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PAUL - O ALIEN FUGITIVO ![]()
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Paul EUA 2011 1h40min RottenTomatoes 7,1
de Greg Mottola com Simon Pegg, Nick Frost, Kristen Wiig, Seth Rogen, Jason Bateman
Em DVD pela Universal
por Filipe Marcena
OPINIÃO A cultura nerd engoliu Hollywood. A maioria do que é feito em Hollywood tem como
público os fãs dos quadrinhos, do cinema e literatura de gênero e do sci-fi. Um dos maiores
eventos culturais que acontece todo ano em San Diego é a Comic-Con, convenção que reúne
milhares de geeks para seminários, coletivas, compras, autógrafos e muito cosplay.
É nesse ambiente que somos introduzidos aos protagonistas de Paul - O Alien Fugitivo,
os britânicos Graeme e Clive, que nutrem paixão ardorosa pela convenção. A dupla de amigos
é interpretada pelos também amigos na vida real Simon Pegg e Nick Frost, respectivamente,
e eles também são responsáveis pelo roteiro. Eles não são estranhos nesse universo:
Frost já participou de filmes como Grindhouse e Ataque ao Prédio, Pegg é ninguém
menos que Scotty no reboot de Star Trek, e juntos eles estrelaram o clássico e cultuado
Todo Mundo
Quase Morto. São nerds que se tornaram ídolos no seu meio. Paul tem como
conceito prestar uma homenagem à esse mundo e rir dele ao mesmo tempo. Na direção,
Greg Mottolla, que dirigiu os maravilhosos Superbad - É Hoje! e Adventureland - Férias
Frustradas de Verão. Pena que, por algum motivo que desconfio ser certa preguiça
ou confiança demais, o filme nunca decole.
E olhe que o filme reúne no mesmo time
Kristen Wiig, Jason Bateman, Sigourney Weaver, Jane Lynch e Blythe Danner.
Paul tem lá seus bons momentos, todos relacionados à sátira ao próprio filme, nascido
por causa e para o mundo nerd. Tem algumas referências óbvias, mas divertidas,
as melhores envolvendo filmes de Spielberg. E Seth Rogen faz um bom trabalho
na voz da verdadeira estrela do filme, Paul, um E.T. maconheiro (é um filme
com
Seth Rogen, afinal)
perdido no planeta e à procura do local que o ajudará a ir para
casa. Mas o roteiro e a direção soam desleixados na maior parte do tempo.
Mesmo num filme que quer se desprender de realismo e se se jogar
no nonsense
beirando o pastelão, é preciso haver empenho e acreditar no que se está fazendo,
ou toda a ideia do filme vai por água abaixo. Paul sofre desse mal, e só não se perde
porque tem boas sacadas um bons comediantes pra segurar a falta de cadência
do humor. Mottola acertara na comédia com Superbad, mas não soube equilibrar
bem as gags no romance dramático que é Adventureland, e isso se repete aqui.
A única coisa realmente extraordinária do filme são os efeitos visuais, exemplares
funcionais em 95% das cenas. Paul - O Alien Fugitivo acaba sendo vítima
de sua própria crítica e, como a maioria dos 'filmes de nerd', acaba preso no gueto
que reverencia.
Mas vale por algumas boas risadas.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

GUERREIRO ![]()
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Warrior EUA 2011 2h19min RottenTomatoes 8,3
de Gavin O'Connor com Joel Edgerton, Tom Hardy, Nick Nolte, Jennifer Morrison
Em DVD pela Imagem Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO Engraçado como filmes de esportes que envolvem luta corporal têm dado certo.
Não me refiro à bolheteria apenas, mas aos filmes em si. Só pra citar os mais recentes,
Rocky Balboa, O Lutador e O Vencedor estão entre inesquecíveis da nova safra.
Bem verdade que eles batem na mesma tecla (homens que apanharam da vida
procuram redenção nos ringues, na maioria das vezes conseguindo), mas os cineastas
encontraram prismas particulares em cada uma dessas obras. Junta-se a eles esse filme
pouco visto, mas que ganhou notoriedade após a indicação ao Oscar
de melhor ator
coadjuvante para Nick Nolte semana passada. Sim, Guerreiro também é um 'filme de Oscar',
e martela nos já muito batidos temas da superação e dos conflitos de família. Milagrosamente,
esse mais novo exemplar do subgênero 'drama de pancadaria' funciona. E funciona
muito bem, obrigado.
Gavin O'Connor escreveu, dirigiu e produziu um filme que,
caso fosse lançado nos anos 80, teria sido um sucesso absoluto da Sessão da Tarde.
Primeiro porque O'Connor sabe contextualizar sua história sem muita exposição
gratuita; segundo porque a combinação da boa caracterização do roteiro com os fabulosos
atores Joel Edgerton (Reino Animal), Tom Hardy (O Espião que Sabia Demais) e Nolte
resulta num combo poderoso de empatia e dramaticidade; terceiro porque O'Connor
aprendeu bem com Spielberg e Zeffirelli
a manipular o espectador.
Dois irmãos lutadores, um pai treinador. Não se falam por questões que nunca conhecemos
a fundo.
A morte
da matriarca acaba por concectá-los novamente. Como pano de fundo,
os cada vez mais populares campeonatos de UFC e MMA. Sutis críticas à guerra e a instituições
financeiras soam indecisas, mas o filme é despretensioso e não se pode cobrar profundidade maior
do que a emocional de um filme como Guerreiro.
Eu poderia até contar mais sobre
a premissa, mas o filme é tão previsível que nem precisa, você sabe para onde ele vai.
A graça está no talento de O'Connor em transcender os clichês. Até a melosa trilha de Mark
Isham é usada com certo frescor. Você vê O'Connor apertando nossos botões
do coração
e dos nervos, mas tem uma honestidade no filme que faz você seguir na brincadeira.
É tudo muito óbvio, mas feito com uma empolgação e vontade que contagia. E haja pancada
nas lutas muito bem ensaiadas e montadas para esconder os dublês (os atores convencem),
e haja lágrima pra gente dar de presente pra Nick Nolte e seu personagem desnorteado.
E não vou nem falar do final, que já dá um nó na garganta.
Enfim, ignore o poster oficial
do filme (que tenta simular um cartaz de MMA, mas lembra mais um pornô gay hardcore),
chame a família e assista Guerreiro sem pestanejar. Às vezes menos é mais, bem mais.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

NOITES BRANCAS ![]()
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Le Notti Bianche Itália 1957 1h37min RottenTomatoes 10,0
de Luchino Visconti com Marcello Mastroianni, Maria Schell, Jean Marais
Em DVD pela Versátil
por Filipe Marcena
OPINIÃO A Versátil prova-se mais uma vez antenada com o mercado digital com esse DVD
caprichado de um belíssimo filme de Luchino Visconti, pouco falado e visto, embora realizado
logo antes de Rocco e Seus Irmãos. Anteriormente conhecido como Um Rosto na Noite,
Noites Brancas ganha pela primeira vez no Brasil o tratamento adequado. A edição
de colecionador traz uma versão restaurada e remasterizada e largo widescreen anamórfico,
resgatando por completo a incrível fotografia de Giuseppe Rotunno. Acompanhando o filme,
um extenso e precioso material extra que inclui entrevistas, prova dos atores, um breve
comentário de Visconti, vida e obra do cineasta, trailers, filmografias, críticas, e até o conto
homônimo que inspirou o filme, de Fiódor Dostoievski. É o tipo de lançamento que você
se esquece do torrent e gasta feliz cada suado centavo pra ter o disco. Não só pelos mimos,
mas porque o filme também é uma joia. O conto do russo, também pouco lembrado, investe
na caracterização psicológica e emocional do protagonista, um sonhador que acidentalmente
conhece uma jovem amargurada por um amor mal resolvido. Visconti se manteve fiel à obra
em vários aspectos, e Noites Brancas, Leão de Prata em Veneza, foi o filme que desencadeou
sua gradual transição do neorrealismo para o esteticismo que marcou a segunda metade de sua obra.
Nastenka vira Natália, interpretada por uma vulnerável Maria Schell, uma personagem dominada
por ideais românticos e marcada pela desilusão, a ponto de chorar a qualquer momento por
um evento ocorrido há um ano. E é chorando que ela conhece o pobre Mario, que acaba de chegar
à cidade e que Marcello Mastroianni encarna com adorável inocência (“Você não tem problemas?”
“Não. Mas posso encontrar um.”). As quatro noites que eles passam juntos na gélida Livorno
testemunham um romance fadado ao fracasso, mas nem por isso se tornam noites menos belas.
Totalmente filmado em estúdio, Noites Brancas traduz na cidade que recebe a história uma
atmosfera cada vez mais onírica, ao mesmo tempo em que o romance mergulha no melodrama.
O estilo sentimental de Visconti, com a trilha de Nino Rota delineando cada ponto emotivo
da narrativa, resulta numa afirmação poderosa da crítica de Dostoievski às ilusões que nos
corrompem. Ao fim não é tão reflexivo quanto à versão literária, mas a pancada emocional
se encarrega de enviar a mensagem. Atenção para os personagens secundários, todos
geniais, e para a linda cena de dança no bar. Noites Brancas destoa da filmografia de Visconti
por ser um de seus filmes menos sociais e mais próximos do romantismo (assim como o conto
foi para Dostoievski), mas isso não desmerece sua redescoberta. Um DVD pra ter em casa.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

50% ![]()
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50/50 EUA 2011 1h40min RottenTomatoes 9,3
de Jonathan Levine com Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Angelica Huston
Em DVD pela Swen Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO Se você não tem nada de realmente novo a dizer/fazer com um filme, não o faça.
Você perde o seu tempo e o dos outros numa obra medíocre que pode até enterrar sua carreira.
Exceto no caso de Hollywood. Lá faça de qualquer jeito, pois com sorte dá pra garantir uns trocados.
Resultado, a média da qualidade dos filmes vai lá pra baixo. Só essa lógica para justificar o sucesso
de crítica que foi este 50%, filme indie que causou polêmica antes mesmo de estrear por causa
de seu antigo título, “Eu Tenho Câncer”. Houve um medo da parte dos produtores de ofender
o público, o que justificou a mudança. Não que a troca de títulos tenha resolvido alguma coisa:
o filme ainda é uma ofensa à humanidade, em vários sentidos. Pior: é baseado em uma história
real e o roteiro é autobiográfico, sendo Will Reiser o responsável. Isso está longe de ajudar.
Aparentemente, Reiser é uma criatura que, após passar por um raro e problemático tipo de câncer,
tirou como única lição da experiência que a doença é um ótimo motivo pra trocar de namorada.
O diretor Jonathan Levine, estreante, vai na onda do roteiro. Isso significa uma romantização pobre
e previsível de um tema delicado, no caso, como o ser humano lida com a proximidade da morte.
O protagonista Adam (Joseph Gordon-Levitt, esforçando-se num papel que pouco cobra dele)
é um ser irritante de tão passivo, ele jamais guia sua própria história. O roteirista se encarrega
de justificar seus atos transformando os personagens secundários em clichês sem vida e até
perigosos em sua construção e resolução. Seth Rogen seria o mais prejudicado como o melhor
amigo de Adam, Kyle, um ser desprezível e incompatível com a persona do protagonista. Assim
como a maioria das pessoas que permeiam a história de 50% (título que se refere às chances
de Adam sobreviver), Kyle é unidimensional e jamais ganha qualquer importância real no roteiro,
a não ser o de insuportável alívio cômico. Mas não é pior do que os papéis femininos. Jamais vi
caracterização tão caricatural e sem perspectiva de um grupo de mulheres num filme. Temos aqui
a mãe neurótica (Anjelica Houston, apenas neurótica), a namorada chata (Bryce Dallas Howard,
encarnando o clichê), e a meiga terapeuta com ares de novo romance (Anna Kendrick, que quase
salva a primeira metade do filme). A personagem de Howard é praticamente um boneco de vudu
para Reiser, que humilha a personagem até o limite numa cena de rompimento surreal, e que
se torna ainda mais patética por tentar extrair humor da ridícula situação – nem vou discutir
a cena em que Adam e Kyle tacam fogo nos quadros dela. Misoginia mandou lembranças.
A sensação de oportunidade perdida se atenua pela total ignorância do filme em lidar com
as dicotomias e aflições do personagem. Estamos falando de um filme sobre um jovem com
câncer, e tudo o que ganhamos são algumas piadas inapropriadas, pouquíssimos diálogos
inspirados e dezenas de canções fofas que tentam distrair da falta de profundidade do roteiro,
representar os sentimentos de Adam e nos fazer refletir, obviamente falhando em todas as tarefas.
Levine não consegue nem equilibrar o (pouco) drama com o humor (grosseiro), tornando tudo
ainda mais equivocado e frívolo. Lá pelo final eu não conseguia mais olhar pra tela sem sentir
vergonha alheia. Se achar original por inserir humor de maconheiro numa história de câncer
provou-se uma imbecilidade em 50%, e reduzi-la a um romance esquemático e sexista é um
ultraje. Pelo menos não tive que encarar isso numa tela de cinema. O filme saiu no Brasil direto
em DVD.
Prefira a genial telessérie The Big C, estrelada por Laura Linney (com duas temporadas
disponíveis para download), que lida com o tema com muito mais sagacidade e bom humor.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
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Dicas de Cinéfilo Top Ten 2011
Os Melhores Filmes do Ano que Você Viu em DVD
por Filipe Marcena
> Ano que vai, ano que vem... Época boa pra organizar aquela lista de filmes que você
ainda não viu, apesar do Dicas de Cinéfilo tanto ter recomendado. Então, feita uma
revisão dos quase 50 filmes comentados aqui esse ano (e outros que não foram resenhados),
chegamos num Top Ten
bem bacana, uma retrospectiva dos melhores DVDs de 2011:

STAKE LAND – ANOITECER VIOLENTO
Stake Land | EUA | de Jim Mickle
Na décima posição entra esse filminho americano que quase ninguém viu.
Stake Land – Anoitecer Violento é cinema de gênero de primeira, bem cuidado
e repleto de tensão, mas o surpreendente é o mordaz e sombrio comentário
sobre o interior perdido da América que o diretor Jim Mickle propõe.
É como se Inverno da Alma fosse invadido por vampiros violentos.
Meditativo, atmosférico e com uma boa parcela de cenas de ação vertiginosas,
é cinema pós-apocalíptico que faria George Romero sorrir.

NEGÓCIO FECHADO
Cedar Rapids | EUA | de Miguel Arteta
Negócio Fechado foi recentemente comentado aqui no Dicas de Cinéfilo.
Impossível não entrar na lista: uma comédia adulta para adultos, um filme sobre juventude
não vivida e um bom exemplo de que o cinema independente não precisa ser afetado
e excêntrico pra se destacar na multidão, mas trazer a humanidade que vem faltando
no cinema de estúdio. Miguel Arteta e o elenco ficam com os louros.

SPLICE – A EXPERIÊNCIA
Splice | Canadá | de Vincenzo Natali
Passou despercebido nos cinemas do sul e foi arremessado rapidamente nas locadoras.
Filminho freak canadense espantou o público mundo afora com suas bizarras cenas de gore
e sexo. O filme conta com Vincenzo Natali, diretor de Cubo, e com Sarah Polley e Adrien Brody
interpretando cientistas que criam uma metamorfose entre um humano e uma criatura
de laboratório, a simpática Dren (Delphine Chanéac, fantástica). Os problemas começam
quando Dren cresce e entra na habitual fase das crises adolescentes. Pra ver com a família.

A MENTIRA
Easy A | EUA | de Will Gluck
Outro filme que chegou muito perto de estrear, mas foi cancelado em cima da hora.
Mesmo sem um lançamento apropriado, A Mentira tornou-se cult, daqueles que os fãs
citam os diálogos do filme com frequência. Emma Stone brilha no papel de uma falsa "vadia"
que espalha boatos safados de si mesma na escola; primeiro para ganhar atenção, depois
para ajudar rapazes problemáticos. É uma comédia deliciosa, inspirada no clássico A Letra
Escartale, que homenageia as dramédias teen de John Hugues e, se não chega aos pés
de um Clube dos Cinco, está ali no mesmo patamar em que se encontram joias como
As Patricinhas de Beverly Hills e Meninas Malvadas. Boa companhia.

PAPAI NOEL DAS CAVERNAS
Rare Exports: A Christmas Tale | Finlândia | de Jalmari Helander
Vai ser difícil desbancar Papai Noel das Cavernas do posto de melhor filme de Natal da década.
E ainda estamos em 2011. Uma salva de palmas à Finlândia, que nos presenteou com essa coisa
linda e esquisita. Para saber mais é só conferir a crítica (e o trailer) do filme logo abaixo.

