h47min
de William Wyler com Audrey Hepburn, Shirley McLaine, James Garner
Em DVD pela Versátil
OPINIÃO Logo após o sucesso de Ben-Hur, William Wyler decidiu refazer um antigo
filme seu: These Three, de 1936, que
relatava a história de um polêmico triâgulo
amoroso. Tal filme foi inspirado numa peça de
Lillian Hellman, que também assinou
o roteiro. A peça original era sobre duas professoras de uma escola para garotas
que são acusadas por uma aluna
de manter uma relação lésbica, o que causa grande
rebuliço na sociedade. De acordo com Hellman, o filme não é sobre homossexualismo,
e sim sobre a fofoca e os efeitos trágicos consequentes. O tema original
foi resgatado
por Wyler em Infâmia, recém lançado em DVD pela Versátil.
Audrey Hepburn
e Shirley McLaine protagonizam a trágica história como
Karen,
jovem que se casará com Joe (James Garner), e sua amiga Martha, com quem
ajudou a fundar a escola. Quando a menina-problema Mary Tilford (Karen Balkin,
um demônio) resolve se livrar da escola, ela conta para a avó Amelia (Fay Banter)
sobre uma suposta relação secreta entre as professoras. Amelia retira a neta da escola,
assim como os outros pais e avós, e processa Karen e Martha. Como não existem provas
de tal relacionamento as professoras ganham o caso, mas
a vida se complica para
as duas, especialmente após Martha revelar um segredo...
Na época, Infâmia poderia até soar moderno.
Hoje soa datado e tímido ao abordar
o tema (que de uma forma ou de outra se torna
o conflito do filme). Poderia-se ter
evitado o melodrama se o roteiro simplesmente aceitasse a personagem Martha,
mas fica claro que a velha Hollywood
era intolerante com os gays e isso compromete
o final do filme. Ainda assim, há motivos de sobra para se assistir Infâmia, como a direção
classuda de Wyler, os bons diálogos e as ótimas performances de Hepburn e McLaine,
a segunda fazendo milagre num papel complicado
e mal-resolvido. Interessa como
um registro
sócio-cultural de uma época e de um lugar onde predominavam a ignorância
e a intolerância. O DVD traz apenas trailer original e biografia de William Wyler.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
2. SHORT CUTS - CENAS DA VIDA ![]()
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Short Cuts EUA 1998 2h45min RT 9,4
de Robert Altman com Andie MacDowell, Bruce Davison, Jack Lemmon, Robert Downey Jr.
Em DVD pela Lume
> Clássico de Robert Altman finalmente ganha vida digital no Brasil em belo widescreen,
num dos lançamentos mais importantes da Lume Filmes.
3. A FESTA NUNCA TERMINA ![]()
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24 Hour Party People Inglaterra 2002 1h57min RT 8,5
de Michael Winterbottom com Steve Coogan, Shirley Henderson, Paddy Considine
Em DVD pela Fox/Videolar
>A história de Tony Wilson e da gravadora Factory Records passou um tempo sumida,
mas
o filme rock'n'roll de Winterbottom agora pode ser visto (e ouvido) em casa.
4. APOCALYPSE NOW ![]()
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EUA 1979 2h23min RT 9,8
de Francis For Coppola com Martin Sheen, Marlon Brando, Robert Duvall
Em DVD pela Universal
> Sim, a versão Redux está disponível há muito tempo. Mas quando é que a Universal
lançaria a versão original mais curta de cinema? Em 2009, é claro. Amém.
5. 1984 ![]()
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Inglaterra 1993 1h57min RT 7,9
de Michael Radford com John Hurt, Richard Burton, Suzanna Hamilton
Em DVD pela Lume
> Mais um clássico da Lume, que este ano também nos deu If..., A Última Tempestade,
Naked, Kes e O Sopro no Coração. Pra comprar junto com o livro de George Orwell.
6. SALÓ - OU OS 120 DIAS DE SODOMA ![]()
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Itália 1975 1h57min RT 7,1
de Pier Paolo Pasolini com Paolo Bonacelli, Giorgio Cataldi, Caterina Boratto
Em DVD pela Cinemax
> O perturbador filme de Pasolini estava virando lenda quando repentinamente aportou
nas prateleiras brasileiras. Bom pra assistir com a família nessa época natalina.
7. O HOMEM QUE VIROU SUCO
Brasil 1979 1h30min
de João Batista de Andrade com José Dumont, Aldo Bueno, Ruthinea de Moraes
Em DVD pela Original/Visocopy
> Clássico brasileiro sobre poeta nordestino vivendo o inferno em São Paulo chega
às lojas e é imprescindível para colecionadores e cinéfilos.
8. CANNIBAL HOLOCAUST ![]()
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Itália 1980 1h35min RT 7,1
de Ruggero Deodato com Robert Kerman, Francesca Ciardi, Perry Pirkanen
Em DVD pela Platina Filmes
> Outra lenda. O terror exploitation italiano vê a luz do dia no Brasil, e ainda deve
causar polêmica, repúdio e adoração. Mais uma boa indicação natalina.
9. MULHERES NO FRONT
Le Soldatesse Itália 1965 2h00min
de Valerio Zurlini com Anna Karina, Lea Massari, Maria Laforêt
Em DVD pela Versátil
> Incluído na segunda caixa da Coleção Valério Zurlini, onde ainda vem acompanhado
de O Deserto dos Tártaros e Sentado à Sua Direita. Belo trabalho da Versátil,
que já lançou seis filmes do mestre italiano.
10. LÚCIO FLÁVIO, O PASSAGEIRO DA AGONIA ![]()
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Brasil 1977 1h58min
de Hector Babenco com Reginaldo Faria, Ana Maria Magalhães, Milton Gonçalves
Em DVD pela Europa Filmes
> A Europa Filmes quase nos faz perdoar pela negligência com À Prova de Morte
de Tarantino
ao lançar o esquecido filme de Babenco em versão digital. Quase.
+15 filmes que você AINDA não viu em DVD
1. DIGAM O QUE QUISEREM ![]()
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Say Anything EUA 1989 1h40min RT 10,0
de Cameron Crowe com John Cusack, Ione Skye, Lili Taylor
> Como assim, o melhor de Crowe é um dos filmes teen mais doces já feitos e não tem no Brasil?
2. CABRA MARCADO PRA MORRER ![]()
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Brasil 1985 1h59min
Documentário de Eduardo Coutinho com Ferreira Gullar, Tite de Lemos
> Nada justifica a ausência desse clássico do documentário mundial do catálogo de DVDs.
3. NASHVILLE
EUA 1989 2h39min RT 9,5
de Robert Altman com Ned Beatty, Keith Carradine, Geraldine Chaplin
> Se Short Cuts chegou, porque não o pouco visto Nashville? Kinemail nunca viu.
4. A MONTANHA DOS SETE ABUTRES ![]()
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Ace in The Hole EUA 1951 1h51min RT 8,6
de Billy Wilder com Kirk Douglas, Jan Sterling, Robert Arthur
> Um dos grandes clássicos de Wilder ainda não ganhou versão nacional em DVD.
5. PÂNICO ![]()
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Scream EUA 1996 1h51min RT 8,3
de Wes Craven com Neve Campbell, Courtney Cox, David Arquette
> Partes 2 e 3 nas lojas, parte 4 em produção, mas... cadê o primeiro (e melhor)?
6. SWINGERS - CURTINDO A NOITE ![]()
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EUA 1996 1h36min RT 8,5
de Doug Liman com Vince Vaughn, Jon Favreau, Ron Livingston
> Vince Vaughn já subiu e desceu na carreira e Swingers continua inédito em DVD.
7. CRUMB ![]()
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EUA 1995 1h59min RT 9,4
Documentário de Terry Zwigoff com Robert Crumb
> Quase ninguém viu esse documentário sobre o controverso quadrinista,
do mesmo diretor de Ghost World e produzido por David Lynch.
8. CLAMOR DO SEXO ![]()
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Splendor in The Grass EUA 1961 2h04min RT 9,1
de Elia Kazan com Natalie Wood, Warren Beatty, Pat Hingle
> Romance clássico de Elia Kazan ainda está pra ser descoberto pelas novas gerações.
9. UM SONHO SEM LIMITES ![]()
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To Die For EUA 1995 2h06min RT 8,7
de Gus Van Sant com Nicole Kidman, Joaquin Phoenix, Matt Dillon
> Van Sant mostrou ao mundo do que Nicole Kidman é capaz. Alguém lança
logo
esse filme em DVD antes que o Brasil se esqueça?
10. OS IDIOTAS ![]()
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Idioterne/The Idiots Dinamarca 1998 1h57min RT 7,0
de Lars Von Trier com Bodil Jogensen, Jens Albinus, Anne Louise Hassing
> O Dogma #2 continua inédito nas locadoras brasileiras,
assim como o #1, Ondas do Destino.
11. SAFE ![]()
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EUA 1995 1h59min RT 8,7
de Todd Haynes com Julianne Moore, Peter Friedman, Xander Berkeley
> Filme cada vez mais atual de Todd Haynes, com atuação extraordinária
de Moore, precisa ser visto.
12. O BALCONISTA ![]()
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Clerks EUA 1994 1h32min RT 8,7
de Kevin Smith com Brian O'Halloran, Jeff Anderson, Jason Mewes
> Primeirão do Kevin Smith, clássico independente americano que
só teve chance em VHS por aqui.
13. O OPOSTO DO SEXO ![]()
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The Opposite of Sex EUA 1998 1h57min RT 8,3
de Don Roos com Christina Ricci, Lisa Kudrow, Lyle Lovett
> Por onde anda essa hilária comédia sexual? Só Christina Ricci já faria
valer o lançamento.
14. A GRANDE NOITE ![]()
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Big Night EUA 1996 1h49min RT 9,6
de Stanley Tucci e Campbell Scott com Tucci, Isabella Rossellini, Minnie Driver
> Stanley Tucci provou-se não só um grande ator, mas um grande cineasta
nesse filme pouco falado, co-dirigido pelo também ator Campbell Scott.
15. AMIGOS PARA SEMPRE ![]()
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Four Friends EUA 1981 1h54min RT 8,3
de Arthur Penn com Craig Wasson, Jodi Thelen, Michael Huddleston
> Considerado o último grande filme de Arthur Penn, Amigos Para Sempre
coleciona fãs, mas ainda não ganhou chance em DVD.
Filipe Marcena | Fernando Vasconcelos
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DESEJO E OBSESSÃO ![]()
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Trouble Every Day França 2002 1h36min RT 4,5
de Claire Denis com Vincent Gallo, Tricia Vessey, Béatrice Dalle, Alex Descas
Em DVD pela Europa Filmes
OPINIÃO Quando um cineasta autoral decide mexer com filmes de gênero
o resultado geralmente é enervante, vide o recente Anticristo. O horror é um gênero
que divide gostos e opiniões, mas reações de extrema aversão ocorrem especialmente
quando o filme vem
de uma cabeça sem fronteiras para imagens perturbadoras.
'Perturbação' é uma palavra que cai muito bem para Desejo e Obsessão, filme
maligno da cineasta francesa Claire Denis. Ela oferece um olhar estranho e perverso
sobre a natureza sexual dos humanos numa obra tão bela quanto dolorosa.
Shane e June Brown (Vincent Gallo e Tricia Vessey) são recém-casados e viajam
a Paris na lua-de-mel. Ele parece atormentado por algo, o que deixa sua relação
com a esposa algo estranha. Paralelamente, vemos Léo
(Alex Descas, frequente
colaborador de Denis e que também está do inédito e maravilhoso 35 Doses de Rum),
médico e cientista que trata de sua mulher doente, Coré (Béatrice Dalle, a Betty Blue).
Ela, por sua vez, tem um desejo incontrolável por carne humana, e os estudos do seu
marido são um esforço para
entender seu comportamento. Num terceiro arco dramático
está Christelle (Florence Loiret), camareira do hotel onde os Brown estão hospedados.
Essas cinco pessoas terão sua vidas alteradas devido aos desejos
secretos de cada um.
O título original, 'Problemas Cotidianos', sugere uma interpretação curiosa sobre o filme.
As tendências canibais de Coré a levam a cometer crimes diários com homens desconhecidos.
Léo a compreende e tenta manter Coré longe de problemas maiores. Substitua 'canibalismo'
por 'traição' e ganhe novos conceitos para
as relações humanas. A suposta infelicidade
de Shane no novo casamento e a sensação de estar preso a isso fazem surgir nele a mesma
fome por carne de Coré, para o desespero de June. O sexo/desejo por humanos é o
causador
da destruição dos casais, e Denis leva essa ideia ao extremo da dor, psicológica e física.
O teor fantástico é base para a poética do filme, que pode ser considerado pessimista nesse sentido.
O que mais gosto em Desejo e Obsessão é o fato do filme ser puro cinema, ou seja, ele conta
sua história através de imagens. Denis evita diálogos expositivos (na verdade ela praticamente
evita qualquer diálogo, o filme é predominantemente
silencioso) e trabalha com a sugestão,
o que produz efeitos poderosos no espectador. As imagens sangrentas de carnificina sexual
fazem a alegria dos aficionados por terror e a performance de Béatrice Dalle
é excepcional
em suas bizarrices de canibal, mas Claire Denis jamais delimita Desejo e Obsessão ao mero
torture porn. Ao contrário, é um filme verdadeiramente sexy, fascinante
e doentio
sobre
sexualidade, compreensão e gente que come gente. Como qualquer pessoa normal.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
RIO CONGELADO ![]()
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Frozen River EUA 2008 1h37min RT 8,8
de Courtney Hunt com Melissa Leo, Misty Upham, Charlie McDermott
Em DVD pela Sony Pictures
OPINIÃO Se você é um cinéfilo de verdade, você conhece Melissa Leo. Pode não se lembrar do nome,
mas deve reconhecer seu rosto de algum filme. A atriz de 49 anos se fez notar como a mulher de Benício
Del Toro em 21 Gramas e como a dona do restaurante de Três Enterros, e desde então tornou-se operária
padrão da cena indie americana, atuando em cerca de sete filmes por ano. Seu talento foi reconhecido pela
Academia esse ano com sua premiada performance no thriller Rio Congelado, lançado recentemente em DVD,
onde ela interpreta Ray, uma mulher desesperada ao ser abandonada pelo marido que se envolve com Lila,
uma jovem de uma reserva Mohawk, a fim de ganhar dinheiro atravessando ilegalmente estrangeiros na mala
do carro. Para isso ela corre o risco de afundar num rio congelado que cruza a estrada da fronteia EUA/Canadá,
mas continua para sustentar seus filhos. Melissa mereceu todos os louros que recebeu e ainda merecia mais já que,
ao lado da também competente Misty Upham, é o que sustenta esse filme irregular, estréia da diretora
e roteirista Courtney Hunt no cinema.
Há boas intenções em Rio Congelado. As tensões étnicas da fronteira são o contraponto ideal para a redenção
de Ray e companhia, e Hunt captura isso com bastante humanidade, mas lá no fundo o filme é sobre maternidade.
Abandonada e pobre no alto de sua meia idade, Ray dá seu melhor para criar seus filhos dignamente.
As dificuldades
financeiras só aumentam e o sonho de comprar uma nova casa escorrega por entre seus dedos.
Quando, por acaso, a oportunidade de transportar imigrantes para o EUA surge, Ray vira um animal e toma
o controle da situação. Acaba se tornando mentora de Lila, que por sua vez foi mãe, mas teve seu filho roubado
pela sogra. Juntas elas desenvolvem seus laços maternos com suas crias e essa é a parte mais interessante
do filme. O problema de Rio Congelado provavelmente jaz na inexperiência de Hunt, autora de um roteiro forçado
e direção demasiado expositiva e de metáforas nada sutis.
Enquanto os atores se eforçam para tornar seus personagens em seres humanos verossimilhantes, a diretora
esquematiza o roteiro, fazendo com que suas imagens naturalistas filmadas em digital percam
a naturalidade
dos eventos. A cena do bebê perdido na mala, situação absurda, parece estar lá para desviar a atenção do público
e garantir um pouco de melodrama. Logo, a trama que interessa (Ray, a mãe leoa) é substituída por uma menos
convicente
e interessante (Ray, a criminosa de bom coração). Falta profundidade de roteiro, mas sobra riqueza
na face de Melissa Leo.
Ela que orienta Rio Congelado com seus olhos melancólicos que insistem em ser felizes
(a cena em que ela grava uma saudação no celular resume perfeitamente o espírito de Ray), entendendo
a personagem melhor
que
própria diretora do filme. Quem não conhece essa grande atriz ou quem já a admira
vai ganhar mais assistindo ao filme do que os desavisados.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
ADORAÇÃO ![]()
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Adoration Canadá 2008 1h40min RT 6,9
de Atom Egoyan com Devon Bostick, Scott Speedman, Arsineé Khanjian
Em DVD pela Sony Pictures
OPINIÃO Simon, um jovem estudante, traduz do francês para o inglês uma antiga notícia de jornal
que sua professora Sabine dita para a classe. É a história de um israelense que colocou uma bomba
na
bolsa da esposa grávida antes desta pegar um avião.
Intrigado, Simon reescreve a história
sob uma nova ótica, inspirando-se trágica história de seus pais. Ao ler o texto do rapaz, Sabine o convida
para a classe de teatro e o orienta na realização de um monólogo, mas com uma condição:
ninguém pode saber que a história é ficção.
O caso vira problema quando a escola, os amigos
e Tom, tio de Simon, são fortemente afetados pelo texto. Atom Egoyan, diretor do soberbo
O Doce Amanhã, volta a boa forma com Adoração, filme rico em personagens, estrutura e simbolismos.
É um filme de cronologia própria e pessoal que concede uma temporalidade bucólica
e um tom
de sonho um tanto obscuro à história. Com um belo trabalho de câmera, Egoyan filma o mundano
e o cotidiano delicadamente, com um olhar especial para pequenos fatos de forte significação.
Os atores o acompanham no seu minimalismo, onde Arsineé Khanjian, Scott Speedman
e Kenneth Welsh (o avô de Simon) dão performances excepcionais.
Tenho imensa curiosidade em saber se Egoyan escreveu seu roteiro de forma linear e costurou tudo
de novo na pós-produção ou se Adoração já nasceu com suas linhas narrativas descontruídas.
