home arquivo quem faz










aaaa












Edições Anteriores

Edição 642

Uma Ladra Sem Limites
Paris-Manhattan
O Último Exorcismo - Parte 2

Edição 641
Em Transe
Somos Tão Jovens
O Dia Que Durou 21 Anos
Dentro da Casa
As Vantagens de Ser Invisível
Festival Varilux 2013

Edição 640
Killer Joe - Matador de Aluguel
Homem de Ferro 3
Therese D.
Um Bom Partido
Especial Revista e Cinema

Edição 639
A Morte do Demônio
Anna Karenina
Ginger e Rosa
Meu Pé de Laranja Lima
O Acordo
Um Porto Seguro

Edição 638
Oblivion
Chamada de Emergência
Depois de Lúcia
A Filha do Pai
Super Nada
Angie
O Carteiro
Alvo Duplo

Edição 637
Mama
Cabra Marcado Para Morrer
Celeste e Jesse Para Sempre
Um Evento Feliz
onde a Coruja Dorme
Uma História de Amor e Fúria
Invasão à Casa Branca

Edição 636
Jack - O Caçador de Gigantes
GI Joe - Retaliação
A Hospedeira

Edição 635
De Coração Aberto
Disparos
Os Croods
Colegas
Francisco Brennand
Sacrifício
Parker
Vai Que Dá Certo
Haze

Edição 634
A Busca
Pietá
Jardim Atlântico
Linha de Ação
A Fuga
O Homem Que Deixou
Seu Testamento no Filme

Edição 633
OZ - Mágico e Poderoso
A Parte dos Anjos
Sete Dias em Havana
Amor é Tudo o Que Você Precisa
O Quarteto
Amigos Inseparáveis


Edição 632
Dezesseis Luas
Amanhecer Violento

Edição 631

Holy Motors
As Vantagens de Ser Invisível
Elefante Branco
Indomável Sonhadora
Duro de Matar - Um Bom Dia
para Morrer
O Reino Gelado
Cirque Du Soleil - Outros Mundos
Oscar 2013

Edição 630
A Hora Mais Escura
Tudo o Que Desejamos
My Way - O Mito Além da Música

Edição 629
Meu Namorado é um Zumbi
O Voo
Monstros S.A. 3D
Para Maiores
Na Terra do Amor e Ódio
Tainá - A Origem
As Aventuras de Tadeo Jones
Fogo Contra Fogo

Edição 628
O Lado Bom da Vida
Os Miseráveis
Caça aos Gângsteres
Viúvas
Jorge Mautner - O Filho do Holocausto
Inatividade Paranormal

Edição 627
Amor
Lincoln
No
O Mestre
País do Desejo
O Resgate
João e Maria - Caçadores de Bruxas

Edição 626
Django Livre
O Último Desafio
Sammy - A Grande Fuga
Argo

Edição 625
Jack Reacher - O Último Tiro
Uma Família em Apuros
A Viagem
Separados Pelo Inverno

Edição 624
O Som ao Redor
E Se Vivêssemos Todos Juntos?
Detona Ralph
A Arte de Amar
Sete Psicopatas e Um Shih Tzu

Mais edições anteriores AQUI

ARQUIVO 2011
ARQUIVO 2010
ARQUIVO 2009
ARQUIVO 2008








Dicas de Cinéfilo 2013/2012

ARQUIVO 2011
ARQUIVO 2010
ARQUIVO 2009
ARQUIVO 2008




SYMPATHY FOR THE DEVIL
Sympathy For The Devil/One Plus One Inglaterra 1968 1h40min RottenTomatoes 5,0
de Jean-Luc Godard com The Rolling Stones, Anne Wiazemsky, Frankie Dymon, Iain Quarrier
Disponível pela download

por Guilherme Padilha

OPINIÃO Maio de 1968, Jean-Luc Godard era criticado por outros cineastas franceses
por ir trabalhar no exterior enquanto todo o resto do país estava em greve. Tinha ido
a Inglaterra fazer um filme em prol da legalização do aborto. Um filme encomendado
por alguns produtores que acabou perdendo o sentido, uma vez que o aborto foi legalizado
antes do início das filmagens. Tem-se, então, a ideia de um filme protagonizado pelos Beatles.
Após falha nas negociações, os produtores fecham contrato com os Rolling Stones. Godard
e sua equipe filmam algumas seções da banda no Olympic Studios, em Londres. O que começou
como uma música folk tímida virou um samba alegre, ainda sem nome, que, mais tarde,
seria batizado de Sympathy For The Devil. Mike Jagger escreveu essa letra baseado no livro
O Mestre e Margarida
, obra póstuma do escritor russo Mikhail Bulgakov, recém-traduzida então
para o inglês. A letra, assim como o livro, trata do demônio, que se apresenta como “um homem
rico e de gosto refinado”. Nada mais adequado para o contexto político e social da época.
O demônio, de Jagger e Bulgakov, foi responsável, direta e indiretamente, por todas
as revoluções que resultaram em verdadeiros banhos de sangue através dos tempos.

O que se dizer depois de assistir a Sympathy For The Devil? Sei que essa pergunta é de um
clichê crítico terrível, mas traduz perfeitamente o sentimento de “masqueporrafoiessa?” da maioria
dos espectadores no pós-filme. Mas a sensação de confusão provocada pela narrativa nada
convencional não enterra uma experiência (radical) estética única (outro clichê crítico, perdão)
e uma crítica contundente de como foi propagada e aplicada às ideologias da cultura dominante
e da contracultura, nos anos sessenta. A estrutura do filme se assemelha a colagens pop.
Escutamos uma voz em off, que narra fragmentos de um suposto livro político, escrito no exílio
em Londres. A narração desse texto surreal se assemelha a obra do escritor beat William S. Burroughs,
quase como devaneios de um drogado, que mistura fatos com paranoias políticas, festas regadas
a sexo e drogas, tudo de forma desconexa e aleatória. Vale dizer, também, que o livro é narrado
fora de ordem, com saltos e retrocessos de páginas. Na tela, vemos intercaladas cenas onde
os Rolling Stones ensaiavam a faixa título do filme, com pequenas enquetes ficcionais.



O filme foi incompreendido por produtores, críticos, publico e, ate, pelos próprios integrantes
dos Stones, que esperavam um filme sobre a banda, algo que, mesmo radical, uma vez que
não se pode ignorar a fama transgressora da filmografia de Godard, ajudasse a promover
o trabalho da banda. O diretor francês se interessava sim pela banda como forma de espetáculo,
ao mesmo tempo, pop e político. Mas interessava a Godard, principalmente, como as ideologias
estavam sendo consumidas como mercadorias. As consequências desse “consumo” desenfreado
de revoluções, sem nenhuma reflexão, era o som que embalava o fim daquela década.

Em Sympathy For The Devil, a câmera está sempre procurando o som. Aliais, está sempre
procurando fazer parte da construção desse som, em plano sequências que tornam melódicos
sons dissonantes. Torna música os discursos contraditórios do final dos anos sessenta.
Se os Rolling Stones fez de seu Sympathy For The Devil uma mistura de rock com samba,
Godard, no filme, faz música concretista com sons polifônicos. É uma tarefa, ao mesmo tempo,
ingrata e injusta classificar o filme em um gênero ou estilo cinematográfico. Claro, é uma mistura
entre ficção e documentário. Tanto que uma das alusões feitas pelo título original do filme
One Plus One, antes que os produtores se apropriassem do material filmado, era pela a estrutura
dicotômica da obra. Seria fácil criticar Godard por se diferenciar de toda a tradição do cinema
verdade francesa, nesse sentido, por continua a se colocar em contato com a realidade sem
participar dela. Mas a verdade é que ele, como um ícone pop famoso mundialmente, se coloca
tanto na realidade como os Rolling Stones ao cantarem uma música política. A crítica principal
da obra é o meio de propagação das ideologias. Não tem como ser cineasta, ter seu filme
exibido em paredes durante o maio de 68 e simplesmente se sair impune da grua com
a câmera que glorifica a militante assassinada, na sequência final do filme. Não que
o diretor seja contra a proliferação do conhecimento e das ideologias. Mas sabe que
repassá-las sem algum senso crítico tem consequências desastrosas.
Guilherme Padilha | luizpad@hotmail.com




CORMAN'S WORLD - Exploits of a Hollywood Rebel
Corman's World - Exploits of a Hollywood Rebel EUA 2011 1h35min RottenTomatoes 9,1
de Alex Stapleton com Roger Corman, Martin Scorsese, Quentin Tarantino, Joe Dante
Disponível pela download

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO
No dia em que Roger Corman completa 87 anos, essa sexta-feira 5 de abril,
nada melhor do que acionar o download e marcar uma cerveja com os amigos cinéfilos
pra um happy hour bacana pra começar a noite de farra. As plateias mais jovens não
fazem muita ideia da produção abundante dessa lenda viva do cinema B, envolvido
em quase 400 filmes como produtor, diretor e também ator. São dele os sucessos
Muralhas do Pavor, O Corvo, O Homem dos Olhos de Raio-X (já indicado aqui na coluna)
e Os Cinco de Chicago, todos das décadas de 60/70. Mas é como produtor que seu legado
impressiona, chegando a se envolver na realização de até 20 filmes por ano, filmes
absolutamente B e obscuros, como as bizarrices Dinoshark e Strip-tease da Morte.
Como todo bom selfmade-american-man, Corman esclarece: "- Nunca perdi dinheiro
com cinema." Esse não é o primeiro documentário sobre ele. Há 35 anos atrás já era
realizado Hollywood Wild's Angel, o que por si só já dá uma ideia do escopo da sua
carreira. Assisti Corman's World - Exploits of a Hollywood Rebel na Mostra SP 2011,
numa privilegiada midnight session com empolagdo público devoto. Lágrimas rolaram.



Embora não apresente nada de muito novo para fãs, nem histórias mais curiosas, o documentário
dá uma boa ideia da quantidade de gente do cinema que de alguma forma participou de algum
projeto com Corman. Basta assistir o trailer acima pra confirmar. Particularmente emocionante
é o depoimento de Jack Nicholson, agradecendo todas as oportunidades que Corman lhe deu
em início de carreira. O mais interessante é o resgate do raro The Intruder, um drama sobre
a paranoia "comunista" que rendeu filmes incríveis na Hollywood B dos anos 60. Comentado
por Martin Scorsese e William Shatner, ator principal, foi o único "fracasso" financeiro de Corman
e, elogiado como um dos melhores, mais inteligentes e ousados roteiros daquele ano, The Intruder
escapa do rótulo B para uma aura de preciosidade cult
de urgente revisão (eu não vi ainda).
Muito curioso também observar que, um dos mais influentes e produtivos artistas da geração
rebelde da contracultura americana dos anos 60, Corman era considerado pelos amigos
um careta, um quadrado. Dada a absurda produtividade de Corman, o documentário deixa
um gostinho de quero mais, principalmente para os que já conhecem a figura e alguns de seus
filmes. É informado na web que as versões DVD/Blu-ray tem bastante materia adicional
e entrevistas estendidas, incluindo um extra Messages to Roger, de vários que trabalharam
com ele. Documentário educativo, divertido e emocionante, obrigatório para cinéfilos.
Fernando Vasconcelos | fernando@kinemail.com.br





THE MAN FROM EARTH
The Man From Earth EUA 2007 1h30min
de Richard Schenkman com David Lee Smith, Tony Todd, Annika Peterson, William Katt
Disponível para download

por Victor Simões Leal

OPINIÃO
"Quem quer viver para sempre?" pergunta Freddie Mercury,
na canção-tema do primeiro Highlander. A questão da imortalidade sempre
atraiu a humanidade, causando fascínio e medo. Aqui o tema é contemplado
por um grupo de professores universitários durante a despedida de John Oldman,
que está deixando a universidade após dez anos. Durante a festa, John parece
querer dizer alguma coisa, mas está relutante, até que ele resolve testar com
os amigos uma idéia para um livro: um homem das cavernas que nunca morreu
e continuou vivo até hoje. O primeiro a dar um palpite é o professor do departamento
de biologia, comentando sobre um metabolismo perfeito que se renova constantemente.
Uma conversa muitíssimo parecida com matéria da revista SuperInteressante deste
mês (para os curiosos). A conversa continua com outras pessoas imaginando
a possibilidade até que John fala da experiência de ter navegado com Cristóvão
Colombo, revelando ser um homem de 14.000 anos de idade.



O que se segue é um dos melhores e mais realistas tratamentos dados a um homem
aparentemente imortal na história do cinema. O filme gira em torno dos outros personagens
dissecando as alegações de John, tentando buscar furos na sua narrativa. Sim, este filme
é 100% diálogo, ocorre completamente na mesma sala de estar, e se sustenta completamente
num bom roteiro. O roteirista Jerome Bixby, conhecido por roteiros fde ficção científica para
as telesséries Star Trek e The Twilight Zone, desenvolveu a ideia ainda nos anos 60 e acabou
de escrever o roteiro em 1988, no seu leito de morte, com a ajuda de seu filho, Emmerson
Bixby, também roteirista. O diretor Richard Schenkman realizou o filme com um modesto
orçamento de 54 mil dólares. Um fato interessante é que, apesar de ser um filme independente
com um lançamento restrito, ele alcançou um grande sucesso em sites de compartilhamento.
Os produtores gostaram tanto que até escreveram para o site que hospedava o torrent
tracker
para agradecer. The Man From Earth pode ser encontrado em vários sites
de compartilhamento, mas até agora só encontrei na versão original sem legendas.
Victor Simões Leal | victor.leal@gmail.com




LE MAGASIN DES SUICIDES
Le Magazin des Suicides França 2012 1h25min
animação dirigida por Patrice Leconte
Disponível para download

por João Marcelo Duarte

OPINIÃO Patrice Leconte (O Marido da Cabelereira, Confidências Muito Íntimas),
cineasta que nunca me interessei demasiado, me surpreende com este quase-longa
de animação, que nem foi por ser seu que me motivei a assistir, o que sugere que
posso continuar a ignorá-lo. Desprezos à parte, recomendo a todos realizar download
porque vale mesmo a pena assistir. É uma prova à intrepidez cinefílica.
Inicialmente, agrada aos fãs de animações francesas, mas a temática, centrada
em humor negro sobre uma sociedade onde o suicídio é rotina, pode espantar
alguns. Entretanto, assistindo Le Magasin des Suicides de mente aberta, é provável
entender a ideia do enredo, no qual uma família é proprietária de um comércio
oportuno, o de vender artigos que servem como métodos de suicídos, um comércio
que prospera à medida em que a percepção da vida é cada vez mais negativista.



A clientela da loja é composta de pessoas deprimidas, desgostosas da vida,
doentes terminais e tais. O problema surge quando a dona dá à luz a Alan,
uma criança que se mostra sorridente e amante da vida desde os primeiros
dias, o que ameaça os negócios da família, por motivos óbvios. Alan consegue
contagiar os membros da família e até os clientes, cidadãos de onde a história
se desenrola. A licença desenho-animado para incorrer na fantasia também
é exigida do público restante. É deixar-se levar pelo que o filme clama desde
o início e receber, ao final, a mensagem (sim, estilo moral da história)
extremamente pró-vida, que nem por isso soa cafona e nem enjoa com cenas
açucaradas, assim como não poupa de momentos de sordidez crua ao longo
da narrativa. Esqueci de mencionar o pior, que é um musical cantado em francês,
o que talvez afaste os poucos espectadores da intersecção de gêneros que ainda
estão dispostos a vê-lo. Mesmo os que rejeitam musicais, humor negro e animações
francesas estarão cantando a ode à vida nos últimos minutos do filme, isto eu
prometo. Se não, que me denunciem à polícia virtual de direitos autorais.

Joao Marcelo Duarte | caoandaluz@gmail.com




CURFEW
Curfew EUA 2012 19min
de Shawn Christensen com Fatima Ptacek, Shawn Christensen, Kim Allen, Dana Segel
Disponível para download

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO Nos EUA, a campanha pré-Oscar leva ao público a boa ideia de exibir
comercialmente nos cinemas o pacote dos cinco indicados na categoria de curta
metragem. Este ano o vencedor foi o simpático Curfew (meio intraduzível para
português em uma palavra, é uma regra oficial tipo toque de recolher, no caso
do filme uma limitação de movimento do protagonista, na obrigação de tomar
conta de uma sobrinha, com rígidos acordos de horários e locais com a irmã).
Diante de tantos elogios exagerados na internet e no Facebook ("é melhor e mais
emocionante que todos os longas do Oscar!") é inevitável a curiosidade para
assistir e igualmente uma certa decepção, já que o pequeno filme é apenas
um competente exercício formulaico de ficção, nada que mereca grandes elogios.

Escrito, dirigido e protagonizado por Shawn Christensen - jovem novaiorquino
de formação como designer gráfico e ilustrador e já profissional de Hollywood,
tendo trabalhos como editor, compositor, produtor e roteirista, como no longa
Sem Saída
, veículo para o teen idol Taylor Lautner, de Crepúsculo - o curta de
19 minutos realizado em largo CinemaScope abre num tom pesado, no que parece
ser mais uma tentativa de suicídio do protagonista, solitário e viciado em drogas.
O telefone toca e é sua irmã, com quem não fala há anos, pedindo para que
ele tome conta da sobrinha, que ele mal conhece, por uma noite. O que se segue
é um roteiro eficiente equilibrando a fofura de linguagem de videoclipe com um
tom mais realista de cinema, cujo maior mérito é a boa direção de atores, com
a garotinha Fatima Ptacek, uma "veterana" de TV e cinema, roubando a cena.
Um diálogo afiado, sem cortes em plano fixo, entre ela e o tio é um dos bons
momentos do curta. Um terceiro ato mais preocupado com "mensagem" e
explicação do contexto dessa família quase destrói a boa ideia, que trata
do assunto com leveza e bom humor inócuo, com um final pra lá de previsível.

De qualquer forma, a visibilidade que o Oscar proporciona e a rara boa
oportunidade de conferir um curta metragem mais comercial e ainda assim
cheio de boas intenções, fazem de Curfew uma boa pedida. Asssisti num
link pirata, com legendas em português de Portugal, mas que infelizmente
caiu, está fora do ar. Mas não deve ser muito difícil de encontrar na web.
Fernando Vasconcelos | fernando@kinemail.com.br




FARRAPO HUMANO
The Lost Weekend EUA 1945 1h37min
de Billy Wilder com Ray Milland, Jane Wyman, Howard da Silva, Doris Dowling
Disponível pela Classic Line

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO
Logo depois de realizar um dos film noir mais influentes de Hollywood,
Pacto de Sangue (Double Indemntiy, 1944), o judeu polonês Billy Wilder, que
cresceu na Áustra e na França, chegado aos EUA como refugiado da Segunda
Guerra - seus avós e sua mãe morreram em Auschwitz - realizaria um dos
seus dramas mais potentes, Farrapo Humano (The Lost Weekend, 1945)
pelo qual foi aclamado com 4 Oscar, melhor filme, direção, ator e roteiro.
Talvez para os dias de hoje o filme possa parecer datado, depois de toda
uma cinematografia realista já realizada sobre o tema: um homem viciado.
Mas imagine que antes de O Homem do Braço de Ouro, Vício Maldito
e muito, muito, antes da rebordosa de Despedida em Las Vegas, só pra citar
alguns entre tantos, em 1945 era um tabu falar sobre vícios em Hollywood.

O livro original de Charles R. Jackson tratava de um personagem lutando
contra sua homossexualidade. Certos da dificuldade dos códigos de censura
da época, Wilder e Charles Brackett adaptaram o drama brilhantemente para
um escritor lutando contra o vício pelo álcool. Ainda assim, o tema pesado
e sua abordagem despida de qualquer amaciante, com o filme rodado mais em
locações que estúdios, causaram efeito tão negativo nas sessões teste que
a Paramount chegou a pensar em cancelar o lançamento. Claro, o preço
pago por Wilder foi ter que entregar um final feliz, não muito convincente.