ENTERRADO VIVO
Buried | EUA/Espanha | de Rodrigo Cortés
Lembram-se daqueles 10 minutos de Kill Bill Volume 2 onde A Noiva é enterrada viva por seu
algoz Budd? Imagine aquilo por 1h20min e você tem ideia do que é Enterrado Vivo, intensa
estreia de Rodrigo Cortés. O filme se apoia totalmente no carisma de Ryan Reynolds, que aproveita
o (pouco) espaço para mostrar porque um dia o consideramos promissor. Com uma premissa
mínima, poucos recursos e uma fotografia inteligente, Cortés e Reynolds fazem de Enterrado
Vivo uma experiência sufocante, nauseante e, muitas vezes, assustadora. Entrou em cartaz
no Brasil, mas nunca chegou às salas do Recife.

PECADO DA CARNE
Einayim Petukhoth/Eyes Wide Open | Israel | de Haim Tabakman
Pena que o estigma do filme-gay afaste o grande público de obras como Pecado da Carne,
um pequeno milagre que veio de Israel. Sim, a premissa é o amor que nasce entre dois homens
no coração de uma comunidade judaica ortodoxa, mas os temas transversais do filme (conflito
entre religião e natureza humana, necessidade de transgredir) são de interesse de todos,
independente de orientação sexual. Embora niilista, Pecado da Carne impõe questões
morais e espirituais contundentes, encara o romance homossexual com honestidade
e tem uma interpretação magistral de Zohar Strauss. Filmaço.

ATAQUE AO PRÉDIO
Attack The Block | Inglaterra | de Joe Cornish
Recém-comentado no Dicas de Cinéfilo, o inglês Ataque ao Prédio fica com a medalha
de bronze na lista. E não só por ser uma obra exemplar do cinema de gênero (melhor que
o também muito bom Super 8), mas porque é um filme que pede por uma sala de cinema,
com qualidade de som e imagem decentes. Quem sabe, com um bom equipamento, uma
cópia do Blu-ray e uma sala escura, o drama de um grupo de jovens delinquentes e uma
assustada enfermeira durante uma invasão alienígena funcione tão bem quanto.

O INFERNO DE HENRI-GEORGES CLOUZOT
L’Enfer d’Henri-Georges Clouzot | França | de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea
Também entrou em cartaz no país, mas nunca chegou às salas do Recife. Oportunidade perdida de ver
na tela grande esse belíssimo documentário metalinguístico sobre um filme que não aconteceu:
L’Enfer, do mestre Henri-Georges Clouzot. Imagens nunca antes reveladas das poucas cenas gravadas,
do making of, dos testes de fotografia, figurino e efeitos especiais e da incrivelmente linda Romy
Schneider, no auge de sua carreira, adornam e narram os eventos da fatídica produção, sob uma
ótica pessoal e poética do diretor Serge Bromberg. Uma joia.

REINO ANIMAL
Animal Kingdom | Austrália | de David Michôd
Não só o melhor filme que você viu em DVD, Reino Animal é um dos melhores filmes da safra
recente, ponto. Azar o nosso que a Sony desistiu de lançá-lo no circuito brasileiro, mesmo com
a indicação ao Oscar da genial Jacki Weaver para dar destaque no cartaz. Embora perca parte
do impacto, o filme até que sobrevive na sala de casa, graças ao imenso talento do diretor
australiano David Michôd. A tensa história da família de gangsteres autodestrutiva liderada
por uma matriarca inescrupulosa será lembrada por um bom tempo.
> Mais 10 boas dicas que você encontra nas locadoras:
TODA FORMA DE AMOR Beginners | EUA | de Mike Mills
SEGREDOS DE UM FUNERAL Get Low | EUA | de Aaron Schneider
REVOLUÇÂO EM DAGENHAM Made in Dagenham | Inglaterra | de Nigel Cole
UMA NOITE MAIS QUE LOUCA Take Me Home Tonight | EUA | de Michael Dowse
ATERRORIZADA The Ward | EUA | de John Carpenter
O ASSASSINO EM MIM The Killer Inside Me | EUA | de Michael Winterbottom
ALEXANDRIA Agora | Espanha | de Alejandro Amenábar
CRIME DE AMOR Crime D’Amour | França | Alain Corneau
ATRAÇÃO PERIGOSA The Town | EUA | de Ben Affleck
O HOMEM AO LADO El Hombre de al Lado | Argentina | de Mariano Cohn e Gastón Duprat
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PAPAI NOEL DAS CAVERNAS ![]()
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Rare Exports: A Christmas Tale 2010 Finlândia 1h24min
de Jalmari Helander com Onni Tommila, Jorma Tommila, Tommi Korpela, Rauno Juvonen
Em DVD pela Califórnia Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO Sabe quando você vai assistir a um filme e ele puxa o seu tapete, você perde
o chão e não sabe nem como reagir? Foi mais ou menos assim que me senti com esse filme.
Geralmente estas são as melhores experiências de cinema que eu tenho. Mas é difícil falar
dessa pérola finlandesa, que chega em DVD no Brasil bem a tempo do Natal, embora seja
de 2010. O título nacional, Papai Noel das Cavernas, causa uma impressão de que se trata
de um filme extremamente B. Não é que não seja, mas está longe de ser trash. O título original,
Exportações Raras: Um Conto de Natal, é tão misterioso quanto o próprio filme, e só faz sentido
ao assistirmos. Como escrever sobre um filme sem revelá-lo? Sem arruinar a sensação de
encanto, horror, graça e choque que ele é capaz de proporcionar? Apelando para uma frase
feita, você jamais (repito, jamais!) viu um filme de Natal como este.
Acompanhamos a releitura do mito do Papai Noel através dos olhos de uma criança, no caso
o pequeno Pietari (Onni Tommila), que mora numa gelada e solitária cidade finlandesa com
seu pai Rauno (Jorma Tommila). Numa montanha próxima que se descobre ser um sítio arqueológico,
um grupo de escavadores trabalha para um cientista… bem, maluco. De acordo com ele, no fundo
daquela montanha, está o corpo congelado do velhinho Noel. Mas o velhinho não é tão bonzinho
quanto a Coca-cola quer que a gente acredite. Ele foi congelado pelos antigos habitantes da região
e enterrado na montanha para nunca mais sair de lá e comer criancinhas cozidas em sopas.
Só quem acredita nessa história, claro, são o cientista e Pietari. O grupo começa as escavações
no dia 1º de dezembro, e a previsão é de que eles completem o trabalho no dia de Natal.
No dia 25, crianças da cidade desaparecem e as renas que geralmente passeiam pelo
local não dão sinal de vida. Sobra para o garoto Pietari resolver a questão...
Não sei o que é mais estranho em Papai Noel das Cavernas: a total ausência de mulheres
no local; o tom fantástico-sóbrio-terror-cômico-me-levo-a-sério-mas-nem-tanto com que o cineasta
Jalmari Helander, que sabe brincar o gênero, leva o filme; a fotografia excepcional de Mika Orasmaa,
que rende imagens pra ficarem na memória por décadas; as revelações grotescas que o roteiro
reserva; ou a conclusão excêntrica e absurda que dá significados ao filme. Na verdade, nem tão
absurda, já que estamos falando de um conto de Natal onde tudo pode acontecer. Acredite, pode
mesmo. Um conto de fadas para adultos, horrível demais para crianças embora doce o suficiente,
é diversão irreverente, perfeito para uma noite de Natal mágica (à sua maneira). Recomendo.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
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NEGÓCIO FECHADO ![]()
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Cedar Rapids EUA 2011 1h27min
de Miguel Arteta com Ed Helms, John C. Reilly, Anne Heche, Sigourney Weaver
Em DVD pela Fox Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO Enquanto os americanos tiverem gente como Miguel Arteta fazendo cinema
independente, eles estarão bem. Ele não enxerga a cena ‘indie’ como trampolim para
o sucesso em festivais nem como um modelo auto-limitante e auto-importante de se fazer
filmes. Arteta se encaixa na categoria por dois simples motivos: faz produções de baixo
orçamento e não abre concessão criativa para nenhum estúdio em troca de mais dinheiro.
Seu novo filme, o pequeno sucesso Negócio Fechado, é um filme absolutamente comercial,
faz questão de investir nos rostos famosos de Ed Helms (de Se Beber Não Case), John C. Reilly,
Anne Heche e Sigourney Weaver, e jamais hesita no humor grosseiro. Então por que Negócio
Fechado não passou nos multiplexes? Porque embora o filme traga uma premissa acessível,
sua abordagem é incomum, pelo menos para os rasos padrões dos filmes de shopping. Nada contra
humor rasteiro sem noção, mas é preciso diversidade dentro dos gêneros, algo que Hollywood parece
lutar contra, a fim de lucros garantidos. Negócio Fechado é sobre gente com problemas de gente,
e está lá em cima com Missão Madrinha de Casamento entre as melhores comédias de 2011.
Miguel Arteta mais uma vez trabalha em sua zona de conforto enquanto à temática, que é
a problematização da vida adulta. Por Um Sentido na Vida, Rebelde com Causa e principalmente
o inédito aqui Chuck & Buck são protagonizados por criaturas presas num limbo entre a juventude
e a maturidade. Não é diferente com Tim Lippe (Helms, também produtor executivo do filme),
frustrado vendedor de seguros para uma empresa. O roteiro de Phil Johnston já acerta na introdução
do personagem ao mostrá-lo tendo um caso com sua ex-professora Macy (Weaver), que acaba
também cumprindo um papel materno. É genial a relação dos dois. Lippe é enviado para a cidade
de Cedar Rapids para uma convenção de seguradoras, cujo maior objetivo é ganhar dois diamantes
de qualificação para a empresa. No hotel, ele acaba fazendo amizade com o suspeito e desbocado
Dean Ziegler (Reilly), o confiável Ronald Wilkes (Isiah Whitlock Jr.) e a extrovertida Joan Fox (Heche),
todos ali para a convenção. É claro que entre noitadas e intrigas, nascem conflitos que fazem Lippe
repensar suas fragilidades. Sim, Negócio Fechado tem piadas envolvendo gases e adjacentes,
mas elas são menores em relação ao que o torna um grande filme: a humanidade com que Arteta
o enxerga. A história e os personagens nunca são traídos por arbitrariedades da comédia fácil
(e nem por isso o filme é menos engraçado). Há momentos cruéis – e que precisam ser cruéis
para o filme funcionar – que só não destoam do tom leve geral da obra porque os atores sabem
muito bem em que terreno estão pisando - um elenco muito bem dirigido e talentoso, por sinal.
Negócio Fechado saiu em DVD desde o meio do ano e vale muito a pena ser descoberto.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

ATAQUE AO PRÉDIO ![]()
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Attack The Block Inglaterra 2011 2h07min
de Joe Cornish com John Boyega, Nick Frost, Jodie Whittaker
Em DVD pela Sony
por Filipe Marcena
OPINIÃO A Inglaterra é um país cujo cinema, independente de orçamento e gênero,
sabe muito bem dialogar com a juventude. É algo cultivado há muitos anos, especialmente
após uma explosão nos anos 60 com os “dramas de pia e cozinha”, que abordavam
o amadurecimento de jovens da classe operária britânica. Até hoje eles colhem os frutos,
produzindo obras sólidas e com claro conhecimento de causa (Fish Tank de Andrea Arnold
e This Is England de Shane Meadows são dois belos exemplos, apenas entre os mais recentes).
Esse ano o inglês Joe Cornish presenteou os jovens ingleses (e os cinéfilos do mundo inteiro)
com um filme que, mesmo sendo narrado a partir de uma das premissas mais antigas
do cinema sci-fi, a invasão alienígena, é uma obra altamente inovadora, surpreendente
e atual. Tão atual que o filme ganhou relevância extra após as manifestações londrinas
em agosto, um timing até assustador. O filme é Ataque ao Prédio, que chega em DVD
às prateleiras das locadoras brasileiras neste mês de dezembro.
É louvável a iniciativa de Cornish, roteirista e diretor, em focalizar sua história num grupo
que raramente é bem explorado pelo cinema: os delinquentes de rua. O filme nasceu de uma
pesquisa do cineasta após ser assaltado por um nervoso e assustado grupo de marginais
infanto-juvenis. E é assim que começa o filme: na fria e opressiva área sul de Londres,
a enfermeira Sam (Jodie Whittaker, de Vênus) é assaltada e agredida por Moses (John Boyega)
e sua gangue. Embora concretizado, o assalto acaba posto em segundo plano quando um
alienígena cai no meio da rua. Sam foge, enquanto Moses e amigos acabam controlando
e matando o bicho, uma massa preta e peluda com muitos dentes luminosos. Mas o problema
é bem maior: há uma tempestade dessas criaturas por vir. O destino acaba unindo Moses,
seus colegas, uma dupla de traficantes, um junkie perturbado (Nick Frost, de Chumbo Grosso)
e a própria Sam, todos encurralados no condomínio onde moram. Nas entrelinhas da narrativa
típica de sci-fi com toques de comédia e ação, Ataque ao Prédio fascina com um mordaz
comentário social que vai além das fronteiras britânicas.
Cornish, que foi adotado por Steven Spielberg e co-escreveu o roteiro de As Aventuras de Tin Tin
com Edgar Wright (Scott Pilgrim Contra o Mundo), nutriu profundo interesse e carinho por aqueles
que um dia foram seus algozes. São personagens com vida pulsante, carne e osso, e muito reais
dentro da fantasia do filme. Cornish não tem aquele olhar condescendente de um Walter Salles,
ele os encara como humanos de índole líquida, que precisam estar sempre prontos para pisar
para não serem pisados. As superfícies se tornam apenas isso, superfícies, quando se encontra
um mal em comum. O anti-herói Moses tem um arco dramático tão comovente e inspirador
que me entristece saber que o público para o qual o filme quer falar dificilmente vai encontrá-lo.
E o filme ainda tem alguns dos diálogos mais sarcásticos, cortantes e brilhantes que vi esse
ano, falados por jovens atores excepcionalmente bem dirigidos. Ataque ao Prédio é um pé na bunda
da hipocrisia classe média e um filme juvenil pra todo mundo ver, gostando de filme de E.T. ou não.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
AMARGO REGRESSO ![]()
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Coming Home EUA 1978 2h07min
de Hal Ashby com Jane Fonda, Jon Voight, Bruce Dern, Penelope Milford
Em DVD pela Versátil
por Filipe Marcena
OPINIÃO A Versátil acaba de lançar em DVD Amargo Regresso, cria da Nova Hollywood
dos anos 70, em uma edição especial e bem atrasada no país. Embora não tenha causado
o mesmo impacto de O Franco Atirador, filme que forma dupla como primeira obras sobre
a Guerra do Vietnã produzidas nos EUA, foi uma obra importante do fim da década de 70,
afinal trouxe um primeiro e ainda disforme olhar antiguerra para a memória coletiva cinematográfica.
O cineasta Hal Ashby, que estava no auge na época da realização de Amargo Regresso, não
estava em sua melhor forma aqui (seu filme seguinte, que considero sua obra-prima, foi Muito
Além do Jardim, o último relevante de Ashby). Mas é impossível não reconhecer as qualidades
da obra, especialmente no que diz respeito a elenco e direção de atores. O filme venceu 3 Oscar
(ator para Jon Voight, atriz para Jane Fonda e roteiro) e prêmio para Voight em Cannes 78.
A primeira fraqueza de Amargo Regresso está em seu próprio enredo e na maneira com que
é conduzida. Fonda interpreta Sally Hyde, mulher recatada casada com o Capitão Bob (Bruce Dern,
altamente caricato). Ele vai para o Vietnã, e na partida ela conhece Vi (Penelope Milford), mulher
de sargento que também vai para a guerra. Vi a convida para trabalhar num hospital para feridos
da guerra, onde seu irmão Bill (Robert Carradine) está internado com transtornos mentais.
É lá que Sally conhece Luke Martin (Voight), um galante paraplégico com total desprezo pela
guerra que o tornou inválido. Estamos diante de uma história de amor. Aos poucos se percebe
que se trata de um melodrama que só não naufraga nos clichês por causa da estética realista
e do brilhantismo da composição de Voight e Fonda, ambos geniais. Se o roteiro não sabe
se prega sem sutilezas contra a guerra ou mergulha num romance previsível, Ashby encontra
momentos excepcionais. A abertura, com ex-combatentes do Vietnã conversando, é tão
promissora que me senti frustrado. Existe também a famosa cena de sexo entre Voight
e Fonda, que é sensual, romântica e altamente erótica sem nenhuma apelação.