Talvez a expressão 'linha narrativa' menospreze o trabalho de Egoyan. O egípcio
não se prende
num formato clássico e tampouco recorta o filme apenas para sair do óbvio. O que temos aqui é um conjunto
de imagens que, quando unidas, transcendem como não o fariam se apenas narradas. Vamos ao passado
e ao presente dessa história sem saber ao certo se são memórias, sonhos, realidade ou ficção, e isso
pouco
importa. Adoração é um filme que você experimenta, sente e contempla, refletindo aos poucos
sobre as ideias vistas, tamanha sutileza com que são apresentadas. E não são poucas as ideias sobre
famílias disfuncionais, amores perdidos, heranças culturais, comunicação tecnológica, identidade,
preconceito, culpa, perdão... Eu poderia escrever linhas e mais linhas sobre os temas de Adoração
caso quisesse me aprofunda
neles, mas prefiro fazer uma recomendação efusiva ao leitor para que
alugue esse filme o quanto antes. Adoração teve uma curta janela de espaço entre
o lançamento
nos cinemas do sudeste, que ocorreu em setembro,
e a chegada em DVD, o que cancelou sua estreia
aqui em Recife. Ao menos a Sony caprichou no disquinho, que traz um esclarecedor making of,
várias cenas excluídas,
bastidores das filmagens e longa entrevista com o diretor. Pequena joia.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
O ESPIÃO ![]()
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Fifty Dead Men Walking Inglaterra/Canadá 2009 1h57min RT 8,6
de Kari Skogland com Jim Sturgess, Ben Kingsley, Kevin Zegers, Natalie Press
Em DVD pela Imagem Filmes
OPINIÃO Durante os anos 80, no meio da quase guerra civil em que se encontrava a Irlanda
um rapaz chamado Martin McGartlands serviu de espião da Polícia Britânica no grupo terrorista
IRA, ou Irish Republican Army. Ele arriscou sua vida e abandonou sua família para salvar terceiros.
É uma história incrível e cheia de ambiguidades sobre um súbito herói que até hoje corre para não
morrer. Essa história virou um livro chamado "Cinquenta Homens Mortos Andando", escrito pelo próprio
Martin e pelo seu mentor da polícia Nicholas Davies, mas O Espião é uma cinebiografia não autorizada,
escrita e conduzida pela canadense Kari Skogland (Emboscada).
Interpretado com energia por Jim Sturgess (aqui encabeçando um elenco com desenvoltura
pela terceira vez na sua curta carreira de ator) Martin passa seus dias com seu amigo
Sean (Kevin Zegers, de Transamérica) roubando e vendendo roupas caras. Ele é católico,
e numa Belfast dominada por protestantes
fica difícil conseguir um emprego. Martin também trabalha
para a IRA, ainda que com certo desgosto e averssão à violência. Depois de alguns problemas com
os próprios integrantes do IRA, ele é seduzido pela oferta do agente Fergus (Ben Kingsley e sua peruca,
interpretando uma versão de Nicholas Davies) e aceita se tornar um espião
da polícia. Nesse meio tempo,
Martin
namora e engravida Lara (Natalie Press, de Meu Amor de Verão), nutrindo uma forte paixão
pela garota. As reponsabilidades com o IRA, com Fergus e com a família se tornam cada vez
perigosas, mas como o próprio slogan do filme diz, "uma vez cruzada a linha, não há como voltar."
Filmes de espionagem sempre caem em alguns clichês, e O Espião não é excessão. O mérito do filme
está no esforço em disfarçá-los através de uma boa narrativa. À primeira vista a história soa complexa,
especialmente se você não conhece mais a fundo contexto político da Irlanda e de sua divisão,
mas Skogland prontamente descobre maneiras de expôr personagens e fatos importantes de forma
não tão óbvia (a excessão fica por conta das inúteis legendas com o nome de alguns personagens).
A diretora também equilibra bem drama e ação,
absorvendo a atenção do espectador coma ajuda
da ótima montagem de Jim Munro. Uma pena que os excessos de estilo da direção de arte e da fotografia
tirem o foco do filme, assim como a equivocada escolha de Rose McGowan como Grace, que
convence
como uma mulher sexy, mas nunca convence como uma integrante importante do IRA. Há também alguns
questionamentos que poderiam ser feitos sobre as atitudes de Martin e dos grupos envolvidos
no conflito (quase não se coloca na berlinda a invasão britânica, e me pergunto sobre os homens
que não sobreviveram por causa de Martin), mas também não condeno o humanismo de Skogland
e do próprio protagonista.
O Espião passou despercebido nos cinemas do mundo, no Brasil está em DVD desde junho e deve
ganhar algumas exibições no SuperCine. Não é nenhum crime, pois o filme se sustenta na tela menor,
mas merecia uma chance. É o segundo filme de ação dirigido por uma mulher que desembarca
direto nas locadoras (ou outro foi o excelente Guerra
ao Terror, de Kathryn Bigelow, já comentado aqui
no Dicas de Cinéfilo), e os dois são
mais dignos de uma visita do que
90% do que se assiste hoje
nos cinemas quanto à filmes de ação. O Espião está longe de ser
uma obra-prima, mas ganha créditos
pelo valor político-histórico, pela performance de Sturgess, e pela incrível história de Martin McGartlands.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
MALDITO CORAÇÃO ![]()
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The Heart Is Deceitful Above All Things EUA/França 2004 1h32min RT 4,2
de Asia Argento com Asia Argento, Jimmy Bennet, Peter Fonda, Kip Pardue
Em DVD pela Califórnia Filmes
OPINIÃO "O coração é traiçoeiro acima de todas as coisas." Esse é o título do livro
supostamente autobiográfico de J. T. Leroy
que inspirou Maldito Coração. É o título original
do filme e também é a frase que melhor resume a relação mãe e filho de Sarah (Asia Argento)
e Jeremiah (Jimmy Bennet, o Capitão Kirk versão pirralho de Star Trek). Ela o pôs para adoção
quando criança,
e anos mais tarde resolve pegá-lo de volta por capricho. Aos seis anos,
Jeremiah precisa lidar com uma mãe drogada, desequilibrada
e prostituta e com todos os homens
que a cercam. Asia, herdando com louvor
o ofício do pai Dario Argento, realizou
um filme cheio
de dualidades, como o amor/ódio entre os protagonistas e a dúvida menino/menina cada vez mais
crescente na cabeça do garoto. É
acima de tudo, um filme corajoso e sem papas na língua
ao narrar a prematura decadência de um pequeno rapaz que sofre todo tipo de abuso
e tenta
emergir de um universo de rejeição.
Mas Asia não restringiu-se à uma simples narração de história e Maldito Coração vai além
de uma experiência realista. O filme mira num patamar sensorial, quase surreal e chocante
na sua crueza, para que se penetre cada vez mais na mentalidade doentia de uma mulher
desgraçada e na de uma criança perdida. Asia traduz isso em imagens simbólicas e marcantes
com uma espécie de áurea punk, desde a fotografia granulada e direção de arte suja até as animações
baratas, unificando uma história fragmentada com bom ritmo e originalidade.
E se ela arrisca-se
na ousadia de sua direção, o mesmo faz na interpretação. De axilas peludas e roupas desgastadas,
Sarah é uma mulher presa no seu labirinto de sexo e drogas, para ela não há outra opção.
Ganha dimensões muito curiosas
pelo fato de exalar inocência, ponto para Asia.
Sua figura lembra
Courtney Love, em quem a atriz pode ter se inspirado. O resto do imenso elenco também ganha
destaque, como Kip Pardue, Jeremy Renner, Peter Fonda, Ben Foster, Jeremy Sisto, Michael Pitt,
Matt Schulze, Winona Ryder e Marilyn Mason (um brinde pra quem reconhecê-lo de cara).
Infelizmente,
Maldito Coração foi rejeitado por onde passou, acusado de ser grosseiro,
abusivo e pretensioso, o que pode ter afastado Asia da direção desde então. Uma vez superado
o fator choque, acho que é possível perceber o trabalho admirável que ela fez. Ela não é apenas
uma atriz que virou diretora, mas uma artista. E isso se deve por ela sair do lugar comum,
incomodar,
pôr em risco o seu nome e, de quebra, fazer uma metáfora inesquecível e extrema para o amor de mãe.
Não é pouca coisa e que Asia Argento volte ao posto de comandante mais vezes.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
KES ![]()
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Kes Inglaterra 1969 1h50min
de Ken Loach com David Bradley, Freddie Fletcher, Lynne Perrie
Em DVD pela Lume Filmes
Ken Loach aborda o fim da infância em seu mais belo trabalho
por Kleber Mendonça Filho
OPINIÃO Bernard Shaw escreveu em Pigmalião que 'é impossível para um inglês abrir a boca sem ser odiado
ou desprezado por outro inglês'. A reflexão talvez seja uma base reveladora para o cinema de Ken Loach,
que geralmente ocupa o escaninho do 'realismo social' tão usado pela crítica. Seus melhores filmes
parecem interessados não só em observar a realidade, mas em escutar uma cultura (a britânica)
que se autoexamina pelo sotaque. Caso específico de Kes (1969), o mais belo filme da longa carreira
de Loach. Kes é uma joia reconhecida do cinema inglês, feito no final de uma década que viu mudanças
na imagem filmada dos britânicos. A ideia de 'clássico inglês' é normalmente associada à pompa de um
David Lean e um Lawrence da Arábia (1962), ou às adaptações recentes de Merchant & Ivory, como
Retorno a Howard’s End (1993). São claramente versões mais palatáveis da Grã-Bretanha para o mercado.
Nesses filmes, personagens do povo eram 'típicos' e/ou coadjuvantes, peças do conflito de classes
em adaptações de Charles Dickens, ou glamourizados como o cockney sedutor de Michael Caine, em Alfie.
Trabalhando na TV britânica nos anos 60, Loach já comungava da filial inglesa da nouvelle vague,
a chamada new wave britânica, de autores como Tony Richardson e Karel Reisz. Isso o levou naturalmente
a um filme como Kes. O tratamento dado à história do menino Billy (David Bradley), morador de uma
comunidade mineira de Yorkshire, parece sugerir Kes como o perfeito duplo inglês do francês Os Incompreendidos,
que François Truffaut filmou dez anos antes. Os filmes se completam como frutos honestos de suas respectivas
culturas. Ambos contêm imagens milagrosas da juventude que vão além da simples dramatização. Os dois
abordam com força o enterro da infância. Billy, com o ar de um esquilo assustado, parece mais à vontade
dois graus acima da realidade. Isso o ajuda a lidar com professores neuróticos, o irmão cruel e a distância
dos colegas. Seu maior interesse está em Kes, o falcão que ele conquistou com astúcia e uma curiosidade
esclarecida por livros. O perigo é sugerir que Kes é um filme piegas sobre a amizade de uma criança com
um animalzinho, o que não é. Composto por uma série de momentos que não têm preço (o jogo de futebol,
o castigo dos meninos, a apresentação na aula de inglês), filmados em locação, percebe-se que é a fala
espessa de toda uma classe social que parece dar a Loach o seu prazer como autor e a autenticidade
do seu relato. Billy e o seu ambiente social se bastam, e essa identidade está num falar que será explorado
de forma radical ao longo de toda a filmografia do diretor. Kes passou há 40 anos na Quinzena
dos Realizadores do Festival de Cannes. Em maio, em Cannes, Loach mostrou seu novo filme,
À Procura de Eric, crônica bem-humorada sobre um torcedor fanático e seu ídolo francês, Eric Cantona.
O longa sugere o quanto Loach, 73 anos, deve estar de bem com a vida e confirma
seu interesse pelo falar do inglês popular, sem esquecer a bola de futebol.
Kleber Mendonça Filho | cinemascopio@gmail.com
FÉRIAS FRUSTRADAS DE VERÃO ![]()
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Adventureland EUA 2009 1h47min RT 8,9
de Greg Mottola com Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Ryan Reynolds, Bill Hader
Em DVD pela Buena Vista
OPINIÃO Antes de escrever sobre o filme, gostaria de expressar minha revolta quanto
aos 'tradutores de títulos' das distribuidoras brasileiras. Toda semana tem um mico
novo na praça, parece que eles escolhem o pior título possível para seus lançamentos.
No caso de Adventureland, o título nacional não só foi uma escolha genérica (Férias
Frustradas de Verão) como enganadora, pois o filme está muito longe de ser a comédia
boba de Sessão da Tarde que o título promete. Não bastasse ter a oportunidade de assistir
ao filme nos cinemas cancelada, ainda temos que aturar essas traduções intragáveis.
Indo ao que interessa: Adventureland (recuso-me a repetir a versão brasileira) é o mais
novo e adorável filme de Greg Mottola, diretor do também memorável Superbad – É Hoje!
É de difícil acesso ao público mais jovem, pois se passa nos áureos e bregas anos 80
e evita as piadas grosseiras que são costumes nesse tipo de comédia. Justamente
o público para o qual o filme se dirige, com bastante honestidade e bom humor.
O Adventureland do título é um parque de diversões onde o jovem James Brennan
(Jesse Eisenberg, de A Lula e A Baleia) precisa trabalhar nas férias de verão para
sustentar sua faculdade e sua desejada mudança para Nova York. O clima é, digamos
'bucólico-cômico' e a diversão é restrita para os visitantes do parque. É quando James
conhece Em (Kristen Stewart, mostrando mais uma vez por que está muito além
de Crepúsculo), outsider que trabalha na mesma área de jogos que ele. O que começa
como uma amizade se transforma em romance, mas Em não é uma típica e casta mocinha
de comédias românticas e nem James é seguro como deseja, o que pode atrapalhar
o investimento de James e o romance do casal. Numa levada de crônica sem pressa,
é o tipo de filme onde 'nada acontece', no sentido de roteiro convencional hollywoodiano.
A juventude é melancólica, mas não menos divertida. Em Adventureland, os jovens bebem
na saída do parque, fazem pausa pra maconha e transam quando tem vontade, com exceção
do ainda virgem James. Todos sofrem dos problemas típicos da idade e fazem de tudo para
escapar – ou ao menos se distrair – de suas vidas medíocres. E o parque, cujo nome é muito
apropriado, parece rir dos protagonistas, ao mesmo tempo em que se torna o lugar que eles
jamais esquecerão. O mais curioso no filme é que ele mostra o quanto a geração jovem suburbana
do fim dos anos 80 já era tão entediada quanto a de hoje. Não havia muita esperança no futuro,
mas ainda existia alguma entre os próprios jovens, num último suspiro de rebelde ideologia
juvenil, que acabou de vez com a chegada dos anos 90 (0 filme se passa em 1987).
Como romance, Adventureland é meigo sem ser meloso, convincente sem ser melodramático.
A dupla central cativa pela humanidade impressa nas atuações, especialmente Kristen,
que interpreta uma personagem difícil. Como comédia, é quase sempre sutil, e se apoia
nos coadjuvantes Bill Hader (de Ligeiramente Grávidos) e Kristen Wiig (de A Vida é Dura)
que fazem os lesados proprietários do parque, além do mala-sem-alça Frigo (Matt Bush),
detentor das poucas piadas grosseiras do filme. A participação de Ryan Reynolds como Mike
é interessante, pois o personagem facilmente poderia ser relegado ao papel de vilão,
o que não acontece graças ao bom roteiro e ao próprio ator. A trilha sonora é um caso à parte.
Além das músicas instrumentais compostas pelo Yo La Tengo, Adventureland reúne canções
clássicas de bandas como The Cure, The Velvet Underground, Rolling Stones, David Bowie,
The Replacements e Lou Reed, assim como também ressuscita alguns lixos pop anos 80,
como a terrível Rock Me Amadeus, da Falco, que inferniza meio mundo de gente no parque.
Vale comprar ou baixar o disquinho. O DVD vem com comentários em áudio de Mottola
e Eisenberg, making of e hilárias cenas excluídas, sendo a melhor delas a primeira,
estrelada por Kristen Wiig. Peço encarecidamente para que você ignore o idiota título
nacional e não deixe de assistir a essa bela homenagem a juventude.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
DIABEL ![]()
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Diabel/The Devil Polônia 1972 1h59min
de Andrzej Zulawski com com Leszek Teleszynski, Wictor Sadecki, Michal Grudzinski
Em DVD pela Lume Filmes
OPINIÃO Em 1793, a Polônia viu-se invadida pela Prússia e o inferno
se instalou no país. Morte, estupro e violência extrema foram constantes
durante a invasão armada. No meio do caos, um homem completamente
vestido de negro resgata o jovem Jacó da prisão e insiste para que ele vá
para casa acompanhado de uma freira. Em troca, quer apenas uma lista
de seus amigos conspiradores. Durante a viagem, Jacó enfrenta o horror
e a corrupção moral na qual se encontra sua terra, o que o perturba e o leva
a cometer vários crimes aparentemente sem motivo.
Em seu segundo filme, o polonês Andrzej Zulawski já demonstras características
pelas quais ficou conhecido mais tarde em filmes como Possessão e O Importante
é Amar. Seu cinema é extremo e excessivo, com personagens em situações limite
e muita crueldade física e psicológica. Em Diabel (ou O Diabo) Zulawski utiliza-se
de um trecho da história da Polônia para representar uma sociedade opressiva
e controlada pelo medo, alegoria que reflete suas experiências juvenis. Esteticamente,
é um estranho filme de horror tipicamente dos anos 70, quase B. As atuações são over,
a câmera não sai da mão e dá zooms sem pudores, a fotografia é quase naturalista
e os diálogos beiram o fantástico, tudo resultando num visual bem sujo.
Mas Diabel não é só um terror gore, o filme permite leituras curiosas sobre a natureza
humana. O homem encapuzado, obviamente o 'diabo' do título, pode ser interpretado
como um conjunto de todo o lado podre do homem, que aflora em situações caóticas.
O homem força Jacó a visualizar a degradação de seus familiares, amigos e amantes,
todos agindo contrariamente à idealização do soldado Jacó. Seu pai suicidou-se, a mãe
virou prostituta, a irmã enlouqueceu e sua insana esposa é obrigada a casar com seu melhor
amigo, agora um traidor. Jacó também perde a sanidade e comete assassinatos. O obsessivo
homem encapuzado está sempre presente, à espreita, como se houvesse uma relação
de interdependência entre ele e as atitudes sórdidas de um manipulado Jacó. Ou, talvez,
ele seja simplesmente uma literal encarnação do demônio, como deixa entender o bizarro
final. Há mais em Diabel do que os olhos tentam enxergar. O horror causa incômodo
e repulsa, o que soa mais consciente e saudável do que as eternas lutas bem versus mal
de Hollywood, em se tratando de filmes de guerra. As ambiguidades e insanidades
de uma guerra estão mais bem representadas na realidade fantástica desse filme
do que nos Pearl Harbor da vida. Cultuado na Europa, Diabel sai da obscuridade
e chega às prateleiras brasileiras em mais um precioso lançamento da Lume Filmes.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
SOB CONTROLE ![]()
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Surveillance EUA 2008 1h37min RT 5,7
de Jennifer Lynch com Bill Pullman, Julia Ormond, Pell James, Michael Ironside
Em DVD pela Swen Filmes
OPINIÃO Exibido na Mostra Internacional de Cinema de SP em 2008, Sob Controle
chega em DVD ao Brasil sem ganhar chance nas telonas. Na verdade, foi esquecido
nas locadoras de boa parte do mundo. Será que foi por causa do mega-fiasco
Encaixotando Helena, que a digníssima filha de David Lynch, Jennifer, dirigiu 15 anos
atrás, na sua estreia? Será que é por que Bill Pullman e Julia Ormond estão em decadência?