Com uma tomada impressionante de abertura, muito parecida com a abertura
de Psicose, que Hitchcock realizaria 15 anos depois, vemos um passeio
de câmera por Nova York terminar numa janela com uma garrafa pendurada
por uma corda do lado de fora. Dentro do quarto está Don Birnam
(Ray Milland em atuação extraordinária premiada com o Oscar), que está
sem beber por dez dias e fazendo as malas para um fim de semana com
o irmão, a namorada e amigos no campo. Don pretende levar a garrafa
por segurança, seu irmão a descobre e a esvazia, levando Don ao desespero.



Não haverá fim de semana no campo, mas o lost weekend do título original,
numa via crucis por uma Nova York nada glamurosa que culminará numa
internação num hospital, onde famosas cenas de alucinação de Don poderiam
estar no mais apavorante filme de terror. O apoio que a namorada tenta
dar a Don lembra bastante a relação da dupla de O Artista, quando George
Valentin entra em decadência. Nem mesmo um apressado final feliz consegue
amenizar a força do roteiro, sobre um homem lutando mais contra ele mesmo
do que a bebida em si, indo além do tema alcoolismo, como se pode notar
na última fala de Don, falando do hábito superado (?) de esconder garrafas
pela casa, que eu transcrevo aqui no original: "-My mind was hanging outside
the window. It was suspended just about eighteen inches below. And out there
in that great big concrete jungle, I wonder how many others there are like me.
Those poor bedeviled guys on fire with thirst. Such comical figures to the
rest of the world as they stagger blindly towards another binge, another
bender, another spree.
” Bravo! Farrapo Humano não é para os fracos.
Fernando Vasconcelos | fernando@kinemail.com.br




ENCONTROS AO ACASO
Come Early Morning EUA 2006 1h37min
de Joey Lauren Adams com Ashley Judd, Jeffrey Donovan, Laura Prepon, Diane Ladd
Disponível pela Imagem Filmes

por Felipe André

OPINIÃO
Lucy Fowler está sofrendo. Mulher interiorana de 30 e poucos anos,
ela divide sua vida entre o trabalho numa construtora de pequeno porte, noitadas
que terminam na cama de homens estranhos de onde ela foge sorrateira ao
amanhecer, e um constante choque com o pai, que ela ama, mas não entende.
Quando o simpático Cal chega nas distantes terras do Arkansas, Lucy ganha
uma chance de fincar os pés na terra e criar raízes através de um amor
que a aceite e compreenda; o que obviamente não vai ser tão simples.

Encontros ao Acaso é um filme que quer falar dessa mulher, mas não entendê-la,
e a cooperação entre Joey Lauren Adams, estreando como diretora e roteirista,
e Ashley Judd numa das melhores atuações da sua carreira, consegue chegar
muito perto desse objetivo. Apesar de não ter nada novo em forma ou conteúdo,
o filme de Adams alcança uma potência emocional muito alta por falar sobre
um tipo de pessoa muito comum, que vive avessa a qualquer conexão real,
e morre de medo de qualquer coisa desconhecida. Em vários momentos,
em especial aquele em que Lucy compra uma enorme jukebox cheia de músicas
antigas, só porque uma nova vai ser colocada em seu lugar no bar local, fica
muito claro como é difícil para ela compreender que algumas vezes a mudança
pode ser boa. Ainda que neste caso ela realmente esteja certa, a música caipira
tradicional é realmente muito melhor, e a trilha está recheada de tais clássicos.

O mais notável no roteiro de Adams é, no entanto, sua capacidade de comunicar
sem a obviedade costumeira do padrão hollywoodiano. Em nenhum momento
os personagens são apresentados de maneira tradicional, sempre ficamos sabendo
quem é a pessoa que acabou de chegar por pura dedução, e levamos mais tempo
ainda para saber como Lucy se sente sobre elas. Talvez pelo clima, talvez pela
protagonista, o filme se assemelha muito à Alice Não Mora Mais Aqui, de Scorsese,
e mesmo não tendo o brilhantismo daquele, é também uma pequena joia sobre
as dificuldades de se estabelecer num ambiente hostil, principalmente quando
se é mulher. Fracasso retumbante nas bilheterias americanas, tendo rendido pouco
menos de 250 mil dólares, o filme obviamente não é para todo mundo. Distante
do romance comum, já que a relação entre Lucy e Cal é marcada por uma nota
amarga e estranha, deve interessar mais àqueles que procuram um drama mais
honesto sobre as agruras da vida, e com isso qualquer um pode se relacionar.
Felipe André | f_andre2@hotmail.com




EU MATEI MINHA MÃE
J'ai Tué Ma Mère Canadá 2009 1h45min
de/com Xavier Dolan com Anne Dorval, François Arnaud, Suzanne Clément
Disponível pela Paris Filmes

por Felipe André

OPINIÃO 16 é a pior quantidade de anos para mãe e filho testarem sua relação.
Em nenhum outro momento da vida uma pessoa está tão inquieta, confusa
e violenta como nesse período controlado por rajadas de hormônios. Existe
na maioria das mulheres a habilidade mágica de manobrar esse comportamento
de seus rebentos, porém algumas ficam paralisadas, ou retornam os golpes
com igual potência. Pode ser que tudo mude um ou dois anos depois mas,
de fato, não há no mundo relação mais assombrosa que essa. Não é difícil
imaginar o porque de, em poucos minutos de projeção, Xavier Dolan usar
a imaginação para assassinar sua progenitora. Parcialmente biográfico,
como diz o cineasta, Eu Matei Minha Mãe é uma colagem de momentos
da adolescência de Hubert Minel, mimado, dramático e gay, que não consegue
trocar meia dúzia de palavras com Chantale sem começar um sem fim
de gritos e ofensas. Nunca fica muito claro de onde veio o ódio do rapaz,
já que suas justificativas se limitam a falar que ele tem nojo de como ela
se porta ao comer, ou de como ela se veste de maneira brega. Ao ver, por
exemplo, como a mãe de seu namorado é liberal, bem vestida e namora
um rapaz mais jovem, Hubert não consegue esconder certa surpresa, e até
mesmo inveja. Mas Chantale não é má pessoa. Apesar de também destemperada,
ela cuida do rapaz da maneira que pode, o que não parece ser suficiente.

O longa, estréia de Xavier Dolan na direção, assombra não apenas por seu olhar
muito clínico para a comum família de mãe e filho, mas também por conta da prodigiosa
condução do rapaz, que comandou todo o projeto com meros 19 anos. Não se trata
de algo perfeito, já que em tão pouca idade ele se mantêm preso à vícios estéticos
bastante enervantes, como a idéia de situar o espectador a partir de montagens
clipadas feitas com detalhes de sua minuciosa direção de arte. Ou ainda do paladar
por sequências em câmera lenta, preto e branco, fotografia saturada e mais um sem
número de experimentos que não tem verdadeira função. A força reside realmente
na potência do roteiro, que trata de por uma parede entre os dois protagonistas
e permite que vez ou outra, através de um buraco, eles se enxerguem e percebam
o apreço que realmente sentem pelo outro. A cena em que Dolan chega em casa
drogado para despejar toda sua verdade nos ouvidos da mãe é tocante em
sua estranheza, assim como outros momentos de curiosa sensibilidade.
Àquela época o diretor era um talento bruto que prometia ser lapidado para
virar um grande diretor, mas seus trabalhos subseqüentes, os maçantes Amores
Imaginários
e Laurence Anyways, provaram que o rapaz se agarrou aos vícios
estéticos e passou a fazer cinema de boutique para agradar indies mal amados.
Mas ainda existe esperança de que ele perceba que menos é mais.
Felipe André | f_andre2@hotmail.com




O MUNDO VIVENTE
Le Monde Vivant França 2003 1h15min
de Eugène Green com Adrien Michaux, Alexis Loret, Laurence Cheilan, Christelle Prot
Disponível para download

por Felipe André

OPINIÃO O Mundo Vivente é um cinema de tradução direta, viva e literal. Não sendo
baseado em nenhuma história em específico, ao mesmo tempo que é todas elas numa só,
o conto fantástico de Eugène Green sobre príncipes, princesas, monstros e heróis é, antes
de tudo, um filme sobre a liberdade de criar, e de se entregar. Green, autor com todo
o poder que essa palavra retêm, debutou por trás das cameras aos 54 anos, trazendo
na mala uma mudança dos Estados Unidos para a França, larga experiência como escritor,
dramaturgo, professor e diretor de teatro; além de uma passagem pela ópera. É possível
ver desde Todas as Noites, seu primeiro filme, a marca de alguém que ja cruzou uma vida
inteira, e agora só pretende contribuir. O cinema de Green reflete sobre o que é interno, sobre
o que é belo, e por isso é tão fácil se identificar com seu discurso, se não com sua forma.

Neste segundo longa, ele impõe uma brincadeira logos nos primeiros minutos de filme, cabendo
ao espectador achar aquilo delicioso ou brutalmente bobo. Somos apresentados a Nicolas e ao
Cavaleiro do Leão, quando ambos se encontram numa estrada. O Cavaleiro caminha para uma
missão, enquanto a de Nicolas é apenas encontrar-se. Ao ver que o Cavaleiro vem acompanhado
de um cachorro, Nicolas pergunta o porque de seu título, e ouve como resposta um simples
"Sou o Cavaleiro do Leão". Ele hesita por um segundo, à maneira dura e contida que a direção
de Green prefere, e responde "Portanto este animal é um leão." O nível de confiança entre diretor
e público precisa ser estabelecido quando o cachorro urra como um leão propriamente dito.
A partir daí, a brincadeira de Green toma rumos épicos; ele se diverte dando pompa mediavel
a seus cenários e personagens, mas estes usam calças jeans e se referem a objetos modernos.
O herói é derrotado, reviravoltas acontecem, a mulher não se submete, e todo o universo
em que Walt Disney aplicou uma camada de tinta cintilante recebe de volta seus tons pálidos.

O Mundo Vivente é um cinema de imagens, tão simbólicas quanto imediatas. A óbvia conotação
religiosa, e o extremo controle dos enquadramentos, bastante afeitos a closes, e também dos tempos,
sugere uma anarquia disfarçada. Ao mesmo tempo em que filma com classe invejável, o diretor
ignora completamente regras básicas de montagem, preferindo, por exemplo, realizar quase todos
os diálogos em campo e contracampo zerados, pondo seus atores sempre no centro da tela,
e os fazendo declamar suas linhas com a mais bressoniana das submissões. Pode parecer
cansativo a princípio, mas o poder hipnótico de se perceber dentro de universo diegético tão rico,
conversando diretamente com figuras tão complexas é encantador demais para não ser apreciado.
Seja pelo carinho quase infantil com o mundo e, neste caso, pela maneira virtuosa que encontra
para contar a velha história de príncipe-salva-princesa, é óbvio que Green sabe que não está
simplesmente fazendo um filme. Ele está entregando pedaços de si para que todos aproveitem,
e isso, ao menos para mim, é o que diferencia um cineasta de um autor.
Felipe André | f_andre2@hotmail.com




EM BUSCA DA FÉ
Higher Ground EUA 2011 1h39min
de/com Vera Farmiga com Joshua Leonard, John Hawkes, Donna Murphy, Dagmara Dominczyk
Em DVD pela Sony Pictures

por Felipe André

OPINIÃO Vera Farmiga é uma atriz interessante. Entrou na indústria em meados
dos anos 90, em papéis secundários em comédias românticas e filmes independentes
e, apesar de ter mudado de nicho, foi com as mesmas personagens coadjuvantes
que ela cresceu e apareceu. Depois do largo reconhecimento por seu papel como
a única mulher no meio dos leões em Os Infiltrados, de Martin Scorsese, e da indicação
ao Oscar pelo agridoce Amor sem Escalas, Farmiga se desafiou a olhar por detrás das
câmeras. Em Busca da Fé, longa que ela dirige e protagoniza, é claramente um filme
de estreia, cheio de inseguranças e receios mas, ainda assim, é mais interessante
do que vários outros filmes lançados na mesma época, que também tem na religião
seu tema central, como o em cartaz no Recife A Tentação, ou Seita Mortal, o terror
reacionário de Kevin Smith. Farmiga trabalha de maneira simples sobre o roteiro
de Tim Metcalfe e Carolyn S. Briggs, baseado em This Dark World, livro de memórias
desta última. Briggs, crescida no interior americano, ficou grávida na adolescência,
viveu em trailers com um namorado músico, e do dia para a noite aceitou Jesus,
mergulhando de cabeça numa igreja fundamentalista.

Apesar de não ser grande literatura, a história dela é inegavelmente interessante,
e a diretora condensa todos os grandes momentos, caminhando pela vida de Briggs
como num road-movie sentimental. Estão lá a descoberta da fé, a conturbada relação
com a família e com o marido, e as dúvidas e constantes reafirmações da existência
de Deus. De maneira geral, os verdadeiros pontos fortes aqui são os intérpretes. Farmiga
confere real peso à mulher que se vê perdida, para o não saber se aquele projeto ao qual
dedicou toda sua vida é realmente o que ela gostaria de ter feito. Além dela, John Hawkes
e Donna Murphy estão sublimes como seus pais, americanos médios e corrompidos que,
no meio de seus pecados, acham tempo para ir a igreja e se comportar como devotos
tementes. O que realmente permanece é a impressão de que a história poderia ir mais
longe, e mais fundo. Mas para uma primeira tentativa, o saldo é totalmente positivo,
e nos faz aguardar ansiosamente uma nova experiência de Vera por trás da câmera.
Felipe André | f_andre2@hotmail.com




TRABALHAR CANSA
Brasil 2011 1h39min
de Juliana Rojas e Marco Dutra com Hele Albergaria, Marat Descartes, Naloana Lima
Em DVD pela Lume Filmes

por Felipe André

OPINIÃO O título de Trabalhar Cansa sugere uma movimentação intensa.
Um corpo tão exaurido pelas obrigações capitalistas, que mal consegue aproveitar
os louros de seu esforço. Porém, o filme seduz e engana. Os corpos aqui não estão
cansados porque se esforçam demais, mas sim porque não param de pensar.
Otávio, antes o chefe da família, sofre agora por estar desempregado e se ver
monetariamente subordinado à mulher. O pesar em sua expressão é acentuado
a cada negativa que recebe em entrevistas de emprego, lado a candidatos muito
mais jovens que ele. Helena, se desgasta com sua nova posição de comando,
dona de um recém-criado mercadinho, precisa controlar seus funcionários
e o marido, que ressente seu sucesso, ainda que de maneira passiva. Além
dos dois, existe Paula, empregada contratada por Helena para cuidar de sua
casa e filha enquanto ela está fora, que sofre com uma demanda além do que
ela esperava. As inversões e espinhos que esse triângulo propõe, mostram
que trabalhar, por si só, cansa muito menos do que conviver.

No entanto, não é só da análise deste pedaço da sociedade brasileira que vive
a estreia de Juliana Rojas e Marco Dutra. Dupla de jovens e multipremiados
curta-metragistas, era natural que os dois trouxessem para o primeiro longa
muito daquilo firmou seu estilo. E o mais importante realmente veio, uma simbiose
natural entre tudo aquilo que é muito prático e palpável com as coisas do sobrenatural.
O mercadinho de Helena é um ambiente estranho, e isso diz muito pouco sobre ele.
Cachorros se juntam em frente ao estabelecimento e permanecem em eterna espera,
um objeto bizarro surge em meio a ferramentas ainda mais misteriosas, e uma
infiltração surge na parede, vinda de lugar nenhum. Além dos produtos que somem,
e rendem os momentos mais humanamente tensos de todo o filme. A recém-patroa
termina por suprimir a mulher pacata que é, e demite sumariamente o rapaz
que acha estar por trás dos furtos. Talvez ela esteja certa, talvez seja o peso
da obrigação que a esteja deixando um pouco mais cega.

O importante é que, mesmo falando sobre um momento interessante da história
recente do Brasil, e que o nosso cinema não tem nenhum interesse em registrar,
Trabalhar Cansa não é um filme sobre ascensão econômica, ou sobre as mazelas
da classe média. Ele é um filme sobre apatia, sobre pessoas estagnadas no movimento.
E além disso, não se esforça para fazer parte de um novo caminho para o cinema
nacional, porque simplesmente é. Parente próximo de trabalhos como Os Famosos
e os Duendes da Morte
e Os Monstros, mais em intenção do que em conteúdo,
a ideia de Rojas e Dutra é muito simples: contar uma história que interessa,
primeiramente a eles, mas de uma maneira que possa interessar a mais alguém.

Não é como se este fosse um filme para a sessão de domingo com a família, mas
é com certeza um filme sobre a família. Helena Albergaria, Marat Descartes e Naloana
Lima transformam esposa, marido e empregada em figuras tão críveis que não
demora muito e o espectador já conseguiu associar à um vizinho ou parente.
O trio navega pela dureza de planos e diálogos com propriedade, e suaviza
as flexões algo bruscas que o roteiro faz para o lado do terror ou da comédia.
No último plano do filme, Descartes dá um grito agoniado, e a princípio o espectador
parece entender o porque, mas os olhos do ator dizem outra coisa, imprimindo
uma dúvida eterna naquela imagem. Talvez seja essa imagem, mesmo sozinha,
que faz o filme valer tanto, e ser um dos projetos mais instigantes dos últimos
anos no cinema brasileiro. Só resta esperar o que mais a dupla tem a dizer.
Felipe André | f_andre2@hotmail.com

por Ludmila A. R.

OPINIÃO “Deixa eu tentar?” diz Helena (Helena Albergaria), meio de Tróia,
ao marido Otávio (Marat Descartes). Ela planeja comprar um antigo mercado
e reabri-lo e persiste em sua vontade mesmo depois do cônjuge ser demitido
da empresa onde trabalhava à anos. Filme brasileiro, de baixo orçamento
categorizado como Drama/Horror é uma definição que me causou desconfiança
e curiosidade. Quase uma fórmula traiçoeira cheia de chances de sair errado,
mas que nada. Passei pelo filme como os personagens passam pelas próprias
vidas: com um medo enorme de coisas ocultas e inexplicáveis ainda que
possam ser nomeadas, um medo tão grande, entre a morte e o desemprego,
que já não dava mais vontade de fugir. Apeguei-me.

Fato é que o desconforto que a vida causa a essas pessoas é atropelado como o filme
o atropela, dá-se uma boa olhada antes e passa-se adiante, sem mudar muito a expressão.
A rejeição iminente que qualquer um está sujeito a sofrer - rejeitado pela família, pelo
emprego, pelos vizinhos, pela vida – é o que faz olhar tudo demoradamente, mesmo
quando já se entendeu o que está a se desenrolar. Olhar demais é o meu jeito
incrédulo de rejeitar tal coisa sem que ninguém mais precise saber.

O olhar fixo e quase de peixe espiando a superfície que Helena direciona à parede
do mercado que possui uma infiltração inexplicável e insistente é o mesmo olhar que
no escuro devo ter dado ao filme. Talvez principalmente na cena da ceia de Natal
onde uma conversa entre a mãe de Otávio e a irmã de Helena ocupa tanto tempo
na tela que me dá vontade de arrancá-las de lá a força, objetos estranhos dentro
da minha vida que é aquela minha família: pai, mãe, filhos, empregada. Guardadas
suas devidas proporções, este filme da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra é um filme
de atores. Não que a atuação destes encha tanto a tela a ponto de que nada mais
importe. Não enche e nem deveria. Mais seus corpos, suas atuações, sua presença
em cena, me prendem ao filme da mesma forma que se prende a vida: não é
que ela seja maravilhosa e feliz, é que ela é nossa e mesmo quando grita com
a gente somos, por dependência ou o que for, apaixonados por ela.
Ludmila A. R. | ludmilaramus@gmail.com





O MORRO DOS VENTOS UIVANTES
Wuthering Heights Inglaterra 2012 2h08min
de Andrea Arnold com James Howson, Kaya Scodelario, Solomon Glave, Shannon Beer
Em DVD pela Focus

por Felipe André

OPINIÃO
Não existe sensação melhor para um cinéfilo, do que ser arrebatado
por uma imagem. A palavra se tornou parte importante da complexa engenharia
do cinema moderno, mas o que interessa de verdade, é poder enxergar uma história,
e não ouvi-la. Andrea Arnold sempre foi afeita a imagens enérgicas, e ainda assim
verdadeiramente hipnotizantes, com câmeras navegando livremente por dentro
das cenas no ombro de Robbie Ryan, seu fotógrafo habitual, por isso não parecia
com um nome a ser vinculado à um projeto tão envolto de rigor como uma nova
adaptação do romance de Emily Bronte. Felizmente, Arnold propõe mais do que
uma simples injeção de vida através do movimento; ela transforma o literário
em imagético de tal forma que não mais se trata de uma adaptação, este
é um filme colaborativo, que une duas artistas separadas por séculos.