É preciso reconhecer que Amargo Regresso envelheceu. Muitos outros filmes lidaram com
a Guerra do Vietnã com mais sobriedade e criatividade, e estes sobrevivem ao tempo com
dignidade maior. Mas fato é que poucos tinham uma trilha sonora tão incrível. Rolling Stones,
Beatles, Janis Joplin, Aretha Franklin, Jimi Hendrix, Jefferson Airplane pipocam sem cerimônia
durante todo o filme, e só não chateiam por serem muito boas e de acordo com a ambientação.
O trabalho de som junto às músicas é bem interessante, por sinal. Amargo Regresso acaba
sendo hoje mais uma tentativa de escancarar os fracassos e sequelas de uma guerra do que
um bom filme. Mas é uma tentativa válida. O DVD da Versátil vem com making of,
o documentário Hal Ashby: Uma Homenagem e trailer de cinema.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
CRUISING - PARCEIROS DA NOITE ![]()
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Cruising EUA 1980 1h42min
de William Friedkin com Al Pacino, Karen Allen, Paul Sorvino, Richard Cox
Em DVD pela Lume Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO Um ano antes do primeiro caso de AIDS ser relatado nos Estados Unidos,
William Friedkin pôs nos cinemas um dos filmes mais polêmicos daquele país. Era 1980
e Parceiros da Noite milagrosamente viu a luz do dia após um penoso processo
de produção e lançamento. O filme era odiado por grupos homofóbicos por trazer
ao mainstream o submundo homossexual novaiorquino do fim dos anos 70, e igualmente
odiado
por grupos gays que não apoiavam a maneira com que eram retratados pelo longa.
Friedkin não é conhecido por amarelar em seus filmes, ou seja, não há eufemismos
na caracterização e representação do que acontecia nos bares hardcore dos aficionados
por couro (imagine que ainda não existia o perigo da AIDS). Ainda assim, Friedkin cortou
40 minutos (!) de filme para que o MPAA, grupo responsável pela classificação etária
dos filmes nos EUA, liberasse o filme como sendo fora da categoria pornô. Protestos
e polêmicas à parte, Parceiros da Noite sobreviveu ao tempo e ainda causa impacto,
não só por ter um corajoso Al Pacino como protagonista, mas também por contar com
uma das cenas finais mais ambíguas e abertas a interpretações que já vi.
Steve Burns (Pacino) é um policial selecionado para investigar uma série de assassinatos
de homossexuais em Nova York. Seu tipo físico se encaixa com o das vítimas, o que torna
mais fácil o processo de infiltração e aproximação com o psicopata. A ‘excursão’ do título
original é dupla: Burns precisa adentrar o universo sexual dos gays fetichistas e sadomasoquistas
não só para desvendar um crime, mas para desvendar a si mesmo. Essa segunda parte
é muito sutil, incerta e duvidosa. Enquanto tenta manter seu disfarce, ele lida com sua namorada
Nancy (Karen Allen, de Os Caçadores da Arca Perdida). “Tem coisas sobre mim que você não
sabe.”, diz Burns a ela. Parceiros da Noite se equilibra no fio da navalha para não cair
em lugar-comum, nem na narrativa da investigação de serial killer (inspirou muitos filmes
do mesmo gênero anos depois) nem no estudo de personagem principal. Em meio à pesada
violência e sexualidade, Friedkin solta pistas e detalhes que confundem, mas com um suposto
propósito que o espectador tem que buscar, se houver interesse. O assassino, por exemplo,
é interpretado por vários atores. Mas será que essa incoerência não quer dizer algo
sobre o próprio Steve Burns? Por que o(s) assassino(s) mata(m)? As respostas estão lá,
embora uma grande interrogação apareça no final. Friedkin é mestre em desestabilizar
quem assiste a seus filmes, e Parceiros da Noite é o maior exemplo disso. Mais um
excelente
trabalho de redescoberta de bons filmes esquecidos, pela Lume Filmes.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
TODA FORMA DE AMOR ![]()
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Beginners EUA 2011 1h51min
de Mike Mills com Ewan McGregor, Christopher Plummer, Mélanie Laurent, Goran Visnjic
Em DVD pela Universal
por Filipe Marcena
OPINIÃO Mike Mills deve ter complexo de Peter Pan. Talvez exista nele um terrível pavor
de deixar de ser jovem. Seu primeiro filme após a fama dirigindo clipes de R.E.M., Air e Moby,
o pequeno e cultuado Impulsividade, contava a história de um rapaz que sofria e fazia todos
sofrerem com seu incontrolável vício de chupar o dedo polegar. Agora, com seu novo e bem
sucedido Toda Forma de Amor, ele vem com uma teoria ainda mais pró-juventude: a de que
somos sempre iniciantes (ou beginners, como no título original). Não são adolescentes que
protagonizam essa história, mas um casal de adultos e um senhor de idade que encontram
frescor e novo alento em suas vidas ao aceitarem-se como são. Soa mais piegas no papel
do que no filme, embora o segundo não seja livre de culpa. Mills parece ter se infectado com
a ‘fofura’ que infesta o cinema indie e que tem causado distrações desnecessárias em filmes
de cineastas até competentes. A fofura de Toda Forma de Amor é mais orgânica do que
em um filme da Miranda July, por exemplo, mas ainda assim dissolve parte do impacto.
Impacto que poderia ser estrondoso, já que se trata de uma história pessoal de Mills.
Seu alterego é Oliver (Ewan McGregor, deslocado), homem de 38 anos que ainda não
é um adulto completo. Ele fala com seu cachorro Arthur, é tímido com as garotas, pixa
muros com os amigos e sofre no emprego de desenhista e cartunista. Tudo vira de
ponta-cabeça quando a) seu pai Hal (Christopher Plummer, excelente) assume-se gay
após a morte da matriarca e b) a chegada da atriz Anna (Mélanie Laurent, de Bastardos Inglórios)
em sua vida. No meio tempo, flashbacks da vida de Oliver com sua excêntrica mãe Geórgia
(Mary Page Keller). Uma premissa sólida que poderia gerar um filme convencional e emocionante.
Não é o primeiro, mas também não é o segundo. Mills tenta uma narrativa audaciosa e solta
no tempo, cheia de paradas bruscas para narrar pequenos fatos históricos e pessoais com
narração em off. O ritmo é acertado pela montagem precisa, mas não-linearidade ocorre
em detrimento da história, e não ao seu favor. Com exceção de Hal, que ganha muito por
ter um ator genial como intérprete, os personagens de Toda Forma de Amor estão
numa busca constante por uma alma que o filme não os oferece em sua completude.
McGregor e Laurent fazem de tudo para nos convencer do seu romance, mas a gente só
acredita porque o roteiro pede, e eles nem são tão desinteressantes. Adicione todas as coisas
deliberadamente fofas e temos um produto com mercado certo, mas ressonância questionável.
Estou sendo severo com o filme, provavelmente porque eu tinha grandes expectativas.
De maneira nenhuma Toda Forma de Amor é um desastre, tem sim seus momentos de doçura
honesta e insights sobre o que é se sentir um peixe fora d’água. Só não atingiu o potencial
que o filme me parecia ter. Pelo menos Mills tem a cabeça e o coração no lugar certo.
Destaque também para Goran Visnjic como Andy, o avoado namorado de Hal.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
TURNÊ ![]()
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Tournée França 2010 1h51min
de Mathieu Amalric com Amalric, Miranda Colclasure, Suzanne Ramsey, Dirty Martini
Em DVD pela Imovision
por Filipe Marcena
OPINIÃO O conhecido ator francês Mathieu Amalric não é nenhum iniciante
em se tratando de direção cinematográfica. Turnê é o seu terceiro
filme atrás das câmeras, mas foi o primeiro a ser reconhecido
por um público maior, principalmente após ganhar o prêmio de melhor
direção em Cannes 2010. O que, por sinal, não foi um prêmio bairrista.
Amalric acertou em cheio na conversão de sua experiência como ator
para a mise-en-scene, especialmente no que concerne ao elenco.
Ele apresenta uma força impressionante na construção de imagens
de estética realista, filmando tomadas que se equilibram entre
o documental e o pré-concebido com facilidade invejável.
O filme é sobre uma trupe de veteranas 'garotas' (leia-se artistas
em decadência) americanas que são guiadas por Joachim Zand (Amalric,
sempre excelente ator), produtor neurótico e malandro, durante um tour
pela França com um espetáculo neoburlesco e, muitas vezes, grotesco.
Enquanto todos desejam realizar a apresentação final em Paris num palco
digno, o grupo segue a vida no submundo atando e desatando nós
de relacionamentos e tentando pôr um pouco de controle no caos
que a vida está no momento. Turnê não é exatamente um filme
de entretenimento, tampouco uma comédia irreverente como o que
geralmente é realizado com personagens desse tipo, apesar de conter
elementos destes. O olhar de Amalric aponta para o interior desses
seres humanos, seus figurinos contrastam com a melancolia pungente
que brota de algumas cenas mais invasivas e delicadas. Os corpos
maltratados, mas não menos venerados das atrizes, são explorados
sem receios, mas com um respeito de quem pediu licença para observar.
alando nas moças, destaca-se a plantinada Mimi Le Meaux,
que ganha destaque ao longo da narrativa, na sua relação com Zand.
Mesmo seguindo numa nota melancólica, Turnê ganha fácil o espectador
graças a fidelidade com que aborda seus carismáticos personagens
e impressiona pelo talento de Amalric na composição de personagens,
planos e conceitos do seu filme.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
HUNGER ![]()
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Hunger Inglaterra/Irlanda 2008 1h36min
de Steve McQueen com Michael Fassbender, Liam Cunningham, Stuart Graham
Disponível para download
por Filipe Marcena
OPINIÃO Enquanto assistia a Hunger (Fome), minha percepção sobre o meu próprio corpo
passou por uma montanha-russa alterações. A princípio, a dor e o desconforto físico enquadrados
com apuro clínico nos frames me fez repensar o termo ‘sensorial’, palavra que tem se tornado
desculpa esfarrapada para pessoas metidas à besta realizarem ‘obras’ tão vanguardistas quanto
o último filme do Adam Sandler. O filme investe em nossos sentidos para construir seus significados.
Após uma hora, eu podia sentir meu corpo doendo com a verossímil degradação filmada de um
personagem/ator. Súbita e bem-vinda compreensão da fragilidade de nossas carcaças. Como
pode uma imagem doer? Ao fim do filme, ainda me retorcendo em agonia, concluí que Hunger
não é sobre as nossas fraquezas físicas mediante o rolo compressor do autoritarismo desumano,
mas sobre a nossa força. Força que está além da carne e dos ossos, que reside em nossas
convicções. E é belo como Steve McQueen, diretor e coroteirista ao lado de Enda Walsh,
reflete sobre nossa condição quase que puramente através de imagens.
Hunger é quase um filme mudo. Com exceção de um impressionante diálogo filmado em
um plano-sequência de quase 20 minutos, poucas palavras são ditas, e a maioria destas são
veículos para a narrativa e imagens de McQueen. É um tocante tributo aos membros do IRA,
organização armada que desejava tirar a Irlanda do Norte do Reino Unido para construir uma
república socialista nos anos 60. A história real desses voluntários políticos é o foco das lentes
do filme, especialmente o mártir Bobby Sands. Hunger aborda o período de prisão e greves
enfrentados por esse grupo, que protestava contra a remoção do status político dos membros
do IRA, que passaram a ser tratados como prisioneiros comuns pelo governo. Embora Sands
tenha sido o líder da greve de fome de 1981, essa foi a terceira realizada pelo grupo. E embora
Sands seja o ‘dono’ do filme, McQueen foi hábil em mostrar as outras forças envolvidas no processo.
E que filme rico em personagens marcantes. Desde o guarda policial Raymond Lohan (Stuart Graham)
que trabalha no presídio HM e que é o foco nos minutos iniciais do filme, até os prisioneiros Davey
(Brian Milligan) e Gerry (Liam McMahon), o primeiro recém-chegado e o segundo preso há alguns
anos, passando pelo jovem guarda em crise com seu dever repressor (e ele mal tem 5 minutos
em cena), as figuras que permeiam Hunger são donos de imagens fortes e reveladoras.
O padre Dominic Moran (Liam Cunningham) também tem um importante espaço no
já mencionado diálogo sem cortes, mas é preciso dar destaque ao trabalho inacreditável
do intérprete de Bobby Sands, o alemão Michael Fassbender.
A simbólica cena que abre o filme mostra a primeira greve dos membros do IRA, a ‘greve
barulhenta’. Quando adentramos o presídio, acompanhamos a ‘greve fedorenta’, onde os
prisioneiros passavam fezes nas paredes e derramavam urina nos corredores do pavilhão.
Bobby Sands só aparece depois de 40 minutos de filme. Seu espírito de liderança chama
a atenção, e Fassbender captura a revolta, a inteligência e a ponta de esperança que existe
no homem enclausurado e submetido a várias torturas e abusos nas mãos dos policiais.
Quando a terceira greve, a de fome, tem início, é que se vê até onde o ator estava disposto
a ir pelo filme. Com 1,83m de altura e pesando 59kg, o Bobby Sands de Michael Fassbender
impõe sua convicção com algumas poucas tomadas. A moralidade da greve de fome, discutida
no diálogo com o padre, se põe em imagem visual, e é algo indescritível. Hunger filma
a beleza da deterioração, que existe através do símbolo e da determinação de Bobby Sands
e dos outros tantos que morreram na greve por suas causas políticas. A brilhante referência
ao clássico do ‘kitchen sink drama’ britânico A Solidão do Corredor de Longa Distância,
de Tony Richardson, é um pequeno grande detalhe. Hunger nunca foi lançado no Brasil,
portanto eu insisto para que o leitor importe eu baixe o filme para testemunhar a revelação
de um cineasta muito promissor, a entrega de um ator que felizmente vem sendo reconhecido
pelo seu trabalho impecável, e uma história que nos inspira dando um soco no estômago.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
ATRAÇÃO PERIGOSA ![]()
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The Town EUA 2010 1h35min
de Wes Anderson com Ben Affleck, Jon Hamm, Rebecca Hall, Blake Lively, Jeremy Renner
Disponível para Warner Bros.
por Filipe Marcena
OPINIÃO Em seu segundo longa-metragem, Ben Affleck volta a focalizar
suas lentes na sua cidade natal Boston, como o fez em sua ótima
estréia Medo da Verdade, de 2007. Também é sua segunda adaptação
literária, dessa vez baseado no livro Prince of Thieves, de Chuck Hogan.
Se no anterior, baseado em Gone Baby Gone de Denis Lehane, Affleck
levantava questões morais e filosóficas com seriedade e impacto,
em Atração Perigosa ele produz uma obra mais próxima do lugar comum
de 'filmes de roubo', sem trazer maiores inovações, mas ainda assim
acima da média. Foi um sucesso de público e crítica em 2010 e estrou
nos cinemas brasileiros, mas por algum motivo obscuro acabou não entrando
em cartaz no Recife (acredito que o sucesso estrondoso de Tropa de Elite 2,
que estreara duas semanas antes de Atração Perigosa e atraiu o mesmo
público, tenha sido o principal motivo). De qualquer forma, o filme
sobrevive bem na telinha, até por ser um trabalho bastante televisivo.
Além de dirigir, Ben Affleck interpreta o ladrão de bancos Doug MacRay,
líder de uma quadrilha do bairro Charlestown que também inclui seu melhor
amigo Jem (Jeremy Renner, indicado ao Oscar pelo papel). No assalto que inicia
o filme, o grupo toma a bancária Claire Keesey (Rebecca Hall, de Sentimento
de Culpa) como refém, liberando-a logo em seguida.Jem descobre que a moça
mora nos arredores do local onde os bandidos se reúnem e Doug vai investigar
se ela tem alguma informação que pode incriminá-los. O conflito começa quando
Doug e Claire se apaixonam e um agente do FBI (John Hamm) assa a persegui-la.
Trata-se basicamente de um romance com a cidade campeã em assaltos Boston
servindo como pano de fundo. Affleck dirige com competência as cenas de ação
e seus atores, mas não procura maiores profundidades nem ambições como cinema.
Ao menos Atração Perigosa nunca peca pelo ritmo em suas duas horas de duração.
A ligeira decepção que fica é por causa das inevitáveis comparações ao filme
anterior de Affleck. Tinha uma expectativa grande para esse filme, é já comentei
no Dicas de Cinéfilo o quanto gosto de Medo da Verdade. Ainda assim,
o filme não frustra cinéfilos em busca de entretenimento de qualidade.