Ou será que o motivo é o fato de Sob Controle ser um filme doentio? Provavelmente
todas as opções acima, mas isso não desqualifica a nova empreitada de Jennifer,
que é diversão pra lá de demente. Se Twin Peaks fosse dirigido por Rob Zombie,
Sob Controle nem precisaria ser feito. Casal de agentes do FBI, que parecem versões
do personagem interpretado por Kyle MacLachlan na famosa série do pai de Jennifer,
vai a uma pequena cidade investigar um sangrento caso de assassinato.
Sam e Elizabeth (Bill Pullman e Julia Ormond, ótimos e se divertindo à beça) precisam
interrogar três sobreviventes de uma chacina com a ajuda da polícia local. São eles
um dos policiais, uma jovem drogada e uma garotinha traumatizada. A narrativa é não-linear,
cheia de flashbacks que mostram os acontecimentos do dia anterior. Mas uma grande
reviravolta torna a investigação numa carnificina ainda maior. Contar mais é sacanagem.
Sob Controle é um filme de horror por excelência. Além de mostrar muito sangue e violência,
critica uma das instituições mais problemáticas da sociedade. Dessa vez quem entra
na berlinda é a polícia e os supostos protetores da população, aqui representados como
verdadeiros freakshows à solta. Eles humilham, torturam, abusam e se aproveitam do poder
que possuem. Mas Lynch não julga seus personagens, pois nenhuma das supostas vítimas
é retratada como exemplo de comportamento e do politicamente correto. Lembrei-me
bastante de Rejeitados Pelo Diabo, onde todo mundo era alma sebosa, mas se davam
mal somente aqueles que não possuíam nenhum distintivo para se esconder atrás.
Como diretora, Jennifer Lynch deixa clara as influências do pai, mas segue caminhos próprios.
Não vi Encaixotando Helena, mas a mulher transpareceu segurança dessa vez, especialmente
no que diz respeito ao elenco, muito bem dirigido. Há também um belo trabalho de fotografia
e som, tudo muito seco e de acordo com o cenário desértico em que se passa a história.
O que não faz sentido é assistir Sob Controle na TV e ter que aturar Jogos Mortais VI
estreando nos cinemas. Dói o coração... Melhor ficar em casa com seu DVD. Arrisque.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
POSSUÍDA ![]()
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Ginger Snaps Canadá/EUA 1998 1h48min RT 8,9
de John Fawcett com Emily Perkins, Katharine Isabelle, Kris Lemche, Mimi Rogers
Em DVD pela Imagem Filmes
OPINIÃO Há algum tipo mais azarado em filme de terror do que adolescente?
Geralmente são personagens vazios e estereotipados cujo único propósito é mostrar
seus corpos malhados e servir de alívio cômico. E, claro, morrer violentamente.
Ainda bem que vez ou outra surge um filminho B que, como que quem não quer nada,
reverte a situação e fala da juventude e da adolescência com bastante propriedade
e sem nenhuma pretensão. Possuída, pérola canadense lançado aqui em VHS e DVD
em 2000, é um desses casos. De cara, Possuída pode ser confundido com um filme
qualquer de lobisomem. Mas o ser mitológico é utilizado como metáfora para
a descoberta da puberdade de Ginger (Katherine Isabelle), recém 'mocinha'
e completamente frustrada com isso. Ela e sua irmã Brigitte (Emily Perkins) são duas
góticas prestes a entrar no mundo adulto, mas preferem morrer a serem obrigadas
a viver como sua mãe (Mimi Rogers). Quando Ginger menstrua, ela é atacada por
um lobisomem que está matando os cães da cidadezinha onde elas vivem. É quando
os problemas das irmãs começam. Ginger não só se descobre uma mulher sexy
como também esfomeada por carne humana. Sua transformação física está cada vez mais
visível e sobra para a introspectiva Brigitte descobrir um jeito de controlar sua irmã.
Coube ao diretor John Fawcett (Escuridão) inserir o máximo de referências ao universo
feminino e entrelaçar dois temas que aparentemente não têm nada em comum de maneira
dinâmica e divertida. Talvez seja o filme que melhor me mostrou o quanto é difícil a fase
de amadurecimento de uma garota. Ginger ver seu corpo se transformar radicalmente,
pêlos por toda a parte, descobre e tenta controlar a fome sexual e lidar com as oscilações
de humor, fora ter que aceitar sua nova forma física, a qual ela enxerga como uma
monstruosidade. Não é nada fácil ser um lobis... mulher. O filme se apóia na relação entre
as irmãs, que rende diálogos afiadíssimos, momentos bem-humorados (a cauda de Ginger
é inesquecível) e boas performances das atrizes centrais. E no quesito terror, Possuída
não deixa por menos. A maquiagem e os efeitos especiais são artesanais e funcionam
muito bem ao dar realismo a uma situação fantástica, e são sempre bem utilizados pelo
diretor. Aliás, um alívio assistir a um filme que não utilize CGI a cada 5 minutos.
O início do filme, incluindo os créditos inicias, também é brilhante.
Curiosidade: em outubro estréia Garota Infernal, ou Jennifer’s Body, sobre uma adolescente
interpretada por Megan Fox, que é possuída por um demônio, vira uma máquina sexual
e ataca os rapazes da cidade, precisando que sua virginal amiga Amanda Seyfried
interrompa a carnificina. Soa familiar, não é? Veremos se o roteiro original de Diablo Cody
(Juno) é uma cópia ou não do de Possuída. Mas enquanto outubro não chega, faça
uma visita a Ginger e companhia. É diversão B como quase não se faz mais hoje.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
BETTIE PAGE ![]()
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The Notorious Bettie Page EUA 2006 1h31min RT 5,5
de Mary Harron com Gretchen Mol, Lili Taylor, Sarah Paulson, David Strathairn
Em DVD pela Casablanca Filmes
OPINIÃO Quando o sexo era um tabu bem maior do que é hoje nos EUA e a sexualidade
era massivamente oprimida, uma jovem interiorana chocou uma nação ao posar para
as fotos mais sensuais e subversivas de sua época. A eterna Bettie Page, falecida
em 2008, gerou escândalo e virou ícone nos anos 50 ao exibir seus atributos físicos
em imagens sugerindo sodomia e nudez quase total, representando a mulher independente
do pós-guerra. Sua beleza semi-diabólica, semi-angelical, era a grande febre entre
os consumidores do universo underground da pornografia. Em Bettie Page, o filme, a diretora
Mary Harron (Psicopata Americano, I Shot Andy Warhol) reconstrói os tempos da pin-up
mais famosa da história e realiza uma cinebiografia curiosa, mas irregular.
No filme, Bettie é como todas aquelas lindas, sexy e 'inocentes' garotas que fazem
uso de seus corpos para atingir uma meta. Mas Bettie, talvez por acaso, acabou indo
mais longe do que queria. Vinda de uma criação cristã, Bettie Mae Page (Gretchen Mol,
de Cartas na Mesa) sofre abusos sexuais por toda a sua infância e adolescência.
Ao sair de um casamento fracassado, é descoberta pelo fotógrafo Jerry Tibbs e acaba
virando modelo fotográfica. Ele que a fez adotar sua inesquecível franja convexa.
Aos poucos, vai ganhando atenção ao posar para fotógrafos como Bunny Yeager
e Irving Klaw, que a colocou no mundo do bondage (fetiche sadomasoquista onde
se amarra o parceiro envolvido). O então presidente do senado americano Carey Estes
Kefauver se opõe ao trabalho de Klaw, que teria enganado Bettie. O processo
teria custado o afastamento de Bettie Page da vida pública. E o filme de Harron
tem o julgamento nos tribunais como base para narrar a vida de Bettie.
Gretchen Mol se sai impecável como a carismática protagonista. Encara todas as cenas
de nudez com tranqüilidade e adota o jeitinho meigo, despretensioso e tímido de Bettie
mesmo quando esta encena atividades supostamente humilhantes. Aliás, as pessoas
realmente eram pudicas naquela época, pra chamar aquela sensualidade quase inocente
de Bettie de 'perversão do mais alto nível'. Talvez eu me espante por viver num mundo
onde bundas estão à mostra na TV em qualquer domingo à tarde. O fato é que Bettie Page
tinha classe, uma pureza sexy que faria os fãs da Mulher Melancia tomar vergonha na cara.
Gretchen Mol traduz isso com perfeição, especialmente numa cena em que fotógrafos
pedem para Bettie mostrar sua derrière para as câmeras: nasce uma estrela.
Infelizmente, o filme sofre do mal das cinebiografias. Ao querer contar toda a história
de seu objeto de estudo, Mary Harron acaba soando muito vaga. Nunca conhecemos
Bettie a fundo (a personagem, quanto mais a verdadeira), e nunca percebemos
a importância real dessa mulher. A falta de precisão atrapalha o andamento do filme,
que por sorte tem uma atriz excelente para se apoiar. Não é a homenagem que
a verdadeira Bettie Page merecia, o que deve colocá-lo no nicho dos fãs e curiosos.
Mas vale por cada segundo da notória Gretchen Mol.
O DVD duplo é imperdível para quem curte 'a maior pin-up do universo': o filme
está em widescreen original, traz o documentário Um Olhar no Universo da Rainha
do Pin-up, Strip Tease, trailers e embalagem amaray, numa edição especialíssima.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
A TORTURA DO MEDO ![]()
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Peeping Tom Inglaterra 1960 1h30min RT 9,3
de Michael Powell com Carl Bohem, Anna Massey, Moyra Shaerer
Em DVD pela Silver Screen
OPINIÃO Maldito. Esse foi o termo utilizado para descrever A Tortura do Medo
na época do seu lançamento. A obra chocou os críticos e a sociedade inglesa,
além de colocar um ponto final na carreira do diretor Michael Powell.
Tão violenta foi a campanha feita contra esse filme que o estúdio chegou a tirá-lo
de circulação, fazendo o mesmo cair no esquecimento. Mas nem tudo estava perdido.
As poucas pessoas que tiveram acesso a algumas sessões privadas desta magnífica
obra do suspense, fizeram de tudo para que o filme não ficasse esquecido.
Uma delas foi Martin Scorcese, que chegou a adquirir uma cópia do filme
e o restaurou, colocando-o em circulação pelo mercado de vídeo.
Mark Lewis (Carl Bohem) é um jovem e solitário fotógrafo que trabalha como assistente
de câmera para um estúdio de cinema e, nas horas vagas, faz um extra fotografando
garotas semi-nuas para revistas masculinas. Prazeroso isso? Não para Mark. O seu maior
prazer no entanto, é assassinar mulheres e filmá-las no momento em que morrem, para
depois ficar vendo e revendo essas imagens em seu apartamento. Mas o que faria esse
personagem agir desse maneira? A pergunta é logo respondida ainda nos primeiros
quinze minutos de projeção. Mark, quando criança, servia de cobaia para os experimentos
de seu pai, famoso cientista que estava desenvolvendo um estudo sobre o medo.
O cientista submetia o filho a brincadeiras de dar sustos, como jogar largatixas
sobre o garoto enquanto ele dormia e filmava tudo. A mais terrível, foi fazer
o menino encarar o cadáver da própria mãe.
Mark cresceu tendo sua vida observada pelas lentes das câmeras. Por isso é normal para ele
agir desse maneira, sempre empunhando uma câmera que ele diz ser para um misterioso
documentário. O fato dele cometer esses assassinatos, é o fascínio dele criado pelo medo.
Pois nos momentos em que suas vítimas sabem que serão mortas, esbanjam reações
de histeria total e tudo é captado pelas lentes de Mark. Até a arma utilizada por Mark
é a sua própria câmera que possui um punhal embutido numa das hastes do tripê.
É como se esse objeto fosse uma extensão do seu pênis ou até mesmo
aquele brinquedo que ele nunca teve na infância. Uma das personagens da trama
é a sua vizinha Helen (Anna Massey), moça solteira que mora com a mãe cega
e que parece conhecer o mistério que cerca a vida de Mark. Helen é a única que tenta
uma aproximação com Mark e chega até a tomar conhecimento do que Mark passava
na infância. Ela será a espectadora das bizarras imagens feitas pelo pai de Mark
e também irá tomar conhecimento do seu estranho fetiche.
Pedro Henrique | phmmts@hotmail.com
PINK FLAMINGOS ![]()
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Pink Flamingos EUA 1972 1h33min RT 8,2
de John Waters com Divine, David Lochary, Mary Vivian Pearce, Mink Stole, Danny Mills
Em DVD pela Continental
OPINIÃO Estrela conhecida por fazer a si mesma e terceiros passarem por situações constrangedoras
e humilhantes tem a popularidade ameaçada e decide fazer de tudo para recuperar a fama,
custe o que custar. Não, não é o Brüno, mas alguém muito mais barra-pesada, a 'pessoa mais
imunda do mundo': Babs Johnson, mais conhecida com a drag queen Divine e protagonista
de Pink Flamingos, o Santo Graal dos filmes trash. Um título justíssimo, aliás.
As peripécias de Divine e companhia chocaram o mundo em 1972 e ainda chocam hoje.
É uma bizarrice altamente grosseira, mas que ganhou status de cool devido a ótima trilha sonora
e ao timing humorístico do diretor John Waters (Hairspray, Cry-Baby, Mamãe é de Morte),
que teve sua carreira catapultada com o sucesso do filme. E, claro, devido à vontade de incomodar.
A família de Babs/Divine é uma sátira proposital e ofensiva à família média americana, uma dedada
na cara do falso moralismo yankee pós-anos 60. A começar pela heroína, travesti hardcore que leva
a sujeira como um estilo de vida. Faz xixi no meio da rua, mata quem ousa invadir seu espaço
e pratica sexo com seu filho, mas é um doce de simpatia com sua família e amigos. Vive com
sua irmã Cotton, seu filho pervertido Crackers e sua mãe doente-mental Edie (a ótima Edith Massey),
que é obcecada por ovos de galinha. Unidos, eles querem vingança contra os também perturbados
Raymond e Connie, casal que seqüestra mulheres para vender seus bebês a casais de lésbicas
e que querem tomar posse do título de 'pessoas mais imundas do mundo'.
Inclua muita nudez bizarra, sexo com animais e uma festa de aniversário inesquecível que contém
a cena mais grotesca de todo o filme, numa mistura de Rob Zombie, Sacha Baron Cohen, Pasolini
e cinema-verdade, com todo o charme e a graça da talentosa e carismática Divine. Dito isso,
o filme não é tão difícil de assistir quanto parece ser, por mais que seja muito nojento. Há algo
na aura B, na criatividade e no empenho da equipe em fazer algo doentio e divertido que faz
de Pink Flamingos um filme único e ainda atual. A conclusão com a clássica cena em que
uma esfomeada Divine saboreia frescas fezes de um cachorrinho (cena real, rodada em take único)
é uma das coisas mais repugnantes e engraçadas que vi ultimamente. Perversão é isso aí.
O DVD trás um extra especial com John Waters apresentando cenas excluídas da versão original
do filme, com suas engraçadas explicações sobre o motivo dos cortes, e um trailer bastante original.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
SERENITY - A Luta Pelo Amanhã ![]()
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Serenity EUA 2005 1h58min RT 8,1
de Joss Whedon com Nathan Fillion, Gina Torres, Chiwetel Ejiofor, Adam Baldwin
Em DVD pela Universal
OPINIÃO Quando Buffy – A Caça Vampiros já apresentava sinais de fraqueza na TV, Joss Whedon
apresentou à Fox Filmes um projeto chamado Firefly, uma série de ficção-científica sobre um grupo
de rebeldes num futuro distante lutando para se ver independente da Aliança, espécie
de governo espacial autoritário. A história foi inspirada no livro The Killer Angels, sobre pessoas
afetadas pela guerra civil americana. Sinal verde e a série estreou em 2002 com excelente
recepção da crítica, mas a audiência não foi o que a Fox esperava e isso resultou no prematuro
cancelamento da série. A Fox, sem o menor tato, nem mesmo exibiu os últimos dos 13 episódios
da temporada. Meses depois, o box completo de Firefly chegava às prateleiras. Para a surpresa
de todos, foram vendidas 200 mil caixas em apenas duas semanas, o que garantiu uma segunda
oportunidade para Firefly, mas dessa vez nas telas do cinema e com o título Serenity,
nome da nave pilotada pelos protagonistas da extinta série de TV.
No comando da nave está o desastrado, mas corajoso Capitão 'Mal' Reynolds (Nathan Fillion).
Ele concorda em proteger dentro da Serenity o Dr. Simon (Sean Maher) e sua irmã telepática
River (Summer Glau), fugitivos da Aliança. Fora que está cada vez mais difícil para a tripulação
viver como caçadores de recompensa. Aflito com o perigo, Mal decide que é melhor se livrar
do casal de irmãos. Mas River descobre Miranda, um planetinha esquecido com um trágico segredo...
A complexa trama de Serenity – A Luta Pelo Amanhã deve ser mais bem compreendida para
os já iniciados na série e a apressada introdução não ajuda muito, mas isso não deixa o filme menos
divertido. Joss Whedon misturou sci-fi, western e filme de pirata num balaio de referências deliciosas.
As cenas de ação são pontuais, ficando clara a preferência de Whedon em desenvolver sua história
e seus interessantes personagens. Desde o ameaçador vilão interpretado por Chiwetel Ejiofor
à atrapalhada Kaylee (Jewel Staite), que nutre uma paixão pelo Dr. Simon, todos ganham
suas linhas narrativas próprias e às vezes surpreendentes.
Whedon não deixou de imprimir sua marca nesse filme: as mulheres fortes. Zöe (Gina Torres), Inara
(Morena Baccarin) e Kaylee brigam, discutem com os homens em pé de igualdade e protagonizam
cenas pesadas, sem perder o ar feminino. Não são mocinhas que tropeçam na primeira tentativa
de correr, aqui são os homens que tropeçam. Encabeçando o time de mulheres está a baixinha
endiabrada Summer Glau, que constrói uma River quieta, assustada, sempre de olhos arregalados,
mas que faz um estrago quando chega a hora do quebra-pau. Cativante e cheia de moral, a menina.
Infelizmente, Serenity não emplacou nos cinemas. Custou US$39 milhões e rendeu quantia idêntica
no mundo inteiro. No Brasil foi lançado direto em DVD, numa edição cheia de material extra.
Mas os números não ficam, e sim o exercício de rebeldia realizada por Joss Whedon e companhia.
Um filme de entretenimento em que você não precisa 'desligar' o seu cérebro para curtir.