O Morro dos Ventos Uivantes é geralmente descrito como um uivo de tristeza
e opressão em forma de romance. A história acompanha a vida de Catherine
e Heathcliff ao longo de décadas, ela rica e de boa família, e ele pobre, acolhido
na casa dela. Na infância, surge um amor sublime e puro, que vai se desdobrar
em obsessão, e finalmente desaguar num sem fim de tristeza, que abarca boa
parte do livro. O texto é imerso em tramas de preconceito, ganância e brigas
de classe, que faziam muito sentido na ficção daquela época. O grande charme
do filme de Arnold é evitar salientar todos esses pontos, tão óbvios. Seu Morro
é silencioso, vive em constante simbiose com a natureza, e os corpos falam mais
do que as palavras. Não por acaso, o já citado Robbie Ryan ganhou um punhado
de prêmios por sua fotografia, que aqui alcança níveis assombros de comunicação.
A maneira que ele encontra para unir os campos idílicos de Yorkshire ao vigor
juvenil dos personagens é simplesmente fantástica, especialmente por conta
do uso esperto da tela quadrada, tão impopular hoje em dia. A câmera de Ryan
só encontra quietude quando se presta a observar a natureza, em imagens tão
simples quanto um enorme close no olho de um animal morto, mas que significam
tudo quando justapostas aos amantes e suas brincadeiras apaixonadas.

Arnold também parece ter evoluído bastante quanto à direção de atores, que já
era excepcional em Red Road - Marcas da Vida e Fish Tank - Aquário, seus trabalhos
anteriores. Corajosa em escalar quatro nomes praticamente desconhecidos para viver
as duas fases de seus protagonistas, é perceptivel o trabalho de preparação empregado
por trás da câmera, especialmente com os mais jovens. Cada corrida no campo
e lágrima de ódio derramada parece orgânica, nada é excessivo, e isso é primordial,
já que estamos frente a um melodrama assumido. É também nesse ponto que reside
a questão mais polêmica, e boba, de toda a produção. Descrito como "escuro"
e "cigano" no livro, a diretora optou por utilizar atores negros, respectivamente
Solomon Glave e James Howson na infância e adolescência, para viver Heathcliff.
Um ponto minúsculo diante de um trabalho majestoso, mas que levantou dezenas
de polêmicas nos festivais onde foi exibido. Talvez por ter sido restrito a intérpretes
caucasianos em suas várias recriações, especialmente Laurence Olivier, que dominou
o papel como ninguém na versão dirigida por William Wyler em 1939, o fato de evidenciar
as origens do personagem tenha causado alguma estranheza. Também, a opção por
conter as emoções na fase adulta, e fazer do romance algo muito mais formal do que
o costume tenho feito alguns narizes mais puristas serem torcidos. Mas se adaptar
uma obra não é fazer com que ela contenha algo pessoal, nada mais é.
Felipe André | f_andre2@hotmail.com




HOMELAND
Homeland EUA 2012
de Howard Gordon e Alex Ganza com Claire Danes, Damian Lewis, Morena Baccarin, Mandy Patinkin
Primeira Temporada em DVD pela Fox Filmes

por Felipe André

OPINIÃO
Já se passou mais de uma década, mas a tragédia do 11 de setembro de 2001
continua reverberando no imaginário americano. Por debaixo da ponte já passaram incontáveis
filmes que exploram os mais impróvaveis ângulos da tragédia. Seja no drama otimista
de Reine sobre Mim, ou na turbulência amarga de Voo United 93, é fato que a cada retorno
ao tema, o mau gosto ou o receio de ousar pareciam inevitáveis. Foi preciso que a televisão
tomasse a frente com um enredo que trata o terrorismo de maneira vasta, complexa e,
porque não, humana. Homeland, série do Showtime, exibida no Brasil pelo FX, é basicamente
a história de uma dúvida, que consome as vidas de dois personagens. Carrie Mathison, agente
da CIA recebe, de uma fonte no Oriente Médio, a informação de que um soldado americano
foi convertido e trabalha agora para a Al-Qaeda. Enquanto isso, Nicholas Brody, fuzileiro naval
da marinha americana, dado como morto em uma missão, é encontrado pelo exército e trazido
de volta para sua terra natal com pompas de herói. Não demora muito para que o cérebro
de Carrie começe a trabalhar numa velocidade alarmante, e ela passe a crer, sem a menor
sombra de dúvidas, que Brody é aquele traidor que pretende atentar contra sua nação.

Os problemas se iniciam quando, muito lentamente, os roteiros assinados por Howard Gordon,
Alex Gansa, Gideon Raff e um time de colaboradores, começam a desnudar esses dois personagens.
Mathison, interpretada por Claire Danes de maneira tão furiosa que lhe rendeu um Globo de Ouro,
é um resumo vivo do que costumamos chamar de descontrole. Acometida de um distúrbio psicológico
que nunca fica claro, apesar de ter sintomas bastante semelhantes ao transtorno bipolar, ela é vista
como uma profissional competente e bem treinada, que faz escolhas impróprias por puro impulso.
Ao menor sinal de que sua dúvida pode ter fundamento, passa a vigiar a vida do militar sem autorização
de seus superiores, colocando em risco sua carreira e toda a agência. Cada vez que Danes deixa
Carrie se entregar à um ataque de desespero, somos automaticamente remetidos àquele que
é o maior ídolo da personagem: o músico Thelonious Monk. Assim como as melodias de free jazz,
a mente de Carrie não obedece uma ordem clara, e o espectador é obrigado a se manter em
suspensão, aguardando um próximo movimento ainda mais perigoso que o anterior. Existe
um momento, quase no final dessa primeira temporada, onde Carrie é finalmente confrontada
com verdades que ela fazia questão de esconder. Danes se expõe de maneira tão inesperada
e avassaladora que, por alguns segundos, fica bastante difícil entender onde termina atriz
e começa personagem. A cena em questão, que a ética do spoiler não me permite detalhar,
foi tranquilamente um dos melhores momentos da TV americana em 2011.

Do outro lado, a interpretação que Damian Lewis faz do soldado com o que parece ser apenas
stress pós-traumático merece louros, mas por outros motivos. Sendo ele o cerne de toda a dúvida,
o ator teve que trabalhar por bastante tempo sem saber qual era a verdadeira face de seu
personagem. Nicholas Brody é realmente um traidor, ou tudo não passa de paranoia?
É muito difícil estar certo de qualquer coisa, especialmente porque ele é tão instável
quanto Carrie. Ao descobrir que o melhor amigo se manteve exageradamente próximo
de sua mulher no tempo em que ele esteve desaparecido, Brody explode em violência,
para momentos depois pedir ao mesmo amigo que continue cuidando de sua família, pois
ele já não sabe se é capaz. Junto a essas forças motoras principais, estão Mandy Patikin,
como o mentor de Carrie, e Morena Baccarin como a esposa de Brody. Os dois personagens
são contrapontos perfeitos para aqueles com quem convivem, e adicionam um pouco mais
de tensão numa mistura já explosiva. Saul teme pela saúde de sua protegida, duvida da lógica
de suas ideias e, mesmo assim, embarca com ela na perigosa missão de manter uma investigação
extra-oficial. Jessica ama o marido mas, como toda mulher, não sabe o que fazer quando
ele volta visivelmente transtornado do Iraque. Ambos estão paralisados diantes de pessoas
tão convictas quanto perdidas, e temem por não poder ajudar.

Baseada num original israelense criado pelo mesmo Gideon Raff que viabilizou o remake,
Homeland é um drama cheio de suspense que pode muito bem agradar ao grande público,
mas felizmente não esquece no terreno que está pisando. A burocracia envolvida nas questões
bélicas é tão precisa, que o próprio Barack Obama já comentou que este é o único seriado
que ele reserva tempo para assistir, não que isso signifique lá muita coisa. Não há o sacolejo
frenético de 24 Horas, que lidava com o mesmo tema, e tinha os mesmos produtores, mas
não permitia construir verdadeiramente um personagem. Aqui, tudo está enredado numa
efervescente combinação de política e honra, que explode sem aviso prévio. Passado
o episódio piloto, fica muito difícil não querer saber quem realmente está com a verdade;
felizmente a segunda temporada estreia na próxima semana.
Felipe André | f_andre2@hotmail.com





CONTRACORRENTE
Contracorriente Peru/Colômbia/França 2009 1h40min
de Javier Fuentes-León com Cristian Marcado, Tatiana Astengo, Manolo Cardona
Em DVD pela Paris Filmes

por Felipe André

OPINIÃO A câmera de Contracorrente tem muito a dizer sobre o que acontece dentro do filme.
Apesar de se passar num paradisíaco ponto do litoral peruano, cheio de paisagens prontas para
servirem de cenário, as tomadas do fotógrafo Mauricio Vidal estão sempre muito próximas dos atores,
em planos médios que remetem muito à construção visual de uma telenovela. Quando Mariela,
mulher grávida do protagonista, fala para uma amiga que "as novelas do Brasil são as melhores"
e "está assistindo Direito de Amar, porque Lauro Corona é um gato", ficam claríssimas as pretensões
do estreante Javier Fuentes-León: Contracorrente é um melodrama novelesco e de emoções à flor
da pele, mas o é com muito orgulho. Levando a cabo a estrutura de um folhetim, León constrói
Miguel, um personagem carismático, pescador casado, bom marido e bom amigo, que cuida
de todos ao seu redor, mas que trava uma guerra moral dentro de si. A câmera, inclusive,
é apaixonada pelo corpo de Cristian Mercado, evidenciado o contraste do rosto, queimado de sol,
com as feições sempre muito doces e perpetuamente sensuais. O problema aqui vem, obviamente,
dos meandros do amor, da disparidade entre o compromisso com a felicidade de sua mulher,
e o amor tão doce quanto proibido por um fotógrafo forasteiro, que está morando em sua vila.
Parece formatado para arrancar algumas lágrimas, e efetivamente consegue.

Como parece ser uma tendência no cinema latino-americano contemporâneo, os diretores
mais jovens tentam, e eventualmente conseguem, adicionar uma nota amarga de tensão
aos momentos mais tranquilos de seus trabalhos. No começo, tudo transborda de parcimônia:
as mulheres cuidam das casas e os homens saem para o mar e, mesmo quando um velório
acontece, as coisas continuam a se mover suavemente. Porém, assim que Miguel e Santiago
se encontram pela primeira vez - aos olhos do espectador, já que o roteiro sugere uma relação
nova, porém firme - o peso se faz notar. A comunidade é rude, formada por homens endurecidos
que já comentam sobre as maneiras sensíveis do fotógrafo. Quando sabe da morte do primo
de Miguel, Santiago oferece uma bebida como forma de prestar condolências, e recebe uma
recusa silenciosa dos presentes, que logo em seguida não temem em taxa-lo de 'maricón'.
É essa violência, discreta, que lança um peso desolador sobre a relação desses amantes tão
distintos e, consequentemente, sobre a trama. Felizmente não é ela, sozinha, a força motora
da história, já que a forma como Santiago vai sorrateiramente desaparecer, e reaparecer
alguns minutos dentro do filme, é algo que tem tanto de inusitado quanto de corriqueiro.

Apesar de não gostar da taxa de "filme gay sobre espíritos", o diretor concorda que é uma
maneira rápida, mesmo rasa, de sintetizar seu filme. A cena em que as três personagens
principais habitam o mesmo cômodo, enquanto apenas uma delas está ciente desse encontro,
é um momento sublime de direção. É quando León para de deixar os tempos se arrastarem
e começa a dar verdadeira forma a seu filme. É quando os amantes se percebem separados
por uma força muito maior que a da violência e do preconceitos terrenos, e se chocam por
agora pertencer a diferentes mundos. A partir daí, qualquer espectador brasileiro é automaticamente
remetido à Dona Flor e seus Dois Maridos. Miguel ama Mariela, viva, e ama Santiago, morto,
na mesma intensidade, e agora que apenas ele consegue enxergar o amante, a felicidade
pode ser completa. Os dois andam de mãos dadas pelas ruas da cidade, trapaceam no carteado
e jogam futebol, em movimentos idílicos e utópicos que, obviamente tem data para acabar.
No final de tudo, Contracorrente é realmente um novelão choroso, mas é também um projeto
inusitado dentro de sua geografia, e um conto sinceramente humilde, sobre amor e coragem.
Felipe André | f_andre2@hotmail.com




MARTHA MARCY MAY MARLENE
Martha Marcy May Marlene EUA 2011 1h42min
de Sean Durkin com Elizabeth Olsen, Sarah Paulson, John Hawkes, Hugh Dancy, Brady Corbet
Disponível para download

por Felipe André

OPINIÃO Muito se fala que, no cinema de horror, aquilo que não vemos é o que
realmente causa medo, pois tudo que se torna palpável pode ser combatido de alguma
maneira, enquanto com os habitantes do imaginário, não se pode dialogar. É andando
estritamente sob este código do não-visto que o estreante Sean Durkin constrói
Martha Marcy May Marlene
, sua estreia em longa-metragem, e conduz o filme para
um nível de tensão tão enervante quanto hipnótico. Logo nos primeiros momentos, somos
apresentados ao dia-a-dia daquilo que parece ser uma comunidade rural, em algum lugar
perdido no interior dos EUA. Homens consertam cercas e telhados, mulheres cuidam
da roça e da comida, e tudo parece muito harmonioso. Até que alguém põe uma mochila
nas costas e explode numa fuga desesperada por entre as árvores da floresta, com várias
pessoas em seu encalço. O porquê da perseguição e eventual captura terminarem de maneira
tão inusitada é apenas um dos muitos pontos que permanecem martelando a mente do espectador.

A cruel sutileza na construção do roteiro de Durkin, que neste ponto é auxiliado pela
montagem de Zachary Stuart-Pontier e pela fotografia assombrosa de Jody Lee Lipes,
é a fluidez com a qual ele navega pelo presente, com Martha tentando administrar seu
trauma na companhia da irmã e do cunhado; pelo passado, em seus dias participando
da estranha comunidade de onde fugiu; e por um ambiente onírico, impossível de ser
completamente assimilado ou provado, graças ao estado de degradação mental que
a garota está sofrendo. É dentro dessa mente tortuosa que acontece tudo aquilo que
não podemos ver, e que realmente apavora. Obviamente, a maior parte dos méritos
cai diretamente no rosto de Elizabeth Olsen, que com um simples sorriso desfeito consegue
deixar em suspensão toda a construção de uma cena. Olsen é irmã caçula das gêmeas
Mary-Kate e Ashley, famosas em meados dos anos 90 por uma série de comédias infantis,
e que agora se dedicam ao mercado da moda. Elizabeth, no entanto, tem muito mais
a oferecer no campo da atuação que suas irmãs, como provou logo em seu primeiro
trabalho, A Casa Silenciosa, remake desnecessário do terror uruguaio de 2010. Martha
Marcy May Marlene
apareceu um pouco antes no circuito de festivais, gerando um boca
a boca sobre o poder do contraste entre seus traços angelicais, e suas atitudes erráticas.

A Martha de Olsen é, na verdade, uma jovem que deixou o lar para conhecer o mundo
e acabou por se deixar moldar por alguém que não tinha qualquer compromisso com seu
bem estar. Numa leitura mais ampla, o filme dialoga muito com Depois das Aulas,
de Antonio Campos e Paranoid Park, de Gus Van Sant. São todas histórias sobre como
trabalha a mente de um jovem quando exposta à uma visão brutalizante que deveria
estar distante de seu meio. Cada um desses protagonistas busca um conforto impróprio,
ou improvável, em ambientes que não tem nada a lhes oferecer, porém, no filme de Durkin,
não existe salvação em vista. John Hawkes, sempre espantoso e competente, torna-se aqui
quase uma variação de Teardrop, seu personagem em Inverno da Alma. Estão lá algumas
maneiras interioranas, uma violência contida, mas diferente do personagem anterior,
que não fazia questão de agradar, ele busca constantemente a confiança de seus súditos
através de uma sedução ameaçadora. A cena em que ele canta uma canção para Olsen,
olhando profundamente em seus olhos, é mais ameaçadora do que terna, e estabelece
de uma vez por todas as intenções daquele homem. Mais tarde, quando ela mesma
é incumbida de cuidar de uma garota novata no grupo, ela não consegue parecer honesta
quando fala das boas intenções dele. Vencidas as barreiras de aceitação ao tempo muito
pausado e contido de Durkin, é fácil perceber que, questão de tempo, este vai ser um
dos títulos mais cultuados do cinema independente americano, se não pela desenvoltura,
com certeza pela coragem. O final, tão aberto e livre para interpretações quanto possível,
deixa boa parte dos espectadores revoltados, e outra boquiaberta, mas é fato que ninguém
chegará ao final dos 102 minutos indiferente. Olsen e Durkin são os sobrenomes mais
promissores a surgir de terras ianques, e este filme com certeza um dos melhores do ano.
Felipe André | f_andre2@hotmail.com




GHOST WORD - Aprendendo a Viver
Ghost World EUA 1988 1h51min
de Terry Zwigoff com Thora Birch, Scarlett Johansson, Steve Buscemi, Brad Renfro
Em DVD pela NBO Editora

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Anos atrás, após concluir o ensino médio e antes de tentar o ensino
superior, num período de um ano dividido entre um cursinho desmotivado,
um ócio procrastinador e uma dúvida sobre o que fazer com o futuro,
assisti a Ghost World. Às vezes você acorda num dia qualquer e decide
assistir a um filme, sem saber que ele cairá como uma luva para aquele
momento de sua vida, e você fica simultaneamente feliz e devastado,
daquele jeito que só o cinema faz. É lindo quando acontece. Três fatores
participam dessa mágica: a vulnerabilidade ou falta de expectativas;
a identificação com os personagens e com o discurso do filme; o filme
é bom, ou para ser menos vago, ele funciona com você.

Assistir ao filme de Terry Zwigoff naquele momento específico me fez
enxergar coisas para o qual antes eu era cego, algo na minha personalidade
mudou desde então e isso não é pouco. Escrever sobre um filme com
que se tem uma conexão afetiva é pisar em ovos, não só porque
você é muito suspeito para falar, mas também pela auto-exposição.
"Toda crítica é uma autobiografia", disse Oscar Wilde e eu concordo,
mas algumas são mais arriscadas e reveladoras que outras. Escolhi
Ghost World para esse Dicas de Cinéfilo não só porque é um dos
meus filmes prediletos, desses que se assiste anualmente e se tem
diálogos memorizados, mas porque de alguma maneira eu superei o filme.
Não enquanto cinema, mas enquanto identificação. Ainda me sinto
um peixe fora d'água como a Enid (e logo mais me sentirei ainda mais,
quando chegar em outro país) e tenho eventuais crises de misantropia,
mas não sou o pós-adolescente que assistiu ao filme duas vezes
seguidas na primeira vez, tão impactado que fiquei. Ao reassistí-lo
recentemente senti algo mais próximo de uma saudável nostalgia,
como se revisitasse antigos amigos com o qual não tenho mais tanto
contato, embora ainda tenhamos coisas em comum. O mundo ainda
é cão e o niilismo impera, mas a inércia dos meus 17 anos ficou por lá.
E o filme ainda é divertido pra caramba!