Destaque para a sequência do assalto com os disfarces de freira.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
BOTTLE ROCKET - PURA ADRENALINA ![]()
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Bottle Rocket EUA 1996 1h35min
de Wes Anderson com Luke Wilson, Owen Wilson, Robert Musgrave, Lumi Cavazos
Disponível para download
por Filipe Marcena
OPINIÃO Não sou fã de Wes Anderson. Gosto de seus filmes de longe, sempre com algum
enjoo e pouco ou nenhum contato emocional - com exceção de A Vida Aquática com Steve Zissou,
que eu acho insuportável e nunca consegui terminar de assistir. Sou capaz de tolerar sua
autoindulgência por que tende a ser ligeiramente divertida quando bem executada, mas
no geral me incomoda o estilo de direção, a afetação e a arbitrariedade de suas histórias,
mesmo que elas digam algo interessante. Dito isso, Bottle Rocket - Pura Adrenalina
(lançado apenas em VHS) foi uma estreia muito competente para Anderson. Tem as mesmas
características de seus outros filmes, mas aqui o espírito ‘indie excêntrico’ e as limitações contam
a favor. O filme também marca a primeira de três colaborações de Owen Wilson como roteirista
parceiro de Anderson (também escreveram Rushmore – Três é Demais e foram indicados
ao Oscar pelo roteiro de Os Excêntricos Tenenbauns). Owen e seu irmão Luke Wilson devem
suas carreiras a Bottle Rocket - Pura Adrenalina, que também é a estreia dos irmãos no cinema.
Anthony (Luke) acaba de sair do hospício, onde passou um bom tempo após ter desistido
da vida e desaparecer no deserto. Na saída, encontra-se com Dignan (Owen), amigo ainda
mais perturbado que ele. Ambos são criminosos muito incompetentes, embora Dignan tenha
toda a sua vida de ladrão planejada num caderno. Junto com o patético parceiro Bob (Musgrave),
eles vão à procura de aventura e crimes na estrada, onde a última parada é o perigoso criminoso
Sr. Henry (James Caan), com quem Dignan aprendeu tudo o que sabe. No meio do caminho
haverá muitas pedras - e uma linda camareira paraguaia chamada Inez (Cavazos),
por quem Anthony se apaixona quando hospedado num hotel de quinta.
O filme é conciso e muito bem sucedido ao retratar a sensação de estagnação frente ao
futuro quiçá promissor, ao eterno sonho não concretizado, ao potencial nunca atingido.
Bottle Rocket - Pura Adrenalina é um grito contra aquele espírito terrorista norte-americano
(e que ainda se propaga por aqui) onde a meta é o destino perfeito da classe média hipócrita,
com casa, mulher e carro na garagem. Anthony chega a ensaiar esse arquétipo do homem
americano
ideal com sua amada Inez, mas o filme prontamente coloca o destino/deus ex machina/acaso
para limpar esse ideal da cabeça dos personagens. E o filme nem é niilista: se o que sobra dos
sonhos são as ruínas, o fato é que esses homens lesados e pouco espertos viveram suas vidas
com alguma plenitude. A irônica "pura adrenalina" do título usado na TV paga não é a mesma
dos personagens extraordinários dos filmes pipoca, mas a do homem ordinário que procura
um
motivo pra viver. É esquisito, engraçado, definitivamente excêntrico e, para minha surpresa, tocante.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
HANNA ![]()
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Hanna Inglaterra/EUA 2011 1h51min
de Joe Wright com Saoirse Ronan, Eric Bana, Cate Blanchett, Olivia Williams, Tom Hollander
Em DVD pela Sony Pictures
por Filipe Marcena
OPINIÃO Quando se imagina num filme de ação estrelado por uma garota de 15 anos treinada
para ser uma assassina implacável, não se pensa em Joe Wright. O inglês, famoso por realizar
as competentes adaptações de Orgulho e Preconceito de Jane Austen e Desejo e Reparação
de Ian McEwan, ambos são dramas românticos de época com cara de Oscar, foi convidado
pela jovem atriz Saoirse Ronan para dirigir esse projeto, que já havia tido nomes como
Danny Boyle e Alfonso Cuarón atrelados à produção. Ronan, indicada ao Oscar por seu papel
de Briony Tallis em Desejo e Reparação, fez questão de trabalhar com Wright novamente.
Ambos vinham de dois filmes ruins e fracassados (ela, Um Olhar do Paraíso, ele, O Solista),
então nada como tentar algo diferente com uma equipe que já havia dado certo? Assim nasceu
Hanna, um filme esquizo-pop que, a princípio, lida com o amadurecimento e com as desilusões
que vem com ele. É uma boa tentativa de Wright num gênero com o qual ele nunca trabalhou,
mas no risco, ele deixou transparecer seus maiores defeitos como cineasta.
Hanna (Ronan) mora numa floresta europeia com seu pai Erik (Eric Bana). Ela é uma assassina
"‘perfeita", e o filme usa um bom tempo em tentativas de nos mostrar o quanto Hanna é rápida,
esperta e fatal. Como toda jovem, Hanna quer sair debaixo da asa de seu pai e andar pelo mundo.
Mas existe um fator antagônico: Marissa (Cate Blanchett), uma agente CIA corrupta. Para poder
viver em liberdade, Hanna precisa matá-la. Para matá-la, Hanna precisa atraí-la para o local
onde se esconde através de um transmissor. Ela clama que está pronta para enfrentá-la e ativa
o dispositivo, que é quando o filme decide mostrar a que veio. Wright convidou o Chemical Brothers
para compor a trilha sonora de Hanna. E é uma boa trilha, que funciona especialmente bem nas
cenas de perseguição. O problema é que Wright parece ter se encantado com a música mais do que
deveria, e transformou o filme num grande videoclipe. Montagem, mise-en-scene, efeitos de pós-produção
e o diabo a quatro tem a obrigação de tornar Hanna em um filme cool. Até certo ponto, engana.
O estilo despojado e frenético escolhido por Wright termina por se sobrepor ao roteiro. O cineasta
acredita piamente que o texto é forte e dramaticamente potente o suficiente para segurar a pirotecnia,
um engano que torna o filme desinteressante com o passar do tempo. Personagens bidimensionais
enfraquecem ainda mais o longa, especialmente os vilões de Blanchett e Tom Hollander, aqui
brincando de caricaturar a assassina fria e calculista e o gay afetado. Olivia Williams e Jason Flemyng
são subutilizados, enquanto Eric Bana protagoniza um plano-sequência de luta que deixa muito
a desejar quando comparado a famosa cena de guerra de Desejo e Reparação, e o ator mais uma
vez aparece esquecível. Segurando as pontas está mais uma vez Saoirse Ronan, uma atriz fabulosa
e que convence inclusive nas cenas de pancadaria. Se Hanna causa alguma empatia, é por causa dela.
Até quando precisa suprir os buracos do roteiro, Ronan convence (como é que uma assassina
"perfeita" não sabe o que é luz elétrica?). Quando o filme decide tomar outro rumo de gênero
já é tarde demais, e não sobra muita coisa quando sobem os créditos. Só a lembrança de alguns
momentos divertidos e a impressão de que poderia ter sido um filme melhor. Wright deve ter
pensado da mesma maneira e partiu pra adaptar Anna Karenina de Leo Tolstoi, novamente
com Keira Knightley no papel central. Que seja uma boa volta à forma que ele domina.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
O DIA DA BESTA ![]()
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El Dia de la Bestia Espanha 1995 1h43min
de Alex de la Iglesia com Alex Angulo, Armando de Razza, Maria Grazia Cucinotta
Disponível para download
por Filipe Marcena
OPINIÃO Alex de La Iglesia surgiu em meados dos anos 90, quando o cinema de gênero
americano começava a decair (Pânico sendo o último respiro em 1997). Seu nome veio
à tona junto com outros cineastas de língua espanhola especializados em filmes de gênero,
sendo eles Robert Rodriguez (Um Drink no Inferno), Alejandro Amenábar (Tesis) e Guillermo
del Toro (Cronos). De La Iglesia é um dos que tem a filmografia mais consistente, pondo
em perspectiva. Com exceção do fracassado Enigma de um Crime, única produção americana,
os filmes de De La Iglesia se comunicam muito entre si. Por exemplo, o maravilhoso
O Dia da Besta é um filme obviamente primo do mais recente Balada do Amor e do Ódio.
Ambos são alegorias sangrentas de épocas conturbadas da Espanha, banhados numa comicidade
cartunesca e num realismo absurdo. O Dia da Besta, que possui raízes em Sam Raimi (que por
sua vez parece ter se inspirado em alguns elementos do espanhol para Arraste-me Para o Inferno),
é um divertido filme B que parece ser mais caro do que realmente é e esse é um de seus charmes.
A abertura é genial: o padre e professor Cura (Alex Angulo, lembrando algo de Robert De Niro
das antigas) discute com um sacerdote sobre algo terrível que está prestes a acontecer.
“Eu pretendo cometer todo o mal que eu puder”, diz Cura, para um horrorizado sacerdote.
Mal sabe ele que a imensa cruz da igreja será um peso em sua vida.
Humor negro e a concretização de improbabilidades guiam O Dia da Besta, que só revela suas
verdadeiras intenções depois de 20 minutos de projeção. O padre Cura descobre que o filho
do Diabo nascerá no dia seguinte – que curiosamente é dia de Natal – e precisa descobrir onde
isso vai acontecer para poder assassinar a besta e impedir o fim do mundo. Para isso contará
com a ajuda do metaleiro demente José María (Santiago Segura) e do apresentador de TV
e falsário Cavan (Armando de Razza). A apresentação de Cavan no filme merece todo o crédito
do mundo por inserir uma ligeira referência à Xuxa numa cena de exorcismo (as lendas envolvendo
as canções tocadas ao contrário e as bonecas amaldiçoadas aparentemente se espalharam pelo mundo).
O que torna O Dia da Besta genial é a total incredulidade de todos, inclusive do filme, em relação
ao padre e sua crença. Na maior das loucuras e viagens do personagem, sempre existe algo que
põe um pé do filme na realidade. E quando isso é posto em contraste com o conceito de "Inferno
na Terra", com o grupo de terroristas chamados Limpa Madri cometendo crimes a torto e a direito,
nasce um sarcasmo que é uma verdadeira porrada na cara da religiosidade cega, um ‘abra os olhos’
que esfrega nossa cara onde nós devemos prestar atenção. Por trás de toda a violência exagerada
(Rosario, a dona do hotel, é inesquecível), existem ideias poderosas sobre apatia social.
É pura blasfêmia, como qualquer filme que aborde o Satanás deve ser. E ainda é um
exercício de gênero fenomenal. Altamente recomendado.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
A EDIÇÃO DE SETEMBRO ![]()
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The September Issue EUA 2009 1h30min
documentário de R. J. Cutler com Anna Wintour, Grace Coddington, Oscar de la Renta
Disponível para download
por Filipe Marcena
OPINIÃO A não ser que você seja um aficionado pela indústria da moda e da alta costura
ou ao menos minimamente conhecedor de cultura pop e de pessoas que influenciam o mundo
de alguma maneira, você não faz ideia de quem seja Anna Wintour. Mas você provavelmente
assistiu O Diabo Veste Prada e lembra do cão chupando manga que era Meryl Streep como
Miranda Priestly, a editora chefe dos infernos da falsa revista de moda Runaway. O filme é inspirado
no best-seller homônimo de Lauren Weisberger, uma quase autobiografia. Isso porque Lauren,
que no livro e no filme fala através de seu alterego Andy Sachs (interpretada por Anne Hathaway
no cinema), supostamente comeu o pão que o diabo amassou quando se tornou assistente
de Anna Wintour,
editora chefe da revista Vogue. O sucesso do livro e do filme foi a vingança
perfeita, e mesmo que nunca
fique claro que a história é inspirada na vida real, a notícia se espalhou
rapidamente. Wintour,
muito classuda, foi de Prada para a pré-estreia do filme em 2006, numa
tentativa de mostrar seu bom humor. Mas não iria demorar muito para ela fazer algo a respeito
de sua imagem pública. Em 2009 entrou em cartaz o documentário A Edição de Setembro.
É um filme que, embora seja obviamente comprado e esteja longe de ser uma obra-prima,
funciona por ser um estudo revelador sobre a persona de Wintour e seu universo.
Para quem não sabe (como eu não sabia até assistir ao filme), a edição de setembro da Vogue
é uma espécie de bíblia sazonal da moda. Setembro é o janeiro da indústria, e tal edição adianta
tudo o que estará em voga nas passarelas e nas lojas pelo próximo ano, começando pela primavera
americana. Esse é o ponto de partida do documentário, observar como é o andamento da produção
da revista na preparação da edição mais importante do ano, que começa meses antes,
durante a produção
das edições que a antecedem. Quanto à edição de setembro em si,
o filme é bastante neutro. Está mais
pra um making of que mostra os detalhes e idiossincrasias
do processo de edição com alguma curiosidade.
O diretor R. J. Cutler usa músicas de passarela
para dar o tom do filme, logo assumindo seu prazer
por esse mundo. Jamais é um problemas,
mas ameaça o filme de se tornar medíocre e esquecível. A Edição de Setembro só vira
um documentário de verdade quando se mostra interessado
em seus personagens.
Wintour não parece estar muito longe da Miranda Priestly de Streep
(a expressão que ela
faz quando um estilista apresenta sua nova coleção parece recriar uma cena do filme),
embora no filme ela não faça tantas malvadezas. O curioso é que ela tem algo de caricatural
em sua figura
(ela inspirou inclusive a estilista Edna Mode, da animação Os Incríveis).
Wintour comanda
a revista com punho de ferro
e sua palavra é a final, para o desespero
dos editores.
Em alguns momentos ela parece querer dizer “Veja! Não sou tão cruel
quanto a Miranda!”,
como quando ela divide o elevador com outras pessoas ou vai comprar
seu próprio café (de motorista).
Quando Wintour fala para a câmera é que ela parte
para a interpretação. Não é necessário
um olho tão vivo para perceber que sua linguagem
corporal e palavras não condizem
com os olhos quando ela fala sobre si mesma.
Não é que ela seja mesmo o diabo,
mas ela nunca me convenceu em seus depoimentos
mais pessoais. O excesso de ‘maquiagem’ nas imagens de Wintour abrem espaço para a verdadeira
estrela do filme: Grace Coddington,
principal editora da revista depois da patroa malvada e amiga
de Wintour há décadas.
Coddington era modelo e inclusive fez participação em Blow-Up
de Antonioni antes de partir
para o mercado editorial. O que torna ela mais interessante
que a suposta protagonista do filme é que ela não finge. Seu rosto, cabelos, roupas, palavras
e atitudes são capturadas pela câmera
indiscreta de Cutler com espontaneidade. Coddington
é inclusive responsável pelos depoimentos
mais tocantes e por tornar o filme menos burocrático
ao incluir (sem autorização prévia de Anna
Wintour)
a própria equipe do filme na edição de setembro
da Vogue. Não fosse pela inesquecível
Grace Coddington
e pelo quase
tiro no pé de Anna Wintour,
A Edição de Setembro passaria batido.
Menos, é claro, para os fiéis da igreja da moda.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
BRÓDER ![]()
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Brasil 2011 1h33min
de Jefferson De com Caio Blat, Jonathan Haagensen, Silvio Guindane, Cássia Kiss
Em DVD pela Sony Pictures
por Filipe Marcena
OPINIÃO A moda do ‘cinema-favela’ brasileiro amenizou nesses últimos anos. A última incursão
desse subgênero que vimos nos cinemas do Recife foi a simpática e irregular coletânea de curtas
5x Favela – Agora por Nós Mesmos, produzida por Cacá Diegues. Mas se esse filme já teve uma
passagem relâmpago e atrasada por aqui, o que dizer de Bróder, facilmente um dos melhores
filmes nacionais do ano e que não teve oportunidade em nenhuma de nossas salas? Dirigido pelo
estreante em longas-metragens Jeferson De, Bróder é o verdadeiro ‘agora por nós mesmos’:
a ação é toda concentrada no bairro do Capão Redondo, subúrbio de São Paulo, onde Jefferson
cresceu. A câmera conhece o lugar e tem um forte interesse em nos fazer conhecer também,
através de uma história que, embora não traga nada de muito novo, é muito bem contada.
Os clichês do cinema-favela são reutilizados com perspicácia pelo diretor, que os utiliza
a favor da tensão e da empatia emocional. E é um filme muito acessível, de caráter
comercial e popular (não é a toa que foi lançado pela major Sony Pictures).
O elenco, muito bem selecionado, é encabeçado por um excelente Caio Blat.