TRIVIA Morena Baccarin, que interpreta Inara, é brasileira e conhecida como filha de Vera Setta,
atriz de filmes como Os Trapalhões nas Minas do Rei Salomão e Se Segura, Malandro! e sobrinha
de Ivan Setta, ator de Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia e A Dama do Lotação.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
ZAZIE NO METRÔ ![]()
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Zazie dans le Métro França/Itália 1960 1h29min
de Louis Malle com Catherine Demongeot, Phillipe Noiret, Hubert Deschamps, Carla Marlier
Em DVD pela Cult Classic
OPINIÃO Zazie no Metrô é o primeiro filme de Louis Malle que assisto na vida. O quarto
longa do diretor francês falecido em 1995 é uma sátira à sociedade francesa do fim
dos anos 50/início dos 60, uma das poucas comédias de sua carreira. E também
é muito bizarro. A Zazie do título é uma incontrolável, esperta e desbocada garotinha
de 12 anos cuja mãe vai à Paris para passar um tempo com o amante, e a menina
acaba ficando na casa do seu tio Gabriel. Ela é obcecada pelo metrô da cidade
e insiste em passear lá, mas o metrô encontra-se de greve, para a frustração
de Zazie. Irritada, ela foge e decide conhecer Paris sozinha.
O filme não foi nada o que eu esperava. O tom cartunesco de Zazie no Metrô
é surpreendente, levando em consideração que se trata de um diretor francês
da época da nouvelle vague e que foi assistente de Robert Bresson. E quando
eu escrevo cartunesco é sem exagero, pois assistir Zazie no Metrô é como assistir
a um cômico gibi em movimento. As piadas, a montagem, a música, as atuações, tudo
é bastante grotesco, como um Monty Phyton ou um Jacques Tati mais absurdos ainda.
Para se ter uma idéia, há uma cena em que Zazie é perseguida por um desconhecido
que ela julga ser um pedófilo. Por cerca de 10 minutos vemos os dois correndo por Paris
em velocidade dobrada e passando por situações bizarras (para despistar o homem,
Zazie literalmente se multiplica em duas, como num desenho animado!).
Esse surrealismo anárquico chega ao ápice nos 20 minutos finais, talvez
os 20 minutos mais doidos que eu já vi num filme, na sequência do restaurante.
O charme maior do filme fica por conta da pequena Catherine Demongeot. Sua Zazie
conquista desde suas primeiras cenas, com seu jeito espevitado, boca suja e língua afiada,
e está sempre à frente dos adultos ao seu redor, que a aborrecem e entediam.
Mas apesar de ser protagonizado por uma garotinha, Zazie no Metrô não é exatamente
um filme 'família'. Ela passa por experiências que hoje seriam consideradas inapropriadas
pelos mais velhos, como quando quebram uma cadeira na cabeça da garota (que não
parece se importar), o que me causou uma mistura de risadas com certo choque pela ousadia.
Além disso, os personagens, a história e narrativa de Malle vão de contra a qualquer regra
que fomos acostumados a respeitar. O diretor deu uma de Chacrinha: ele não quis explicar,
quis confundir. Agora, com licença, vou procurar o restante de sua filmografia...
Obs. Zazie no Metrô é inspirado no livro homônimo de Raymond Queneau,
recém lançado nas livrarias brasileiras em edição limitada de design gráfico
caprichado para comemorar os 50 anos da obra. Aproveite o lançamento do livro,
pela Cosac Naify, e do filme, pela Cult Classic, e garanta os dois na prateleira.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
HALF NELSON ![]()
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Half Nelson EUA 2006 1h46min RT 9,0
de Ryan Fleck com Ryan Gosling, Shareeka Epps, Anthony Mackie
Inédito no Brasil
OPINIÃO Half Nelson, filme nunca lançado no Brasil, nem mesmo em DVD, é uma produção
independente de Ryan Fleck que conquistou a crítica em 2006, exibido na Mostra SP
ainda em 2006 (onde Fernando viu, numa rara oportunidade em tela grande), foi indicado
ao Oscar de melhor ator para Ryan Gosling e sumiu. Destino parecido quase teve
A Garota Ideal, comédia de 2007 também protagonizada por Gosling, também
indicada ao Oscar (melhor roteiro original) e lançada com dois anos de atraso
no país, e que terá uma sessão única nesse sábado 25 na Sessão de Arte
do Shopping Boa Vista às 11h da manhã. Pobre Ryan Gosling, não tem sorte no Brasil...
O jovem ator canadense (de Diário de Uma Paixão) interpreta Dan Dunne, dinâmico
professor do ensino médio de um colégio no Brooklyn, que tem uma boa relação
com seus alunos, negros e hispânicos em sua maioria. Solitário, passa os dias dando
aula, cuidando de seu gato e fumando crack. Seu traficante é Frank (Anthony Mackie,
de Guerra ao Terror, aqui no Dicas do Kinemail, procure mais abaixo), que foge
dos clichês comuns para esse tipo de personagem, pois é um sujeito calmo,
boa praça e amigo da vizinhança, inclusive da jovem Drey (Shareeka Epps), aluna
de Dan. Uma relação muito interessante entre esses três personagens se desenvolverá
quando a garota pega o professor completamente drogado no banheiro da escola.
Dan aos poucos se afeiçoa a Drey e vice-versa, e o temor de que a menina tenha
seu futuro atrapalhado por Frank o põe em conflito consigo mesmo. Contradição
é o que move o mundo e dialética é a palavra de ordem aqui, não só nas aulas
de história ministradas por Dan como também na interação entre ele (família rica,
frustrado) e Drey (pais separados, irmão preso, consciente de sua condição humilde).
O roteiro do próprio Ryan Fleck e de sua parceira Anna Boden é excepcionalmente sóbrio
e o então estreante diretor não deixa a pretensão tomar conta do todo. Na verdade,
sua direção é bastante inspirada: durante o longa existem vários e curiosos inserts
dos alunos de Dan narrando episódios da história dos EUA e do mundo, onde ocorrem
situações de tese e antítese com resultados violentos, como o massacre de Attica,
o golpe de Pinochet e o assassinato de Harvey Milk. Situações dialéticas macro e mal
sucedidas que são comparadas a situação dialética micro, mas bem resolvida, do filme.
O filme pode ter custado míseros 700 mil dólares, mas contou com o apoio de atores
de primeira. Ryan Gosling tem um desempenho revelador e o reconhecimento da Academia
foi mais do que merecido. Sua expressão melancólica, mas que parece tentar ganhar
a simpatia das pessoas ao redor é o contraponto perfeito para o olhar duro e desconfiado
de Shareeka Epps, excelente em seu primeiro papel. Anthony Mackie, tão bom em Guerra
ao Terror, mais uma vez mostra por que é um ator que merece atenção. Half Nelson
é inspirado num curta do próprio diretor, chamado Gowanus, Brooklyn, onde só atuaram
Shareeka, Karen Chilton (mão de Drey) e Matt Kerr (Dan no curta, Mr. Light no longa).
É ridículo que um filme como Half Nelson tenha sido esquecido no Brasil. Nem com
as exibições nas Mostras de São Paulo e do Rio ele conseguiu um comprador. Saia na frente
das distribuidoras brasileiras e baixe o filme pela internet, ou compre o DVD importado
Região 1, com cenas excluídas, estendidas e outros extras. Vale cada centavo.
Obs. Half Nelson é um golpe de imobilização em que você, por trás, passa o braço
por baixo do braço do oponente, até atrás do pescoço. A interpretação cabe a você.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
NAKED ![]()
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Naked Inglaterra 1993 2h11min RT 9,0
de Mike Leigh com David Thewlis, Lesley Sharp, Katrin Cartlidge, Greg Cruttwell
Em DVD pela Lume Filmes
OPINIÃO Antes de conquistar o Oscar e o mundo com Segredos & Mentiras, o cineasta
inglês Mike Leigh (do recente Simplesmente Feliz, o melhor filme que eu vi esse ano)
tomou Cannes de assalto com o pesado Naked, em 1993. Ganhou melhor diretor,
melhor ator para David Thewlis e, de quebra, fez uma obra-prima. Obra-prima
de uma carreira brilhante, por sinal. Sempre fazendo crônicas sobre a classe pobre
e média-baixa da Inglaterra, Leigh disseca em Naked a cólera de seres humanos
miseráveis e expõe da forma mais crua possível a selvageria de seus personagens,
sempre em situações extremas. Como Johnny, interpretado pelo excelente David Thewlis
(hoje conhecido como Remo Lupin, da série Harry Potter), que acaba de estuprar uma mulher
em Manchester e foge para Londres pra não apanhar dos familiares da moça. Na violenta
capital britânica, ele pára na casa de sua ex-namorada Louise (Lesley Sharp). O humor
irônico e grosso de Johnny a irrita, mas conquista Sophie (Katrin Cartlidge), que divide
a casa com Louise. Nesse meio tempo, Jeremy (Greg Cruttwell), homem rico,
machista e odioso, descarrega sua raiva no sexo e pouco parece se importar
com os seres humanos ao redor. Esses e outros personagens se encontrarão
ao longo do filme, onde o pessimismo e o niilismo reinam até mesmo na redenção.
A miséria de Johnny contrapõe-se a vida classe média levada por Louise, e ele tem
consciência de que está lá justamente para antagonizar essa alienação, mesmo
que seja através da violência e da crueldade. O mesmo efeito que o filme quer
causar no espectador. Naked se despe de qualquer eufemismo cinematográfico
para escancarar a podridão dessas pessoas, como o jovem, mal-educado e perturbado
Archie (Ewen Bremner, de Trainspotting), a bela garçonete de uma cafeteria
(Gina McKee, de Crupiê) e o segurança Brian (Peter Wight), sempre rendendo
diálogos cortantes. Naked é esteticamente lúgubre, sujo e escuro, feito de forma
simples e bruta. E é também difícil de assistir, fazia tempo que não via tanta
violência
contra mulheres (até hoje o filme é acusado de misógino) e personagens tão detestáveis.
Foi bizarro constatar a empatia que Johnny, outrora nojento e repulsivo, causou
em mim. Ele se faz compreender, mesmo que através do choque. Seu jeito
desagradável,
mas honesto, desarma até Sandra (Claire Skinner), enfermeira que mora com Louise
e Sophie e que é o cúmulo da alienação burguesa. A mulher mal consegue concluir uma frase
ao ver sua casa num estado deplorável, precisando de Johnny para preencher suas lacunas,
num final perfeito. Inédito no Brasil, Naked chega em DVD pela Lume Filmes e estará
disponível a partir do dia 24 de julho. Imprescindível para admiradores do cinema inglês.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
NÚMERO 9 ![]()
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The Nines EUA 2007 1h40min RT 6,8
de John August com Ryan Reynolds, Melissa McCarthy, Hope Davis, Elle Fanning
Em DVD pela PlayArte
OPINIÃO Quando Número 9 acabou, eu era um ponto de interrogação. O que foi
aquilo que eu acabara de assistir? Estranho, cheio de personagens esquisitos e pequenas
conexões em meio a um turbilhão de referências. Não posso classificá-lo em nenhum
gênero, já que o filme às vezes é suspense à la Stephen King, às vezes é uma comédia,
às vezes musical, e às vezes parece drama feito pra TV, além de utilizar-se de diferentes
linguagens e de uma suspeita metalinguagem. Isso enquanto não chega à discussão
metafísica e supostamente religiosa. Essa confusão inexplicada, mas que é coerente
dentro do próprio filme, faz de Número 9 uma experiência curiosa.
O filme é dividido em três partes, e na primeira, The Prisioner, somos logo apresentados
à Gary (Ryan Reynolds), um ator problemático que surta quando a namorada termina
com ele. Bebe, usa crack e sofre um acidente de carro, resultando em prisão domiciliar
na casa de um roteirista que está trabalhando no Canadá. A simpática produtora Margaret
(Melissa McCarthy) é quem fica na vigilância. Um dia Gary conhece a atraente vizinha
Sarah (Hope Davis), mulher misteriosa com quem acaba se relacionando. Mas coisas
estranhas começam a acontecer, e quando se suspeita que se trate de algo sobrenatural,
a segunda parte, Reality TV começa abruptamente. Como o nome do capítulo já diz,
toda essa sequência é em formato de um reality show que acompanha Gavin (Reynolds,
personagem autobiográfico do diretor John August), roteirista que está trabalhando
em sua nova série de TV, chamada Knowing. Sua melhor amiga, a atriz Melissa (McCarthy,
interpretando ela mesma) é sua escolha para protagonizar a série sobre mãe e filha
perdidas num bosque. Mas a produtora Susan (Davis) não quer que ela seja a atriz principal,
causando atritos entre a equipe e na amizade de Gavin com Melissa. E na terceira e mais
estranha parte, Knowing, vemos o designer de videogames Gabriel (Reynolds) com
sua mulher Mary (McCarthy) e filha Noelle (Elle Fanning) presos no meio de um bosque
quando a gasolina do carro acaba. Gabriel parte em busca de ajuda e encontra
Sierra (Davis), mulher que promete o levar para um posto em seu carro.
Contar mais pode diminuir as surpresas do filme.
Número 9 é o longa de estréia do roteirista John August (Go - Vamos Nessa, Peixe Grande)
na direção. Confesso que me perguntei o tempo inteiro se eu estava assistindo a maior
bobagem de todos os tempos e se ele tentou voar alto demais sem sucesso. Mas, droga,
não foi nem ao menos divertido pescar e analisar as pistas do grande mistério, mesmo
que este (intencionalmente) nunca tenha ficado muito claro? Será que um filme arriscado
como esse não merece créditos, mesmo que não seja um filmaço? Perguntas não faltaram,
o que me fez gostar mais e mais do que vi. Pensado para ser um filme pra TV, Número 9
sofre de um visual medíocre, mas sabendo sua natureza, essa 'pobreza' cinematográfica
é até perdoável, mesmo que essa não incomode na telinha. A força da produção reside
nos ótimos atores (incluindo Ryan Reynolds, sim) e no corajoso roteiro de August.
Um roteiro rico e reflexivo, que mesmo sendo intricado e peculiar ao extremo, permite
que cada espectador o observe pelo seu próprio prisma. Em tempos de 'cinema-fórmula',
Número 9 é uma pequena ilha. Agora você deve estar se perguntando 'por que diabos o nome
do filme é Número 9?' Se eu disser aqui pode soar ridículo, então melhor você assistir e descobrir.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
GUERRA AO TERROR ![]()
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The Hurt Locker EUA 2009 2h11min RT 9,5
de Kathryn Bigelow com Jeremy Renner, Anthony Mackie, Guy Pierce, Ralph Fiennes
Em DVD pela Imagem Filmes
OPINIÃO O 'armário da dor' (the hurt locker, do título original) é uma espécie de carapaça
pesada usada pelos soldados de elite na hora de desarmar uma bomba. É o fardamento
favorito do Sargento William James (Jeremy Renner), especialista nessa tarefa.
Ele está em Bagdá para lutar na guerra, abandonando esposa e filho em casa.
Homem perturbado, William sempre escolhe correr riscos evitáveis, deixando seus
companheiros JT (Anthony Mackie) e Owen (Brian Geraghty) nervosos. Faltando 38 dias
para voltarem pra casa, os três soldados enfrentam o árduo, ingrato e assustador
cotidiano da guerra e, aos poucos, enxergam que estar lá não é nada como se imagina.
Guerra ao Terror é sobre tudo, menos sobre a guerra ao terror. Fiquei espantado ao perceber
que ele não é o seu filme-de-guerra-de-domingo-à-noite, como a enganadora capa do DVD
e o ridículo título aparentam. É um filme de personagens, a ação é pouca e pontual, tem vários
e bons diálogos e não tem como motivação uma propaganda anti ou pró-guerra. A diretora
Kathryn Bigelow (de K19 – The Widowmaker e Caçadores de Emoção) e o roteirista Mark Boal
(No Vale das Sombras) fazem de tudo para chegar o mais próximo possível do realismo,
com direito a câmera na mão, filmagens em locação e atores desconhecidos.
Porque apesar de a Imagem Filmes querer empurrar pra você que David Morse, Guy Pierce
e Ralph Fiennes são as estrelas do filme, Jeremy Renner, Anthony Mackie e Brian Geraghty
são o verdadeiro fio condutor de Guerra ao Terror. Geraghty encarna o jovem e inseguro
Owen como um rapaz perfeitamente consciente de onde está, e por isso mesmo terrivelmente
amedrontado, tornando os esforços do psicólogo Coronel Cambridge em fazê-lo encarar a guerra
como 'diversão' em algo patético. Já o JT de Mackie é negro, analfabeto e tenta levar a guerra
como algo bravo e heróico, mesmo sabendo que só está lá ironicamente por razões de sobrevivência.
Sua trajetória é a mais emocionante dos três e o ator é certeiro em seu desempenho.
Mas se tem alguém que pega o filme e toma pra si, é Jeremy Renner. E não só porque ele é um ator
excepcional, mas também por seu personagem ser o mais intrigante de todos. William é veterano
do Afeganistão, desarmou centenas de bombas na vida, coleciona peças destas e sente um prazer
imenso ao ser reconhecido por seu trabalho. No Iraque, acaba passando por poucas e boas
e se desestabiliza emocionalmente. Ele volta pra casa, reencontra a mulher (ponta de Evangeline Lilly,
de LOST) e o filho e volta a ter uma vida normal. Mas, quando o vemos parado num supermercado
com um carrinho de compras, nós e William sabemos que tem algo errado. O final me deixou
desarmado, pois vai contra o que eu imaginava sobre qualquer pessoa sã que passa
por uma guerra. William não ama a imundície e a dor (física e emocional) da guerra do Iraque,
creio que tampouco a apoia. Mas ele ama ser um herói, ele ama desarmar bombas.
É um personagem trágico, real e atual como poucos do cinema recente. Guerra ao Terror
pode não ser exatamente um filme de ação, mas Bigelow não deixa ninguém dormir
ao levar a trama num suspense sufocante e intenso. A cena inicial protagonizada por Guy Pierce
é nada menos do que fantástica, e ela não é a única que vai prender você no sofá. O filme estreou
semana passada em circuito limitado nos EUA com sucesso, depois de ganhar quatro prêmios
no Festival de Veneza. Até mesmo está sendo cotado para o Oscar do ano que vem, e se conseguir
as merecidas indicações, a burrada da Imagem Filmes em lançá-lo tão cedo e de forma
tão estúpida vai ser ainda maior. O filme claramente perde o impacto na telinha, mas, como
não tem outro jeito, alugue o DVD e descubra esse ótimo filme antes de todo mundo.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
SEGURANDO AS PONTAS ![]()
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Pineapple Express EUA 2008 1h50min RT 6,8
de David Gordon Green com Seth Rogen, James Franco, Danny McBride, Kevin Corrigan
Em DVD pela Sony Pictures
OPINIÃO Mais uma comédia produzida por Judd Apatow tem sua carreira
nos cinemas brasileiros cancelada: Segurando As Pontas marca a estréia
de David Gordon Green no esquemão hollywoodiano. Ele, que ficou famoso
dirigir os premiados George Washington, Prova de Amor (All The Real Girls,
com Zooey Deschanel) e Contra Corrente (Undertow, com Jamie Bell e Josh Lucas),
realizou aqui um filme bem diferente, mas que mantém certa veia
independente ao não seguir as leis de moral dos puritanos Estados Unidos.