É preciso reconhecer o trabalho atemporal e brilhante de Terry Zwigoff
e Daniel Clowes, que escreveu os quadrinhos e o roteiro do filme.
A classe média bunda americana suburbana é alvo fácil de qualquer
obra independente, mas poucos são tão afiados quanto Ghost World,
que nunca cai no exagero e na apelação, mesmo no humor, que é
altamente seco, sarcástico e irônico. O roteiro é simples e repleto
de diálogos afiados que atingem uma universalidade graças à variedade
temática. Claro, há a identificação com o desejo de sair da casa
dos pais, com o primeiro emprego, a primeira crise existencial,
com a tênues amizades juvenis e com o amor inusitado, mas também
há situações como o racismo velado, o preconceito, a escolha entre
a sobrevivência digna e vida vacilante. Parte da força reside
nos personagens vívidos, perfeitamente caracterizados.

Thora Birch, infelizmente sumida, é a própria encarnação da angústia
e rebeldia adolescente como Enid, e Scarlett Johansson faz de Rebecca
uma jovem mais pragmática, ainda sem saber lidar direito com sua
sexualidade. O falecido Brad Renfro tem um pequeno papel em Josh,
rapaz constantemente abusado por todos ao seu redor, mas difícil
esquecer dele. Steve Buscemi está em um de seus melhores
desempenhos como Seymour, homem esquisito, rabugento e adorável,
uma versão mais velha e masculina de Enid com um gosto musical
especial (atenção para a trilha sonora). Entre os mais coadjuvantes,
minha favorita é a hilária Illeana Douglas, genail como a desmiolada
professora de arte Roberta Allsworth. Zwigoff e Clowes driblam
a sátira barata, escolhendo apontar o ridículo e nos deixar julgar
ou não ao invés de ridicularizar. Surpreendentemente, o realismo
do filme é posto em questão com a bela metáfora do ônibus que
nunca vem, que rende ao menos três cenas incríveis, incluindo
o tocante final. Ghost World é uma linda ode à maturidade. Posso
ter ultrapassado o filme, mas sempre vou mantê-lo comigo, para não
esquecer que há muitas Enids, Rebeccas, Joshs e Seymours por aí,
com os mesmos conflitos que eu, e mantê-los próximos torna o mundo
um lugar mais tolerável para se viver. "Oh, we totally have to."
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com




PARA SEMPRE NA MEMÓRIA
Permanent Record EUA 1988 1h31min
de Marisa Silver com Alan Boyce, Keanu Reeves, Pamela Gidley, Lou Reed
Em VHS pela Paramount/CIC

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO
Aproveito a revisão de antigas edições para resgatar esse pequeno
belo filme sobre adolescentes realizado no final dos anos 80 (época de clássicos
do gênero como Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado e Digam O Que Quiserem).
Comentei na edição 150 do Cinemail, em agosto de 2003, já como revisão de uma
descoberta em locadoras de VHS no início dos anos 90. Talvez por ser tão obscuro
e pouco visto, este Para Sempre na Memória é certamente aquele pelo qual tenho
um carinho muito especial, e um dos que melhor capturou a iminente sensação
de vazio existencial de toda uma nova geração, conhecida como a 'Geração X',
que viu a falência dos ideais festivos humanistas da década de 60 serem engolidos pelo
imediatismo do mundo consumista após os últimos espasmos de rebeldia da geração
punk do final dos anos 70, desembocando na juventude que traduz melancolia
em afetação fashion, com o desespero controlado por tarjas-pretas. Para Sempre
na Memória
ganha força por ser um filme realizado naquele momento, em 1988,
e é um filme pequeno, despojado e despretensioso, sem qualquer virtuosismo
exibicionista. Não há sequer uma "história", o filme apenas acompanha o cotidiano
de um grupo de estudantes que, a partir do suicídio de um deles, têm que continuar
tocando as suas vidas, sem entender muito bem o que fez o outro desistir da sua.

A direção de fotografia de Frederick Elmes (Veludo Azul e Hulk) é limpa e objetiva,
não há nenhum momento em que você pense "Putz! Que enquadramento, que
iluminação, que fotografia!". O roteiro é redondinho, tudo é filmado com
precisão e economia que parecem não existeir mais no cinema pop atual.
A cena do suicídio é um primor de bom cinema, só vendo para entender.
As atuações são tão boas que você verá até Keanu Reeves numa atuação
espontânea, sincera. Alan Boyce, o protagonista que fica em cena menos
de meia hora, tem uma presença tão luminosa que eu fico me perguntando
como ele continuou desconhecido enquanto Keanu Reeves virou o tal, The One.
Revendo hoje (2003) - uns dez anos depois de ter descoberto esse filminho nas
locadoras em VHS - é incrível como o filme me lembra O Quarto do Filho,
de Nanni Moretti, Palma de Ouro em Cannes 2001. Tome isso como um enorme
elogio, afinal Para Sempre na Memória é o segundo filme dirigido por Marisa
Silver (?), de quem nunca mais ouvi falar, ao contrário de Moretti, diretor com
filmografia construída numa série de pequenos grandes filmes (Caro Diário, Aprile).

David Sinclair (Alan Boyce) é um bom aluno, acaba de ganhar bolsa
de estudos para a faculdade, é um músico talentoso, caladão mas
gente boa, namora uma garota bacana, tem um relacionamento tranquilo
com os pais e, no entanto, durante uma festa, desiste de viver.
A festa acontece num penhasco à beira mar, de onde David se joga
(ou cai?). A dúvida fica no ar e a escola inteira prefere acreditar
num acidente, providenciando uma grade para o local, evitando
que outros jovens sofram o mesmo "acidente". A ilusão dura pouco:
uma carta enviada dias antes para Chris (Keanu Reeves), o melhor
amigo de David, revela que o ato foi mesmo suicídio, planejado
com dias de antecedência. O motivo, se é que há, foi com David
para debaixo da terra. Fica o sofrimento de quem ele deixou para
trás. Não há respostas claras para nada, muito menos o conforto
de que David tenha partido dessa pra 'melhor'. Há momentos de apelo
melodramático, quando todos os alunos da escola, num ato de rebeldia,
resolvem fazer uma homenagem póstuma, homenagem que havia sido
cancelada com a confirmação oficial do suicídio. Mas o filme evita
melodrama ao máximo, transparecendo honestidade e conquistando
o coração até dos espectadores mais céticos. Os cinco minutos finais
são discretos e devastadores como raramente se vê num filme do gênero.

Ops!, pode reclamar dos spoilers, mas assim como O Quarto do Filho, é quase
impossível assistir ao belo filme de Nanni Moretti sem saber de antemão
do que se trata. E, ainda assim, é uma experiência emocionante. Mas claro
que o impacto de um filme desses ao assistí-lo sem saber de nada
o tornaria mais marcante ainda. Na capa de Para Sempre na Memória
já vem escrito "'Um jovem secundarista. Seu suicídio perturba a vida
de todos eles." E, mesmo assim, é um filme que se assiste surpreso.
Cresce bastante em sutileza numa revisão, onde nas poucas cenas
em que David aparece, ele é um cara tão normal e ao mesmo tempo
dá pequenos sinais de que está deslocado, desesperado, inquieto.
O teor cult da fita, além da presença de Keanu Reeves adolescente,
fica por conta da trilha sonora, assinada por Joe Strummer (The Clash);
da participação muito especial de Lou Reed, como ele mesmo, numa cena
em que os garotos visitam um estúdio de gravação; do filme ter sido rodado
em Portland, Oregon, com Keanu Reeves já apresentando visual pré-grunge,
contrastando com o visual do resto da turma, madonna-style nas garotas
e entre Duran Duran e RPM nos rapazes (putz! como era cafona o visual 80s!).
E o título original, Permanent Record é matador: "gravado para sempre".

Lançado em DVD nos EUA, ao certo está hoje disponível para download,
talvez sem legendas em português. Aqui no Brasil foi lançado em VHS
pela Paramount/CIC nos anos 90 e nunca mais ouvi falar do filme.
Fernando Vasconcelos | fernando@kinemail.com.br


O SHOW NÃO PODE PARAR
The Kid Stays in the Picture EUA 2002 1h30min
documentário de Nanette Burstein & Brett Morgen
Em DVD pela Europa Filmes

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO
Comemorando 12 anos do Kinemail, resgato filmes vistos no cinema
e hoje um tanto esquecidos, mas disponíveis em DVD ou para download. No ainda
Cinemail edição 170 - em formato de newsletter enviada por e-mail - há 10 anos
o Ciinema da Fundação exibia esse documentário obrigatório para quem viveu
ou conhece bem o cinema americano dos anos 70. Eu sou inclusive muito suspeito
pra falar do filme, já que minha memória afetiva cinematográfica está totalmente
atrelada ao período que esse filme cobre, especialmente os citados anos 70.

O Show Não Pode Parar conta a incrível carreira de Robert Evans como produtor
em Hollywood. Evans sempre teve um ego tão monumental que, ainda aos 15 anos,
convencido de que seria uma celebridade (quando isso não era algo tão banal
como hoje em dia), começou a guardar tudo o que poderia ajudar na redação
de sua futura autobiografia. Graças à sua boa estampa, o adolescente imberbe
tornou-se figurinha carimbada da imprensa marrom por suas ligações com coristas
e dançarinas de strip-tease. Nos anos 60, Evans começou a despontar nos bastidores
de Hollywood. Nos anos 70, adquiriu consagração ao produzir sucessos como Love Story,
O Poderoso Chefão e Chinatown. Antes disso, em 1968, sua primeira parceria com
o polonês Roman Polanski foi simplesmente outro clássico, O Bebê de Rosemary.
Muito antes da geração Steven Spielberg, Bob Evans chegou a ser chamado de
"jovem Midas". Tudo o que fazia dava muito dinheiro aos estúdios Paramount.

O título original The Kid Stays in the Picture vem de um episódio dos anos 1950,
quando Bob Evans estrelou na Fox Filmes o filme adaptado do livro de Ernest Hemingway,
O Sol Tornará a Brilhar. Devido a divergências no set, Evans quase foi despedido,
mas o chefão do estúdio, Darryl Zanuck, disse a famosa frase que o próprio Evans
pinçou para título de seu livro em que esse filme se baseia: 'O garoto fica no filme!'
Se não ficasse não tinha filme e, talvez, Bob Evans não tivesse construído seu mito
em Hollywood. O título vira metáfora da capacidade de sobrevivência do biografado.
Narrado agilmente com muito material raro e passagens montadas com fotos ganhando
vida em superposições e movimentos digitais, o filme encanta pelo lado humano
e pelo carisma da narração em off, feita pelo próprio Bob Evans, que continua vivo
e produzindo filmes, depois de ter conhecido a decadência via drogas nos anos 80.
Obs. Esse texto é de 2003, mas Robert Evans, nascido em 1930, ainda vive.




Há inúmeras passagens memoráveis e emocionantes, como os bastidores de O Bebê
de Rosemary
, revelando uma Mia Farrow pra lá de maluquinha; o tremendo par de galhas
que levoude Steve McQueen, pivô da separação de Evans e Ali McGraw, durante as filmagens
de Os Implacáveis, de Sam Peckinpah; uma tocante homenagem a Jack Nicholson, amigo
que o ajudou na barra pessada do vício em cocaína; um hilário clipe que Evans foi obrigado
a dirigir quando cumpria pena por uso de drogas, precursor do formato We Are The World,
com vários famosos (entre eles Paul Newman), cantando a música para campanha anti-drogas
Get High on Yourself. E não saia antes de rolarem os créditos, com uma impagável cena
onde Dustin Hoffman faz imitação de Evans, nas filmagens de Maratona da Morte.
Visto em 08/11/2003 como convidado do Cinema da Fundação
Fernando Vasconcelos
| fernando@kinemail.com.br


MILDRED PIERCE
Mildred Pierce EUA 5h36min
de Todd Haynes com Kate Winslet, Guy Pearce, Evan Rachel Wood, Melissa Leo
Em DVD pela Warner Bros.

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Mildred Pierce é uma minissérie em cinco capítulos produzida
e exibida pela HBO no ano passado, agora chegando em DVD no Brasil.
A televisão americana está se tornando cada vez mais interessante que
seu cinema, isso já foi muito dito e este é um dos exemplos. No comando
da minissérie está Todd Haynes, que desde Não Estou Lá não dava as caras.
Mildred Pierce é baseado no livro de James M. Cain e já foi adaptado
com sucesso em 1945 por Michael Curtiz, aqui intitulado Almas em
Suplício
e estrelado por Joan Crawford, que ganhou um Oscar no papel.
Nessa versão o papel de Mildred é de Kate Winslet, que por sua vez
ganhou um Emmy de melhor atriz em minissérie. Haynes é claramente
um fã dos melodramas dos anos 30, 40 e 50, e já prestou sua homenagem
ao gênero com Longe do Paraíso em 2003. O estranho é constatar
as gritantes diferenças entre as duas obras. Enquanto Longe do Paraíso
abraçava o gênero que homenageava, Mildred Pierce faz o caminho inverso.
Mesmo com as turbulentas reviravoltas que uma história de desintegração
familiar pode trazer, a minissérie parece evitar os exageros
e o expressionismo comuns ao melodrama. Longe do Paraíso bebia
na fonte de Douglas Sirk com suas cores e luzes vibrantes e múltiplos
conflitos (desigualdade social, racismo, homofobia, sexismo) atenuados
pelos intolerantes anos 50. Era até fetichista e idealizado.
Mildred Pierce é contido, naturalista, procura retratar uma
Los Angeles dos anos 30 não como uma fantasia, mas com sobriedade.
E o mesmo acontece com o drama dos personagens.

Mildred é uma típica dona de casa americana que se divorcia do marido
e passa a trabalhar como garçonete enquanto sonha em abrir um
restaurante. Nesse meio tempo cuida de suas filhas Veda e Ray.
Ela também conhece Monty (Guy Pearce), com quem começa um
tórrido romance. Uma tragédia abate a família, verdades são insinuadas
e os personagens mostram suas presas. O filme lida com algumas
questões similares à Longe do Paraíso, especialmente no que condiz
ao apego americano ao status social e ao supervalor dado ao dinheiro.
Uma das partes mais interessantes da série é acompanhar a protagonista
mudar sua rotina e se tornar subordinada num subemprego enquanto
galga seu sonho. Mas o coração da história está na relação entre
Mildred e Veda (adulta interpretada por Evan Rachel Wood). A mãe
idolatra a filha (perceba sua reação estarrecedora após a tragédia
que ocorre no segundo episódio), e a jovem responde com desprezo.

Cada personagens é perceptivelmente bem pensado, os atores são
excelentes (o elenco inclui Melissa Leo, James LeGros, Hope Davis,
Brían F. O'Byrne e Mare Winningham), a arte é exuberante pela
simplicidade realista, tudo é muito bem cuidado. Mas ao enxugar
o melodrama, Mildred Pierce parece ter perdido pulsão no sangue,
paixão. Nem acelera o coração dos fãs do gênero nem faz rir aqueles
que o detestam. É correto e admirável, porém difícil de sentir
algo maior que isso. Um bom exemplo é a cena de nudez de Wood,
que era pra ser chocante dentro do contexto, mas há algo no tom
da cena que alivia a situação, tirando parte de seu impacto.
É bom ver Todd Haynes não se repetir em mais uma homenagem,
mas por outro lado falta uma voz, algo que soprasse mais vida
à série, embora não ao personagens, que sobrevivem com seus atores
brilhantes e bem dirigidos. Mildred Pierce é um anti-melodrama,
sempre consciente e crítico de sua própria natureza, mas a elegância,
precisão e beleza da produção não compensam a falta de energia.
Uma obra que eu admiro, mas não adoro.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


VINGANÇA
Fuk Sau 2009 Hong Kong/França 1h48min
de Johnnie To com Johnny Hallyday m Sylvie Testud, Anthony Wong Chau-Sang, Suet Lam
Em DVD pela California Filmes

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Aqui está um filme que não poderia ter um título mais direto e objetivo.
Vingança parece um template, um modelo de como se fazer um filme do tipo
da maneira mais básica e funcional, e é bom nisso. O cineasta Johnnie To, cujo
último filme a chegar no Brasil foi Eleição - Submundo do Poder, é especialista
em gangsters, mas Vingança está mais pra um exercício de estilo do que um filme.
Lembrou-me de Drive, mas sem tantos excessos e afetações. Vingança concorreu
à Palma de Ouro em 2009, o que entendo mais como um reconhecimento do trabalho
do incansável diretor (que também competiu com Eleição) do que por merecimento.
Ainda assim, é mais cinema do que todos os filmes de ação exibidos esse ano,
provavelmente porque não se preocupa em se classificar como "filme de ação".
Não é um filme de história, essa já conhecemos de cabo à rabo, mas To a conta
como se nunca tivéssemos ouvido falar nela antes. O filme coleciona algumas
das cenas de tiroteio mais elegantes que já vi, mas não por que são somente
belas, bem fotografadas e montadas, mas porque constrói-se uma aura ao redor
de situações violentas, acentuando as sensações que elas causam e os silêncios.
O filme se comunica através dessas ideias.

Através de um ritmo na medida, Johnnie To nos presenteia com sequências
fenomenais, como os testes com as armas no lixão e a incrível cena do piquenique
noturno na floresta, que quase não usa palavras, é altamente tensa e bem encenada.
O melhor é que mesmo usando crianças e pontos de virada que envolvem coisas
ordinárias (um brinquedo, adesivos), o filme nunca vira um cartum nem se utiliza
de meiguice para sentimentalizar. Se nos conectamos com os personagens
é porque compreendemos suas motivações, mesmo com o roteiro desandando
no final. Os atores são cruciais na expressividade silenciosa do filme. O francês
Johnny Hallyday empresta sua figura marcante à Costello, pai vingativo que vai
à Macau procurar os responsáveis pela morte de sua filha (Sylvie Testud) e netos,
e, numa das melhores cenas do filme, acaba contratando três matadores
(Anthony Wong, Ka Tung Lam e Suet Lam, todos ótimos) para realizar a vingança.
Algumas viradas de roteiro são pobres e em pouco acrescentam no todo, parecendo
só estar ali para criar mais situações complicadas, como a memória evanescente
de Costello. A ideia da insignificância melancólica da vingança é interessante,
mas faltou mais material pra reforçá-la. Mas o talento de Johnnie To na câmera
compensa e preenche os vazios da história. Vale muito a pena conferir.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com



MISTÉRIOS DA CARNE
Mysterious Skin EUA 2004 1h45min
de Gregg Araki com Joseph Gordon-Levitt, Michelle Trachtenberg, Brady Corbet, Elisabeth Shue
Em DVD pela Paris Filmes

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Gregg Araki, conhecido por seus filmes coloridos e cômicos como Splendor,
Geração Maldita, Smiley Face e o recente Kaboom, realizou em 2004 essa adaptação
do romance de Scott Heim, Mistérios da Carne. É seu filme mais sóbrio, soturno
e pesado, por questões temáticas óbvias, e seu melhor filme até agora. É também seu
segundo de três filmes a abordar a ficção cientifica de alguma manerira (os outros foram
Nowhere e Kaboom). No caso, o personagem Brian (Brady Corbet) acredita ter visto
uma nave espacial com a sua mãe quando criança, e isso acaba se tornando uma máscara
para uma experiência traumática que ele divide com o outro protagonista do filme, Neil
(Joseph Gordon-Levitt): ambos foram abusados sexualmente na infância. Cada um lidou
com o ocorrido de maneira diferente. Enquanto Brian apagou o abuso de sua memória
e o substituiu pelo caso alienígena, Neil absorveu a história tortuosamente, como
se o que aconteceu com ele fosse uma história de amor. As histórias perturbadoras
de Mistérios da Carne não são usadas pra fins sensacionalistas, nem os personagens
são vitimizados e martirizados. Há respeito, compaixão e uma honestidade dolorosa,
mas necessária, de testemunhar. Até o erotismo, inerente à obra do cineasta,
é cuidadosamente trabalhado, tendo como objetivo significar, e não seduzir.