Ele interpreta Marco Aurélio, ou Macu, um "‘mano" por natureza, que está comemorando
aniversário. Sua mãe, Sonia (Cássia Kiss), prepara uma festa surpresa, que contará com
a presença de dois amigos de infância dele, o jogador de futebol Jaiminho (Jonathan Haagensen)
e Pibe (Silvio Guindane), casado e formado em direito. Os três se reunirão pela primeira vez
em anos. A nostalgia pela juventude, época onde a vida era mais divertida, toma os amigos
de assalto. Antigas histórias ressurgirão. E o crime organizado que se sustenta nas entranhas
do lugar ameaça a amizade e a vida deles. Embora as estruturas de Bróder fiquem bem
expostas, o filme funciona muito bem graças aos cuidados técnicos, a mão segura
de Jefferson e aos atores talentosos. Caio Blat é particularmente bem sucedido em sua
caracterização, que poderia muito bem virar uma caricatura cheia de cacoetes e nunca o é.
Bróder estuda seus personagens, nos envolve com eles e nos compensa carregado
de poder dramático. Tem que ser descoberto pelo público o quanto antes.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
O PLANETA DOS MACACOS ![]()
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Planet of the Apes EUA 1968 1h58min
de Franklin J. Schaffner com Charlton Heston, Roddy McDowall, Kim Hunter
Em DVD pela Fox Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO A única coisa boa que se pode tirar da crise criativa em que Hollywood se encontra
é relembrar os clássicos que eles tanto refazem, continuam, revisitam e recomeçam. Ultimamente,
nem apostar em títulos reconhecíveis para atrair os desavisados de volta aos cinemas tem sido
uma estratégia muito bem sucedida, vide os recentes fracassos de Pânico 4, A Hora do Espanto
e Conan – O Bárbaro. Mas quando se fala em O Planeta dos Macacos a história é bem diferente.
Nenhum dos filmes da série falhou em chamar a atenção dos cinéfilos. O mais recente, subintitulado
A Origem, surpreendeu nas bilheterias, batendo inclusive os números de X-Men – Primeira Classe
e ainda contando. O remake comandado por Tim Burton em 2001, embora pouco querido por
quem assistiu, foi um hit mundial. E o original, lançado em 1968, também foi um blockbuster
à sua maneira. Afinal, o que há de tão atraente nessa história sobre símios e humanos trocando
de posição social? A resposta pode ser facilmente encontrada no primeiro de filme, de Franklin
J. Schaffner (Patton, Papillon) e adaptado diretamente da obra literária de Pierre Boule.
Um grupo de astronautas liderado por Taylor (Charlton Heston) realiza um pouso forçado num
planeta desconhecido durante uma longa missão. Aparentemente desabitado, o planeta apresenta
sinais de vida humana. Logo eles percebem que os humanos que ali vivem são dominados
por macacos racionais e reacionários, que consideram os humanos uma raça primata e parasita.
Taylor acaba sendo caçado, preso numa jaula e usado em experimentos científicos. É quando
ele conhece Zira (Kim Hunter), uma macaca cientista cuja curiosidade é despertada pela chegada
desse homem. Ela e seu marido Cornelius (Roddy McDowall) acabam se tornando a defesa
de Taylor quando este vai a julgamento no planeta dos macacos. Em essência, o filme questiona
as instituições que sustentam (ou corroem) a sociedade, pondo o ser humano na posição
do subversivo. Nunca vi um filme de estúdio criticar tão abertamente a moralidade e a teocracia,
impossível hoje a Fox investir uma grande quantia dinheiro numa obra com esse teor (quando
se menciona religião hoje no cinema, na maioria das vezes é para pregar). Esse sentimento
de insatisfação e rebeldia contra o dito mundo civilizado guia o filme.
A produção é impressionante. Investiu pesado na maquiagem de macaco dos atores, que ainda
funcionam bem mais de 40 anos depois e não atrapalham tanto a interpretação – Hunter está
particularmente cativante como Zira; os cenários da cidade símia, inspirados na obra de Antoni
Gaudí, são excepcionais; e claro, a incrível trilha sonora de Jerry Goldsmith, a primeira totalmente
atonal da história do cinema, situa a atmosfera do filme à perfeição. A trilha é tão bem utilizada
que eles inclusive a excluem do gran finale, um epílogo ainda muito impactante em seu niilismo
e força visual, e o silêncio que encerra Planeta dos Macacos é crucial nesse impacto. Devemos
isso à Heston, que insistiu para que esse final fosse mantido, ao invés do final do livro (optado
no remake de Burton) ou o final feliz do estúdio. Recomendo fortemente assistir a essa versão
antes de visitar Planeta dos Macacos – A Origem nos cinemas, já que os criadores dessa nova
sequência fizeram algumas boas rimas e referências ao original que melhoram a experiência.
O
Planeta dos Macacos pode ter alguns momentos datados, mas ainda faz jus ao seu status
de clássico. E o ano em que foi lançado diz muito sobre o estado de espírito do filme.
O DVD duplo especial da edição comemorativa de 35 anos vem com uma tonelada
de material extra, incluindo bastidores, making of, cenas excluídas, testes de maquiagem,
comentários em áudio com equipe, críticas e muitos outros mimos. Obrigatório.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
A INFORMANTE ![]()
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The Whistleblower Alemanha/Canadá 2011 1h58min
de Larysa Kondracki com Rachel Weisz, Vanessa Redgrave, Monica Bellucci, David Strathairn
Em DVD pela Imagem Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO É terrível o que acontece com jovens moças que caem nas armadilhas
do tráfico humano. Relatos, matérias jornalísticas, livros e filmes espalham pelo mundo
o submundo da escravidão sexual. Um exemplo recente é o brasileiro Anjos do Sol,
sobre crianças que são vendidas à prostíbulos no interior nordestino. Este ano,
o surpreendente Sucker Punch lidou com o assunto de maneira subjetiva e metafórica,
com um insuspeito pé na realidade. Já este A Informante, ainda em vias de lançamento
nos cinemas do mundo, mas já disponível em DVD no Brasil pela Imagens Filmes
(a mesma que lançou o oscarizado Guerra ao Terror cedo demais), traz o selo "baseado
em fatos reais" para chamar atenção à uma história recente da Bósnia. Esses filmes
correm o risco de serem tão exploradores quanto os algozes das mulheres seqüestradas,
então é bom ter razões aceitáveis para narrar essas histórias.
A tradução literal de whistleblower é "aquele/a que assovia". Mas o assovio aqui simboliza
a atitude corajosa da americana Kathryn Bokovac, que delatou uma horripilante rede
de tráfico de garotas na Bósnia pós-guerra. Enviada para trabalhar na polícia local, Kathy
descobre o universo obscuro de um crime organizado, homens que seqüestram moças
de países próximos e as tratam como animais. Pior: a própria polícia estrangeira que
está lá para defender a paz, faz parte do jogo. Rodeada por homens machistas, Kathy
reúne forças e alianças para salvar a vida de uma garota chamada Raya e suas colegas
de escravidão. Mas o que importa em sua história não é seu esforço heróico em salvar
vidas, mas seu ‘assovio’. A verdadeira Bolkovac passou o inferno para que o mundo
soubesse dessa história e o mínimo que devemos fazer é ouvi-la, seja por depoimento,
livro ou adaptação cinematográfica autorizada pela própria. E A Informante é uma adaptação
correta, com um bom desempenho da cada vez mais linda Rachel Weisz e com a consciência
no lugar certo, embora o fino elenco de apoio nunca passa disso, um fino elenco de apoio.
É quando começam os problemas do filme. Já sabemos de antemão que se trata de uma história
real e depois percebemos que é sobre escravidão sexual. Desde o princípio concordamos, é algo
horrível e que ainda acontece debaixo de nossos narizes. O que o filme deveria fazer? Transcender
a história e transformá-la numa obra de arte cinematográfica. E a diretora estreante Larysa Kondracki
perde a oportunidade de fazê-lo. O filme não ultrapassa a barreira da literalidade (a não ser em seu
título), transformando uma história poderosa em algo que será reprisado várias vezes em futuros
Supercines. Depois da boa primeira meia hora, o filme passa a reiterar seu discurso continuamente,
o qual já havíamos concordado. Podemos nos lembrar do que nos foi dito, mas o filme será esquecido.
O final, por exemplo, perde a chance de concluir dignamente a história de sua heroína para assumir
de vez a estampa de filme-denúncia, numa colagem atrapalhada e mal arquitetada de depoimentos
encenados. Fica o dilema: recomendar o filme pela denúncia necessária ou rejeitá-lo por não sair
da mediocridade? Eu recomendaria uma boa matéria jornalística, mas não enxotaria o filme
por completo. Tem boas intenções aqui, alguma crueza (tem uma cena de tortura bem chocante,
mesmo que não tão gráfica), um desejo de se fazer ouvir. O filme só não sabe bem como.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
O HOMEM DOS OLHOS DE RAIO-X ![]()
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The Man With The X-Ray Eyes EUA 1963 1h19min
De Roger Corman com Ray Milland, Diana Van Der Vlis, Harold J. Stone, Don Rickles
Em DVD pela Classic Line
por Filipe Marcena
OPINIÃO Roger Corman influenciou meio mundo de gente com sua maneira de
fazer filmes. Nos anos 60 e 70, por exemplo, ele teve pupilos como Peter Bogdanovich,
Joe Dante, James Cameron, Monte Hellman, Jonathan Demme, John Sayles, Curtis Hanson,
Robert Towne, Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, e também deslanchou as carreiras
de Peter Fonda, David Carradine, Bruce Dern, Dennis Hopper, Robert De Niro e Jack Nicholson.
Ou seja, a maioria daquele pessoal louco que fez de Hollywood um lugar mais divertido algumas
décadas atrás, como narrado por Peter Biskind em Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n Roll
Salvou Hollywood, tinha algo de Corman. Não é a toa que até hoje ele é venerado. Sua mente
criativa e rápida em encontrar soluções de execução o permitia fazer filmes em um curto espaço
de tempo com um micro-orçamento, o que não o impedia de realizar obras bem acabadas.
Seus filmes são claramente B e Corman não tinha vergonha disso, usando as limitações de produção
a seu favor. Um belo exemplo é O Homem dos Olhos de Raio X, uma de suas pérolas.
Esse é um filme de uma fase mais recente de Corman, quando ele já era reconhecido e podia
escalar atores do naipe de Ray Milland (oscarizado pelo clássico de Billy Wilder Farrapo Humano).
Mesmo no seu auge, ele fazia questão de filmar com um orçamento baixo de U$250 mil e em
apenas 3 semanas (filmou outros 3 filmes em 1963). A introdução do filme é uma das mais estranhas
que já vi: um globo ocular em close-up que fica por mais ou menos um minuto na tela, olhando
para o espectador, para logo em seguida cair num líquido avermelhado e borbulhante. Perfeita
pista para a história do Dr. James Xavier (Milland, é muito bom ver um homem de verdade
em um papel de um homem de verdade num filme desse tipo, e não um adolescente ou um
adulto que pensa como um), um cientista que desenvolve experimentos com a visão humana.
Ele cria uma droga que, quando aplicada nos olhos, permite a pessoa enxergar além das
superfícies. Dr. Xavier aplica a droga em si mesmo e se encanta com seu achado. Primeiro
se utiliza dele para salvar vidas (grandes poderes trazem grandes responsabilidades... oh wait!),
mas quando comete um crime acidental passa a ser um fugitivo, indo trabalhar num circo.
Nesse meio tempo, seus olhos começam a enxergar bem mais do que ele jamais desejou.
O roteiro tem alguns problemas de narrativa (o crime cometido, por exemplo, é algo estapafúrdio),
e algumas transições na história parecem existir apenas para que ela transite, sem maiores
preocupações com coerência ou verossimilhança. Mas o que torna O Homem dos Olhos de Raio X
uma pérola B são seus visuais, noção de diversão e poder de choque, impressos com vigor na tela
por um inspirado Corman. Em certo ponto da trama, a Dra. Diana (Van der Vlis) leva o Dr. Xavier
para uma festa, e ele enxerga todos os casais dançantes completamente nus, numa cena inesperada
para um suspense sci-fi. Apesar do enredo sombrio e cada vez mais tenso, é um filme colorido,
meio kitsch, com efeitos especiais artesanais que, em sua maior parte, ainda funcionam muito bem.
O melhor é que o filme namora com questões metafísicas na parte final, concluído com um choque
que assombrará alguns e fará outros rirem. Cineastas contemporâneos do mundo todo precisam
aprender com o Corman: não é com grandes orçamentos e muita egotrip que se faz um bom filme.
Basta vontade e um bom olho de raio X pra imagem. Hail Corman!
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
A SERBIAN FILM - TERROR SEM LIMITES ![]()
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A Serbian Film Sérvia 2010 1h45min
De Srdjan Spasojevic com Srdjan Todorovic, Sergej Trifunovic, Jelena Gavrilovic
da Petrini Filmes
(proibido no Brasil)
por Filipe Marcena
OPINIÃO Gostaria de parabenizar as maravilhosas pessoas envolvidas na censura dessa
obra sérvia que, pelo que o título afirma, se considera um filme. Essa atitude absurda
e reacionária não só é uma demonstração e um alerta do quanto a sociedade brasileira
que se torna perigosamente conservadora e ignorante cada vez mais, trazendo à tona ecos
de uma não tão distante ditadura militar, como também geraram interesse e propaganda
gratuita a um filme que não merece. Pior: a única maneira de protestar contra a censura,
além de usar palavras, é exibindo/assistindo A Serbian Film, que está bem longe de ser
uma experiência interessante, que dirá marcante. Como recomendar a alguém esse filme,
mesmo sendo de extrema importância assisti-lo, ao menos no Brasil de hoje?
A Serbian Film quer se passar por comentário político e cultural sobre a Sérvia de hoje,
um país tão marcado pela violência de seus conflitos, através da história de Milos, um famoso
ator pornográfico cuja carreira está em declínio e que agora vive com mulher e filho. Ele é
convidado a participar de mais um filme, uma obra de ‘porno-arte’ (muitas aspas aí) dirigida
por um ambicioso homem chamado Vukmir. Ele topa participar por causa do dinheiro que vai
receber, mas não sabe do que se trata o filme em si. Quando as gravações começam, Milos
é obrigado a fazer cenas grotescas de sexo violento. Até os 40 minutos de A Serbian Film
eu me esforcei para comprar essa ideia de filme político, embora já houvesse desistido
do próprio filme. Mas o diretor Srdjan Spasojevic está obviamente mais interessado
na encenação das perversões do que em seu discurso – se é que ele realmente tinha um.
É quando fica claro que essa leitura político-social é papo furado e o que interessa é chocar.
E o filme choca, realmente. Choca pela incapacidade do diretor de tornar o mais banal
dos diálogos em algo verossímil, pelo incrível tédio que o filme proporciona, pelas péssimas
atuações, pelos diálogos inacreditáveis de tão ruins. Da metade para o fim, o filme é uma
coleção de cenas de estupro, degradação feminina, sangue escorrendo e pedofilia (obviamente)
encenada. Essas cenas perdem impacto porque a mise-en-scene não funciona e muitas vezes
elas estão totalmente descontextualizadas. A já famosa cena do ‘pornô recém-nascido’, que
ocorre após um dos piores diálogos do ano, entre Milos e Vukmir (este, aliás, um péssimo ator
em um péssimo papel), é tão gratuita, ridícula e toscamente filmada que é impossível não sentir
uma ponta de decepção pela expectativa frustrada. A ideia da cena é horripilante, a cena não.
Pra piorar, toda essa porcaria vem empacotada numa embalagem ‘de arte’, como se A Serbian
Film fosse algo mais elaborado que um Jogos Mortais da vida. Não é um filme ofensivo por
não medir os limites do trash e do violento (todo ano temos vários filmes que fazem isso),
mas porque é simplesmente muito ruim. Confrontar a censura é necessário, infelizmente o filme
é que não vale a pena. Até o fechamento desta edição, A Serbian Film está proibido no Brasil.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
AS LEIS DE FAMÍLIA ![]()
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Derecho de Família Argentina/Espanha 2006 1h42min
De Daniel Burman com Daniel Hendler, Julieta Diaz, Arturo Goetz
Em DVD pela Imovision
por Fernando Vasconcelos
OPINIÃO Essa semana o Dicas de Cinéfilo, graças à uma bela sessão lotada
no Cinema Apolo com um festival de curtas e longas argentinos (infelizmente
não noticiado aqui no Kinemail na edição passada porque não fomos informados),
destaca As Leis de Família do talentoso Daniel Burman (O Abraço Partido, Ninho
Vazio e Dois Irmãos, todos exibidos comercialmente no Brasil). Resgatamos o texto
escrito num Kinemail de 2007, encontrado nos meus 'arquivos quase perdidos':
"Já faz mais de um ano que vi esse filme na Mostra SP 2006. Dirigido pelo argentino
Daniel Burman (de O Abraço Partido, Top Ten Kinemail 2005, disponível em DVD).