Aliás, Segurando As Pontas põe o moralismo de cabeça pra baixo ao colocar
a dupla de heróis Dale Denton (Seth Rogen) e Saul Silver (James Franco)
pra enfrentar uma gangue de policiais corruptos. Bom, enfrentar não é bem
a palavra. Na verdade, o maconheiro Dale testemunhou o assassinato
de um asiático pelos policiais Ted e Carol (Gary Cole e Rosie Perez),
e, com a 'paranoia' de estar sendo perseguido, dana-se a correr junto
com seu traficante e amigo Saul. O título original, Abacaxi Expresso, é o nome
de um cigarro de maconha bastante peculiar, mostrado em detalhes didáticos
pela dupla, que é em forma de cruz e só pode ser aceso por duas pessoas.
E haja maconha! Dale e Saul entram em todo tipo de enrascada, sempre muito
'loucos', sendo o ponto alto a fuga no carro da polícia após eles serem pegos
no flagra vendendo maconha para crianças. O roteiro politicamente incorreto
de Seth Rogen e Evan Goldberg não sai muito da fórmula do 'bromance' que fez
a carreira de Apatow, e também tem uma narrativa bastante irregular, mas
as ótimas piadas de maconheiro e os cativantes personagens garantem que você
assista com prazer até o fim. Especialmente James Franco (indicado ao Globo
de Ouro de melhor ator coadjuvante)
, tão bom que eu até desconfiei
que ele realmente estivesse drogado durante as gravações... Uma pena
que o terço final do filme perca o ritmo e deixe a desejar. Destaque para
o prólogo inicial, em preto e branco, com o hilário comediante Bill Hader.
Deixo bem claro que o DVD traz duas versões do filme: uma de 111 minutos
e outra sem cortes de 117 minutos, que foi a que assisti. Talvez a versão
de cinema seja mais enxuta. O DVD ainda traz comentários, erros de gravação,
cenas estendidas e alternativas, making of e um relatório dos ferimentos
que os atores sofreram, de verdade ou não. Vale conferir.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
CRUPIÊ - A VIDA EM JOGO ![]()
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Croupier Inglaterra 1998 1h34min RT 9,8
de Mike Hodges com Clive Owen, Gina McKee, Alex Kingston, Nicholas Ball
Em DVD pela Europa Filmes
OPINIÃO Clive Owen hoje pode se considerar um astro. Já trabalhou com Spike Lee,
Alfonso Cuarón, Robert Rodriguez e Mike Nichols, fez participações em A Pantera Cor-de-Rosa
e A Identidade Bourne e foi indicado ao Oscar por Closer – Perto Demais, onde trabalhou
com a mesma Julia Roberts que com quem faz parceria em Duplicidade, comédia atualmente
em cartaz. Essa semana estreia em Trama Internacional, do alemão Tom Tykwer, ao lado
de Naomi Watts. Antes de invadir os multiplexes e garantir salários bem altos pra mostrar
seu charme inglês em produções hollywoodianas, Clive suou bastante. Fez dezenas de filmes
para a TV britânica, interpretou um gay preso num campo de concentração em Bent
e participou de Assassinato em Gosford Park, um dos últimos filmes de Robert Altman.
Mas o personagem que catapultou sua carreira foi o aspirante a escritor Jack Manfred,
o protagonista de Crupiê – A Vida em Jogo, jóia do cinema independente inglês
lançada em DVD no Brasil a cerca de sete anos atrás.
Jack é um frustrado. Não consegue escrever seu livro, é casado com uma mulher que ama,
mas não tanto, vive distante do pai sul-africano e não consegue mudar nada na sua vida.
Só consegue sair da inércia quando seu pai consegue pra ele um emprego como crupiê
de um cassino em Londres. Como adquiriu experiência nessa área quando morou na África
do Sul, logo Jack é contratado. Então, ao mesmo tempo em que seu casamento
começa a se deteriorar, o seu projeto de escrever um livro se desenvolve. É numa
atmosfera noir que o filme destrincha com destreza o obscuro submundo dos cassinos,
mas o forte do filme é se aproveitar do tema para também destrinchar o lado obscuro
dos seres humanos miseráveis que andam ali (e claro, de humanos em geral).
A inusitada narração em off de Jack é um dos principais fatores para que isso funcione,
e surpreendentemente, também um dos maiores acertos do filme. O tom muitas vezes
sarcástico e quase sempre pessimista do personagem instiga desde as primeiras cenas,
assim como seus questionamentos e comentários sobre as pessoas ao redor. É justamente
através da narração que vemos seu livro tomar forma, inspirado na sua vida de crupiê.
O veterano diretor Mike Hodges, de Carter – O Vingador (o Get Carter original, com Michael Caine),
nunca mais havia feito um filme bem sucedido, comercial ou artisticamente. Crupiê mostra-se
dirigido de forma bastante segura e foi saudado como sua volta à boa forma. infelizmente, Hodges
não realizou mais nada expressivo depois. O roteirista Paul Mayersberg, que se inspirou
em A Fortaleza Escondida de Akira Kurosawa para escrever o longa, também sumiu. Pelo menos
o bom elenco se sustentou, como Gina McKee, intérprete de Marion, esposa de Jack, e a ótima
Alex Kingston, que faz a sexy e misteriosa Jani. E Clive Owen, é claro. O inglês convence ao manipular
cartas e fichas, mas não apenas. É nos detalhes que Clive ganha o jogo, desde seus olhares cínicos
a pequenas mudanças de timbre durante a narração, sendo o ponto alto a cena em que Jack tem
que reconhecer um corpo. São apenas alguns segundos, mas é suficiente para mostrar o quanto
Clive Owen é um ator brilhante, desperdiçado atualmente como galã de filmes esquecíveis.
Ele é a alma e o corpo de Crupiê - Uma Vida em Jogo, um filme selvagem, frio e consciente
disso, assim como o personagem Jack Manfred e o universo em que ele vive.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
EXPRESSO TRANSIBERIANO ![]()
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Transiberian EUA 2008 1h51min RT 9,0
de Brad Anderson com Woody Harrelson, Emily Mortimer, Ben Kingsley, Thomas Kretschmann
Em DVD pela Imagem Filmes
OPINIÃO Lançado aqui recentemente nas locadoras, Expresso Transiberiano chamou atenção
ano passado no circuito independente americano, atraindo respeitável número de espectadores,
mesmo com a concorrência pesada do verão americano. Apesar de ser um filme pequeno, conta
com um elenco famoso e não fica tão distante das grandes produções Hollywoodianas. Ou seja,
não há nada de inovador aqui, mas apenas um suspense bem executado e que prende a atenção.
Expresso Transiberiano tem menos pretensões do que O Operário, filme anterior do diretor
Brad Anderson, e também funciona melhor ao que se propõe. O enredo é simples: os americanos
Jessie e Roy (Emily Mortimer e Woody Harrelson, ótimos) terminaram um trabalho como
voluntários na China. Graças ao amor de Roy por trens, eles decidem pegar o Expresso
Transiberiano e atravessar a Rússia, para depois irem pra casa. Lá, conhecem o espanhol
Carlos (Eduardo Noriega, de Ponto de Vista) e sua namorada americana Abby (Kate Mara,
de Brokeback Mountain), professores de inglês com quem dividem o vagão. Jessie se encanta
por Carlos, mas nem ele nem Abby são exatamente quem eles dizem ser.
Ben Kingsley interpreta Grinko, um policial em busca de traficantes dentro do Expresso
Transiberiano, algo bastante comum. Não é muito difícil imaginar o que vai acontecer,
mas a verdadeira reviravolta se dá com um acidente envolvendo Jessie e Carlos.
Emily Mortimer é a verdadeira protagonista do filme, as atitudes de sua personagem
são o que mantém a trama de Expresso Transiberiano nos trilhos (com o perdão do trocadilho)
e a atriz inglesa se sai muito bem. A fraqueza do longa está longe de ser o elenco ou algum
problema técnico. O que enfraquece é o roteiro de Brad Anderson, que, apesar de se esforçar
para criar um bom clima de suspense, não foge do óbvio. Russos são mal-educados
e latinos são malvados, enquanto os americanos são bonzinhos, apesar de estúpidos.
E tudo caminha para um final mais feliz do que deveria. Esse esquematismo só não arruína
o filme graças à boa montagem e pelo esforço da equipe em tornar tudo o mais verossimilhante
possível. A única surpresa é uma cena de tortura um tanto gráfica, algo que blockbusters
caros evitam fazer para não afugentar o público. Mesmo pouco original, Expresso Transiberiano
é tenso o suficiente para merecer uma locação para uma noite sem nada pra fazer.
Só não espere muito, pois ele se encaixa perfeitamente numa sessão do Supercine.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
PASSAPORTE PARA A VIDA ![]()
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Laissez-Passer França 2002 2h50min RT 7,6
de Bertrand Tavernier com Jacques Gamblin, Denis Podalydes, Olivier Gourmet
Em DVD pela Europa Filmes
OPINIÃO Curioso que esse filme esteja sendo exibido na mesma semana
do sucesso nacional Olga. Um é o extremo oposto do outro. Os dois falam
de personagens vivendo dificuldades num período de guerra. Se Olga vai pelo
caminho da grandiloquência melodramática e obviedade de um roteiro mecânico,
Passaporte para a Vida tece uma malha sutil de personagens com generosa
humanidade, preferindo captar a vida nos pequenos detalhes, nas escolhas humanas,
na beleza de criar uma atmosfera palpável para contar uma história passada
num tempo ruim e espinhoso: O período em que a Alemanha dominou a França
durante a Segunda Guerra Mundial, contado sob o particular olhar de dois ricos
personagens, baseados em pessoas reais: Jean Devaivre, um assistente de direção
(Jacques Gamblin, numa bela atuação) e Jean Aurenche (Denis Podalydes),
um roteirista de cinema. Ambos trabalham para a Continental Filmes, grande
produtora cinematográfica francesa, então sob rigoroso controle alemão.
Longe de querer dar uma aula de História, Tavernier desenvolve uma narrativa
episódica, nada épica, inserindo o espectador na difícil situação do momento,
com os dilemas morais e intelectuais dos franceses, divididos entre o colaboracionismo
e a célebre Resistência Francesa. Lembra bastante um filme de François Truffaut,
O Último Metrô, sobre uma companhia teatral durante o mesmo período.
Devaivre tem mulher e filho e faz proveito do seu passe-livre como artista
(o Laissez-Passer do título original) para lutar clandestinamente contra os alemães.
Já Aurenche recusa-se irritadamente a escrever roteiros sob controle dos alemães
e sobrevive graças às três amantes com quem divide teto e comida. E Tavernier,
um grande conhecedor de Cinema, faz sem grandes pretensões uma das mais belas
homenagens a todos os cineastas, atores e técnicos que viveram aquela época.
Há momentos tristes, mas também inesperado humor, como na absurda sequência
em que Devaivre sai de casa para fazer um contato clandestino e só consegue voltar
dois dias depois, tendo viajado até a Inglaterra, de trem, avião, para-quedas e bicicleta!
Só no absurdo da Guerra é possível imaginar algo assim. Outro belo episódio também
envolve a bicicleta de Devaivre, numa viagem de 800 kms, ida e volta, para encontrar
a esposa e o filho numa casa de campo, longe da Paris bombardeada.
Não se intimide pelas quase 3 horas de duração. O filme é leve e fluente,
com a câmera praticamente em movimento durante o filme inteiro, captando
com precisão a urgência e perigo do que foi viver durante a Grande Guerra,
onde a morte espreitava a cada momento a vida de cidadãos comuns.
Se em Olga o espectador é quase obrigado a chorar nas dramáticas cenas
de campo de concentração, em Passaporte para a Vida Tavernier consegue
momentos de beleza rara, pura poesia, como numa cena de poucos segundos,
onde uma personagem narra que só viu seu irmão novamente mais de cinquenta anos
depois, não num reencontro real mas assistindo um filme da época, no qual ele aparece
como figurante em alguns poucos fotogramas. Seu irmão, um garoto de apenas 18 anos,
foi capturado pelos alemães nos portões da Continental Filmes, onde fazia figuração
e distribuia folhetos da Resistência Francesa, e nunca mais foi visto.
Putz, é de bater palma de tão bonito e emocionante! Grande cinema.
Filme visto sexta 13/08/2004 no multiplex Boa Vista
Fernando Vasconcelos | fernando@kinemail.com.br
A VIDA É DURA - A História de Dewey Cox ![]()
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Walk Hard - The Dewey Cox Story EUA 2007 1h36min RT 7,5
de Jake Kasdan com John C. Reilly, Jeena Fisher, David Krumholtz, Jonah Hill
Em DVD pela Columbia Pictures
OPINIÃO Você já ouviu falar em Dewey Cox? Ele foi o mais importante artista da música
pop/rock/country/psicodélica/folk americana, vendeu milhões de cópias de seus
discos dos anos 50 pra cá e influenciou gente como Bob Dylan e Johnny Cash.
Não sabe de quem eu estou falando? Não entre em pânico, apenas passe na locadora
mais próxima e alugue A Vida é Dura, comédia produzida por Judd Apatow que satiriza
as cinebiografias musicais como Ray, Não Estou Lá e, principalmente, Johnny & June.
Logo no início, Dewey Cox (John C. Reilly, sempre competente) está refletindo com
a mão apoiada na parede, enquanto as pessoas esperam para que ele comece o show.
Quando o produtor decide chamá-lo, seu ex-parceiro de banda Sam (Tim Meadows)
diz algo como 'calma, ele tem que pensar sobre a vida inteira antes de tocar!'.
Johnny & June vem à cabeça e é impossível não rir. Em seguida vemos à trágica infância
do cantor, que ficou marcado pra sempre por ter acidentalmente cortado (!) seu
irmão ao meio ('O filho errado morreu!', grita seu pai) e por ter perdido o olfato.
Aos 14 anos, Dewey Cox decide sair do interior com sua namorada de 12, e ganhar
a fama como músico na cidade grande. Nesse meio tempo, transa com 411 mulheres,
participa do seu próprio programa de TV nos anos 70 e conhece a mulher de sua vida,
Darlene Madison (Jenna Fisher, a Pam da série The Office), sua backing vocal.
Dirigido por Jake Kasdan - irmão de Lawrence Kasdan - e escrito por Jake e Apatow,
A Vida é Dura usa os artifícios e clichês desse tipo de filme para fazer rir, enquanto
faz pequenas referências a vários artistas, sendo a biografia de Johnny Cash o alvo principal.
O próprio título original Walk Hard, primeiro hit de Dewey Cox, é referência direta à Walk The Line.
As ótimas canções feitas especialmente para o filme misturam vários gêneros da música
americana, do pop inocente à psicodelia pretensiosa, e essa variedade de estilos só está lá
para fazer piadas com o maior número possível de artistas (Starman de Bowie em versão disco
num decadente show de TV é impagável!). Aliás, mesmo estando tão na cara que é tudo
uma brincadeira, um desavisado pode levar o negócio a sério e acabar procurando discos
do Dewey Cox nas lojas! Pena que a maior piada do filme se perca na tradução (de vez em
quando alguém grita 'I need Cox!' ou 'I love Cox!', onde existe o grosseiro trocadilho com 'cocks').
A Vida é Dura tem um elenco invejável, mas você só percebe se for atento. Não que não dê
pra perceber Kristen Wiig como a primeira mulher de Cox ou Jane Lynch como uma atrapalhada
repórter, ambas hilárias. Mas é que tem tantas participações que eu fico até sem graça
de revelar aqui. Basta dizer que Jack Black, Paul Rudd, Jason Schwartzman e Justin Long
são... os Beatles! E ainda temos Frankie Muniz, Jonah Hill e músicos e cantores como
Eddie Vedder, Lyle Lovett e Jewel. Aliás, só descobri que Jack White, do White Stripes,
estava no filme porque o nome dele apareceu nos créditos. Adivinhe quem ele é...
Como o filme leva Dewey Cox a sério, o resto do DVD corretamente também o faz.
O pequeno documentário 'O Verdadeiro Dewey Cox' traz depoimentos de vários artistas
reais declarando seu amor por Cox e explicando como ele influenciou suas carreiras,
pra morrer de rir. As cenas excluídas/estendidas também merecem ser vistas, inclusive
a viagem de ácido 'alternativa' da cena que que Cox droga-se com os Beatles. Comentários,
clipes completos de Dewey Cox (os de Starman e dos rappers são de matar de rir) e outro
documentário sobre a criação das músicas completam o rico material extra de A Vida é Dura,
obrigatório para os fãs do produtor e diretor Judd Apatow. A Columbia pode até ter cancelado
o lançamento nos cinemas, mas caprichou no DVD. Ao fim do filme, você também
vai sair cantarolando Walk Hard e, talvez, gritando 'I Love Cox!' eh, eh
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
MEDO DA VERDADE ![]()
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Gone Baby Gone EUA 2007 1h54min RT 9,4
de Ben Affleck com Casey Affleck, Michelle Monaghan, Ed Harris, Morgan Freeman, Amy Ryan
Em DVD pela Buena Vista
OPINIÃO Ben Affleck tem uma carreira bastante irregular. Começou de forma promissora
em filmes como Jovens, Loucos e Rebeldes e Procura-se Amy, e logo ganhou um Oscar
ao lado de Matt Damon pelo roteiro de Gênio Indomável, de Gus Vant Sant. Depois desceu
pelo ralo em filmes como Fantasmas, Armageddon e Jogo Duro, que só serviram para formar
sua imagem de galã. E, com exceção das participações em quase todos os filmes de Kevin Smith,
viu-se preso a projetos inexpressivos ou exclusivamente mercenários, como Pearl Harbor, Demolidor,
O Pagamento e Sobrevivendo ao Natal, chegando ao fundo do poço com a bomba Contato de Risco,
estrelado por ele e por sua então esposa Jennifer Lopez. Recuperado com uma boa atuação
(premiada no Festival de Veneza)
como coadjuvante em Hollywoodland - Bastidortes da Fama,
resolveu adaptar Gone Baby Gone, livro de Denis Lehane (o mesmo autor de Sobre Meninos
e Lobos). Enquanto ninguém botava fé, ele escreveu, dirigiu e chamou o irmão Casey Affleck
para protagonizar o filme. Surpresa: Medo da Verdade é um filmaço que não teve
a atenção que merecia e infelizmente não foi exibido nos cinemas do Brasil.