O filme deve muito ao trabalho do elenco. Gordon-Levitt se destaca no personagem
mais trágico, que lhe proporciona cenas impressionantes, como a do programa com
o velho aidético em Nova York. Elizabeth Shue também faz um belo trabalho como
a mãe de Neil, otimista e simpática, mas sempre com algo de frágil, inseguro
e desesperado em seu caráter. Corbet, Michelle Trachtenberg e Jeffrey Licon
completam o elenco juvenil, mas a chave do filme está em duas crianças,
George Webster e, principalmente, Chase Elisson, ambos como Brian e Neil
aos 8 anos de idade. Araki conduziu a edição das cenas de abuso sexual
de maneira a não deixar os meninos saberem sobre do que realmente se tratava,
deixando para a montagem dar sentido às cenas. O resultado choca: através
da narração de Gordon-Levitt (e com uma ajuda do efeito Kuleshov), Neil
demonstra sua sexualidade infantil de maneira assustadora e desconcertante,
tornando-o um parceiro no crime, claro que sem fazer ideia do que está fazendo.
A linha tênue entre veracidade e exploração nunca é ultrapassada porque Araki
sugere ao invés de mostrar, e acredite, as imagens que você não vê no filme
ficarão muito tempo na sua cabeça. É o filme menos expansivo e direto
do diretor, mas também é seu mais cru, belo e comovente trabalho.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


LIÇÕES PARTICULARES
Elève Libre Bélgica/França 2008 1h45min
de Joachim Lafosse com Jonas Bloquet, Jonathan Zaccaï, Pauline Etienne, Yannick Renier
Disponível para download

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Em 2008 tive a rara oportunidade de assistir a Lições Particulares num cinema,
durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme nunca entrou em cartaz
ou foi lançado em DVD no Brasil, sendo na verdade ignorado em quase todos os países,
mesmo dirigido por Joachim Lafosse, do moderadamente bem conhecido Propriedade Privada,
com Isabelle Huppert, exibido aqui no Cinema da Fundação em 2007. A sessão que assisti,
lotada com mais de 300 pessoas, mostrou-se um anúncio do destino fatídico do filme.
Nos 30 minutos finais de projeção, pessoas debandavam da sessão gritando palavrões
contra o filme, fazendo questão de exibir seu ultraje para todos os presentes.
Ao final, parte do público rompeu em aplausos, outra parte não reagia e outra
vaiava e criticava calorosa e revoltadamente o que acabara de ver. O motivo para
tanta comoção: Lições Particulares aborda, de maneira seca e direta, temáticas
queer
envolvendo um homem adulto e um adolescente de 17 anos, nunca pretendendo
se auto-classificar na generalizante expressão “filme gay”. Curiosamente, nos EUA
chegou a ser rejeitado em seleções para festivais de cinema GLS. Lafosse faz do filme
uma tese, onde a sexualidade líquida, despreocupadamente indefinida dos personagens
funciona como motor narrativo e como crítica a uma hipocrisia sexual e moral,
o que despertou desconforto e polêmica em públicos de todo o mundo. Filme-tese
ou não, Lições Particulares é uma obra corajosa por partir de princípios e ideias
que revelam certos aspectos cruéis de nossa sociedade, onde a provocação não
é gratuita mas natural, considerando o que se pensa sobre sexualidade hoje.





O filme conta a história de Jonas (Jonas Bloquet), rapaz não muito inteligente
tutorado por Pierre (Jonathan Zaccaï, de De Tanto Bater Meu Coração Parou),
homem rico e intelectual na faixa dos quarenta anos, que se compromete com sua
educação. A princípio, é só uma história de amadurecimento, com Jonas perdendo
a virgindade com a namorada Delphine (Pauline Etienne), enfrentando problemas
escolares e familiares e tentando compreender o mundo adulto. Dois personagens
são importantes na construção da “tese” de Lafosse, o casal Nathalie (Claire Bodson)
e Didier (Yannick Renier, de Canções de Amor) amigos próximos de Pierre.
Assim como o amigo, o casal conversa abertamente sobre sexo, sem pudores,
e se oferecem para ajudar Jonas também nesse âmbito de sua vida. O rapaz acaba
se envolvendo sexualmente com os três, especialmente com o tutor Pierre. Até onde
Jonas é inocente e até onde os sentimentos de Pierre são honestos? O caráter duvidoso
dos personagens e a necessidade de culpabilidade por parte da audiência é o que causa
reações viscerais do público. Os personagens não são fáceis de julgar. Jonas jamais
rejeita o que lhe propõem, mas logo se vira contra Pierre num ato de imaturidade,
enquanto os adultos têm uma constante aura manipulativa. Assim como Pierre ensina
a Jonas, o diretor Joachim Lafosse, nosso professor particular, nos ensina que
a vida é feita de interrogativas, não afirmativas. Especialmente no sexo, onde
a heteronormatividade diz mais sobre nossos costumes e cultura do que sobre nossa
natureza sexual. Lições Particulares é um filme que acredita no desapego às identidades
sexuais como forma de iluminação e conhecimento. Quando Jonas tenta classificar as
sexualidades daqueles ao seu redor, recebe como resposta outra pergunta que o deixa
ainda mais confuso, mas menos ignorante. O título original Eléve Libre (Estudante Livre),
é a melhor pista para entendermos a proposta do filme: assim como Jonas, somos todos
livres para escolher, o importante é reconhecer a existência das possibilidades.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


O ABRIGO
Take Shelter EUA 2011 2h00min
de Jeff Nichols com Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart, Shea Whigham
Em DVD pela Sony

por Filipe Marcena


OPINIÃO Se Lars von Trier filmou o apocalipse como metáfora da depressão em Melancolia,
Jeff Nichols (do nunca lançado no Brasil Shotgun Stories) usa o fim do mundo para elucidar
sobre a paranoia e sanidade em O Abrigo, infelizmente despejado em DVD pela Sony esse mês.
Tanto von Trier quanto Nichols estrearam seus filmes no Festival de Cannes do ano passado,
o que é uma incrível coincidência, já que são filmes muito próximos não só em temática
como na abordagem lírica e niilista. São filmes sobre pessoas lidando com a trágica certeza
do inevitável e a solidão que isso traz. Outra comparação que não pude deixar de fazer
foi com Bug - Possuídos, genial filme de William Friedkin que também trazia Michael Shannon
como um homem problemático que infecta um mulher com sua paranoia. Mas se Friedkin
deixava claro que o filme era pessimista, O Abrigo não nos dá certeza de nada. Por isso
ele é menos um filme sobre o fim do mundo em si e mais sobre o medo que essa ideia
causa. Não o apocalipse espetaculoso de 2012, mas um apocalipse real, que mostra sinais
com os desastres naturais, crise econômica e a desumanização das sociedades.
É um filme de nossa época, nadando contra-corrente do cinema contemporâneo por não
se ater a gêneros, preferindo reiventá-los a fim de atingir significados maiores que eles.

Curtis (Shannon) sonha com cenários apocalípticos. E começa a ter certeza de que são
profecias. O casting de Shannon é perfeito, pois estamos acostumados a vê-lo interpretando
homens dementes (Bug, Foi Apenas um Sonho, Antes que Diabo Saiba que Você Está Morto,
Boardwalk Empire, The Runaways
, só pra citar alguns), então é fácil encarar seus trejeitos
e atitudes como loucura. Mas até que ponto esse homem sabe o que diz? Aí entra a melhor
personagem do filme, sua esposa Samantha, interpretada pela incansável e brilhante
Jessica Chastain. Ela catalisa o pânico de Curtis, ora confrontando ora compreendendo. 
Samantha é a voz do espectador. Nichols cria um senso de ansiedade e inquietação
que sempre nos deixa em dúvida sobre o que estamos vendo. Enquanto cinema
lembra um Hitchcock menos mecânico, enquanto análise de personagem lembra
Safe - Mal do Século, de Todd Haynes, mas sem definir realidade/paranoia.

O desespero de Curtis em encontrar segurança para sua família nos conecta
emocionalmente, mas a grande sacada do personagem é o fato de ele não ser
um estudioso, um analista ou um cientista, ele é um homem comum que sente
grandes problemas a caminho. Assim como a Justine de Kirsten Dunst, Curtis não
está necessariamente errado. E assim como em Melancolia, a resolução é triste
e assustadora, mas oferece um esclarecimento sobre a natureza humana e algumas
dúvidas sobre a nossa noção de segurança. Altamente recomendado.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


O ENIGMA DE ANDRÔMEDA
The Andromeda Strain 1971
de Robert Wise com Arthur Hill, David Wayne, Kate Reid, James Olson, Paula Kelly
Em DVD pela Universal

por Fernando Vasconcelos


OPINIÃO O lançamento de Prometheus me levou a revisitar um dos filmes que me
impressionaram na adolescência nos anos 70, em madrugadas televisivas inesquecíveis,
geralmente na programação da Rede Globo, onde assistíamos maravilhados joias como
O Planeta dos Macacos e O Dia Em Que a Terra Parou, moldando nossa memória afetiva
no gênero ficção científica, enquanto devorávamos livros como 1984 e Admirável Mundo
Novo
(Thanks, Mrs. Orwell e Huxley). O subestimado Robert Wise - são dele não apenas
o clássico do gênero já citado, O Dia Em Que a Terra Parou (o de 1951, não o com Keanu
Reeves...), como o melodrama Quero Viver! e o musical A Noviça Rebelde, além de um
fraco primeiro filme para cinema de Star Trek, já no início dos anos 80 - adaptou um livro
do então ainda não muito famoso escritor (e médico) Michael Crichton, autor também
de Coma e Jurrasic Park, que tratava de uma crise biológica provocada por uma misteriosa
bactéria extraterrestre, trazida de volta à Terra numa sonda espacial exploradora,
em O Enigma de Andrômeda. Embora horrivelmente datado para as novas gerações,
o filme impressiona até hoje pelo realista trabalho de direção de arte e, claro, pelo
tom adulto, talvez impossível hoje, em tempos de padronização infantilizada.

É preciso se situar historicamente. 1968. Toda a ficção científica de aventuras populares
com monstros extraterrestres com subtexto de invasão comunista levaram uma paulada
com a obra-prima 2001 - Uma Odisseia no Espaço, que elevou o gênero a níveis nunca antes
alcançados, com Stanley Kubrick e o mago de efeitos visuais óticos (pré era digital) Douglas
Trumbull criando um realista e crível mundo futurista, enquanto o homem conquistava
a Lua e o mundo passava por transformação social e política. Um ano antes de Wise, em
1970, George "Star Wars" Lucas havia realizado o sombrio THX 1138. Coube a Robert Wise,
um diretor eclético e "sério", adaptar para cinema este assustador exemplar de ficção
científica biológica. A trama começa com militares descobrindo que a pequena cidade
onde caiu a sonda espacial teve sua população dizimada em minutos, com sobrevivência
apenas de um bebê e um velho bêbado vagando nas ruas. Ambos são recolhidos para
análise por um grupo de cientistas (alô, Prometheus, os cientistas desse filme parecem
e comportam-se como cientistas!) numa fortaleza secreta, um imenso laboratório que
adentra vários andares no subsolo de um deserto americano, e são a chave para descobrir
um antídoto contra a misteriosa propagação da bactéria extraterrestre, batizada como
Andrômeda. Um dos cientistas é escolhido para guardar a chave que desliga o alarme
de autodestruição nuclear do complexo, caso algum desastre biológico aconteça.

Por demais expositiva, a trama explica cada processo e engenhoca de segurança
e descontaminação, obviamente fascinantes à época da realização do filme, e só ganha
ação nos tensos minutos finais, na iminência de destruição da vida na Terra por
um erro de decisão (um dos ambientes ideias para a propagação de Andrômeda,
descobrem os cientistas, seria exatamente um explosão nuclear). Ficção científica
de primeira classe, O Enigma de Andrômeda é o tipo de filme que tem detalhes
incrivelmente proféticos como o diálogo: "- Onde fica a biblioteca? - Não usamos livros.
Toda informação que precisamos está nos computadores." Interessante observar
a direção de arte fortemente influenciada pelo filme de Kubrick: cores fortes, assepsia
e frieza tecnológica em ambientes circulares, aproveitamento espetacular do formato
largo CinemaScope. A estação secreta em formato circular e seu mapeamento
computadorizado também remetem curiosamente à cenas de Prometheus e,
em várias cores identificando cada andar mais abaixo do laboratório secreto
militar no subsolo, é muito divertido notar que trata-se do mesmo cenário,
apenas pintado de cores diferentes, solução de um tempo em que não era possível
construir cenários digitais. Era tudo construído de verdade mesmo. Se O Enigma
de Andrômeda
falha em uma certa burocracia narrativa explicativa, todas essas
curiosidades de uma ficção científica realizada 40 anos atrás o tornam obrigatório
para fãs do gênero. Pena que o DVD nacional não tem nenhum extra. Um making of,
documentários ou comentários em áudio o tornariam ainda mais fascinante.
Fernando Vasconcelos | fernando@kinemail.com.br


MILLENNIUM II - A Menina Que Brincava Com Fogo
Millennium II - Flickan Som Lekte Med Elden Suécia 2009 2h05min
de Daniel Alfredson com Noomi Rapace, Michael Nyqvist, Annika Hallin
Em DVD pela Vinny Filmes

por Filipe Marcena


OPINIÃO
Aproveitando o lançamento do remake para Os Homens
Que Não Amavam as Mulheres
, chega em DVD a continuação do original
sueco, com anos de atraso. A adaptação cinematográfica da trilogia
literária do falecido Stieg Larsson rendeu quatro sucessos de bilheteria,
embora dificilmente veremos uma versão americana de A Menina Que
Brincava com Fogo
. Essa é dirigida por Daniel Alfredson, irmão
de Tomas Alfredson (Deixa Ela Entrar, O Espião Que Sabia Demais),
mas os problemas de Millenium 1, de Niels Arden Oplev, repetem-se
nessa sequência. Larsson mais uma vez escancara crimes monstruosos
contra mulheres e ideologias facistas que se escondem nas sombras
da Suécia e do mundo, e mais uma vez Lisbeth Salander e Mikael
Blomkvist vão investigar. Dessa vez, Lisbeth é acusada de três
assassinatos, e dependerá de seu antigo parceiro para ter seu nome
limpo novamente. Imagino que a adapção seja muito fiel à obra
literária, já que o filme depende muito das palavras e nem roteirista
nem diretor foram capazes de driblar a burocracia da história.

A impressão que fica é que tanto os livros quanto os filmes só ganharam
continuação por motivos financeiros, já que é praticamente a mesma estrutura
do primeiro filme, a mesma ideia sendo transmitida e o mesmo formato
noir-erótico-violento. Uma pena que a direção medíocre de Alfredson
nunca eleve a história, algo que David Fincher soube fazer. Sendo o filme
totalmente sem personalidade, resta testemunhar o talento de Noomi Rapace,
já devidamente reconhecida e, contradizendo comentários de anos atrás,
trabalhando em Hollywood (ela é a protagonista de Prometheus de Ridley Scott).
Mas acho que eu estou cobrando demais de uma obra primordialmente
pulp, que só ganhou ares de 'arte' por ser sueco. Nesse caso, a abordagem
televisiva e objetiva talvez se enquadre melhor. A versão de Fincher só
é superior por ser mais enxuta, visualmente mais interessante e bem acabado
tecnicamente, mas acho que é máximo que se pode fazer com as investigações
da série Millenium. Curiosidade: em Portugal, o filme se chama A Rapariga
que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e Um Fósforo
. Muito melhor.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


TALKING HEADS - CHRONOLOGY
Talking Heads - Chronology EUA 2011 1h48min (+ 35min de extras)
com David Byrne, Tina Weymouth, Chris Frantz, Jerry Harrison
Em DVD pela ST2 Video

por Fernando Vasconcelos


OPINIÃO Como diz o título, esta é uma coletânea cronológica, cobrindo os primeiros
anos de carreira de uma das bandas mais infuentes, vanguardistas e marcantes da virada
dos anos 70 para os 80. Como pegar uma nave e viajar de volta no tempo, vemos
uma Nova York que não existe mais, dos anos áureos dos inferninhos underground
The Kitchen e C.B.G.B., que lançaram as bandas americanas mais importantes da
época, do Ramones ao Blondie e Television, sendo o Talking Heads a mais difícil
de rotular (e uma das minhas bandas prediletas). O DVD cobre a primeira fase
da banda, quando ainda era um trio baixo-guitarra-bateria, que você pode ver
no vídeo abaixo num registro raro da famosa Psycho Killer. A performance tímida
do líder David Byrne era menos por pose e mais para esconder um dente
quebrado que ele só viria a consertar quando a banda começou a fazer algum
dinheiro. Diante da formação incomum, com uma mulher baixista e vocalista
e baterista discretos, que mais pareciam dois universitários do que roqueiros,
um produtor olheiro perguntava: - Mas o que são vocês, uma banda de lésbicas?





Com a entrada do guitarrista e tecladista Jerry Harrison, o Talking Heads
ganhou a forma de quarteto pela qual é mais conhecido e o som começou
a ficar mais sofisticado, de forma que nunca mais apresentaria o tom seco
e esquisito da primeira fase da banda. A cronologia cobre até apresentações
na TV e ao vivo no início dos anos 80, quando a banda já experimentava
o formato de big band world music, com muita influência de música negra,
reforçada na percussão, teclados e backing vocals por integrantes convidados,
quando a banda se apresentava com até mais de 10 músicos no palco. Esse processo
de crescimento da banda pode ser visto de forma bastante didática no clássico
Stop Making Sense, realizado por Jonathan Demme em 1984. Voltando ao Talking
Heads - Chronology
, a linha do tempo dos vídeos encerra-se em 1983, com
uma apresentação de Burning Down The House no programa de David Letterman.

A banda encerrou suas atividades oficialmente no início dos anos 90 e o DVD
tem epílogo digno com um reencontro em 2002 na cerimônia do Rock And Roll
Hall of Fame, com o quarteto naturalmente envelhecido, mandando ver numa afinada
versão de Life During Wartime, hit do álbum de 1979, Fear of Music que - apresentada
agora logo após o atentado que mudaria o mundo em 11.09.2001 - soa mais irônica,
visionária e sombria, com sua letra sobre a vida paranoica de guerrilheiros urbanos:
I got three passports, a couple of visas / You don't even know my real name
Sleep in the daytime, work in the night time / I might not ever get home
This ain't no party, this ain't no disco / This ain't no fooling around
This ain't The Mudd Club, or C.B.G.B. / I ain't got time for that now


As performances ao vivo do Talking Heads - Chronology são um presente
para fãs - e também um documento raro para aqueles que só conhecem a banda
de alguns hits -, tudo meticulosamente organizado, com opção de comentários em
áudio dos quatro integrantes da banda, além de um interessante programa britânico
de TV em um extra de 35 minutos, feito em 1978, acompanhando o início do Talking
Heads, com filmagens raras caseiras e de estúdio, contendo mais uma versão histórica
ao vivo para Psycho Killer. DVDteca básica, essencial, para quem curte boa música pop.
Fernando Vasconcelos | fernando@kinemail.com.br


O MUNDO ODEIA-ME
The Hitch-Hiker EUA 1953 1h10min
de Ida Lupino com Frank Lovejoy, Edmond O'Brien, William Talman, Sam Hayes
Em DVD pela Platina Filmes

por Fernando Vasconcelos


OPINIÃO
Mesmo após mais de 100 anos de cinema, a história das cineastas,
especialmente em Hollywood, ainda é muito limitada. Alguns nomes como Sofia
Coppola, Lisa Cholodenko, Mia Hansen-Love, Claire Denis, Catherine Breillat,
Lucrecia Martel, Jane Campion, destacam-se no circuito "alternativo" e, na
maioria dos casos, com filmes sobre mulheres, relacionamentos, mais emoção
e menos ação. Com Guerra ao Terror, Kathryn Bigelow foi a primeira mulher
a ganhar um Oscar de melhor direção, depois de algumas poucas indicadas
em toda a história da premiação. Bigelow fez um filme sobre o mundo masculino,
que poucos diriam ter sido dirigido por uma mulher. Imagine que mais de
50 anos atrás, a atriz Ida Lupino tornou-se uma rara roteirista e diretora,
realizando intensos filmes noir de baixo custo, centrados em personagens
masculinos. O Mundo Odeia-me (mais uma típicaa tradução livre da época para
o original The Hitch-Hiker, O Carona), realizado por Lupino em 1953, é também
o seu preferido, entre os poucos que dirigiu. O filme, inclusive, não tem atrizes,
nem mesmo como coadjuvantes, e desenvolve-se numa composição triangular
entre um sociopata e dois homens americanos médios - ou american average
joes
- sob o seu domínio. Logo na abertura, créditos dizem que o filme é baseado
numa história real "sobre um homem, uma arma e um carro. A arma é do homem,
e o carro pode ser o seu, ou do casal no canto da outra fila do cinema".