As Leis de Família é uma comédia dramática popular e acessível, num registro que
lembra filmes de Woody Allen (a quem Burman é frequentemente comparado), e que só
ganha o maldito status de 'filme de arte' por não ser um filme hollywoodiano. E nem
tinha como. A sensibilidade, talento e inspiração que vemos no roteiro e feitura desse filme
não se encontra na média dos filmes americanos. Também é o caso de repetir pela enésima
vez: O que diabos é que tem na água dos argentinos que não tem na nossa? Incrível como
nossos vizinhos sul-americanos fazem cinema absurdamente superior ao que é feito no Brasil.
Vale comentar que o marketing vende o filme como uma comédia meio abilolada, a começar
pelo cartaz de cinema. Mas não se engane, é mais uma pérola do atual cinema argentino,
que vai te fazer rir e, certamente, também chorar. Como faz muito tempo que assisti,
fiquem com dois comentários da web que guardei em bloco de notas na época da Mostra SP
e dos quais
infelizmente perdi as fontes de referência para creditar os autores:
1. Bergman? Filme francês? Algum clássico do Antonioni? Que nada, é o argentino Daniel Burman
e seu As Leis de Família, que conseguiu a proeza de tocar em assuntos espinhosos e difíceis
de serem filmados como esses não só com a mesma profundidade dos mestres europeus da década
de 60 como também com muito humor, além da ginga latino-americana. Como é um dos típicos
filmes da 'nueva onda' argentina, trata-se de um pequeno drama familiar feito de maneira
simples, com extrema honestidade, sobre a Argentina da crise. São filmes encantadores e,
no caso desse As Leis de Familia, arrebatador. Com um roteiro impecável para uma história
tão direta e universal, bela fotografia, atores excepcionais e uma segurança inacreditável
para seus 34 anos, o jovem Burman fez uma obra original, sem um pingo do melodrama
latino televisivo que assola a produção brasileira, impedindo que nossos filmes alcancem
o nível dos argentinos, que têm hoje a mais sólida cinematografia sul-americana.
Daniel Burman veste de forma desavergonhada a camisa de cineasta judeu. E como tal não
deixa também de refletir em sua obra a herança de outros diretores judeus. De Woody Allen
vem a preferência por trabalhar com comédias agridoces, onde humor e drama se sobrepõem,
pontuadas por um protagonista que se apresenta como alter-ego do autor. Ainda que Burman
ressalte os aspectos cômicos e pitorescos, a vida de Ariel e sua família corre num fluxo
de naturalidade. Com isso, toda a narrativa de As Leis da Família vai se desenvolvendo
a partir de uma quase total ausência de conflitos, numa sucessão de não-eventos. Burman
é extremamente feliz em frustrar as expectativas de que o tênue equilíbrio no qual vive
a família Perelman poderia ser quebrado a partir de um elemento dramatúrgico que resultaria
em alguma ruptura traumática. Tudo no roteiro de As Leis da Família resulta numa naturalidade
acachapante, brilhante, que não é abandonada até a conclusão do filme.
2. Perelman 'pai' (Arturo Goetz) é um advogado reconhecido e popular. Sua fama se estende
por elevadores, arquivos, restaurantes. Tem o hábito de transformar clientes em amigos.
Perelman usa de certos subterfúgios ilícitos para ganhar suas causas. É o tipo de pai que nunca
percebeu que o filho é canhoto. Ariel Perelman 'filho' (Daniel Hendler) é um metódico professor
universitário que divide seu tempo entre as aulas, o emprego de Defensor Público e as aulas
de Pilates com sua aluna e futura esposa. Herdou do pai a visão machista e desafetuosa
com a qual cresceu. Ariel Perelman também tem o seu jeitinho especial. É do tipo de pai
que justifica pagar as aulas da escola do filho porque 'não quer participar'.
Em que nos transformamos quando nos tornamos pais? E o que fazemos com nossos próprios
pais nesse momento? Eis as questões que interessam ao diretor. Os 102 minutos de filme são
vertidos em sensibilidade e sutilezas. Nada no filme é imposto e em nenhum momento
o espectador é subestimado. Um filme maduro, abordando temas caros. O egoísmo do
indivíduo é questionado, sem que Burman julgue seus personagens ou os torne antipáticos.
As Leis de Família é um belo retrato das convenções familiares e dos atributos que herdamos
dos nossos pais. Com um elenco cativante, um roteiro enxuto e uma sensibilidade ímpar,
Burman proporciona uma viagem nas relações familiares sem criar densidades óbvias
e nem apelar para o sentimentalismo. Sensível e pertinente, As Leis de Família confirma
Daniel Burman, ainda aos 34 anos, como cineasta atual indispensável."
ATERRORIZADA ![]()
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The Ward EUA 2011 1h28min
De John Carpenter com Amber Heard, Mamie Gummer, Danielle Panabaker
Em DVD pela Imagem Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO Sem filmar desde Fantasmas de Marte, de 2001, John Carpenter retorna
às câmeras com este Aterrorizada, tradução caça-níquel para The Ward (A Ala).
O filme foi devastado pela crítica, que o considerou medíocre e derivativo. Embora
eu compreenda a frustração, é preciso reconhecer que, com todos os seus problemas,
Aterrorizada está ligeiramente acima da média. É bem superior ao sucesso Sobrenatural,
por exemplo. O que Carpenter faz (e continua fazendo bem) que a maioria dos diretores
de horror não faz é filmar bem. Básico em se tratando de cinema. Independente dos
problemas que o filme tem – e tem muitos, é verdade - , seus planos são vistosos,
elaborados sem ser arrogantes, construídos à favor da história e do tempo das cenas.
E é sempre bom observar um mestre trabalhando, mesmo que com um material que não
está a sua altura. No caso, o roteiro dos irmãos Michael e Shawn Rasmussen sobre Kristen,
uma jovem de 18 anos que incendeia uma casa e é levada para um sanatório. Aos poucos
ela se aproxima de suas colegas de ala Emily, Sarah, Zoey e Iris, assim como também
percebe uma presença sobrenatural no local. Seu espírito rebelde a faz comandar
as colegas mais receptivas numa busca por respostas ao silêncio dos enfermeiros
e médicos, e também numa maneira de fugir dali antes que elas desapareçam.
É uma premissa boa, bem desenvolvida no início. Todas as perguntas se mantém suspensas
até o limite, garantindo a curiosidade. Também a favor de Carpenter está o excelente grupo
de jovens atrizes, que conta com Amber Heard (Fúria Sobre Rodas), Danielle Panabaker
(A Epidemia), Lyndsy Fonseca (Kick-Ass), Laura-Leigh e Mamie Gummer (Aconteceu em Woodstock),
todas no tom exato que o filme pede. Amber e Mamie (esta provando que está aprendendo bem
as lições da mamãe Streep) formam uma dupla boa de ver na tela. Há cenas bastante tensas,
como aquela em que as garotas dançam despreocupadas até que a energia cai ou a apavorante
cena no necrotério da instituição. Só não são mais poderosas pelo mesmo motivo que impede
o filme de decolar: o susto fácil. O tempo todo temos que ser "surpreendidos" por um desses.
Alguns funcionam, pelo menos enquanto não estamos cansados de esperar pra ver o que tem
atrás da porta. A fantasmagórica presença do local acaba não funcionando tão bem, já que
ela passa de assustadora para irritante. Felizmente os personagens são interessantes o suficiente
e Carpenter cria bons momentos, mesmo quando o roteiro começar a se repetir. Outro escorregão
está no terceiro ato, uma bagunça explicada às pressas com uma reviravolta que, mesmo sendo
coerente, já está bem cansada. Não me foi o suficiente para destruir a experiência, até porque
temos raras oportunidades de assistir a um filme de horror tão bem acabado esteticamente.
Aterrorizada é necessário por ser de John Carpenter e por oferecer algo próximo do que o cinema
de horror já foi um dia, mesmo que as necessidades slasher contemporâneas estejam impressas no filme.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
LIXO EXTRAORDINÁRIO ![]()
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Waste Land Inglaterra/Brasil 2010 1h39min
documentário de Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim com Vik Muniz
Disponível em DVD pela Paris Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO É engraçado como as pessoas se revelam na presença de uma câmera, mesmo
sem perceber. Embora a tendência seja a ‘atuação’, uma performance de si mesmo, muitas
verdades ficam perceptíveis. Em Lixo Extraordinário, isso acontece de maneira duplamente
curiosa. O filme abre com uma cena do Programa do Jô, onde o próprio nos apresenta Vik Muniz.
O artista carioca, famoso pelas recriações de obras de terceiros utilizando materiais inusitados,
mora em Los Angeles desde os anos 80 e vende sua obra como água no exterior. Ele tem uma
postura esquisita quando se manifesta sobre arte. Já fiquei incomodado daí. Enquanto conversa
com a câmera e com sua esposa em sua imensa casa, apresenta um discurso duvidoso e até
preconceituoso sobre os seres humanos que moram e trabalham no lixão de Jardim Gramacho, o maior
da América Latina, que fica no município de Duque de Caxias e onde ele pretende começar um novo
trabalho (ou obra). ‘Tudo que não é bom no Rio de Janeiro vai para aquele lixão, incluindo as pessoas’,
diz ele. Constrangimento. Depois de analisar o local via Google Earth, ele faz uma visita. É quando
o filme começa a tomar uma forma menos egotista e autopromocional, embora mais condescendente.
Somos apresentados aos personagens do lixão. São pessoas que trabalham em condições desumanas,
ganham pouco para viver mal e não se intimidam com a presença da câmera. Aos poucos Vik recruta
seus ‘artistas colaboradores’ ou ‘co-criadores’ e discute arte com eles. Não é que sua proposta seja
ruim, dou valor à sua inciativa de abrir cabeças para a fruição artística e apresentação de um universo
diferente para pessoas que não tem condições. Mas algo na sua maneira de lidar com elas continuava
me incomodando. Lixo Extraordinário ganha vida quando dá voz aos seus personagens e suas histórias
de vida. Tião, presidente da Associação de Catadores de Jardim Gramacho, é um dos mais interessantes.
Resiste às adversidades que a Associação enfrenta, está sempre bem humorado e discute Nietzsche.
Ele acaba se destacando por ter uma obra que recria o quadro A Morte de Marat, de Jacques-Louis David,
vendida por R$ 100 mil reais num leilão em Londres. Outros personagens têm histórias de cortar
o coração, como a jovem Suellen, que conta horrorizada o dia em que encontrou o corpo de um bebê
jogado no lixão, e Isis, que perdeu seu filho de três anos de idade para uma pneumonia brutal.
São personagens cujas lágrimas de dor são o que o filme tem de mais honesto, compondo cenas
que facilmente comovem pela crueza com que eles narram.
Uma pena que aquelas pessoas não sejam o verdadeiro foco do filme. A impressão que tenho
de Vik Muniz é que ele é uma variação de Xuxa, especialmente quando ele relaciona felicidade
a dinheiro e fama. O filme segue o mesmo caminho, descarrilando de vez nos minutos finais,
que é quando mostra sua veia manipulativa ao deixar para o final a revelação da morte de um
personagem que conhecemos no começo. Preconceitos afloram sob a máscara da caridade,
enquanto Vik Muniz e família, todos brasileiros, conversam em inglês entre si, sabe-se lá por que.
Quer dizer, sei sim: Lixo Extraordinário é um documentário que obviamente mirou no mercado
estrangeiro, com direito a Fernando Meirelles na coprodução, Moby (?) na trilha sonora e uma
campanha pesada e bem-sucedida ao Oscar 2011 de melhor documentário (perdeu para Trabalho
Interno, ainda em cartaz no Recife). O filme é dirigido pela inglesa Lucy Walker e pelos brasileiros
João Jardim e Karen Harley, que mais injetam grandiosidade e tons épicos hollywoodianos ao lixão
do que uma visão mais honesta da degradação ali presente. Vale apenas pelos seus personagens
inesquecíveis, presos a um filme que não os merece.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
WHITY ![]()
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Whity Alemanha 1971 1h35min
de Rainer Werner Fassbinder com Gunther Kauffman, Ron Randell, Hanna Schygulla
Disponível em DVD pela Lume Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO Whity é o empregado negro da família americana Jackson. Como seu apelido
indica, Whity quer ser aceito como branco. Ele rejeita a cultura negra e adota os costumes
dos brancos do velho Oeste de 1878. Até perdeu o respeito por sua mãe Marpessa, também
empregada da família desde cedo. A família Jackson é um caso a parte. O pai, Benjamim,
é o típico cowboy ricaço sem escrúpulos, que desconfia até a da própria sombra. Sua esposa,
a sexy Katherine, é uma perua metida a lady, sempre disposta a humilhar os outros.
O filho mais velho, Frank, é um bajulador tarado, enquanto o mais novo, Davy, é retardado.
Enquanto trabalha para os Nicholson, Whity visita um bordel onde a estrela é Hanna, uma
prostituta cantora que é objeto de desejo. Ele se esforça para cumprir suas tarefas domésticas
e até se aproxima do jovem Davy, mas os membros dessa família disfuncional começam
a pedir para que Whity mate outros membros. R. W. Fassbinder pinta aqui um retrato provocante
da América racista, embora passe longe do realismo histórico. Whity, o filme, é uma reflexão
sobre medo, rebelião e liberação onde o diretor desconstrói o gênero western.
Whity (interpretado por Gunther Kauffman, então amante de Fassbinder) é um homem que
testemunha e sente a decadência da humanidade na própria pele. Humilhado, sexualmente
abusado e espancado, ele ainda tem a vontade de ser como aqueles que o humilham.
Sua noção de aceitação, ter um lugar na sociedade, é pagar para transar com a prostituta
(Hanna Schygulla, atriz homenageada na última Mostra de São Paulo, com uma retrospectiva,
que contou com a sua presença). Quando Whity tem uma revelação sobre si mesmo, ele
mergulha numa vingança impiedosa com intenções de fazer uma de "lavagem moral",
abandonando de uma vez por todas a passividade da mãe. É o âmago do filme, uma coisa
bizarra e redentora. Esse foi o primeiro trabalho de Fassbinder com o fotógrafo Michael Ballhaus,
dono de tomadas longas e impressionantes. O tom kitsch da obra (figurinos e maquiagem absurdos,
num bom sentido) preenche o frame de signos, especialmente em se tratando de cor.
Os rostos dos personagens aparecem muitas vezes pintados, assim como os lábios de Whity.
E que personagens! A primeira aparição de Marpessa (Elaine Baker), com seu rosto pintado
de negro mergulhado em sombras numa cozinha deve ter causado arrepios em Almodóvar,
é precioso e impactante. Técnica impressionante, visual esplêndido e uma poderosa e muitas
vezes divertida história de purificação da alma. A história das turbulentas gravações de Whity
inspirou outro filme de Fassbinder realizado no mesmo ano, Precauções Diante de Uma Puta Santa.
Atenção para a participação do diretor interpretando um vil cowboy. DVD nacional pela Lume Filmes.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
O MISTÉRIO DA ILHA ![]()
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The Secret of Roan Inish EUA/Irlanda 1994 1h41min
de John Sayles com Jeni Courtney, Eileen Cougan, Mick Lally, Richard Sheridan
Disponível em DVD pela Versátil
por Filipe Marcena
OPINIÃO O Mistério da Ilha é um filme de um tipo que não se vê mais no cinema.
Uma fantasia singela, sem efeitos especiais mirabolantes, narrado com paciência e discrição,
onde pessoas de qualquer idade podem se identificar. Não que fantasias não possam ser
o oposto disso, mas porque não investir em histórias fantásticas onde os humanos são
a maior atração? Dirigido pelo muito talentoso John Sayles (Lone Star – Estrela Solitária,
Casa dos Bebês), o filme se baseia nos mitos e folclore nórdicos. Não é difícil lembrar
imediatamente de Ondine, drama dirigido por Neil Jordan exibido no ano passado.
Ambos giram em torno da mesma criatura mítica, a Selkie, ser meio humano meio foca.
A ilha do título é Roan Inish, que abrigava a família Coneelly. Um dos homens da família
se apaixona por uma Selkie, escondendo sua pele de foca e assim detendo poder sobre ela.
Anos depois, a bela criatura encontra sua pele e volta ao mar para nunca mais voltar,
deixando sua prole com os Coneelly. Eles decidem abandonar a ilha.
Neste dia, o pequeno Jamie é levado pela correnteza dentro de seu berço em forma
de barco. Um trauma que assombrará a família para sempre.