Passando-se na mesma Boston do filme de Clint Eastwood, Medo da Verdade é um thriller
mais instigante do que aparenta ser no início. Acompanhamos o detetive local Patrick Kenzie
(Casey, ótimo) e sua parceira/namorada Angie Gennaro (Michelle Monaghan). Eles são chamados
para trabalhar no caso da pequena Amanda McCready, mais uma criança desaparecida na cidade.
Além da dificuldade do caso em si, eles ainda precisam superar a desconfiança do capitão
Jack Doyle (Morgan Freeman), que contratou seus próprios detetives para investigar o sumiço
da menina, incluindo Remy Bressant (Ed Harris). O ponto de partida é a mãe da garota,
Helen McCready (Amy Ryan, excelente), mulher perturbada e envolvida com o tráfico
de drogas que não parece tão desesperada com o desaparecimento de sua filha.
A primeira hora do filme é um policial à moda antiga como não se faz mais, e dentro dessa
primeira hora o caso é resolvido. Affleck nos faz crer que o filme acabou (e se terminasse ali,
já teríamos um filme bem superior à média), mas de forma bastante natural e fluida ele revela
que ainda não chegamos à conclusão da trama. É quando Medo da Verdade engrandece
ainda mais. As reviravoltas e revelações não são poucas, culminando num final arrasador
que fica com o espectador após o fim do filme. É um material pesado, e imagino que quem leu
o livro bem antes da produção começar a ser rodada deve ter ficado frustrado com o nome
de Affleck na direção. Hoje devem estar felizes, pois o ex-galã teen apresentou uma segurança
inesperada no comando do filme e seu desempenho como diretor sobressai-se facilmente a qualquer
performance sua como ator. Ele narra a história com calma, sem pressa nem frenesi, dando
uma aulinha para os Michael Bays da vida. Certas cenas de suspense são angustiantes, demonstrando
o total domínio de som e imagem de Affleck, em especial na cena em que os detetives invadem
a casa da doentia família Trett. Peca apenas por usar alguns flashbacks baratos, mas nada que
comprometa o resultado. Principalmente quando ele consegue atuações admiráveis do elenco.
Casey e Michelle são um casal carismático e convincente, conquistando simpatia em poucos minutos.
Morgan Freeman acerta num papel difícil e Ed Harris tem sua melhor atuação desde Pollock.
Mas o show mesmo é de Amy Ryan, atriz veterana que recebeu seu devido reconhecimento
com esse filme. Ela agarra a personagem e a interpreta com toda a força, fazendo o espectador
ficar na dúvida quanto aos sentimentos em relação à Helen: ódio de sua negligência e pena
de um ser
humano desgraçado pela sua condição? Ela ganhou prêmios e foi indicada ao Oscar 2008 de coadjuvante.
Ao final é posta uma questão moral e social que nos deixa coçando a cabeça por um bom tempo.
Questão importante e que ganhou ainda maior relevância por causa do seqUestro da menina britânica
Madeleine McCann na época do lançamento do filme. Nem vou perder tempo explicando aqui, veja
e tire suas conclusões. E não só quanto às discussões propostas no longa (e por Lehane no livro),
mas também sobre a promissora estréia de Ben Affleck como diretor. Seu Medo da Verdade é tenso,
inquieto e brilhante, sem nunca ser auto-importante ou pretensioso. E essa humildade é o que me
deixou mais feliz e surpreso com o filme. Que Ben Affleck continue trabalhando atrás das câmeras.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
CHARLIE - Um Grande Garoto ![]()
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Charlie Bartlett EUA 2007 1h37min RT 5,4
de Jon Poll com Anton Yelchin, Robert Downey Jr., Kat Dennings, Hope Davis
Em DVD pela California Filmes
OPINIÃO Charlie Bartlett é um rico garoto que sonha em ser popular. Sua mãe, Marilyn,
é uma remediada sem-noção alguma sobre nada, enquanto seu pai está preso por sonegação
de impostos. Com um histórico familiar desses, não é de estranhar que o menino visite
um analista com freqüência. Já foi expulso de várias escolas particulares por suas tentativas
de se tornar famoso e, por isso, acaba tendo que estudar numa escola pública. Lá inicia
sua nova empreitada: dar uma de 'psiquiatra da turma' e vender remédios tarja-preta
para conquistar o pessoal. Isso com as melhores intenções do mundo.
Charlie – Um Grande Garoto, lançado diretamente em DVD aqui no Brasil, quase virou ícone
dos adolescentes politicamente incorretos e conquistou o ódio dos pais puritanos. Exagero
das duas partes, pois o filme nem é tão politicamente incorreto assim. Dirigido pelo estreante
e ex-montador Jon Poll, Charlie sofre da falta de um tom adequado, justamente por querer
agradar a todos. Às vezes é um conto sobre amadurecimento, às vezes uma comédia escrachada
estilo American Pie, às vezes é um drama moralista sobre a moda das doenças psiquiátricas.
O resultado é uma salada bem bagunçada (incluindo referências a filmes como Rushmore - Três
é Demais e Curtindo a Vida Adoidado) que conquista pelo charme, mas não atinge seu potencial.
Anton Yelchin (o simpático russo Chekov do mais novo Star Trek) se mostra perfeitamente capaz
de encabeçar o elenco de um filme. É difícil não se render ao seu carismático Charlie Bartlett,
por mais que você ache suas atitudes perigosamente inocentes. Suas viagens de Ritalina,
frases certeiras e suas conversas com os psiquiatras (pintados aqui como meras peças
do sistema comercial farmacêutico) garantem boas risadas. No elenco de apoio, Hope Davis
faz um bom trabalho como a insana mãe de Charlie, uma personagem não tão difícil de encontrar
em qualquer esquina. Viciada em antidepressivos, Marilyn parece estar fora do planeta em que
o filho vive (talvez até fora do planeta inteiro mesmo). Kat Dennings (de Nick & Norah – Uma Noite
de Amor e Música, leia abaixo), interpreta Susan, o 'interesse-romântico-quase-alma-gêmea'
de Charlie, e mais uma vez ela ruma ao título de musa indie. Aliás, ver uma adolescente fumar
um cigarro nesses tempos da 'geração saúde' é um alívio, mesmo havendo uma mensagem
antidrogas no filme. Completando o elenco principal, o sempre ótimo Robert Downey Jr.
faz Nathan Gardner, o pai de Susan e diretor da nova escola de Charlie.
Mesmo dando passos irregulares, Charlie – Um Grande Garoto anda pra frente. Até que vem
seu terceiro ato. Ok, Charlie é um bom garoto e não teve más intenções, mas daí a tentar torná-lo
um herói com direito a uma melosa e medonha trilha sonora já é demais. Além disso, parece
que algum pai leu o roteiro do filme e pediu pra torná-lo mais acessível ao povão norte-americano,
pois o que meia hora atrás foi tratado como diversão, no final se torna repreensível e imoral.
Essa indecisão de Poll acaba atrapalhando bastante o resultado, e infelizmente Charlie Bartlett
não se junta a turma de Ferris Bueler, Juno McGuff ou da trupe de Superbad ou do Clube dos Cinco.
Ainda assim, é um grande garoto preso a um filme engraçado, mas que poderia ser bem melhor.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
NICK & NORAH: Uma Noite de Amor e Música ![]()
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Nick & Norah’s Infinite Playlist EUA 2008 1h30min RT 7,2
de Peter Sollett com Michael Cera, Kat Dennings, Rafi Gavron, Ari Graynor, Aaron Yoo
Em DVD pela Sony Pictures
OPINIÃO Nova York já foi palco de inesquecíveis romances no cinema. Se Meu Apartamento
Falasse, Harry e Sally, Bonequinha de Luxo, Feitiço da Lua e boa parte da filmografia
de Woody Allen marcaram a cidade com suas histórias de amor. Nick & Norah: Uma Noite
de Amor e Música, uma charmosa comédia romântica sobre a vida e as relações afetivas
entre adolescentes numa grande metrópole, se junta a esse grupo. Sim, é um feel-good-movie
clichê e você já sabe como vai terminar, mas a graça desse filme está nos detalhes.
Nick (Michael Cera, que parece reprisar seus papéis em Superbad e Juno, mas ainda assim
cativante) acabou de levar um pé-na-bunda de Tris, típica loira patricinha nova-iorquina.
Arrasado, ele acaba sendo convencido por seus amigos a tocar à noite numa festa com
sua banda The Jerk Offs. Enquanto isso, a insegura Norah (Kat Dennings, de O Virgem
de 40 Anos e A Casa das Coelhinhas) decide sair à noite com sua doida e bêbada amiga
Caroline (Ari Graynor, hilária). Isso porque a Where’s Fluffy, banda secreta que faz shows
surpresas, vai tocar em Nova York. Nick e Norah acabam se conhecendo numa situação bizarra,
e, juntos com seus amigos, atravessarão uma noite de confusões, música e... você sabe.
Nick & Norah: Uma Noite de Amor e Música precisava de duas coisas para ser assistível:
um casal convincente e uma trilha inspirada. À sua maneira, acerta nos dois. Cera e Dennings
encarnam tipos desengonçados e tímidos, que têm pequenas ligações entre si. Fácil imaginá-los
juntos, nem o roteiro nem o diretor fazem muita questão de nos deixar na dúvida quanto
ao que eles sentem. Até porque seus ex-namorados são pessoas detestáveis, a ponto
de você se perguntar o porquê deles se meterem com aquela gente. A trama romântica
realmente não trás nada de muito novo, mas o carisma do casal segura as pontas.
Já a trilha sonora é adocicada sem ser melosa, reunindo um time de bandas indies
(nova-iorquinas em sua maioria) para embalar filme, como Devendra Banhart (que faz
ponta no filme), Vampire Weekend, Bishop Allen, Modest Mouse e The Raveonettes.
Fora que há várias referências musicais, de The Beatles à The Cure. Talvez tenha
até música demais, mas é algo logicamente perdoável no caso desse filme.
O filme também chama a atenção por ser uma grande viagem pela cidade que abriga
a história, e passa mesmo a sensação de como é a madrugada numa grande metrópole.
Você quase se sente lá. Claro que o fato de ter alguns personagens tridimensionais ajuda
nesse quesito, como Caroline, que é uma menina perdida, um tanto perturbada e definitivamente
alcoólica (ou 'Winehouse', como alguém a chama no meio do filme), mas sua real preocupação
com Norah faz com que ela deixe de ser uma simples máquina de fazer rir. Dev (Rafi Gavron)
e Thom (Aaron Yoo), parceiros de banda e melhores amigos de Nick, surpreendem ainda mais
por serem abertamente gays sem serem caricaturas, e Nick parece lidar muito bem com isso.
Por fim, as participações de John Cho, Seth Meyers e Andy Samberg causam algumas boas risadas.
Nick & Norah: Uma Noite de Amor e Música também tem uma ótima cena numa gravadora, onde
o sexo adolescente aparece como uma coisa simples, prazerosa, sem histeria. É o ponto alto de uma
noite com muitos altos e baixos e que faz você desejar que a playlist de Nick e Norah realmente
fosse infinita. É como naquele single pop, bobinho, contagiante e deliciosamente inocente
dos Beatles I Wanna Hold Your Hand: as pessoas só quem uma mão para segurar.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
CEMITÉRIO MALDITO ![]()
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Pet Sematary EUA 1989 1h43min RT 5,0
de Mary Lambert com Dale Midkiff, Fred Gwynne, Denise Crosby
Em DVD pela Paramount
OPINIÃO Stephen King é um dos autores mais bem sucedidos em Hollywood. Seus
livros e contos já renderam clássicos do terror e do suspense, indicações ao Oscar
e muito dinheiro. Suas parcerias de longa data com Rob Reiner (Conta Comigo,
Louca Obsessão) e Frank Darabont (Um Sonho de Liberdade, À Espera de Um Milagre,
O Nevoeiro) geraram algumas pérolas, assim como as adaptações feitas por diretores
de renome, mas que nunca repetiram a parceria (David Cronenberg, Brian De Palma,
Stankey Kubrick, George A. Romero). Mas, mesmo quando trabalha com diretores pouco
conhecidos e orçamento B, King pode render um bom filme. Cemitério Maldito se encaixa
nessa categoria se você encará-lo do jeito que ele é: um terror B à moda antiga.
No roteiro escrito pelo próprio King, acompanhamos os Creed, família que acaba de se mudar
para uma casa na beira de uma estrada no interior dos EUA. Perto dali existe um estranho
cemitério de animais, cujo vizinho da frente faz questão de apresentar à recém-chegada
família. Quando o patriarca da família, Louis, começa a ser perseguido por um fantasma,
as coisas começam a complicar. Acontece que atrás do tal cemitério existe outro,
que pertencia aos índios que moravam naquela região. E quando você enterra
um animal ali, ele retorna. Mas não exatamente do mesmo jeito...
O filme é uma fábula sobre a dificuldade do ser humano em lidar com a morte de um
ente querido e sobre como ele é capaz de tomar atitudes drásticas em situações limite.
Mas ninguém realmente se importa com isso ao assistir Cemitério Maldito. O que interessa
aqui é o fator ‘terror’. E nisso o filme acerta. A diretora Mary Lambert pode até conduzir
a parte dramática como uma novela, com direito a atuações cafonas do casal Dale MidKiff
e Denise Crosby, mas quando entra o sobrenatural, ela causa alguns arrepios. Aparições
de um fantasma são tensas e sua desagradável figura incomoda durante toda a projeção,
mas quem realmente mete medo é Zelda, a bizarra irmã da matriarca Rachel. Abrir a porta
e dar de cara com ela não é das situações mais aprazíveis... E ainda tem Church, o gato
preto da família, sempre pronto pra dar um susto fácil! Fred Gwynne encarna o vizinho Jud
no tom macabro ideal, enquanto o pequenino Miko Hugues é um show à parte como Gage,
o filho de três anos de idade. O desempenho do pivete nos 20 minutos finais é brilhante,
a melhor coisa do filme! Para quem já cansou dos excessos dos filmes de terror modernos
(montagem epiléptica de Jogos Mortais e efeitos digitais, por exemplo) Cemitério Maldito
é puro charme B. E quantos filmes podem se gabar de terminar com uma canção-título
composta pelos Ramones?!? Só isso já é o suficiente pra torná-lo uma pequena gema
do gênero. Trívia: Stephen King faz uma ponta, descubra em que cena.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
A GUERRA DO FOGO ![]()
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La Guerre du Feu França 1981 1h40min RT 7,9
de Jean-Jacques Annaud com Everett McGill, Ron Pearlman, Nicolas Kadi, Rae Dawn Chong
Em DVD pela Lume Filmes
OPINIÃO Há 80 mil anos atrás, o fogo era sinônimo de poder. Os grupos que dominassem
o elemento garantiam aquecimento, segurança contra animais e, principalmente,
sobrevivência. É nessa época em que se passa Guerra do Fogo, empolgante
e curiosa saga conduzida por Jean-Jacques Annaud, antes de O Nome da Rosa.
Na trama, a tribo de homo sapiens Ulam é atacada por um grupo de homens de Neandertal
e acaba perdendo seu bem mais precioso. Ilhada, a tribo manda três de seus membros
em busca de fogo, mas o trio terá que enfrentar uma jornada brutal e cheia de surpresas.
Annaud realizou uma grande façanha. Passou anos organizando a pré-produção, filmou
em três continentes diferentes, enfrentou o diabo junto com sua equipe e, por mais que
há 80 mil anos as coisas não tenham sido exatamente do jeito que o filme mostra,
ele nos faz crer em cada segundo. E ainda realizou um épico de aventura acessível
sem uma linha de diálogo compreensível. Claro que Annaud deve muito ao incrível
trabalho do elenco (Ron Pearlman em seu primeiro longa, antes do sucesso em Hellboy)
e da consultoria do antropólogo Desmond Morris, que coreografou genialmente a linguagem
corporal e o gestual dos atores. O diretor francês ainda contou com a ajuda de Anthony Burgess,
autor de Laranja Mecânica, na criação da linguagem em que os diálogos são falados.
Ainda que seja de forma inusitada, Guerra do Fogo conta uma história que já ouvimos antes,
a do homem que embarca numa viagem com uma meta e no caminho encontra o amor
e o autoconhecimento. Road movies em geral se utilizam frequentemente dela. O mais interessante
é que, mesmo quase 30 anos após seu lançamento, o filme de Annaud ainda soa original. Assistir
essa narrativa familiar ocorrendo com personagens de caráter bruto e que seriam nossos ancestrais
dá uma dimensão de pureza e de descoberta muito maior. O que me remete à cena que considero
a mais bela no filme: algum tempo depois que Naoh, suposto protagonista, conhece Ika, garota
de outra tribo, ele a estupra por trás, de forma bastante selvagem. Depois de uma série de acontecimentos,
Ika o procura e o abraça enquanto estão abrigados da chuva. Naoh inicia o ato sexual da mesma maneira
que da primeira vez, mas Ika se vira de frente. Ele gentilmente aceita a novidade e eles fazem amor.
E nem sabem ao certo o que é isso. Ainda por cima, Guerra do Fogo se mostra relevante ao contrastar
pré-história com mundo contemporâneo. Não somos muito diferentes de nossos distantes ancestrais.
Matamos, roubamos e estupramos de acordo com as necessidades, agimos como trogloditas sem a menor
capacidade de reflexão e não damos a mínima. Uma diferença é que os homo sapiens tinham a desculpa
de ainda estarem se descobrindo, enquanto nós não temos desculpa alguma. Outra diferença
é que money is the new fire. Assim como nossos antepassados, ainda há guerra por isso.
Nos extras do DVD, A Aventura da Guerra do Fogo, interessante documentário feito sobre
o filme com narração de Orson Welles e com rara participação de Anthony Burgess,
e um making of narrado por Jean-Jacques Annaud com dezenas de fotos da produção.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
O BALCONISTA 2 ![]()
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Clerks 2 EUA 2006 1h37min RT 6,3
de Kevin Smith com Brian O’Halloran, Jeff Anderson, Rosario Dawson, Jason Mewes
Em DVD pela Europa Filmes
OPINIÃO Procura-se Amy, Dogma, Pagando Bem, Que Mal Tem?: Se você já assistiu
a pelo menos um desses filmes você deve conhecer Kevin Smith. Mas mesmo que você
conheça esse simpático diretor, se você tem vinte e poucos anos são poucas as chances
de já ter visto a sua obra de estréia, O Balconista. O filme nunca foi lançado em DVD
no Brasil, somente nos cinemas e em VHS em 1994. Imagina então as chances de ter
visto essa continuação, discretamente lançada em DVD pela Europa Filmes. Caso não
tenha visto nenhuma dessas hilárias comédias, faça o favor de baixar o excelente
original e pegar essa seqüência na locadora mais próxima.