Como não simpatizar de cara com um filme assim tão "macho"? Ida Lupino é hoje
consagrada, como uma mulher diretora de cinema. Um rótulo limitado, já que
esse é um caso de um autor de cinema de primeira qualidade, sem precisar
dizer que é admirável por ser uma mulher. Pegue a cena inicial, por exemplo:
De forma brilhantemente visual, Lupino apresenta seu protagonista assassino
pegando carona com um casal, em tomadas que mostram a estrada, os pés, as portas
do carro, objetos roubados jogados no chão, braços pendentes de cadáveres, tudo
filmado sem mostrar rostos. Fusão para manchetes de jornal "Casal Assassinado!"
e outro jornal identificando o possível assassino com foto de Emmett Myers, fugitivo
da prisão. Vemos outra sequência de crime do carona, dessa vez um homem é morto,
novamente não vemos os rostos. Estamos com aproximadamente 5 minutos de filme
e Lupino já toca o terror e suspense: as vitimas podem ser qualquer um, em qualquer
lugar, como por exemplo você, espectador. Num toque final de maestria, a próxima cena
mostra enfim os rostos dos dois average joes que serão as próximas vítimas do carona.
Confira o teaser:



A situação armada é bem simples. Dois homens comuns (Edmund O’Brien e Frank
Lovejoy), procuram fugir da rotina, abandonando mulheres e famílias para uma farra
na fronteira do México. Cometem o erro de dar carona para Emmett Myers (William Talman),
um sujeito que não é apenas do Mal, é o perigo de estar com alguém que não tem nada
a perder, sem amor na vida ("Quando eu nasci, meus pais me esqueceram"), que tem
apenas o poder de uma arma e tenta fugir através do México, alcançando uma travessia
de balsa rumo ao sul, afastando-se da America que o caça pelos crimes bárbaros.
O personagem é baseado no criminoso real Billy Cook, que matou 6 pessoas (incluindo
5 de uma mesma famíla) e tomou 2 homens como reféns numa viagem pelo México durante
8 dias. Cook foi condenado à câmara de gás, morto em 1952, um ano antes da realização
do filme. Com apenas 1 hora e 10 minutos de duração, O Mundo Odeia-me é pura tensão
narrativa e o roteiro desdobra-se em inesperadas situações, com o trio não apenas de carro,
mas também a pés, quando remete a faroestes, atravessando o deserto mexicano
com a polícia fechando o cerco. Entre outras sacadas brilhantes, o assassino tem
uma visão defeituosa, de modo que um olho sempre fica aberto e, nas tensas noites
dormidas no deserto, os dois homens (e o espectador) nunca sabem se ele está dormindo
ou acordado. Chegam a ser assustadores os closes do rosto de Myers "dormindo".

Filmado com visível baixo custo, o filme alterna cenas em locações com apertados
planos dentro de carros filmados em estúdio e, na simplicidade direta de suas ações,
impressiona a clareza com que Lupino apresenta a complexidade dos três personagens,
num noir dos mais "escuros" sobre a natureza humana. O final é rápido, sem tom
de clímax dramático, seco e sombrio como um legítimo noir deve ser. Uma curiosidade:
A música Riders on the Storm, uma das mais famosas do The Doors, foi inspirada
no assassino real Billy Cook, que pode ser reconhecido em passagens da letra.
There’s a killer on the road/His brain is squirming like a toad
Take a long holiday/Let you children play
If you give this man a ride/Sweet memories will die

O Mundo Odeia-me foi lançado em DVD pela Platina Filmes, copiado a partir de original
da Kino International, de qualidade mediana, pedindo por uma versão restaurada (Martin
Scorsese, cadê você?). No YouTube, além do teaser acima, graças à curtíssima duração,
também é fácil encontrar o filme inteiro, mas no original sem legendas.
Fernando Vasconcelos | fernando@kinemail.com.br


CORIOLANO
Coriolanu Inglaterra 2011 2h02min
de Ralph Fiennes com Fiennes, Gerard Butler, Vanessa Redgrave, Jessica Chastain
Em DVD pela California Filmes

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Tinha tudo pra ser mais um filme de vaidade de estrela hollywoodiana,
mas na verdade Coriolano é uma promissora primeira experiência na direção para
Ralph Fiennes, e se tratando de uma adaptação de Shakespeare não é pouca coisa.
Aliás, assistir a esse filme depois de encarar A Tempestade, da muito mais experiente
Julie Taymor, é um alívio. Há um abismo entre esses dois filmes. O desafio é maior
ainda considerando que Fiennes é também o protagonista. O roteiro, escrito por John
Logan, é bastante fiel ao texto original, e Fiennes o respeita, criando uma modernização
estranha e fascinante da história, mas preservando a lógica da sociedade britânica
do século XVI e o sentido da obra. A direção do invejável elenco, que além de Fiennes
conta com Vanessa Redgrave, Jessica Chastain, Brian Cox, Lubna Azabal, James Nesbitt
e o sempre suspeito Gerard Butler, é tão segura e eficiente que mesmo declamando
as palavras rebuscadas de Shakespeare, as cenas nunca caem no ridículo (como o filme
de Taymor cai constantemente), e isso seria muito fácil de acontecer dentro da abordagem
realista de Fiennes (a fotografia é do oscarizado Barry Ackroyd, de Guerra ao Terror).
Se bem que, convenhamos, ter Redgrave em longos monólogos shakespereanos
já é garantia de um filme no mínimo assistível. E Corilano é mais que isso.

O filme é um estudo de personagem, Caius Martius Coriolano, o herói de Roma, violento
soldado de valores inflexíveis e total misantropia. Fiennes o encarna com a devida fúria
e dureza, embora muitas vezes evoque Voldemort na composição, uma distração
curiosa. Manipulado por políticos, pela faminta população romana e sua família, a mãe
Volumnia (Redgrave) e a esposa Virgilia (Chastain), o egotista soldado tem seus ideais
confrontados. Butler interpreta Tullus Aufidius, guerrilheiro civil e maior inimigo de Coriolano.
Ele é o laço fraco do elenco. Mesmo tendo uma forte presença e um rosto expressivo,
parece estar fazendo uma continuação do Leônidas de 300. Ainda assim não prejudica
o efeito visceral do filme. Fiennes entende que Shakespeare ainda comove, provoca,
questiona, ainda é atual, e isso fica impresso no filme graças a excelente contextualização
do trágico Coriolano, que por oscilar entre ideais conflitantes, jamais atinge uma rendenção
particular. Pode ser um filme antiquado em alguns momentos, mas jamais é acomodado.
Assim como George Clooney, Ralph Fiennes pode encontrar sucesso como diretor cinema.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com



OS 3
Brasil 2011 1h20min
de Nando Olival com Gabriel Godoy, Juliana Schauch, Victor Mendes, Sophia Reis
Em DVD pela Warner Bros.

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Os 3 é mais uma tentativa do cinema paulista de discutir a juventude urbana
contemporânea. Assim como a maioria de seus filmes primos, é falho e pelo mesmo motivo:
parece que o despropósito da vida juvenil pós-moderna que se retrata também é guia estético
e narrativo, assim como a veia publicitária que, no caso de Os 3, é paradoxalmente
objeto de crítica. Por um lado parece justo e coerente, por outro resulta num filme que,
assim como seus personagens, não tem nada a dizer. S ó não cai na mediocridade
total por que ensaia uma discussão sobre o culto das celebridades e consumismo.
Mas só ensaia, e acaba sendo uma oportunidade perdida de abordar temas tão
inerentes à minha geração dos vinte e tantos anos. Sobram cenas vazias de sexualidade
confusa, melodrama inconvincente e uma ou duas cenas inspiradas de conflito entre amigos.
Nando Olival, que co-dirigiu Domésticas com Fernando Meirelles, não sabe que rumo
dar pro filme e deve acreditar que isso o torna mais interessante. Não exatamente.

São várias decisões equivocadas, a começar pela introdução que mostra definições
para as palavras "amizade", "amor", "'paixão" e "'tesão". Porque poucas pessoas na face
da Terra sabem o que essas coisas significam, não é? A redundância continua com
a narração do aspirante a escritor Rafael (Victor Mendes, tão insosso e apagado
que esquecia do rosto dele ainda durante o filme), solução expositiva óbvia.
Não posso culpar o trio de atores, completados por Juliana Schalch e Gabriel Godoy,
por suas performances fracas, já que nem roteiro nem direção parecem buscar
veracidade. As coisas melhoram com a chegada de Sophia Reis, que tem surpreendente
timing cômico e, mesmo tendo poucas cenas, consegue ser mais interessante do
que tudo que foi visto até então. Os 3 ainda tenta uma metalinguagem para falar
sobre realidade e ficção, mas sem muito propósito. A sacada do reality show
criado pelo trio, que acaba se tornando monstro do próprio circo, gera duas
piadas engraçadas de um empresário mercenário e nada mais. No fim, pergunta-se
porque esses três não inventaram para si mesmos uma história mais interessante.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


MÁRTIRES
Martyrs France 2008 1h37min

de Pascal Laugier com Morjana Alaoui, Mylène Jampanoï, Catherine Begin, Xavier Dolan
Disponível para Download

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Começarei esse texto com um desabafo. Mártires foi uma das experiências
mais desgastantes da minha vida. Quando o filme enfim acabou eu estava exausto física,
emocional e psicologicamente. Assisti ao filme há cerca de três dias e ele continua
vívido em minha memória, suas imagens grotescas me atacando quando estou distraído.
Dito isso, é um dos filmes mais interessantes que vi esse ano (foi lançado em 2008,
mas nunca no Brasil), uma surpresa, já que os únicos comentários que li/ouvi sobre
ele eram sempre relacionados à carnificina que o francês Pascal Laugier mostra
em detalhes. O filme foi arremessado por muitos na lixeira dos filmes torture porn,
como se fosse vazio de substância como qualquer um dos Jogos Mortais da vida.
Superando-se a dificuldade de manter os olhos na tela, você vai testemunhar
um filme inteligente em sua estrutura, rico em subtextos e, diferente dos irresponsáveis
torture porn, surpreendentemente humanista. Nunca vi um exercício tão sangrento
em niilismo ser tão pró-vida. Talvez seja a maneira com que interpretei, e não
exatamente a intenção de Laugier, mas não é possível eu ter lido os claros sinais
do filme de maneira tão errada. Sim, ao longo de intermináveis 1h37min somos
vítimas e cúmplices de horrores inomináveis, mas a provocação de Laugier é mais
pretensiosa que carnes dilaceradas: ele nos envolve, comove, tortura e questiona
a necessidade de observar o horror para depois dar um belo soco na boca do estômago.
Em dois momentos eu considerei desistir da sessão. Felizmente eu não o fiz,
pois a recompensa final tem uma qualidade rara, a coragem.

Em Mártires, nenhuma conclusão imediata deve ser tirada antes do fim (e dificilmente
você conseguirá tirar alguma imediatamente após). O filme funciona como bonecas russas,
uma história dentro da outra, muda-se de rumo o tempo todo e a soma do suspense
com o que de fato acontece na cena seguinte garantem a energia e a tensão para nos
deixar simultaneamente ansiosos e atentos. Parece que estou falando de um trem fantasma,
mas a naturalidade com que o roteiro desconstrói a história é o que coloca o filme acima
da média enquanto cinema. Acima de qualquer coisa, é uma história bem contada.
Ressalto aqui o trabalho das atrizes Morjana Alaoui e Mylène Jampanoï. Se você chegar
a chorar em algum momento, a culpa é quase toda dessas meninas. 'Quase' porque elas
devem ao roteiro, também de Laugier, as personagens Anna e Lucie. Em meia hora de filme
eu estava totalmente entregue a elas. Impressionante a capacidade de Laugier em apresentá-las,
caracterizá-las e humanizá-las com tanta concisão e impacto. A representação do trauma
de Lucie é um bom exemplo do potencial do cinema de gênero. A primeira metade
de Mártires é cinema narrativo de primeira, seja de gênero ou não. É quando vem
a segunda metade e a sanidade, nossa e do filme, é posta em cheque.

Uma personagem que acaba de ver o resultado do tormento de duas outras garotas
se vê prestes a embarcar no mesmo processo que elas. Não me lembro de experimentar
no cinema uma sensação de desolação e desespero com a agudez em que senti nessa
reviravolta. Foi um dos momentos em que quase desisti. A partir daí, o filme
se transforma em algo obsceno e cruel, pronto para nos desorientar com uma barbárie
desamparada, despida de afetações e por isso mesmo quase inassistível. Passei a odiar
o filme. Por alguns minutos, acreditei que Laugier havia se rendido ao torture porn,
passei a duvidar da existência de um propósito naquele horror. Forcei-me a encarar
cena por cena ou, para aproveitar a temática, martirizei-me. Mal sabia que estava
fazendo exatamente o que Laugier queria. Os dez minutos finais são inesquecíveis.
A resolução traz reflexões metafísicas que alfinetam o fundamentalismo e contesta
a representação da violência do próprio filme (e o nosso consentimento em vê-la).
Nesse sentido, Mártires é primo de Onde Os Fracos Não Têm Vez, um anti-O Albergue,
por trazer uma profunda crítica da violência cotidiana e representada na mídia e no cinema.
Acaba sendo um paradoxo, mas o fato do filme reconhecer e defender tal ideia
com veemência o torna um bom filme sob a minha ótica. Não gostar do filme é saudável,
Mártires separa o espectador de sensibilidade humana intacta do espectador com
problemas de sanidade mental. Sofri cada segundo desse filme, mas o acho válido
por ser cinema inquieto, destemido, bem realizado e provocativo.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


OS ÚLTIMOS EMBALOS DA DISCO
The Last Days of Disco EUA 1998 2h00mi

de Whit Stillman com Chloe Sevigny, Kate Beckinsale, Chris Eigeman, Matt Keeslar
Disponível para Download

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Um dos nomes mais importantes do cinema independente americano dos anos 90,
Whit Stillman voltou a ativa no ano passado com Damas em Perigo, filme que encerrou
o Festival de Veneza 2011. Foram 13 anos desde Os Últimos Embalos da Disco, apenas
seu terceiro longa-metragem. Stillman é um cronista da classe média-alta americana
e seus filmes são inspirados por sua própria vida, nas pessoas que ele conheceu
e nas histórias que ouviu. Utiliza-se da ironia e do humor para criticar a hipocrisia
e as frivolidades de um grupo social que parece não compreender sua própria lógica.
A juventude cegada por dinheiro é assunto recorrente do cineasta (em Metropolitan,
jovens aristocráticos são questionados por um rapaz de vida simples; em Barcelona,
um jovem americano corporativo entra em colapso com a chegada de um primo
militar; em Damas em Perigo, três garotas resolvem combater o machismo no campus
de uma rica universidade), e Stillman não poupa seus personagens. É exatamente
assim em Os Últimos Embalos da Disco, filme que merecia um lançamento
em DVD esse ano, mas por enquanto só pode ser encontrado via download
ou importação da caprichada edição especial da Criterion Collection.

O alvo de Stillman é fácil: a geração yuppie do início dos anos 80, estereótipo do jovem
adulto classe média de situação financeira em ascensão, formados em universidades
e carreiristas, sempre seguindo as tendências da moda. Essa época marcou o declínio
da disco music, fato cultural que situa os protagonistas do filme. Em termos de caracterização,
o filme parece perfeito. Não vivi essa época, mas são tantos insights, diálogos afiados
e situações características que é impossível não contextualizar a ação. Não há uma reverência
saudosista, mas uma melancolia crítica, uma nostalgia parcial. Os Últimos Embalos da Disco
é centrado nas personagens Alice (Chloe Sevigny) e Charlotte (Kate Beckinsale), amigas
e colegas de trabalho que vivem uma estranha relação de morde e assopra. Alice é um tipo
inseguro, uma yuppie incomodada por sê-lo, mas que se diverte no meio tempo, enquanto
Charlotte adota o termo pra si com orgulho e até crueldade, sem esconder a superficialidade
de suas ideias e modo de vida. As duas se envolvem com homens em conflito com
sua própria masculinidade, sexualidade e emprego, tudo sempre embalado pela trilha
sonora contagiante que comanda a boate mais exclusiva de Nova York. DST, drogas
e um vazio no coração adicionam mais conflitos na vida desses yuppies. São os muitos
acertos de execução que fazem de Os Últimos Embalos da Disco um bom filme,
a começar pelo casting perfeito de Sevigny e Beckinsale, ambas infalíveis. O roteiro
fica irregular perto do final, mas é rico em diálogos certeiros e significativos (a referência
a A Dama e O Vagabundo é um dos pontos altos). Stillman filma a boate e as pessoas
dançando sem os excessos comuns do hoje, não há montagem imitando o strobo
nem câmera ensandecida, só corpos como eles são em movimento. Os Últimos
Embalos da Disco
é fragmento de um tempo não tão distante, e que ainda faz
sentido como cinema. Recomendo procurar o filme e a ótima trilha sonora.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


A TEMPESTADE
The Tempest EUA 2010 1h50min

de Julie Taymor com Helen Mirren, Djimon Hounsou, Ben Whishaw, Chris Cooper
em DVD pela Sony

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Poucos egos em Hollywood são tão inflados e megalomaníacos quanto o de
Julie Taymor. E ela certamente está entre as que menos tem justificativas. Veio do teatro,
e quem viu suas encenações se impressionou. Fez transição pro cinema com Titus,
adaptação de Shakespeare, e até hoje seus filmes trazem sempre algo de muito teatral.
A Tempeste é sua segunda adaptação de um texto do inglês, altamente ambiciosa
e pretensiosa, como todos os seus filmes. Não vi Titus, que convenceu muita gente
na época, mas esse A Tempestade é... uma comédia de erros. Poucos sabem adaptar
Shakespeare bem e The Tempest não me parece um material fácil (a única referência
que tenho é a versão de Peter Greenaway, A Última Tempestade, de 1991), mas nas
mãos de Taymor a história é uma bagunça tediosa, já que está mais encantada com
os poderes do protagonista mágico do que com motivação de personagem, narrativa
e dramaticidade. Assim como Across The Universe, é um semi-experimento caríssimo
que não sabe bem o que quer dizer nem pra onde ir, mas sabe que fotografia
e figurino tem que ser maravilhosos, e eles são - Sandy Powell foi indicada ao Oscar.
Só que dessa vez o filme nem é tão bonito de se ver quanto os anteriores. Todas
as decisões de Taymor são guiadas pelo resultado estético, e seu gosto é particularmente
brega, kitsch. Os anacronismos visuais e musicais, os adereços, os efeitos especiais
tão ruins que distraem, a mundaça de gênero de Prospero, que aqui se torna a mágica
Prospera (Helen Mirren): nada disso acrescenta ao texto, não há significados sólidos
nem inéditos, é só frufru para entreter. Taymor, que também escreveu o roteiro,
é obviamente fiel à peça de Shakespeare, mas acredito que a única chance que essa fantasia
alucinógena new age tinha de funcionar seria se Taymor desistisse de revenciar as palavras
originais e interpretasse os sentidos e significados de A Tempestade com as suas próprias.
Do jeito que ficou, parece apenas teatro filmado em locação.