Mas essa não é a história de Jamie nem da Selkie, mas de Fiona, menina de 10 anos e irmã
do menino desaparecido. Após a morte de sua mãe, Fiona é enviada pelo pai para uma
vila em Donegal, Irlanda, próxima à ilha de Roan Inish, para morar com seus avós Hugh
e Tess. Seu primo contas histórias do passado da família e lendas locais. Logo Fiona percebe
que os animais estão agindo estranhamente, como se reconhecerem sua presença, levando-a
a crer que algum segredo jaz em Roan Inish, lugar para o qual nenhum membro da família
quer voltar. Uma fábula inocente, é bem verdade, mas com ideias profundas sobre identidade,
ressentimento, saudade e sentir-se em casa. Além do roteiro nos trilhos, escrito pelo próprio
Sayles baseado no livro de Rosalie K. Fry, outros dois fatores contribuem para a magia
de O Mistério da Ilha: a fotografia magistral de Haskell Wexler (Um Estranho no Ninho)
e a música de Mason Daring, que utiliza a música celta são só como um motivo para nerds
saltitarem, mas como um personagem do filme. Adicione o ótimo trabalho realizado com
os animais e o carisma da então pequena Jeni Courtney como Fiona, e tem-se um filme
encantador, difícil de não gostar. O mistério é como uma joia dessas desparece assim.
O filme está disponível em DVD no Brasil numa edição raríssima, e vale muito a pena
procurar nas locadoras ou garimpar na internet.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
SEXO É UMA COMÉDIA ![]()
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Sex is Comedy França 2002 1h30min
de Catherine Breillat com Anne Parillaud, Grégoire Colin, Roxane Mesquida
Disponível para download
por Filipe Marcena
OPINIÃO A história de Sexo é uma Comédia começou bem antes da feitura do roteiro.
Em 2001, a cineasta Catherine Breillat filmou o arrebatador Para Minha Irmã!, filme que
narra a vida de Anaïs, uma menina obesa que não atrai o interesse dos rapazes e assiste
sua bela irmã se envolver com um homem mais velho. Numa cena crucial, Anaïs assiste
a sua irmã fazer sexo anal com o namorado, a fim de não perder a virgindade. A cena é tensa
e cheia de uma pesada carga sexual, como só Breillat sabe filmar. O que não passa pela cabeça
do espectador é como funciona a lógica da filmagem de uma cena como essa, se é que existe
alguma lógica. Depois de enfrentar problemas na gravação dessa cena, a francesa resolveu
destrinchar o acontecimento. Breillat é "substituída" por Jeanne (a atriz Anne Parillaud),
diretora em crise com seu casal de atores central. O rapaz (Grégoire Colin) é infantil e teimoso,
a moça (Roxane Mesquida, mesma atriz que fez a irmã no outro filme, aqui repetindo a cena)
é fria e distante, e ambos se detestam. Não conseguem fazer nem uma simples cena de beijo
na praia funcionar. Frustrada, Jeanne se aproxima dos seus atores à procura de uma solução
para a crise que está prestes a destruir o filme.
Não é exatamente uma comédia, mas é preciso bom humor para lidar com situações tão
constrangedoras. Sexo é Uma Comédia estuda o fazer cinema, acompanhar o processo
em seus detalhes mínimos e mais particulares. A câmera e d texto de Breillat gritam
honestidade, mesmo quando ela decide transformar Jeanne em sua marionete, que dana-se
a discursar sobre sexo, cinema e direção. Não incomoda, mas distrai um pouco do que realmente
interessa no filme: a mise-en-scene, a mise-en-scene da mise-en-scene e o talentoso elenco
que representa a equipe de filmagem. O casal de jovens atores, que tem a difícil tarefa
de interpretar alguém interpretando, estão absolutamente convincentes, e Roxane chega
a arrepiar nossos pêlos (e o da equipe do filme) na repetição da tal cena. Grégoire encara
com tranqüilidade sequências que chamaram atenção em Para Minha Irmã!, onde o ator precisou
usar um óbvio pênis ereto falso para realizar a tomada. Anne Parillaud captura o peso e a consciência
de dirigir um filme à perfeição, expondo em Jeanne uma saudável insegurança mesmo quando
ela usa sua voz mais altiva. E o sexo, dessa vez, não é tão sexy como nos outros filmes de Breillat.
Tragicômico define. Vale uma sessão dupla com Para Minha Irmã!.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
HUGH HEFNER - PLAYBOY, ATIVISTA E REBELDE ![]()
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Hugh Hefner - Playboy Activist and Rebel EUA 2009 2h15min
documentário de Brigitte Berman
Em DVD pela Paris Filmes
por Fernando Vasconcelos
OPINIÃO O octagenário criador do império PLAYBOY foi notícia essa semana
ao ser largado pela noiva, a Playmate 60 anos mais nova Crystal Harris,
às vésperas do seu terceiro casamento oficial, o que alavancará as vendas
da edição americana nas bancas, com Crystal na capa como a Sra. Hefner.
Uma boa pedida é conferir o documentário Hugh Hefner - Playboy, Ativista
e Rebelde, curiosamente lançado no mercado nacional pela Paris Filmes.
Conhecido como um ícone da cultura pop dos últimos 50 anos, o pai da marca
do Coelho é famoso pelas mulheres nuas na maior revista masculina do mundo
mas pouca gente sabe que, na época em que era pertinente e urgente, Hugh
Hefner foi uma voz ativa na luta pelos direitos humanos, direitos à imprensa
livre, reformas das leis das drogas, igualdade racial, tolerância às opções
sexuais, posição radical contra o seu país na Guerra do Vietnam e um quebra-pau
eterno com as lideranças femistas iradas da décade de 70. Tudo isso sem
deixar de promover sua filosofia hedonista, cercado de luxos da vida
moderna capitalista e montes de lindas mulheres à sua volta.
A questão racial é mostrada maravilhosamente nesse documentário em raras
imagens do programa de TV Playboy After Hours, quando ainda não era algo
aceito socialmente nos EUA
mostrar negros e brancos festejando juntos
a boa música, com convidados como Sammy Davies Jr., Dean Martin e Jerry
Lewis, inclusive provocando a audiência discutindo no programa a estupidez
do preconceito racial. Só esse material já é motivo suficiente para descobrir
esse documentário que, infelizmente, peca no registro do próprio Hefner.
Por mais de duas horas vemos entrevistas e depoimentos
mas a diretora Brigitte
Berman mantém uma distância ao não provocar qualquer discussão e manter
um tom francamente adulatório, que não dá espaço para o espectador admirar
(ou não)
Hefner como um ser humano. Ele permanece um personagem.
O filme vale como documento do passado
e evita chegar ao momento
atual da PLAYBOY, seja na crise que atinge a mídia impressa como um todo,
ou no papel um tanto ridículo da vida de Hefner em relacionamentos poligâmicos
com loiras mais jovens, no que parece ser mais estratégia de marketing.
Num mundo atual cínico, encaretado, da superinformação digital, onde as revistas
perderam sua função de formadoras de opinião, a quase sexagenária PLAYBOY
permanece alvo de moralistas. Daria uma boa segunda parte como documentário.
Fernando Vasconcelos | fernando@kinemail.com.br
O GUERREIRO SILENCIOSO ![]()
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Valhalla Rising Dinamarca 2010 1h30min
De Nicolas Winding Refn com Mads Mikkelsen, Alexander Morton, Gay Lewis
Em DVD pela Focus Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO O dinamarquês Nicolas Winding Refn ganhou o prêmio de melhor diretor
no Festival de Cannes desse ano pelo filme Drive, neo-noir ambientado nas ruas
de Los Angeles. Para quem via de fora foi uma surpresa, não por se duvidar do talento
desse jovem diretor, mas por causa do seu nome pouco conhecido, especialmente no Brasil.
Refn, 40 anos, já dirigiu 8 filmes, nenhum foi exibido nos cinemas nacionais e O Guerreiro
Silencioso é apenas seu terceiro filme a chegar nas prateleiras de DVD. Os outros foram
o obscuro Medo X, com John Turturro, e Pusher, primeira parte da respeitada trilogia
sobre o submundo do tráfico, que saiu em DVD pela Lume Filmes em 2009. Estes
filmes são atestados da força que a cultura de seu país exerce em sua cinematografia,
especialmente O Guerreiro Silencioso. A mitologia nórdica é a base do filme,
e eu garanto que você nunca viu um filme sobre vikings como esse.
A ‘ascenção de Valhalla’ do titulo original refere-se ao local onde os guerreiros honrados
mortos em batalha eram recebidos, de acordo com a mitologia. Esse ‘detalhe’ do título,
embora seja compreensível nossa ignorância quanto à cultura nórdica, é muito importante
para a compreensão da abordagem poética, quase não narrativa de Refn. O tal guerreiro
silencioso é encarnado por Mads Mikkelsen, ator dinamarquês fetiche que foi visto em
Cassino Royale, Coco Chanel e Igor Stravinsky e Depois do Casamento. Seu rosto hostil
e com nuances melancólicas tem a responsabilidade de falar por One-Eye, homem que
se faz entender por seus caminhos, e não por suas palavras. Dividido em 6 capítulos
à la Lars Von Trier, O Guerreiro Silencioso mostra o ciclo dessa figura impenetrável.
No início, One-Eye é prisioneiro de uma tribo nórdica, sendo usado como espécie de cão
de briga. Preso pelo pescoço à uma tora de madeira, ele luta contra outros guerreiros,
enquanto seus donos fazem apostas. Violento e letal, ele literalmente destrói seus oponentes.
Quando finalmente se vê livre, parte numa viagem de volta para casa, encontrando
um grupo de cristãos que o aceita. O destino da viagem revelará quem é esse homem.
O Guerreiro Silencioso é repleto de tempos mortos, justaposições poéticas e inserts
de composições surrealistas. Ou seja, não é um filme de pancadaria muito menos uma fantasia
tolkieana, mas uma reflexão evocativa sobre a natureza humana. Engraçado como, mesmo
estetizado, o filme se mantém realista, e a violência cruel exposta não é nada bonita de se olhar.
Em certo momento, One-Eye abre um corte no abdômen de um de seus agressores e retira
com as mãos tudo o que ele encontra dentro. Essa violência rima com o vermelho que domina
a fotografia nas ‘previsões’ que One-Eye tem do futuro, momentos de indescritível beleza plástica.
Como um todo, o filme remete aos antigos trabalhos de Herzog e Jodorowsky, mas com uma
abordagem mais abstrata. O Guerreiro Silencioso é um desafio às convenções básicas do cinema
narrativo, e Refn comprova sua coragem na realização desse filme alienígena e muito bem-vindo.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
AS RUÍNAS ![]()
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The Ruins EUA 2007 1h30min
de Carter Smith com Jena Malone, Jonathan Tucker, Laura Ramsey, Shawn Ashmore, Joe Anderson
Em DVD pela Paramount
por Filipe Marcena
OPINIÃO Poucos gêneros passam por tantas subversões quanto o horror. As Ruínas
representa uma delas. Um filme arriscado, adaptado de um livro que não havia nem sido
lançado quando a produção começou, As Ruínas exibe em seus minutos iniciais o que
a maioria desses filmes exibe, corpos jovens e sarados, suados, bronzeados e algumas
vezes nus. Carter Smith, em seu primeiro filme, não foi nada egoísta nesse sentido,
e o elenco aparece bem à vontade em cenas típicas de filmes sobre jovens se divertindo.
Há algo discreto e leve nessa exploração da ‘carne fresca’, uma pista de que o filme não
será tão medíocre quanto aparenta. São dois casais, Amy (Jena Malone, recentemente
vista em Sucker Punch) e Jeff (Jonathan Tucker, do remake de O Massacre da Serra Elétrica)
como a dupla mais politicamente correta, e Stacy (Laura Ramsey, vista em Um Lugar Qualquer)
e Eric (Shawn Ashmore, o Homem-de-Gelo da série X-Men), mais saidinhos.
Os quatro estão viajando pelo México, onde conhecem o alemão Mathias (Joe Anderson,
de Across The Universe), que os convida para uma trilha em matas desconhecidas.
É claro que eles o acompanham, sob os protestos de Amy. Ao chegarem no fim da trilha,
encontram as ruínas de um monumento maia. E também com os locais, armados até
os dentes e furiosos com a presença deles. Aterrorizados, eles sobem as ruínas e ficam
presos lá em cima. Estranhamente, os nativos não têm coragem de subir, e fazem guarda
ao redor do monumento. Presos, os jovens aos poucos descobrem por que os locais nunca
sobem até o topo das ruínas. Para alguns, esse por que pode ser subversivo demais para
se levar à sério. Para mim, As Ruínas é um aterrador achado do gênero B justamente
por causa dessa bem construída revelação, que prefiro não contar por ser divertido descobrir
isso sozinho. O que era um teen slasher regular se transforma em algo próximo de Abismo
do Medo, joia britânica do diretor Neil Marshall, onde um grupo de mulheres passava a se
conhecer melhor quando se viam presas numa caverna repleta de criaturas sanguinárias
(não é esse o segredo das ruínas). O filme de Smith, divertido como é, jamais atinge maior
profundidade em suas teorias sobre sobrevivência e natureza humana, mas convence
na mise-en-scene do que já sabemos: o humano reage das maneiras mais irracionais
em momentos extremos de desespero. As Ruínas tem bastante sangue, mutilações
e carne humana exposta (em vários sentidos), cumprindo quase sempre seu maior
objetivo, que nos deixar absolutamente tensos e angustiados. Para um filme com
apenas uma hora e meia de duração, é o suficiente para merecer ser visto.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
SER E TER ![]()
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Être et Avoir França 2002 1h44min
documentário de Nicolas Philibert com Georges Lopez
Em DVD pela Videofilmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO Recentemente, um vídeo com um discurso de uma professora fez muito
sucesso na internet. A professora é a capixaba Amanda Gurgel e o discurso foi realizado
em uma audiência pública, para um calado grupo de deputados. Em seu protesto,
Amanda desenha um quadro da Educação no Brasil, selecionando e criticando com
autonomia, eloqüência e alguma amargura, cada ponto crítico na formação educacional
de crianças e jovens. É um discurso triste de ouvir, mas ao mesmo tempo é empolgante
escutar alguém pronunciar aquelas palavras com tanta firmeza e desejo de mudança,
uma vontade de trabalhar em uma escola com o mínimo de condições, tão distante
da situação atual da maioria. A escola ideal parece uma utopia. Mas não é. Ser e Ter,
um pequeno documentário francês que explodiu nas bilheterias de todo o mundo em
2002, mostra que tal escola não está tão distante quanto parece.
Ser e Ter se passa na área rural francesa. Um ambiente bucólico e de clima frio,
muitas vezes encoberto pela neve. É lá onde fica a escola do professor Georges Lopez.
Acompanhamos Georges comandar duas turmas de séries diferentes, com crianças
entre 5 e 11 anos. O filme basicamente se ocupa de mostrar o cotidiano de cerca
de 20 crianças e seu professor no processo de aprendizagem. E que momento adorável.
As crianças, uma mais interessante que a outra, são enquadradas com curiosidade
maior que a que elas possuem para com a câmera. São diálogos, erros, acertos
e pequenos gestos onde vemos nos olhinhos de cada uma delas uma luz acendendo
quando uma pequena grande descoberta se realiza. Claro que também existem
os conflitos, e não são poucos. São nesses momentos onde Georges demonstra seu
cacife para o ofício, lidando brilhantemente com situações desagradáveis e que
poderiam ter um efeito bola de neve. Acima de tudo, como o título explicita, o método
de Lopez privilegia o aprender a SER, muito mais profundo que a percepção superficial
da Educação como o aprender a TER, caminho para "vencer na vida", ter sucesso
profissional e financeiro. Lopez ensina ética, cidadania, socialização, a base real
da formação do ser humano digno, civilizado. Também presenciamos emocionantes
cenas de ternura entre as crianças, assim como por parte delas para o professor.
Não pude conter o sorriso no rosto durante todo o filme.
A escola abordada em Ser e Ter possui todo o material necessário, conforto e espaço.