Anos após os eventos ocorridos em O Balconista, Dante (Brian O’Halloran) continua trabalhando
na famigerada loja de conveniência Quick Stop. Num acidente causado por seu amigo e balconista
da locadora vizinha Randal (Jeff Anderson), a loja pega fogo e é destruída pelas chamas.
Depois de um tempo eles acabam trabalhando na lanchonete Mooby’s ao lado do nerd Elias
(Trevor Fehrman) e sob o comando da dona do local, Becky (Rosario Dawson). Sempre em busca
de uma mudança radical em sua vida, Dante enxerga na sua namorada Emma (Jennifer Schwalbach,
esposa de Kevin Smith) um promissor futuro como homem casado e programa sair de Nova Jersey
e se mudar para a Flórida. Mas abandonar seu passado não é tão fácil quanto Dante pensava...
Ainda que seja inevitável, comparar os filmes é complicado. São muito diferentes entre si, desde
o custo de cada produção (o primeiro, em preto e branco, custou míseros 27 mil dólares, o segundo
custou 5 milhões de dólares) até as propostas de cada um. O Balconista 2 é bem mais pop,
conta com um roteiro mais redondo e com nomes famosos fazendo participações especiais (Ben
Affleck, Jason Lee), e é até mesmo mais emotivo que o primeiro. Nem por isso é menos divertido.
Piadas escatológicas, Jay e Silent Bob (Jason Mewes e o próprio Kevin Smith), garotas adoráveis
e referências pop: o universo de Smith está todo lá. São surpreendentes o diálogo sobre O Senhor
dos Anéis, o momento musical ao som de Jackson 5, a emocionante conversa na cela do presídio
e a clássica cena da despedida de solteiro de Dante organizada por Randal (falo apenas as palavras
'burro' e 'zoofilia', pra não estragar). É de chorar de rir! E o filme ainda conta com uma performance
inspirada de Rosario Dawson, linda, politicamente incorreta e encantadora.
O Balconista 2 pode até não ser melhor que o antecessor, mas faz justiça a ele sem ficar
na sua sombra. Mereceu cada segundo dos 8 minutos de aplausos que recebeu no Festival
de Cannes 2006 e ainda ajudou a comprovar uma teoria que foi confirmada no mais recente
Pagando Bem, Que Mal Tem?: no peito nerd de Kevin Smith bate um coração. Esse gordinho
é mesmo um tremendo romântico. TRIVIA: Além de ABC do Jackson 5, na trilha ainda toca
Soul Asylum (banda que encerra O Balconista), Talking Heads, Smashing Pumpkins
e Alanis Morissette, amiga de Kevin Smith que interpreta 'Deus' em Dogma.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
LEÓLO ![]()
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Leólo Canadá 1992 1h47min RT 10,0
de Jean-Claude Lauzon com Maxime Collin, Ginette Reno, Gilbert Sicotte, Julien Guiomar
Em DVD pela Lume Filmes
OPINIÃO 'Por que eu sonho, eu não sou.' Esse é o lema de Leólo, bizarra obra-prima
do canadense Jean-Claude Lauzon. As hipnotizantes memórias do pequeno Leo, que busca refúgio
na fantasia ao se ver preso a uma família insana e sofrida, foi lançada no Brasil há 17 anos
e andava esquecido, mas agora ganha a chance de ser visto em DVD através da Lume Filmes.
Interpretado com excelência por Maxime Collin, Leo é um pobre garoto de Montreal que
recusa a aceitar sua condição de miséria, rejeitando até mesmo sua família. Logo no início
do filme, ele cria uma diferente e engraçada história de sua própria concepção envolvendo
tomates importados da Itália. Aliás, é daí que vem sua obsessão com o país europeu,
a ponto de o menino fazer questão de ser chamado de Léolo Lozone. Ainda por cima,
ele nutre uma paixão pueril por sua bela vizinha Bianca, descendente de italianos.
Enquanto dribla a estranha fixação que seus pais têm por fezes (ele um operário gordo,
ela um dona de casa ainda maior), lida com a insanidade de suas irmãs e mantém uma relação
de amor e ódio com seu irmão mais velho e fisiculturista Fernand, Léolo cresce, tem suas primeiras
e hilárias experiências sexuais, e escreve tudo o que vem à sua cabeça, já que é um apaixonado
por literatura desde cedo. Suas memórias são lidas pelo diretor de sua escola (Denys Arcand,
diretor de As Invasões Bárbaras), que busca o reconhecimento do talento do garoto.
A grotesca história de Léolo é contada em tom de fábula, num estilo que lembra muito o cinema
Terry Gilliam e Tim Burton, mas com um encanto especial vindo das mãos de Lauzon. O resultado
é uma tragicomédia fantástica, mas ainda assim singela e agridoce quando mostra os sentimentos
de exclusão de seu protagonista, especialmente quando este tenta provar que, mesmo 'vivendo'
em um mundo só seu, não sofre da insanidade que seus familiares parecem apresentar, mas que
apenas tem a esperança de mudar seu futuro, seu presente e até mesmo seu passado. Imperdível.
Curiosidade: Jean-Claude Lauzon morreu cinco anos após ter realizado Leólo, em um acidente
de avião em Québec, enquanto preparava seu terceiro longa. Triste fim para um cineasta promissor.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
UMA VIAGEM MUITO LOUCA ![]()
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Harold and Kumar Escape From Guantanamo Bay EUA 2008 1h54min RT 5,4
de John Hurwitz e Hayden Schlossberg com John Cho, Karl Penn, Neil Patrick Harris
Em DVD pela PlayArte
OPINIÃO Em 2004, um pequeno filme chamado Harold & Kumar Go To White Castle,
sobre dois jovens maconheiros tentando chegar à uma burgueria, surpreendeu e foi sucesso
nos cinemas americanos. No Brasil, chegou em DVD em 2005 sob o título Uma Madrugada
Muito Louca. Ano passado, a dupla voltou às telonas com Harold & Kumar Escape
From Guatanamo Bay, que fez ainda mais sucesso que o antecessor. Não adiantou:
no Brasil o filme só chegou esse ano diretamente nas locadoras. Mesmo assim, o descaso
e o título genérico não são motivos para você ignorar essa divertida continuação.
Dessa vez os amigos Harold Lee e Kumar Patel, dupla à la Cheech & Chong, decidem
viajar para Amsterdã em busca de maconha legalizada. No avião, eles são confundidos
com terroristas, terminam detidos e mandados para a prisão de Guantánamo! Eles conseguem
fugir de lá e voltam para os EUA com ajuda de alguns cubanos. Agora é fugir do insano
subsecretário de Segurança Nacional Ron Fox, que tem certeza absoluta de que Harold
(de descendência chinesa) e Kumar (de descendência indiana) fazem parte de uma
conspiração terrorista formada pela união da Al Qaeda com a Coréia do Norte...
Nem tão engraçado quano o antecessor, é comédia abertamente escrachada e sem vergonha
disso. As geniais piadas sobre racismo desenham o preconceito estúpido e xenófobo
americano melhor que muitos filmes 'sérios' (além de terroristas, Harold e Kumar são
confundidos com mexicanos, coreanos e por aí vai...), e esse preconceito também faz
parte do caráter dos protagonistas. Pena que a narrativa episódica prejudique um pouco
o andamento do filme. Pensei se seria uma boa idéia uma série de TV estrelada pelos
personagens. O romance teen melosinho também soa meio deslocado, mas nada que
comprometa a diversão. Entre todas as participações especiais, merecem destaque
a do assumidamente gay Neil Patrick Harris, ex-ídolo teen, como um machão pervertido;
a do casal Jon Reep e Missi Pyle interpretando os interioranos Raymus e Raylene, pais
de um filho muito especial; e, claro, a de George W. Bush... Fumando maconha!!!
Alugue junto com Madrugada Muito Louca e chore de rir nesse fim de férias.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
OTIS - O NINFOMANÍACO ![]()
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Otis EUA 2008 1h40min
de Tony Krantz com Bostin Christopher, Kevin Pollack, Daniel Stern, Illeana Douglas
Em DVD pela Warner Home Video
OPINIÃO Riley Lawson, filha mais velha de uma família suburbana americana normal
(pai paranóico, mãe perturbada, filho maconheiro), é seqüestrada por um maníaco
e mantida em cativeiro. O maníaco é o grande, gordo e problemático Otis, que trabalha
de entregador de pizza e cujo único membro de sua família é seu irmão violento Elmo.
Obcecado em reaver sua perturbada adolescência, Otis obriga Riley a se vestir de cheerleader,
fazer coreografias e dançar com ele num suposto baile de formatura.
Humor negro
é o que não falta em Otis – O Ninfomaníaco (mais um título errado escolhido
por uma distribuidora brasileira, já que o protagonista está bem longe de ser o que seu subtítulo
o julga), segundo filme do também produtor Tony Krantz. Sátira aos filmes slasher, o longa
segue à risca o gênero terrir, e faz uma mistura de Cativeiro, bomba já comentada aqui
no Dicas de Cinéfilo, com Aniversário Macabro, mas com boas doses de comédia.
O que torna o filme uma boa surpresa é o fato dele nunca se levar a sério. As situações
e os diálogos soam propositalmente falsos e funcionam muito bem graças ao elenco, plenamente
consciente disso. Kevin Pollak, Daniel Stern (um dos atrapalhados da dupla de seqüestradores
de Esqueceram de Mim) e especialmente Illeana Douglas abusam de sua veia cômica, e protagonizam
ao lado de Jared Kusnitz (o filho Reed Lawson) uma das lutas mais atrapalhadas da história.
Sem falar numa engraçadíssima sessão de tortura em família ('Vou fazer um suco com os dedos
dele e obrigá-lo a beber!'). Destaque também para Jere Burns como o sem-noção Agente Hotchkiss.
Assim como o filme anterior de Tony Krantz, Sublime, Otis – O Ninfomaníaco chegou direto
nas locadoras tanto aqui como em sua terra natal, mas a tela menor não atrapalha a experiência
tanto assim, mesmo em CinemaScope. É diversão rápida e uma jóia para fãs de humor negro.
Atenção pra a trilha 70/80 que inclui bandas como The B52’s, Devo, Blue Öyster Cult,
Talking Heads (Crosseyed and Painless, nos créditos de abertura) e Shocking Blue.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
RESSACA DE AMOR ![]()
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Forgetting Sarah Marshall EUA 2008 1h52min RT 8,5
de Nicholas Stoller com Jason Segel, Kristen Bell, Mila Kunis, Bill Hader, Paul Rudd
Em DVD pela Universal
OPINIÃO Pobre Peter Bretter, levou um pé-na-bunda de sua namorada Sarah Marshall.
Ok, é normal e acontece todo dia. Sendo que, no caso de Peter, é ainda pior:
Sarah é a estrela de uma popular série de TV chamada Crimescene: Scene of the Crime,
programa para o qual ele é sonoplasta. Desolado, Peter segue o conselho de seu
irmão Brian e vai relaxar no Havaí. Mal sabe ele que sua ex está de férias por lá,
e de namorado novo. Como você deve ter percebido, Ressaca de Amor não é sobre
alcoólatras. Portanto, ignore esse título equivocado escolhido pela distribuidora,
que lançou o filme aqui direto em DVD, sem chance de uma passagem pelos cinemas.
Escrito pelo comediante e protagonista Jason Segel, o roteiro é inspirado no relacionamento
deste com a atriz Linda Cardellini (a Velma de Scooby Doo). E tirando pelo que eu vi,
ela deve ser uma vaca! Rsrsrs Sarah Marshall (Kristen Bell) não só abandona Peter sem
muitas explicações como inicia um namoro com o pseudo-rocker-porco-britânico-esquisito
Aldous Snow, supostamente do nada. A salvação reside na bela Rachel (Mila Kunis), recepcionista
do hotel onde todos eles se hospedam e que decide ajudar Peter a sair da fossa.
Ressaca de Amor é produzido pelo novo rei da comédia americana Judd Apatow (O Virgem
de 40 Anos, Ligeiramente Grávidos, Superbad) e, como em todo filme produzido por ele,
há uma série de bons atores em todo tipo de papel. Jason Segel, que trabalhou na série
Freaks and Geeks, também produzida por Apatow (e que, vejam só, tinha Linda Cardellini
no elenco) revela-se não só um comediante de mão cheia como um bom roteirista. Kristen Bell
parece interpretar ela mesma (estrela da TV, bonitinha, mas ordinária), mas ao menos o faz bem.
Mila Kunis traz sua beleza da série That’s 70s Show com bastante bom humor e Russell Brand
está impagável como Aldous, sua performance nos palcos e nos clipes é nada menos do que
hilária. E ainda há participações de Bill Hader, Jonah Hill e Paul Rudd, todos ótimos.
Tudo bem que em 15 minutos você já sabe como a história vai terminar, mas o filme
sobrevive ao longo de suas quase duas horas por evitar clichês de comédias românticas,
além de não temer a censura ao colocar cenas de nudez frontal do grandalhão Jason Segel
(visão nada animadora, mas engraçado devido às situações), polêmicas quando o filme foi
lançado nos EUA. E consegue equilibrar romance com piadas safadas. Esse Judd Apatow vai longe.
Obs.: Não desligue o DVD até você ver a propaganda de uma nova telessérie estrelada
por Sarah Marshall, com participação do sempre engraçado Jason Bateman.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
1. EU SEI QUEM ME MATOU ![]()
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I Know Who Killed Me EUA 2008 1h46min RT 0,8
de Chris Sivertson com Lindsay Lohan, Julia Ormond, Neal McDonoug
Em DVD pela Swen Filmes
2. CATIVEIRO ![]()
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Captivity EUA 2008 1h38min RT 0,7
de Roland Joffé com Elisha Cuthbert, Daniel Gillies, Pruitt Taylor Vince
Em DVD pela Europa Filmes
OPINIÃO E chega ao fim 2008, ano que viu nascer algumas pérolas e obras-primas,
mas que também deu cria a muita tralha cinematográfica. Entre uma bomba aqui
e um hecatombe nuclear ali, alguns títulos acabaram sendo relegados às locadoras.
Entre longas medianos e/ou fracassados (Southland Tales – O Fim do Mundo de Richard Kelly,
Invasão de Domicílio do finado Anthony Minghella, Estrada Maldita, com Emily Blunt, Temos Vagas,
com Luke Wilson e Kate Beckinsale, O Amor Não Tem Regras, com George Clooney e Renée Zellweger)
e filmes cuja existência ainda é questionada (Anaconda 3, Bratz – O Filme, Garotos Perdidos 2...
é melhor parar por aqui), foram duas produções de terror que se 'destacaram'
como os maiores lixos que os brasileiros, felizmente, não viram no cinema.
O primeiro é Eu Sei Quem Me Matou, desgraça estrelada pela ex-estrela teen Lindsay Lohan
e que conta a história de Aubrey, adolescente que é seqüestrada e torturada pelo maníaco
da vez, mas que quando é encontrada diz ser outra pessoa: uma stripper chamada Dakota.
Misturando torture porn, thriller erótico e suspense sobrenatural, o filme de Chris Sivertson
erra em todos os quesitos. A começar pela estúpida premissa, que poderia até ter rendido
um bom filme B, mas se leva a sério demais. A fotografia chupada dos filmes de David Lynch
é pobre, o esquema de cores escolhido pela direção de arte é infantil em sua obviedade
(todos os objetos desse filme são irritantemente azuis), as reviravoltas do roteiro são incoerentes,
o elenco oscila entre o ruim e o ridículo, e nem mesmo La Lohan tira a roupa, nem pra fazer sexo!
E para coroar o show de erros, temos um final comicamente esdrúxulo e absurdo.
Não sabia se chorava de rir ou de tristeza por ter perdido meu precioso tempo.
Acredite, não é a toa que Eu Sei Quem Me Matou ganhou 8 Framboesas de Ouro!
Já Cativeiro, dirigido pelo mesmo Roland Joffé de A Missão e Os Gritos do Silêncio, é um suposto
filme de horror que conta a estúpida história da modelo Jennifer Tree (a linda e eternamente
inexpressiva Elisha Cuthbert) que, pra variar, é seqüestrada e torturada pelo maníaco da vez.
Quer dizer, 'torturada' talvez seja uma palavra muito forte. O que dizer de um psicopata que,
para assustar sua vítima, apaga a luz de seu cativeiro? Ou obriga a moça a vestir roupas bonitas?
Ou ainda (Oh Deus, tenha pena dessa garota!) rouba o ursinho de pelúcia dela?!? Ah, essas modelos...
É impossível não rir do desespero da pobre Jennifer. Quando Daniel Gillies aparece como a outra vítima
desse vil e cruel vilão, todo mundo já sabe como esse desastre vai terminar. Mas Joffé, este sim
o verdadeiro psicopata, acha pouco e nos tortura com mais meia hora de excremento
cinematográfico. O final forçadamente girl power é tão inverossímil que é melhor desligar a TV
antes que o filme acabe. E eu achando que nada poderia ser pior que a série Jogos Mortais...
Devo dizer que assistir, ou sobreviver, a essas duas coisas que alguns chamam de filme foi
traumatizante. Não há Lindsay nem Elisha que consigam tornar tais bagaceiras em obras
minimamente tragáveis. Mas como é tempo de fazer boas ações, fica aqui a Dica de Cinéfilo:
não assista a Eu Sei Quem Me Matou nem Cativeiro e terás um feliz 2009!
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
O QUE HÁ, TIGRESA? ![]()
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What's up, Tiger Lily? EUA 1966 1h20min RT 8,8
de Woody Allen e Senkishi Taniguchi com Woody Allen, Tatsuya Mihashi, China Lee
Em DVD pela Lume Filmes
OPINIÃO Em 1965, o American International Pictures comprou International
Secret Police: Key of Keys, filme de ação japonês dirigido por Senkichi Taniguchi
para distribuir nos EUA. Ao perceber que o longa não faria sucesso nos cinemas,
o estúdio decidiu não lançá-lo. Ao invés disso, contratou o então estreante
Woody Allen para trabalhar numa dublagem especial do filme. O resultado foi
O Que Há, Tigresa?, comédia que já nasceu clássica e que chega às lojas e locadoras
através da Lume Filmes, logo após o sucesso de Vicky Cristina Barcelona no Brasil.
O longa de Senkiguchi mostrava um grupo de agentes secretos em busca
de um obscuro microfilme e, por sua vez, já era uma espécie de sátira
aos filmes de James Bond. O que Allen fez foi apagar todo o áudio do filme,
colocar uma nova trilha e novos diálogos, sem se importar muito com a história
original. Em O Que Há, Tigresa?, um grupo de agentes procura uma secreta...
receita para uma salada de ovos! É nesse tom que Allen comanda a nova
história, com frases nonsense e roteiro mais nonsense ainda.