O que no texto e no palco funcionaria bem fica completamente desastroso no filme,
justamente por causa da falta de imaginação de Taymor na mise-en-scene. Por exemplo,
é inconcebível a quantidade de cenas de personagens falando (e atuando) para si
mesmos enquanto passeia sozinho pela ilha. Dane-se que é o texto de Shakespeare,
é tão patético quanto em qualquer filme preguiçoso que não sabe como narrar uma
história sem ser expositivo ad nauseum. No cinema narativo comum, que é a real
natureza de A Tempestade, esse tipo de situação não funciona, a não ser que sua
obra seja realmente experimental e desafiadora de convenções. Peter Greenaway
conseguiu à sua maneira em A Última Tempestade, que mesmo sendo uma egotrip
tão grande e pretensiosa quanto a de Taymor, nunca caía na mesmice e obviedade.
Então de que adianta ter Helen Mirren, Djimon Hounsou, Ben Whishaw, Chris Cooper,
Alan Cummings, David Strathairn, Alfred Molina, Tom Conti e Felicity Jones
interpretando Shakespeare se eles parecem sempre certos de que estão
na plataforma errada? Sem falar de Russell Brand, perdido e deslocado, e do
insosso Reeve Carney como o prícipe Ferdinand. Nem eles são capazes de trazer
qualquer luz ou perspectiva diferente ao filme, por melhores que sejam.
Prospera é uma mulher, Caliban é um aborígene negro, nada é dito a respeito,
nem uma discussão, uma crítica aos aspectos coloniais e raciais da peça
ou novas nuances sobre o poder em mãos femininas. No fim das contas,
Prospera é uma escrota que se utiliza de seus poderes para escravizar
os mais fracos e se vingar de quem a desprezou e humilhou, mesmo que
isso custe sua própria filha. Poderia até ser o conflito de A Tempestade,
mas conflito não há porque o filme concorda com isso, e ainda quer passar
uma santa imagem da bruxa. Ainda não sei o que Shakespeare disse com a peça
e estou curioso para tentar a leitura (enfim, o filme serviu para alguma coisa),
mas tenho certeza que nada tem a ver com essa visão cafona de Julie Taymor.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


LONGA JORNADA NOITE ADENTRO
Long Day's Journey Into Night EUA 1962 2h54min

de Sidney Lumet com Katharine Hepburn, Ralph Richardson, Jason Robards, Dean Stockwell
em DVD pela Lume Filmes

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Longa Jornada Noite Adentro é talvez a maior lavagem de
roupa suja em família da história do cinema - e também do teatro, pois
o texto é a peça homônima de Eugene O'Neill. Maior não em quantidade,
mas em densidade e, vá lá, duração. O filme é um rally de grandes atores
e diálogos inesgotáveis, praticamente sem tempo morto, que dura quase
três horas. E embora seja preciso alguma disposição pra assistir
a desintegração de uma família por todo esse tempo, há material
suficiente para nos manter interessados. Ajudam, claro, a câmera
do jovem Sidney Lumet em apenas seu quarto filme pra cinema, e o elenco
assombroso de tão bom (Hepburn ganhou melhor atriz em Cannes 62,
enquanto Richardson, Robbards e Stockwell dividiram melhor ator).
Lumet não adaptou a peça para o cinema, preferindo usar o próprio texto
de O'Neill nas filmagens. Portanto, fica bem clara a base teatral do filme
em vários aspectos, da mise-en-scene contida espacial e temporalmente
às interpretações às vezes superexpressivas, como se tentassem se comunicar
com o espectador sentado na última fileirado teatro e a câmera com seus
travellings não estivessem ali. A inevitável fidelidade à peça acaba tornando
Longa Jornada Noite Adentro um filme difícil, já que a imagem depende
totalmente da palavra. Mas Lumet sabia filmar um diálogo, e se a cena em
que Hepburn caminha em círculos na sala de estar e a vemos do centro,
com câmera girando no eixo para acompanhar sua agonia, não for
puramente cinematográfica eu não sei mais o que é.

À parte a fotografia em preto e branco exemplar de Boris Kaufman (fotógrafo
de alguns filmes de Elia Kazan) O que me interessa mesmo aqui são os atores.
Não são personagens simples de interpretar e, mesmo filmando em sequência,
não é fácil manter a intensidade do jeito que os cinco intérpretes conseguem
(inclua aí a fascinante empregada Kathleen, encarnada por Jeanne Barr).
Katharine Hepburn, que faz a matriarca Mary Tyrone, é o óbvio destaque.
Impressioannte como ela atinge tantas nuances nas longas tomadas de diálogo
como uma montanha-russa. Mary é viciada em remédios e está sempre à beira
de uma crise histérica por causa de seu primogênito bêbado e irresponsável
Jamie (Jason Robbards), do caçula doente e falido Edmund (Dean Stockwell)
e do marido James Tyrone (Ralph Richardson), um ex-astro da Broadway cada
vez mais frustrado e sovina. Faça todas as combinações possíveis entre esses
personagens e o resultado sempre é 'amor e ódio', vamos de uma ponta a outra
dos extremos e vemos tudo o que há no meio. E pensar que trata-se de uma peça
autobiográfica de O'Neill. Bem vindo à família Tyrone, porta para o inferno
dos laços de sangue que você e eu conhecemos muito bem. Longa Jornada
Noite Adentro
está ganhando lançamento em DVD pela Lume Filmes.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


NOSSO DIA CHEGARÁ
Notre Jour Viendra França 2010 1h30min

de Romain Gavras com Vincent Cassel, Olivier Barthélémy, Justine Lerooy
em DVD pela California Filmes

por Filipe Marcena


OPINIÃO
Esse é o primeiro filme de Romain Gavras, filho do cineasta grego
Costa-Gavras. Talvez você o conheça dos clipes da rapper e artista gráfica M.I.A..
Roamisn dirigiu o recente Bad Girls e o polêmico Born Free, que chegou a ser vetado
no Youtube logo após seu lançamento. Na verdade, Born Free é muito importante
para compreender Nosso Dia Chegará e vice-versa. Assista ao clipe logo abaixo:

M.I.A, Born Free from ROMAIN-GAVRAS on Vimeo.

Born Free foi inspirado em vídeos de soldados americanos colocando jovens iraquianos
para correr num campo minado, para que assim eles pudessem atravessá-lo. A substituição
dos iraquianos por jovens ruivos partiu do preconceito que existe contra eles na França.
Se você foi atento, percebeu que em certo momento do clipe aparece uma parede pintada
com os dizeres "Our Day Will Come", o título do filme em inglês. Ambos foram produzidos
na mesma época e lançados com apenas alguns meses de diferença em 2010.
São obras correlativas, intertextuais, criadas como primas. Lidam com o preconceito,
o idealismo, e onde minha liberdade termina e a sua começa. Considerando o formato
e a proposta de cada uma, o clipe me parece mais bem resolvido e impactante.
Gavras é um excelente videoclipeiro, e a passagem para o cinema era inevitável.
Há algo no seu road movie que mostra uma saudável resistência em cair no óbvio,
no medíocre, no simplista. Mas alguns obstátulos o fazem deslizar pra fora da estrada.

Conhecemos Rémy (Barthélémy), rapaz ruivo introspectivo com problemas familiares
e sociais. Também conhecemos Patrick (Cassel), psiquiatra ruivo e psicopata. A misantropia
de Patrick ativa um gatilho que já parecia pronto na cabeça de Rémy, e eles se unem para
seguir uma viagem à princípio sem rumo onde ele se vingam de todos que não são ruivos.
Quando Rémy descobre que a Irlanda é povoada por pessoas com a mesma cor de cabelo
que ele, o rapaz decide ir para o sonhado paraíso. Fato é que Born Free é muito mais feliz
em apresentar uma situação de preconceito do que Nosso Dia Chegará. Faltou background
para compreender melhor os protagonistas, que são apresentados às pressas e sem muita
profundidade, enfraquecendo todo o resto. O tratamento do discurso em alguns momentos
perde imaginação, e em outros força a barra. A tensão existe, mas há pouca recompensa.
Talvez eu esteja mal acostumado com um cinema narrativo anti-climático, mas a falta
de vida nos personagens me afastou do filme. Eles não parecem humanos, mas peças
do discurso de Gavras, o que quase desvia a mise-en-scene realista-alegórica. Cassel
e Barthélémy se mostram totalmente disponíveis e entregues, e eles que mantém o interesse
no filme. O final é belo, se você conseguir ignorar todas as arbitrariedades que aconteceram
antes. Não sou fã do filme, mas admiro Gavras por escolher caminhos incomuns, mesmo que
aos trancos e barrancos. Prestarei atenção em seus futuros trabalhos com mais curiosidade.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


NEGÓCIO ARRISCADO
Risky Business EUA 1983 1h39min

de Paul Brickman com Tom Cruise, Rebecca De Mornay, Curtis Armstrong, Joe Pantoliano
em DVD pela Warner Bros.

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Esses filmes sobre jovens, no alto da inexperiência e da ansiedade por algo
que ainda não sabem, costumavam ter colhões de questionar a vida e como a sociedade
a molda para eles, e o fazia muito sutilmente, lembrando-se que estavam se comunicando
com seres da mesma faixa etária de seus protagonistas. Jovens, Loucos e Rebeldes, Ghost World,
Loucuras de Verão e Picardias Estudantis são só alguns exemplos, sem falar em John Hugues,
que fez pelo menos cinco bons exemplares do gênero. Desse grupo faz parte Negócio Arriscado,
sucesso de 1983 que deu a Tom Cruise seu primeiro papel como protagonista. Embora transpire
anos 80 (haja neon), o filme envelheceu razoavelmente bem. Satiriza temas que ainda são
relevantes, como a necessidade de se provar enquanto adulto, a frustração de sempre agradar
aos pais, o desejo de independência, a cultura do dinheiro. E ainda conta com um personagem
que, mesmo sendo algo como um primo banana do Ferris Bueller (que veio três anos depois),
é interpretado com talento e simpatia pelo jovem Cruise. Ter Rebecca de Mornay como uma
prostituta mal resolvida deixa as coisas interessantes. Mas confesso que, reassistindo ao filme hoje,
me incomodou a volta de 180º que o filme dá no final no que se refere à sua própria crítica social.

O filme não é menos divertido do que deve ter sido em sua época, e é inclusive muito bem filmado,
como na exemplar sequência em que os pais de Joel estão prestes a viajar. Roteiro e direção são
do sumido Paul Brickman, que constrói bom ritmo e visual estiloso. O que me incomoda é que,
no final da jornada, o personagem não parece ter aprendido muita coisa. Os jovens de Hugues
sofriam (e se divertiam), e no fim podiam ou não ser as mesmas pessoas, mas algo dentro deles
mudava, havia uma revelação íntima através da identificação com o próximo (e nossa, através
da identificação com eles). Não senti nada por Joel. Seu sofrimento é por afundar o Porsche do pai
num lago, ser roubado por um cafetão e perder sua vaga na universidade de Princeton – embora
ele só sofra mesmo pelo Porsche. Mas depois de tudo, com uma ligeira ajuda da sorte e da mão
de Brickman, ele ainda será o mesmo ‘Futuro Homem de Negócios’ que o filme parecia satirizar
no começo, e agora ao lado de Lana, uma linda garota que, no geral, serve apenas para realizar
suas fantasias sexuais. O que Negócio Arriscado significa afinal? Produzir um bordel em casa
te traz sorte? A piadinha no final onde Joel assume a posição de prostituto no diálogo com Lana
talvez defina melhor seu caráter: um vendido. Se só a ambiguidade do filme não me incomodasse
tanto. Ainda assim tem sua importância, e é inegável o talento de Brickman na direção. Vale uma
olhada, mas, gosto por gosto, prefiro os teens contemporâneos de Greg Mottola (Superbad).
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


JANE EYRE
Jane Eyre Inglaterra/EUA 2011 2h00min

de Cary Fukunaga com Mia Wasikowska, Michael Fassbender, Judi Dench, Sally Hawkins
em DVD pela Universal

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Ainda bem que pra cada adaptação de Crepúsculo que inunda os cinemas,
existe uma de Jane Austen, D. H. Lawrence, Liev Tolstoi ou das irmãs Brontë. Essas
adaptações geram certa desconfiança a princípio, já que a fórmula “estrela em ascensão
+ galã novo em folha + romance clássico” tem se tornado cada vez mais comum graças
à rentabilidade desses filmes (Crepúsculo só está distante dessa fórmula no quesito
“obra clássica”). Mas não me lembro de nenhuma dessas obras recentes serem
decepções. Pelo contrário, estão entre as melhores coisas lançadas nessa década
passada, de Lady Chatterley à Orgulho e Preconceito. O sucesso vai além da fórmula:
a mágica acontece na combinação do bom texto original e de um diretor no mínimo
competente. Junte a esse grupo a mais nova adaptação de Jane Eyre, dirigida
pelo pouco experiente, mas muito talentoso Cary Fukunaga, apenas seu segundo
filme como diretor. Uma pena não chegar aos cinemas brasileiros.

O que me fascina nas adaptações dessas clássicas histórias de amor romântico é como
elas são simples e diretas ao mostrar como e porque duas pessoas se apaixonam,
destroçando as frivolidades e cafonices que povoam os romances mela-cueca de hoje.
Seus diretores transcendem os possíveis aspectos antiquados do texto investindo na
empatia dos personagens e mantendo o foco na educação emocional destes, tratando-os
como humanos, e não como máquinas de fazer chorar ou causar qualquer outro tipo
de emoção por livre e espontânea arbitrariedade. E um ótimo exemplo está em Jane Eyre.
Fukunaga nos guia através da busca da personagem-título por dignidade pessoal e amorosa,
uma jovem à procura de uma independência que poucas tinham em sua época. Câmera
e roteiro trabalham a favor de um filme pulsante e cheio de vida, sendo boa parte dessa
força vinda de Mia Wasikowska e Michael Fassbender, ambos nada menos do que fantásticos
como Jane e Edward Rochester. Wasikowska, que aqui confirma de uma vez por todas que
Tim Burton se esqueceu de dirigi-la em Alice no País das Maravilhas, faz da personagem
uma criatura de carne e osso, sua resiliência é tangível. Ela vai partir seu coração.
E Fassbender, que não precisa mais de apresentações, consegue transmitir austeridade,
vulnerabilidade e resignação com alguns poucos olhares. Seu Rochester assusta e encanta
ao mesmo tempo, trabalho de gênio. Mas esse é um filme de Fukunaga; das impactantes
cenas iniciais ao visual gótico bem concebido e executado, Jane Eyre é a interpretação
de uma época sob uma ótica menos romanticista e mais passional. Filme econômico no luxo
e elegante na execução, merecia uma tela grande mas não deixe de conferir em DVD.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


CASSY JONES - O Magnífico Sedutor
Brasil 1972 1h33min

de Luis Sergio Person com Paulo José, Sandra Bréa, Hugo Bidet, Carlos Imperial
em DVD pela VideoFilmes

por Filipe Marcena

OPINIÃO
O último filme de Luís Sérgio Person, Cassy Jones – O Magnífico Sedutor
segue por um caminho bem diferente das obras que o tornaram uma figura importante
da cinematografia brasileira, os dramas São Paulo S/A e O Caso dos Irmãos Naves.
Ambos são estudos sociológicos do Brasil dos anos 60, onde processo de industrialização,
a corrupção e a hipocrisia atropelavam o indivíduo. Ainda são atualíssimos, como se percebe.
Cassy Jones, é uma pornochanchada que, se não é contundente, oferece uma fantasia
satírica do brasileiro playboy garanhão setentista, o personagem título que é interpretado
pelo contagiante Paulo José. Esqueça qualquer compromisso com realismo, Cassy Jones
é humor nonsense onde a narrativa toma rumos necessitados mais pelo timing cômico
e simbologias falocêntricas surreais do que por motivos narrativos. O tal do Cassy é um
homem rico – nunca sabemos o porquê - que mora numa cobertura no litoral do Rio de Janeiro
e tem um imensurável poder de atrair mulheres. Está sempre acompanhado, seja por uma
de suas estonteantes amantes, seja por seu descontrolado amigo Roubout (Hugo Bidet).
Person sintetiza e critica o que me pareceu o sonho consumista e o pesadelo machista
do carioca deslumbrado da tropicália: o malandro international popular e pegador que
tem pavor de ter sua masculinidade e heterossexualidade ser questionada ou ameaçada
pela sociedade e sua liberdade tolhida por uma mulher, mesmo que ele a ame.

A mulher amada, no caso, é Clara, personagem que marcou a estreia no cinema da sex symbol
Sandra Bréa. Clara é a donzela no alto da torre do castelo, torturada pela governanta Frida
(Glauce Rocha). Cassy entra em crise consigo mesmo quando se vê como homem objeto,
perseguido por sedutoras ninfomaníacas, e desconfia de sua própria sexualidade (a clássica
e surreal cena em que o Maracanã inteiro o chama de bicha resume seu pânico). A solução
aparentemente está no amor romântico, mas será que o incorrigível Cassy Jones consegue
dividir os trapos com Clara? Enquanto você se pergunta isso já sabendo a resposta, Person
propõe uma experiência estética muito interessante. A direção de arte do filme é inspirada,
fazendo uma antropofagia da cultura do luxo e da ostentação modernosa com figurinos e objetos
de cena indescritíveis de tão cafonas e extravagantes (os robes, a cama d’água). Em uma das
cenas de delírio, Person me remeteu diretamente à Laranja Mecânica, lançado nos EUA um ano
antes. Não sei se Person assistiu ao filme na época, mas aquela grande angular distorcida,
as luzes coloridas, as mulheres seminuas de peruca e o design retrô-futurista parecem ter
saído diretamente da cabeça de Stanley Kubrick. A trilha sonora de Carlos Imperial, que
inclusive faz uma participação, casa perfeitamente com o conceito do filme e a canção tema
do Cassy é marcante. Cassy Jones – O Magnífico Sedutor não envelheceu tão bem quanto
os outros filmes do Person, mas o tom irônico e satírico garante sua sobrevivência como
curiosa fenda temporal para um Brasil de outrora, e que parece não ter mudado muito.
O DVD vem com biografia do cineasta e seu curta O Otimista Sorridente.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


UMA VIDA MELHOR
A Better Life EUA 2011 1h38min

de Chris Weitz com Demián Bichir, José Julian, Chelsea Rendon
em DVD pela Paris Filmes

por Filipe Marcena

OPINIÃO
A maior surpresa do Oscar 2012, além das duas indicações do bastante detestado
Tão Forte e Tão Perto, foi a lembrança de Demián Bichir na categoria de melhor ator por
Uma Vida Melhor. O filme recebeu lançamento limitado na temporada de férias americanas,
foi mal de público e esquecido, então a indicação acabou injetando uma boa nova dose
de interesse e notoriedade à produção dirigida por Chris Weitz. No Brasil, está recebendo
um justíssimo lançamento em DVD. Justíssimo porque é um filme que funciona melhor
na tela pequena, inclusive aparenta ser uma obra realizada para a mídia televisiva.
Interessante que agora esteja fazendo sua carreira nas TVs e monitores, onde ele parece
mais confortável enquanto produto. Tendo isso em mente, impressiona-me um filme tão
medíocre e pouco visto ser lembrado pelos velhinhos da Academia, mesmo que representado
pela melhor coisa que há nele, o seu ator protagonista. Digamos que Uma Vida Melhor
é uma reimaginação de Ladrões de Bicicleta, contextualizado no conflito dos imigrantes latinos
nos Estados Unidos. O pai é o jardineiro Carlos Galindo (Bichir) e seu filho é Luis (José Julian),
que moram numa casa humilde em uma área pobre dos subúrbios de Los Angeles.