O programa da MTV Tela Class provavelmente copiou a idéia desse filme,
sendo que com um humor mais grosseiro. Há momentos impagáveis. O início,
onde um trecho do filme com o áudio original é subitamente interrompido
para que Woody Allen explique ao público o que ele realmente vai assistir
é genial (incluindo a piada sobre ...E O Vento Levou), assim como é a cena
que do rato no barco e as sequências que envolvem a semi-nudez das atrizes.
Apesar de às vezes as bobagens do filme cansarem, o humor afiado e esperto
do projeto seguram as pontas. Destaques para a trilha do The Lovin’ Spoonful,
que faz participação não autorizada por Allen, e também para as atrizes Akiko
Wakabayashi e Mie Hama, que interpretam as espiãs e que são conhecidas
por uma participação em Com 007 Só Se Vive Duas Vezes.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
O VIGIA ![]()
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The Lookout EUA 2007 1h39min RT 8,7
de Scott Frank com Joseph Gordon-Levitt, Matthew Goode, Jeff Daniels, Isla Fisher
Em DVD pela Disney/BuenaVista
OPINIÃO O jovem estudante e jogador de hockey Chris (Joseph Gordon-Levitt)
tem seu promissor futuro transformado por causa de um acidente. Seu cérebro
sofre danos e ele perde a noção de seqüência e a função de retenção de memória.
O único emprego que ele consegue é como vigia noturno em um banco, e seu único
amigo é Lewis (Jeff Daniels), um cego para o qual ele trabalha e com quem mora
por causa do serviço social. Um dia ele conhece o amigável Gary (Matthew Goode),
que o oferece tudo o que ele perdeu no acidente: amigos, respeito e uma garota,
Luvlee (Isla Fisher). Mas com o tempo, Gary revela a sua verdadeira intenção,
que é usar Chris num plano para roubar o banco em que ele trabalha.
O filme de estréia do roteirista Scott Frank (A Intérprete, Minority Report) deriva
seu estilo de outros filmes, mas ainda assim é realizado com sólida competência.
Os buracos do intricado roteiro são encobertos pela atmosfera de suspense,
pela plausibilidade dos intrigantes personagens e pelas inesperadas reviravoltas.
Frank também se sai bem na condução de seu elenco. Joseph Gordon-Levitt, que depois
de O Vigia e Brick – A Ponta de Um Crime deve estar tentando tornar-se o rei do 'neo-noir',
mostra novamente seu talento em tornar reais personagens complexos e complicados.
Jeff Daniels está fantástico e equilibra drama e humor com perfeição, enquanto Matthew Goode
(de Match Point)
e Isla Fisher (de Penetras Bons de Bico) surpreendem em personagens
diferentes do que estão acostumados a fazer, especialmente ela que é estrela de comédias.
Mais do que um mero filme de ação, O Vigia é um sutil estudo de personagens
e um filme sobre redenção. É refrescante assistir a um filme assim em tempos em que
o gênero só tem
explosões e tiroteios inconseqüentes. Bem acima da média.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
A GAROTA MORTA ![]()
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The Dead Girl EUA 2007 1h34min RT 7,4
de Karen Moncrieff com Toni Colette, Rose Byrne, Marcia Gay Harden, Brittany Murphy
Em DVD pela Europa Filmes
OPINIÃO Sete pessoas têm suas vidas modificadas quando o corpo de uma garota
é encontrado. Essa é a sinopse básica de A Garota Morta, recém-lançado diretamente
em DVD, mas há muito mais por trás dessa linha. O filme de Karen Moncrieff
(Um Certo Carro Azul) entrelaça vários personagens diferentes, especialmente
mulheres, em cinco seguimentos interligados pela garota do título.
O primeiro é A Desconhecida, onde vemos Arden (Toni Colette), que cuida
de sua autoritária mãe (Piper Laurie) enquanto tenta se relacionar com
o estranho Rudy (Giovanni Ribisi). Uma guinada acontece quando ela encontra
um misterioso cadáver. O segundo se chama A Irmã e acompanha a patologista
Leah (Rose Byrne), sempre assediada pelo colega de trabalho Derek (James Franco).
Ela desconfia que um cadáver por ela examinado seja o de sua irmã desaparecida
há 15 anos. Em A Esposa, terceiro e mais curioso dos seguimentos, a solitária
Ruth (Mary Beth Hurt) passa a desconfiar das saídas noturnas de seu marido
Carl (Nick Searcy). Já em A Mãe, Melora (Marcia Gay Harden) descobre com
a prostituta Rosetta (Kerry Washington) o que aconteceu com sua filha que saiu
de casa há muito tempo. E no quinto seguimento conhecemos a bad girl Krista
(Brittany Murphy), que pede carona para Tarlow (Josh Brolin) até a cidade onde
sua filha está para dar um presente de aniversário a ela. É o último seguimento,
que dá título ao filme. Como deu pra perceber, A Garota Morta tem um elenco estelar.
As veteranas Toni Colette, Piper Laurie, Marcia Gay Harden e principalmente Mary Beth Hurt
mostram por que são atrizes A-list, mas as performances das jovens Rose Byrne, Kerry
Washington e Brittany Murphy (esta oscilando entre o brilhante e o exagerado) são
surpreendentes. Entre os atores, Giovani Ribisi e Nick Searcy realizam sutis
mas boas atuações e chamam atenção em seus pequenos papéis.
As cinco linhas narrativas do longa instigam a curiosidade do espectador, mas
ao mesmo tempo prejudicam a unidade do filme. É interessante como Moncrieff,
ainda que com certa previsibilidade, joga dicas e detalhes para que nós mesmos
formemos o plano geral da história, mas muitas vezes me questionei se existia
importância para tais detalhes, ou ainda se algumas sub-narrativas faziam diferença.
É como se a diretora/roteirista estivesse se esquecendo da história que estava
contando... Ainda assim, ela mostra competência na condução das tramas.
A Garota Morta não tem grandes pretensões como muitos filmes de múltiplas
linhas narrativas, o que já conta pontos a seu favor, assim como seus enxutos
94 minutos. É um filme imperfeito, mas intrigante o suficiente para fazer valer a locação.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
ELLIE PARKER ![]()
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Ellie Parker Inglaterra 2005 1h35min RT 5,2
de Scott Coffey com Naomi Watts, Mark Pellegrino, Rebecca Rigg, Chevy Chase
Em DVD pela California Filmes
OPINIÃO Naomi Watts já se provou uma atriz versátil. Passeia por qualquer gênero
com facilidade, este ano vista em duas boas performances em Senhores do Crime
de David Cronenberg e Violência Gratuita de Michael Haneke. 2005 foi particularmente
especial pra ela. Começou com a seqüência do horror de sucesso O Chamado 2,
de Hideo Nakata, seguiu com o suspense dramático A Passagem, de Marc Forster,
e no fim do ano estrelou obras extremamente opostas entre si: o megablockbuster
King Kong, de Peter Jackson, e essa pequena comédia independente Ellie Parker,
dirigida pelo também ator Scott Coffey, com quem Naomi já havia trabalhado
antes em Tank Girl e Cidade dos Sonhos, de David Lynch.
Filmado em digital, o longa é um retrato de Ellie, uma aspirante a atriz tentando
a sorte em Hollywood. Faz curso de atuação, se esmera nos testes de elenco
e trabalha sotaques a fim de conseguir mais papéis. Nesse meio tempo, tenta lidar
com seu namorado cafajeste e com seus relacionamentos pessoais e profissionais.
Ellie Parker é uma versão longa de um curta de 2001 de mesmo nome realizado pela
mesma equipe, e, talvez, funcione melhor como curta. As estripulias de Ellie nem
sempre são interessantes e o que segura a atenção é o elenco. As imagens também
chegam a incomodar em certo ponto, às vezes parece um vídeo caseiro de luxo.
O grande motivo para se assistir Ellie Parker é mesmo a sua estrela protagonista.
Naomi Watts se entrega corajosamente a um projeto arriscadíssimo, e por mais que
o filme falhe, ela nunca deixa a desejar. Hilária em suas tentativas de ser aceita
por todos, Naomi faz de sua Ellie uma personagem tragicamente engraçada, do qual
você desdenha e ao mesmo tempo sente compaixão. E quem viu Cidade dos Sonhos
lembra muito bem do incrível desempenho dela quando sua personagem Betty faz
um teste para um filme. Naomi é expert em interpretar atrizes atuando e aqui
não é diferente. Curiosamente o mesmo também acontece em King Kong.
Ocasionalmente engraçado e cativante, Ellie Parker deve à Naomi Watts a razão
de existir (além de protagonista, ela também é produtora), embora infelizmente
o filme poucas vezes chega a seu nível. Para o público em geral vale
como uma curiosidade e, para fãs da atriz, como eu, é indispensável.
Obs. Keanu Reeves faz uma ponta, descubra onde ele está.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
VERMELHOS E BRANCOS ![]()
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Csillagosok, Hatonák Hungria/Rússia 1967 1h30min
de Miklos Janksó com József Mandaras, Tibor Molnár, András Kozák
Em DVD pela Lume Filmes
OPINIÃO 1919, a Guerra Civil da Rússia está no auge. O exército Bolchevique,
ou vermelho, passa e receber ajuda de comunistas húngaros na brutal luta contra
o exército Czarista, ou branco, pelo poder das colinas em torno do rio Volga. Soldados,
reféns, corsários e enfermeiras tentam sobreviver em meio ao caos instalado naquele
bucólico cenário. Parece ser uma visão infernal, num tom quase fantástico que
o aclamado diretor húngaro Miklós Jancsó narra essa batalha, em seu quinto filme.
Vermelhos e Brancos seria, a princípio, uma homenagem aos 50 anos
da Revolução de Outubro, mas a decisão de Jancsó de ambientar a história
dois anos após o acontecimento e de abordar a falta de sentido da Guerra,
acabou por causar uma grande polêmica na Rússia, país onde o filme foi banido.
Mesmo assim é um de seus filmes mais admirados mundialmente. Suas obras
visualmente estilizadas possuem como maior característica longos plano-seqüências,
e não é diferente neste aqui: as cenas são muitíssimo bem coreografadas
e certas tomadas são de cair o queixo, impressiona como cada plano,
cada movimento da câmera observadora e cada passo dos atores
parece ter sido exaustivamente ensaiado e planejado.
A falta de um personagem central dificulta uma conexão maior com os vários
que aparecem e somem da tela sem maiores explicações e por isso o filme
é injustamente acusado de frio, mas defensores clamam que essa abordagem
o diferencia de filmes anti-guerra convencionais, que usam a mesma estrutura
dos filmes de guerra heróicos. Com uma conclusão simbólica e arrebatadora,
Vermelhos e Brancos encerra sua saga fugindo de qualquer clichê do gênero
e joga na nossa cara que, independente da cor que se defende, uma guerra
é doentia por natureza. É um filme único, raro e imperdível, a ser descoberto.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
ALTA TENSÃO ![]()
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Haute Tension França 2003 1h30min RT 4,1
de Alexandre Aja com Cecile de France, Maiwenn Le Besco, Philippe Nahon
Em DVD pela Europa Filmes
OPINIÃO É da Europa que vêem os melhores e mais assustadores filmes
da nova safra do horror e do suspense. Enquanto a maioria dos orientais
insiste em explorar cansadas fantasminhas cabeludas e Hollywood gasta
uma nota para fazer tudo de novo, os europeus realizam obras originais
e genuinamente assustadoras todo santo ano. A França então, nem se fala.
Foi de lá que veio esse teste para os nervos, segundo longa de Alexandre Aja.
Filmado em apenas 36 dias e com econômicos 430 mil dólares, Alta Tensão
tem uma premissa simples: Alexia viaja para a fazenda de sua família levando sua
amiga Marie (Cecile de France, a lésbica Isabelle de Albergue Espanhol) a reboque.
As duas desejam passar dois dias estudando para as provas finais da faculdade
mas, durante a primeira noite de estadia, um caminhoneiro misterioso invade a casa.
O que se segue é uma série de assassinatos brutais, seqüências aterradoras de suspense
e momentos dignos de gritar palavrões, tudo isso conduzido com muita competência por Aja.
A violência chocante e explícita de Alta Tensão resultou na aversão de críticos
e público em geral (até compreendo, o teor de sangue é realmente alto), mas o que
causou mais polêmica foi mesmo o final 'puxa-tapete' do filme, justamente onde
as opiniões se dividiram. Para aqueles que não gostam do desfecho, tentem levar
Alta Tensão” como uma espécie de Funny Games slasher, e não como um Massacre
da Serra Elétrica afrancesado. Lançado nos cinemas franceses em 2003, Alta Tensão
só chegou ao Brasil em abril do ano passado, já em DVD. Aja, o diretor, partiu para
os remakes hollywoodianos, onde fez o bom Viagem Maldita e recentemente dirigiu
Espelhos do Medo, estrelado por Kiefer Sutherland e que estréia por aqui em breve.
Antes de conferir o novo filme de Jack Bauer, passe numa locadora, pegue
Alta Tensão e chame os amigos para uma midnight session. Mas se você
é fraco do coração, passe longe. O filme não tem esse título por acaso.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
BRICK - A PONTA DE UM CRIME ![]()
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Brick EUA 2006 1h50min RT 7,8
de Rian Johnson com Joseph Gordon-Levitt, Lukas Hass, Emilie de Ravin, Noah Fleiss
Em DVD pela Imagem Filmes
OPINIÃO Neo-noir: gênero cujos filmes imitam, homenageiam ou possuem
similaridades com os film noir dos anos 40 e 50. Fazem parte desse grupo
Blade Runner, Corpos Ardentes, Amnésia, Gosto de Sangue, Garotas
Selvagens, Los Angeles – Cidade Proibida, Cidade dos Sonhos e Sin City.
Em 2006 foram lançados nos Estados Unidos três filmes que se encaixam
nesse gênero. São eles Dália Negra, de Brian De Palma, história real onde
um detetive investiga a morte de uma aspirante a atriz em Los Angeles;
Hollywoodland, de Allen Coulter, história real onde um detetive investiga
a morte do ator George Reeves em Hollywood; e Brick – A Ponta de Um Crime,
história fictícia onde um adolescente comum procura sua ex-namorada
desaparecida pela Califórnia. Brick é o mais curioso e interessante de todos
por ser simplesmente algo diferente. Certamente por essa razão, Brick
foi o único entre estes filmes que não recebeu o devido lançamento
nas preconceituosas programações das telonas do Brasil.
Brendan Frye sofre uma guinada em sua rotina quando sua ex-namorada Emily
desaparece do nada. Quando ele descobre que seu sumiço pode ter ligação
com um lendário traficante da cidade chamado The Pin, Brendan recolhe uma
série de pistas e sai em busca da garota, numa saga que envolve vingança,
traição e... tijolos (o brick do título). Como diz o slogan do filme, é 'uma história
de detetive’. E das mais irresistíveis. Pra contá-la, o criativo jovem diretor
Rian Johnson chamou um elenco de talentosos semi-desconhecidos. Joseph
Gordon-Levitt (10 Coisas que Odeio em Você e Mistérios da Carne), encarna
Brendan com impressionante sinceridade, a ponto de me fazer acreditar em atitudes
absurdas e muito corajosas que seu personagem toma ao longo da trama.
Nora Zehetner, que interpreta a sexy Laura, prova que foi uma escolha acertada
ao emprestar sua beleza delicada a uma das personagens mais fascinantes do filme.
Lukas Haas (Alpha Dog, Last Days, ele era o garotinho amish de A Testemunha, lembra?)
está assustador e ao mesmo tempo cômico como o ameaçador traficante da cidade.
Matt O’Leary (A Mão do Diabo) acerta como Brain, o amigo nerd do protagonista,
e a angelical Emilie de Ravin (LOST, Viagem Maldita) é a perfeita Emily, encantando
mesmo com pouco tempo em cena. A história do filme vai se tornando cada vez mais
complexa, chegando a ser complicado absorver e processar tanta informação, mas
Johnson nunca deixa a peteca cair e cria cenas tão tensas que me foi difícil manter
a respiração regularizada. Jonhson é certeiro até mesmo quando aposta no humor,
como na cena da cozinha envolvendo a mãe de The Pin, hilária em sua auto-ironia.
O charmoso tom noir do filme é decisivo e fundamental para que ele funcione.
Todos os elementos estão lá – a moral ambígua dos personagens, as femme-fatales,
os flashbacks e os cenários noturnos e sombrios –, mas tudo isso em plena
high school americana. E sem os clichês que filmes sobre adolescentes adoram abusar.
Alguns críticos chegaram a dizer que este é o primeiro teen-noir da história do cinema.
Pioneiro ou não, Brick – A Ponta de Um Crime é antes de tudo um filmaço que foi
injustamente rejeitado pela sua própria distribuidora brasileira. O pobre DVD traz
slide show, trailer do filme e de outros lançamentos. Descubra, assista, indique.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
APENAS UMA VEZ ![]()
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Once Irlanda 2006 1h26min RT 9,7
de John Carney com Glen Hansard e Markéta Irglová
Em DVD pela Swen Filmes
OPINIÃO Um cara que ganha a vida tocando suas canções nas ruas de Dublin
e consertando aspiradores de pó. Uma garota que sustenta a família
vendendo rosas nessas mesmas ruas e que adora tocar piano.
Um encontro entre eles, e temos um dos filmes mais genuinamente
românticos e emocionantes que você vai assistir esse ano.
Musical simples e semi-autobiográfico, o longa do irlandês John Carney
surpreendeu o mundo ano passado quando caiu nas graças da crítica
e do público americano em pleno verão de piratas, aranhas e ogros milionários.
No Brasil, só estreou um mês após a consagração no Oscar, que concedeu
ao talentoso casal de protagonistas e compositores da trilha sonora
Glen Hansard e Markéta Irglová o prêmio de Melhor Canção. Infelizmente
o filme não foi exibido nas telonas pernambucanas, mas o público tem
agora a oportunidade de conferir essa pérola em DVD.
Apenas Uma Vez dura curtos 86 minutos, mas é o suficiente pra te desarmar.
Carney costura a personalidade e o relacionamento de seus personagens
de forma singela e com um estilo bem documental de filmar. As canções estão
tão bem encaixadas que o fato delas soarem levemente apelativas (feitas pra
chorar, para ser mais exato) nem incomoda. Na verdade, são muito funcionais:
não dá pra sair do filme sem cantarolar When Your Mind Is Made Up, Fallen From
The Sky ou a oscarizada e doce Falling Slowly. Trailer, slide show e dois making of
(Mais Sobre Ela, Mais sobre Ele e Um Encontro Musical) acompanham o DVD,
que já está disponível nas locadoras. Não deixe passar.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com