Uma Vida Melhor conta uma história que pode facilmente cair no sentimentalismo e se prender
a ideias datadas, e isso acaba acontecendo durante o desenrolar da trama. O filme nunca sai
do lugar comum, da zona de conforto dos ‘filmes de imigrante’. Não haveria problema em se
apropriar de clichês, mas não há transcendência nem traquejo de roteiro pra tirar o filme
da mesmice. Até quando tudo parece caminhar pra um final trágico e potencialmente arrasador
(como no filme de Vittorio De Sica), Weitz escorrega na artificialidade, traindo as boas intenções
do projeto. As questões postas são as mesmas de sempre, as respostas são as mesmas de sempre
e eu particularmente achei tudo muito leve e higienizado, características típicas desses filmes feitos
por brancos e seu sentimento de culpa. Os personagens sofrem, mas é notória a mão do roteirista
e do diretor arbitrariamente protegendo-os numa situação que era pra ser ainda mais cruel,
revoltante e perigosa. Sobrevive a dinâmica pai e filho, que transpira alguma verdade por baixo
dos diálogos suspeitos e às vezes sofríveis. Demián Bichir, que interpretou Fidel Castro nas duas
partes do Che de Steven Soderbergh, aproveita a oportunidade pra criar um personagem que vai
além das limitações do filme. Ele encarna um homem bom por natureza, mas que cede ao crime
quando se vê em momento crítico que põe em jogo sua vida e a de seu filho e acaba encarando
a punição. Seu trabalho é sólido e confere tridimensionalidade a Carlos, que carrega resignação
no olhar durante todo o filme, e a indicação de Bichir ao Oscar deve ter acontecido por causa
da cena de choro perto do final, feita pra comover e... ser indicada ao Oscar. Vale apenas por ele.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


O GUARDA
The Guard Irlanda 2011 1h36min

de John Michael McDonagh com Brendan Gleeson, Don Cheadle, Mark Strong
Em DVD pela Sony

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Quem assistiu Na Mira do Chefe (In Bruges) em algumas das poucas sessões
que ele teve no Recife em 2008 lembra bem do humor negro irlandês do filme: fatal,
implacável e pouco interessado em ser politicamente correto. Aquele filme foi um pequeno
sucesso (inclusive rendeu Globo de Ouro a Colin Farrell), o que possibilitou que o irmão
do roteirista e diretor Martin McDonagh, Johm Michael McDonagh, realizasse o seu próprio
longa-metragem, O Guarda. Embora tenha sido bem visto nos Estados Unidos e na Europa,
o filme nunca chegou às nossas salas da cidade e acaba de ganhar lançamento em DVD.
Os irmãos McDonagh não negam sua terra nem seu sangue, pois Na Mira do Chefe
e O Guarda são filmes tão irmãos quanto seus criadores. As semelhanças estéticas e ideológicas
são bem óbvias, um é quase uma continuação do outro, mas a maior conexão entre eles é mais
objetiva, e esta é o sempre excepcional Brendan Gleeson. O ator de 57 anos empresta seu rosto
gordo e simpático a um personagem tão rude e grosseiro quanto empático, o guarda Gerry Boyle.

Gerry é um poço de preconceitos culturais, especialmente contra a cultura americana (lembra
da cena em que Colin Farrell provocava turistas americanos obesos em Bruges?), mas ao mesmo
tempo é um poço de contradições. Ele odeia a maneira americana de se fazer uma investigação
e ridiculariza seus parceiros de trabalho que pensam estar em C.S.I., mas ao mesmo tempo
é fã incondicional da Disney. Quer personagem mais humano que esse? Adicione uma atuação
al dente de Gleeson e temos o personagem masculino mais fascinante das comédias de 2011.
O mote do filme é um assassinato que pode estar ligado a um grupo de poderosos traficantes,
um deles interpretado pelo operário padrão Mark Strong. Assim como o irmão, McDonagh
é um roteirista de mão cheia, e seu texto ácido e satírico tem insights e caracterizações certeiras
(Gerry é um ignorante de bom coração, os bandidos são trogloditas escolados que discutem filosofia),
a narrativa está sempre nos trilhos. Espere para ver o primeiro encontro entre Don Cheadle, como
o agente do FBI Wendell, e Gleeson. É puro humor desconfortável, desconcertante, cruel. O filme
não faz julgamentos de seu protagonista, cabe a nós observá-lo e avaliá-lo. Difícil é não cair
na simpatia de Gerry, na maneira despojada com que ele leva a vida e na dedicação à sua vocação.
O Guarda é entretenimento subversivo cativante, vale assisti-lo após rever Na Mira do Chefe.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


A ÚLTIMA LOUCURA DE MEL BROOKS
Silent Movie EUA 1976 1h27min

de/com Mel Brooks com Marty Feldman, Dom DeLuise, Bernadette Peters, Sid Caesar
Em DVD pela Fox Filmes

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Em época de lançamento do mágico O Artista, foi uma ideia genial de Fernando
Vasconcelos recomendar conferir A Última Loucura de Mel Brooks para o Dicas de Cinéfilo
dessa semana. O filme está disponível em DVD pela Fox já há algum tempo, e esse é um
excelente momento para se (re)descobrir o filme. É um pastelão de raiz, bem diferente do filme
de Michel Hazanavicius, mas é surpreendente como ambos dialogam. A Última Loucura
de Mel Brooks
, ou no original, Silent Movie, é filme de sacada, um exercício metalingüístico
e cômico como só Brooks fazia. Nada mais é do que um filme que conta como ele mesmo
foi feito, antes mesmo de saber se o negócio iria de fato acontecer. É claro que iria, e Brooks
e companhia não poupam Hollywood. Além da metalinguagem, o desenho de som do filme
lembra muito aquele realizado em O Artista, com apenas alguns sons de objetos e pouquíssimas
vozes sonorizadas (no caso, na pós-produção com a ajuda de um foley). E sim, claro,
a nostalgia dos filmes mudos, sendo as maiores inspirações de Brooks os trabalhos
de Chaplin, Keaton, O Gordo e O Magro, Jacques Tati etc.

Tirando algumas piadas homofóbicas, outras sexistas e outras que não funcionam, o filme
sobreviveu bem. A Última Loucura de Mel Brooks conquista de imediato já na abertura,
onde somos recebidos com um simpático “Hello”, para logo em seguida sermos apresentados
aos personagens. Mel Brooks faz seu alterego Mel Funn, cineasta devastado pela bebida que
conta com o apoio de seus companheiros Dom Bell (DeLuise) e Marty Eggs (Feldman, hilário)
na realização de um novo roteiro seu: um filme mudo. Sátira com os estúdios e com o meio
corporativo (Brooks encontrou uma utilidade maravilhosa para máquinas de Coca-Cola) rolam
soltas e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, mas o melhor mesmo são
as participações especiais das estrelas da época. Nem direi quais, mas são surpresas divertidas
e é muito bom vê-los ridicularizando a si mesmos e ao star system. Dá a impressão de ter sido
um pouco esticado para atingir uma duração de longa-metragem, mas as inevitáveis gargalhadas
salvam o dia. Um tributo esperto e engraçadíssimo ao cinema mudo (mas realizado em cores),
com aquele humor pueril que raramente se vê nos cinemas hoje. Recomendado.
Obs. O filme foi um grande sucesso de bilheteria no Recife da época, ficando meses em cartaz
no extinto Cinema de Arte AIP, que ficava no 13º andar de um edifício na Avenida Dantas Barreto.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


PAUL - O ALIEN FUGITIVO
Paul EUA 2011 1h40min

de Greg Mottola com Simon Pegg, Nick Frost, Kristen Wiig, Seth Rogen, Jason Bateman
Em DVD pela Universal

por Filipe Marcena

OPINIÃO
A cultura nerd engoliu Hollywood. A maioria do que é feito em Hollywood tem como
público os fãs dos quadrinhos, do cinema e literatura de gênero e do sci-fi. Um dos maiores
eventos culturais que acontece todo ano em San Diego é a Comic-Con, convenção que reúne
milhares de geeks para seminários, coletivas, compras, autógrafos e muito cosplay.
É nesse ambiente que somos introduzidos aos protagonistas de Paul - O Alien Fugitivo,
os britânicos Graeme e Clive, que nutrem paixão ardorosa pela convenção. A dupla de amigos
é interpretada pelos também amigos na vida real Simon Pegg e Nick Frost, respectivamente,
e eles também são responsáveis pelo roteiro. Eles não são estranhos nesse universo:
Frost já participou de filmes como Grindhouse e Ataque ao Prédio, Pegg é ninguém
menos que Scotty no reboot de Star Trek, e juntos eles estrelaram o clássico e cultuado
Todo Mundo Quase Morto. São nerds que se tornaram ídolos no seu meio. Paul tem como
conceito prestar uma homenagem à esse mundo e rir dele ao mesmo tempo. Na direção,
Greg Mottolla, que dirigiu os maravilhosos Superbad - É Hoje! e Adventureland - Férias
Frustradas de Verão
. Pena que, por algum motivo que desconfio ser certa preguiça
ou confiança demais, o filme nunca decole. E olhe que o filme reúne no mesmo time
Kristen Wiig, Jason Bateman, Sigourney Weaver, Jane Lynch e Blythe Danner.

Paul tem lá seus bons momentos, todos relacionados à sátira ao próprio filme, nascido
por causa e para o mundo nerd. Tem algumas referências óbvias, mas divertidas,
as melhores envolvendo filmes de Spielberg. E Seth Rogen faz um bom trabalho
na voz da verdadeira estrela do filme, Paul, um E.T. maconheiro (é um filme com
Seth Rogen, afinal) perdido no planeta e à procura do local que o ajudará a ir para
casa. Mas o roteiro e a direção soam desleixados na maior parte do tempo.
Mesmo num filme que quer se desprender de realismo e se se jogar no nonsense
beirando o pastelão, é preciso haver empenho e acreditar no que se está fazendo,
ou toda a ideia do filme vai por água abaixo. Paul sofre desse mal, e só não se perde
porque tem boas sacadas um bons comediantes pra segurar a falta de cadência
do humor. Mottola acertara na comédia com Superbad, mas não soube equilibrar
bem as gags no romance dramático que é Adventureland, e isso se repete aqui.
A única coisa realmente extraordinária do filme são os efeitos visuais, exemplares
funcionais em 95% das cenas. Paul - O Alien Fugitivo acaba sendo vítima
de sua própria crítica e, como a maioria dos 'filmes de nerd', acaba preso no gueto
que reverencia. Mas vale por algumas boas risadas.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


GUERREIRO
Warrior EUA 2011 2h19min

de Gavin O'Connor com Joel Edgerton, Tom Hardy, Nick Nolte, Jennifer Morrison
Em DVD pela Imagem Filmes

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Engraçado como filmes de esportes que envolvem luta corporal têm dado certo.
Não me refiro à bolheteria apenas, mas aos filmes em si. Só pra citar os mais recentes,
Rocky Balboa, O Lutador e O Vencedor estão entre os inesquecíveis da nova safra.
Bem verdade que eles batem na mesma tecla (homens que apanharam da vida
procuram redenção nos ringues, na maioria das vezes conseguindo), mas os cineastas
encontraram prismas particulares em cada uma dessas obras. Junta-se a eles esse filme
pouco visto, mas que ganhou notoriedade após a indicação ao Oscar de melhor ator
coadjuvante para Nick Nolte semana passada. Sim, Guerreiro também é um 'filme de Oscar',
e martela nos já muito batidos temas da superação e dos conflitos de família. Milagrosamente,
esse mais novo exemplar do subgênero 'drama de pancadaria' funciona. E funciona
muito bem, obrigado. Gavin O'Connor escreveu, dirigiu e produziu um filme que,
caso fosse lançado nos anos 80, teria sido um sucesso absoluto da Sessão da Tarde.
Primeiro porque O'Connor sabe contextualizar sua história sem muita exposição
gratuita; segundo porque a combinação da boa caracterização do roteiro com os fabulosos
atores Joel Edgerton (Reino Animal), Tom Hardy (O Espião que Sabia Demais) e Nolte
resulta num combo poderoso de empatia e dramaticidade; terceiro porque O'Connor
aprendeu bem com Spielberg e Zeffirelli a manipular o espectador.

Dois irmãos lutadores, um pai treinador. Não se falam por questões que nunca conhecemos
a fundo. A morte da matriarca acaba por concectá-los novamente. Como pano de fundo,
os cada vez mais populares campeonatos de UFC e MMA. Sutis críticas à guerra e a instituições
financeiras soam indecisas, mas o filme é despretensioso e não se pode cobrar profundidade
maior do que a emocional de um filme como Guerreiro. Eu poderia até contar mais sobre
a premissa, mas o filme é tão previsível que nem precisa, você sabe para onde ele vai.
A graça está no talento de O'Connor em transcender os clichês. Até a melosa trilha de Mark
Isham é usada com certo frescor. Você vê O'Connor apertando nossos botões do coração
e dos nervos, mas tem uma honestidade no filme que faz você seguir na brincadeira.
É tudo muito óbvio, mas feito com uma empolgação e vontade que contagia. E haja pancada
nas lutas muito bem ensaiadas e montadas para esconder os dublês (os atores convencem),
e haja lágrima pra gente dar de presente pra Nick Nolte e seu personagem desnorteado.
E não vou nem falar do final, que já dá um nó na garganta. Enfim, ignore o poster oficial
do filme (que tenta simular um cartaz de MMA, mas lembra mais um pornô gay hardcore),
chame a família e assista Guerreiro sem pestanejar. Às vezes menos é mais, bem mais.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


NOITES BRANCAS
Le Notti Bianche Itália 1957 1h37min

de Luchino Visconti com Marcello Mastroianni, Maria Schell, Jean Marais
Em DVD pela Versátil

por Filipe Marcena

OPINIÃO
A Versátil prova-se mais uma vez antenada com o mercado digital com esse DVD
caprichado de um belíssimo filme de Luchino Visconti, pouco falado e visto, embora realizado
logo antes de Rocco e Seus Irmãos. Anteriormente conhecido como Um Rosto na Noite,
Noites Brancas ganha pela primeira vez no Brasil o tratamento adequado. A edição
de colecionador traz uma versão restaurada e remasterizada e largo widescreen anamórfico,
resgatando por completo a incrível fotografia de Giuseppe Rotunno. Acompanhando o filme,
um extenso e precioso material extra que inclui entrevistas, prova dos atores, um breve
comentário de Visconti, vida e obra do cineasta, trailers, filmografias, críticas, e até o conto
homônimo que inspirou o filme, de Fiódor Dostoievski. É o tipo de lançamento que você
se esquece do torrent e gasta feliz cada suado centavo pra ter o disco. Não só pelos mimos,
mas porque o filme também é uma joia. O conto do russo, também pouco lembrado, investe
na caracterização psicológica e emocional do protagonista, um sonhador que acidentalmente
conhece uma jovem amargurada por um amor mal resolvido. Visconti se manteve fiel à obra
em vários aspectos, e Noites Brancas, Leão de Prata em Veneza, foi o filme que desencadeou
sua gradual transição do neorrealismo para o esteticismo que marcou a segunda metade de sua obra.

Nastenka vira Natália, interpretada por uma vulnerável Maria Schell, uma personagem dominada
por ideais românticos e marcada pela desilusão, a ponto de chorar a qualquer momento por
um evento ocorrido há um ano. E é chorando que ela conhece o pobre Mario, que acaba de chegar
à cidade e que Marcello Mastroianni encarna com adorável inocência (“Você não tem problemas?”
“Não. Mas posso encontrar um.”). As quatro noites que eles passam juntos na gélida Livorno
testemunham um romance fadado ao fracasso, mas nem por isso se tornam noites menos belas.
Totalmente filmado em estúdio, Noites Brancas traduz na cidade que recebe a história uma
atmosfera cada vez mais onírica, ao mesmo tempo em que o romance mergulha no melodrama.
O estilo sentimental de Visconti, com a trilha de Nino Rota delineando cada ponto emotivo
da narrativa, resulta numa afirmação poderosa da crítica de Dostoievski às ilusões que nos
corrompem. Ao fim não é tão reflexivo quanto à versão literária, mas a pancada emocional
se encarrega de enviar a mensagem. Atenção para os personagens secundários, todos
geniais, e para a linda cena de dança no bar. Noites Brancas destoa da filmografia de Visconti
por ser um de seus filmes menos sociais e mais próximos do romantismo (assim como o conto
foi para Dostoievski), mas isso não desmerece sua redescoberta. Um DVD pra ter em casa.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


50%
50/50 EUA 2011 1h40min

de Jonathan Levine com Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Angelica Huston
Em DVD pela Swen Filmes

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Se você não tem nada de realmente novo a dizer/fazer com um filme, não o faça.
Você perde o seu tempo e o dos outros numa obra medíocre que pode até enterrar sua carreira.
Exceto no caso de Hollywood. Lá faça de qualquer jeito, pois com sorte dá pra garantir uns trocados.
Resultado, a média da qualidade dos filmes vai lá pra baixo. Só essa lógica para justificar o sucesso
de crítica que foi este 50%, filme indie que causou polêmica antes mesmo de estrear por causa
de seu antigo título, “Eu Tenho Câncer”. Houve um medo da parte dos produtores de ofender
o público, o que justificou a mudança. Não que a troca de títulos tenha resolvido alguma coisa:
o filme ainda é uma ofensa à humanidade, em vários sentidos. Pior: é baseado em uma história
real e o roteiro é autobiográfico, sendo Will Reiser o responsável. Isso está longe de ajudar.
Aparentemente, Reiser é uma criatura que, após passar por um raro e problemático tipo de câncer,
tirou como única lição da experiência que a doença é um ótimo motivo pra trocar de namorada.

O diretor Jonathan Levine, estreante, vai na onda do roteiro. Isso significa uma romantização pobre
e previsível de um tema delicado, no caso, como o ser humano lida com a proximidade da morte.
O protagonista Adam (Joseph Gordon-Levitt, esforçando-se num papel que pouco cobra dele)
é um ser irritante de tão passivo, ele jamais guia sua própria história. O roteirista se encarrega
de justificar seus atos transformando os personagens secundários em clichês sem vida e até
perigosos em sua construção e resolução. Seth Rogen seria o mais prejudicado como o melhor
amigo de Adam, Kyle, um ser desprezível e incompatível com a persona do protagonista. Assim
como a maioria das pessoas que permeiam a história de 50% (título que se refere às chances
de Adam sobreviver), Kyle é unidimensional e jamais ganha qualquer importância real no roteiro,
a não ser o de insuportável alívio cômico. Mas não é pior do que os papéis femininos. Jamais vi
caracterização tão caricatural e sem perspectiva de um grupo de mulheres num filme. Temos aqui
a mãe neurótica (Anjelica Houston, apenas neurótica), a namorada chata (Bryce Dallas Howard,
encarnando o clichê), e a meiga terapeuta com ares de novo romance (Anna Kendrick, que quase
salva a primeira metade do filme). A personagem de Howard é praticamente um boneco de vudu
para Reiser, que humilha a personagem até o limite numa cena de rompimento surreal, e que
se torna ainda mais patética por tentar extrair humor da ridícula situação – nem vou discutir
a cena em que Adam e Kyle tacam fogo nos quadros dela. Misoginia mandou lembranças.

A sensação de oportunidade perdida se atenua pela total ignorância do filme em lidar com
as dicotomias e aflições do personagem. Estamos falando de um filme sobre um jovem com
câncer, e tudo o que ganhamos são algumas piadas inapropriadas, pouquíssimos diálogos
inspirados e dezenas de canções fofas que tentam distrair da falta de profundidade do roteiro,
representar os sentimentos de Adam e nos fazer refletir, obviamente falhando em todas as tarefas.
Levine não consegue nem equilibrar o (pouco) drama com o humor (grosseiro), tornando tudo
ainda mais equivocado e frívolo. Lá pelo final eu não conseguia mais olhar pra tela sem sentir
vergonha alheia. Se achar original por inserir humor de maconheiro numa história de câncer
provou-se uma imbecilidade em 50%, e reduzi-la a um romance esquemático e sexista é um
ultraje. Pelo menos não tive que encarar isso numa tela de cinema. O filme saiu no Brasil direto
em DVD. Prefira a genial telessérie The Big C, estrelada por Laura Linney (com duas temporadas
disponíveis para download), que lida com o tema com muito mais sagacidade e bom humor.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

ARQUIVO 2011
ARQUIVO 2010
ARQUIVO 2009
ARQUIVO 2008