Isso é básico, e a câmera do cineasta Nicolas Phillibert, sempre à espreita, não presta
muita atenção nesses detalhes. O diretor jamais se deixa ser visto, ele faz o possível
para não interferir na ação, apenas observa. É impressionante a sua técnica, já que
as crianças nunca parecem inibidas pela câmera, que está mais interessada na interação
entre os pequenos e seu professor, interação essa tão poderosa e única que deixa uma
perceptível transformação nos alunos. Mais importante: eles não estão apenas aprendendo
a contar, estão aprendendo a conviver. O formato pode ser questionável, mas jamais
incomoda e é belo e divertido de se assistir. Ser professor é se envolver emocionalmente
com cada um de seus alunos, procurar entendê-los e ajudá-los nas dificuldades escolares
e pessoais. Por isso é uma profissão que exige tanto da pessoa que a escolhe. Aqui vemos
um homem que sabe o que faz e que possui condições para fazê-lo. Em Ser e Ter tem
uma escolinha onde vi crianças que jamais esquecerei. Fui imediatamente arremessado
de volta à minha infância, projetei-me em alguns dos alunos, se não em todos, e vi em
Georges todos os professores que tive na escola e que tenho na minha família. Aquela
curta e doce fase que todos passamos, tão importante para o nosso crescimento como seres
humanos, é capturada em imagens por Phillibert e transformada em algo sagrado. Ao assistirmos
Ser e Ter, percebemos que nunca abandonamos aquela classe. E que é sempre bom voltar a ela.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
REVOLUÇÃO EM DAGENHAM ![]()
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Made in Dagenham Inglaterra 2010 1h53min
de Nigel Cole com Sally Hawkins, Miranda Richardson, Rosamund Pike, Bob Hoskins
Em DVD pela Sony
por Filipe Marcena
OPINIÃO A primeira coisa que me acometeu quando Revolução em Dagenham acabou
foi a sensação de que eu tinha acabado de assistir a uma continuação de Simplesmente Feliz,
filme querido do Mike Leigh. Na superfície, ambos são ingleses e encabeçados pela sempre
competente Sally Hawkins, são fotografados com um colorido e uma leveza pouco comuns
em filmes sobre a classe operária inglesa, trazem mulheres confrontando idéias retrógradas
e ultrapassadas da sociedade e curiosamente trazem suas protagonistas pedalando pela cidade
no início do filme. Mas enquanto Leigh observava a complexidade de uma criatura constantemente
alegre e dos pequenos furacões que sua conduta causava em terceiros, o filme de Nigel Cole
é mais simples em seu estudo de personagem.
Cole é um ‘noveleiro’ assumido. Dirigiu a bobagem De Repente é Amor e Garotas do Calendário,
filme pra se assistir tomando chazinho. O Barato de Grace, com uma Brenda Blethyn traficante
de maconha, parece ser um filme mais ousado, mas não assisti. Revolução em Dagenham não
foge a regra, é um respeitável novelão de época que tem como bônus o fator ‘baseado em uma
história real’. No caso, a história das costureiras de Dagenham, empregadas da Ford cujo trabalho
(costurar o couro dos bancos dos carros) nem era reconhecido com dignidade. Em 1968, essas
187 moças foram as primeiras operárias do mundo a fazer uma greve por direitos e igualdade
sexual, estagnando a produção da Ford e arriscando suas vidas pessoais para atingir essa conquista.
É uma bela história, que é reimaginada com tons suaves (ou suavizantes?) nas mãos de Cole.
O grupo é liderado por Rita O’Grady (Sally Hawkins), mulher com as mesmas frustrações e desejos
que suas colegas, mas com uma língua e um pulso potenciais na hora de encarar a ignorância de
seus superiores. Casada com um operário da mesma fábrica (Daniel Mays, que parece ser coadjuvante
em todos os filmes produzidos na Inglaterra), Rita percebe que não está lutando apenas por salários
igualitários, mas contra gerações de preconceitos e ideais machistas, tão impregnados nas pessoas
que elas nem percebem. Na trajetória, é ajudada pelo superior Albert (Bob Hoskins), sua melhor
amiga Connie (Geraldine James), pela esposa de um de seus patrões Lisa (Rosamund Pike), e pela
política Bárbara Castle (Miranda Richardson). Você sabe cada passo e cada curva que o roteiro dará.
A força de Revolução em Dagenham não está em sua estética (os figurinos anos 60 chamam mais
atenção para si do que poderiam, mas meu incômodo talvez seja normal já que não sou o alvo principal
do filme), mas em sua ética. Mesmo repleto de clichês, as idéias defendidas pelo filme são postas
solidamente em tela. Uma cena em particular, evolvendo Hawkins e Mays discutindo na porta
de casa no início do terceiro ato, traz uma epifania tocante e verdadeira, algo que é perpetuado
durante todo o longa. E, claro, o filme não se sustentaria se não tivesse um elenco tão excepcional,
com Hawkins, Pike e Richardson vívidas em seus papéis, a câmera não cansa de consumir suas
imagens. E também tem boa música. A revolução fica mesmo na história real das operárias
e no resultado que felizmente reverbera até hoje, mas o filme é válido e simpático.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
CARRIE - A ESTRANHA ![]()
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Carrie EUA 1976 1h47min
de Brian De Palma com Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, John Travolta, Nancy Allen
Em DVD pela Fox Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO Na high school americana dos anos 70, os hormônios juvenis ferviam como fervem
em qualquer outra época da história dos seres humanos. Todos desejavam e eram desejados,
divertindo-se nas aventuras da descoberta sexual. Menos Carrie White. A adolescente, excluída
do grupo por causa de sua "estranheza", não tem a oportunidade de dividir com os outros colegas
de sua idade seus sonhos e suas frustrações. Só tem a sua mãe Margaret White, beata maníaca
que não ao menos explicou para Carrie o que significa menstruação, para o horror da menina
no dia em que percebe o sangue escorrendo pelas pernas. Rejeitada, Carrie passa seus dias
se escondendo das meninas que a perseguem, ouvindo conselhos da professora de Educação
Física, apanhando de sua mãe, rezando para uma imagem de São Sebastião e pesquisando
sobre o estranho poder que possui de mover os objetos ao seu redor com a força do
pensamento. Poder que ela aprende a dominar. E que será a única arma que saberá
usar quando a humilhação pública e a tortura emocional chegarem ao limite.
Essa é a sinopse de Carrie – A Estranha, cultuada obra de horror lançada em 1976 baseada
no romance homônimo de Stephen King. É um filme muito especial para os fãs do gênero e marcante
para o cinema em geral, por vários motivos. Nascido na fértil década de 70, o filme foi a primeira
adaptação para o cinema de uma obra de King, então uma revelação literária no topo da lista
de vendas, marcando o início de uma era no cinema de horror. No comando da adaptação estava
Brian De Palma, cineasta em ascensão que atingiu o ápice com o sucesso desse filme. Fã inveterado
do cinema de gênero (especialmente de Alfred Hitchcock), De Palma se provou um especialista
na área, transformando Carrie - A Estranha num sucesso de bilheteria e de crítica.
O filme também revelou ao mundo a atriz Sissy Spacek (então com 27 anos, embora interpretando
uma personagem dez anos mais jovem), que recebeu sua primeira indicação ao Oscar por seu
icônico desempenho como a perturbada Carrie White. Spacek, assim como outras jovens atrizes
do filme, entraram no espírito setentista e tiraram a roupa para as câmeras a pedido de De Palma,
resultando na clássica cena inicial no vestiário feminino.
Carrie - A Estranha apresenta características que hoje podem ser consideradas revolucionárias
no cinema hollywoodiano e no de gênero. Foi o primeiro a mergulhar de cabeça no universo
da high school, representando o universo juvenil da época com um realismo inédito. O formato
acabou por influenciar toda uma filmografia voltada para esse público, das comédias juvenis
aos slashers teen, gêneros que até hoje geram crias. O filme também não se esquivou da crítica
religiosa, tão forte na obra literária, concentrando na mamãe infernal Margaret (interpretada pela
também indicada ao Oscar Piper Laurie) as alfinetadas ao fanatismo e fundamentalismo religioso.
Margaret White é a mãe mais assustadora já vista no cinema, e uma das vilãs mais cruéis. Felizmente,
o filme traz outra característica decisiva: a mocinha não é mais uma mocinha. O Massacre da Serra
Elétrica (1974, Tobe Hooper) já apresentava uma jovem protagonista que escapava do serial killer
no final, inesquecível vê-la completamente ensanguentada com sua gargalhada doentia.
Fica claro porque De Palma estava no auge de seu talento. Primeiro ele aplicou de maneira bem
sucedida algumas técnicas que viraram marcas registradas do cineasta, como a tela dividida
na cena
do baile de formatura, que oferecem pelo menos dois pontos de vista para cada ação ocorrida.
Também atrai forte atenção a maneira com que realiza homenagens ao seu cineasta favorito.
Vários momentos de Carrie - A Estranha trazem óbvias referências à Hitchcock. O nome da escola
onde Carrie estuda se chama Bates Hich School, clara referência ao personagem de Anthony Perkins
em Psicose. Tal filme também é homenageado nas diversas cenas que se passam em banheiros, assim
como na trilha do italiano Pino Donaggio, que recria os clássicos acordes que remetem ao esfaqueamento
de Marion Crane. Planos, composições e técnicas do mestre do suspense também são recriadas com
certa frequência durante o filme. Pode-se dizer que a maneira que De Palma encontrou para reverenciar
seus filmes e cineastas favoritos foram precursores do estilo Tarantino de fazer cinema.
Nada disso funcionaria se o filme não fosse apropriadamente assustador. A primeira hora de filme
é uma construção para a hipnotizante meia hora final. A figura magra, vermelha de sangue e em
transe absoluto que passeia pelo grande e caótico grand guignol em que se transforma o baile
de formatura é pra ficar na memória visual pra sempre. Spacek está excepcional em sua composição.
Toda a sequência do clímax na casa da família White, cheia de longos travellings, é apavorante.
Piper Laurie arrepia espinhas a torto e a direito em sua aparição final, surgindo da escuridão para
o julgamento final de sua filha. E o que dizer da cena final, que revisita o "último respiro" do vilão
com bastante eficiência? Carrie - A Estranha é facilmente um dos filmes mais importantes do gênero
nos anos 70, e com toda a justiça. Sem falar que foi o primeiro a abordar assuntos que vieram a se
tornar populares nos anos 90 e o são até hoje: o bullying violento e os cada vez mais comuns assassinatos
em massa nas escolas e universidades. “It’s Carrie”, responde a garota ao diretor da escola
que desatentamente a chama de Cassie. Soa como "It’s scary". E é mesmo.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
CONFIANÇA ![]()
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Trust EUA 1990 1h47min
de Hal Hartley com Adrienne Shelly, Martin Donovan, Edie Falco, Merrit Nelson
Disponível para download
por Filipe Marcena
OPINIÃO Hal Hartley era um nome facilmente reconhecível entre cinéfilos duas décadas atrás.
Antes mesmo de ganhar o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes 1997 por As Confissões
de Henry Fool, seus filmes já eram aguardados nas salas de cinema, incluindo as do Recife.
Não é mais assim. Seu último filme, Fay Grimm, um spin-off de Henry Fool liderado pela musa
indie Parker Posey, foi lançado no Brasil com dois anos de atraso apenas para promover o DVD
lançado um mês depois, e nem chegou a ser exibido nas salas daqui. O filme que colocou
o cineasta independente no mapa dos brasileiros foi Confiança, vencedor do prêmio do público
de melhor filme na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 1991. Assistindo hoje
ao filme, que nunca foi lançado em versão digital no país, disponível apenas em VHS, ainda
é visível e sensível sua força contagiante de envolver o espectador, assim como as influências
que o cinema de Hartley deixou na filmografia independente americana.
Confiança é a história de Maria Coughlin (Adrienne Shelly), jovem rebelde que, literalmente,
mata o pai do coração quando revela que está grávida, sendo expulsa de casa pela mãe
e rejeitada pelo pai da criança. Inconsequente embora decidida, Maria decide abortar a criança.
Paralelamente, Confiança é a história de Matthew Slaughter (Martin Donovan), jovem que mora
com o pai neurótico e violento, sendo maltratado e psicologicamente torturado por ele. Sereno
embora violento, Matthew rejeita a vidinha suburbana televisiva e asséptica que a cidade o impõe.
Maria e Matthew se conhecem na mais profunda adversidade, e a história de ambos não
é de amor, como o rapaz deixa bem claro, mas de respeito, admiração e confiança.
Não poderia ser um filme mais anos 90. Confiança foi uma das primeiras produções indie americanas
a abordar a ruína da instituição familiar nos subúrbios (o cúmulo da "família perfeita", a última a ser
destruída massivamente com os filmes que vieram em seguida) apostando numa estética "estranha"
e tragicômica: os personagens praticamente metralham seus diálogos uns por cima dos outros,
as ações e reações são inusitadas, a construção dos personagens é peculiar, o humor é negro
e existe algo de Woody Allen e David Lynch na estrutura. Todd Solondz, Joel & Ethan Coen,
Vincent Gallo, Wes Anderson e Gus Van Sant realizaram filmes com as mesmas características
nos anos que se seguiram, estruturando junto com Hartley uma linguagem que se solidificou
e teve seu auge durante aquela década (a derrocada provavelmente veio com o sucesso
estrondoso de Beleza Americana no fim de 1999, quando o indie virou blockbuster e a linguagem
virou estética-espelho para qualquer aspirante a cineasta que se prezasse "independente",
com raras exceções como Terry Zwigoff). Confiança e Hal Hartley causaram um impacto
bem maior do que o seu pouco reconhecimento faz supor, mas foi injustiçadamente
esquecido com o tempo. Hartley tem um novo filme pronto chamado Meanwhile.
Que ele reascenda o interesse pelo seu cinema familiarmente estranho.
Adrienne Shelly, a protagonista feminina de Confiança, é mais conhecida por ter dirigido
a comédia Garçonete, seu último filme antes de ser assassinada em 2006. Shelly também
trabalhou com Hartley em seu primeiro longa, The Unbelievable Truth.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
SPLICE - A NOVA ESPÉCIE ![]()
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Splice Canadá 2010 1h42min
de Vincenzo Natali com Sarah Polley, Adrien Brody, Delphine Chaneac
Em DVD pela Califórnia
por Filipe Marcena
OPINIÃO O Homem e sua eterna curiosidade/ignorância quanto ao corpo humano. As curvas,
concavidades, secreções e particularidades de cada um deles inspiram obras e mais obras
na arte e na ciência. Especialmente aqueles corpos que não são comuns, possuem formas
diferentes e desconhecidas, com interferência ou não do ser humano. No cinema, as brincadeiras
com os corpos são populares desde cedo, sendo Frankestein de Mary Shelley, 1931, o possível
estopim para o nascimento desse tipo de filme. Os gêneros horror e ficção científica abraçaram
tais brincadeiras com variados resultados e metáforas muitas vezes casuais: de O Lobisomem,
Madrugada dos Mortos e Invasores de Corpos ao slasher e torture porn de O Albergue
e Jogos Mortais, dos inclassificáveis Freaks – Monstros e Holocausto Canibal às seboseiras
corporais de David Cronenberg, o corpo humano já exibiu todo tipo de transformação
e deformação sob as câmeras de cineastas curiosos. Mordidas malditas, mortos-vivos,
mutilações, presença alienígenas e todos os tipos de ameaça física já foram impostos,
geralmente acompanhados do oposto disso, o sexo. Tais filmes sempre levantavam
questionamentos morais e éticos, sejam propositalmente ou não (até que ponto a exploração
do corpo é aceitável?). Então vem o demente Vincezo Natali, diretor do igualmente demente
Cubo, e realiza Splice – A Nova Espécie, primo tipicamente pós-moderno desses filmes.
Pós-moderno porque exibe uma coleção de referências de filmes passados para abordar
a clonagem e a mutação genética, assuntos em voga em tempos de células-tronco. Ao menos
é isso que Splice demonstra no início. Elsa (Sarah Polley) e Clive (Adrien Brody) são um casal
de engenheiros genéticos trabalhando para uma empresa farmacêutica. Famosos por realizarem
um ‘splice’, que consiste em contrair DNAs de animais diferentes resultando em seres híbridos,
eles decidem realizar o procedimento com um DNA humano e revolucionar a a ciência e a medicina,
mas obviamente são vetados pelos seus superiores. Secretamente, eles realizam a experiência.
Assim nasce Dren (Delphine Chaneac, apoiada por uma excelente maquiagem digital), uma espécie
inteiramente nova que possui características humanas fortes, além de uma longa cauda.
É quando Splice dá uma guinada no enredo e decide desafiar até aonde vai a humanidade
de seus personagens – e o que seus corpos são capazes de fazer, encarando a natureza humana
de maneira sublime e doentia. O que era divertido fica ainda mais divertido. E demente.
Splice é um filme consciente de que não passa de uma brincadeira. Se antigamente as experiências
genéticas eram vistas como promessas de um futuro romântico, a geração pós-Dolly superou esses
conceitos, utilizando-os como pretexto para diversão ou para discutir outros assuntos. Apesar
da premissa, Splice é um filme mais sobre os mistérios da sexualidade humana. Quando Dren
vira uma ‘mocinha’ é que o filme mostra suas garras. E se a narrativa peca pela inconsistência,
aplaudo Natali por investir na destruição de nossas expectativas. Quando você acha que ele não
vai ultrapassar ‘aquele’ limite, ele o faz com muito gosto e perversão. O filme é tão selvagem
e audacioso que passeia livremente pelo tragicômico e pelo totalmente bizarro. Não vou adiantar
nenhuma das surpresas que o aguardam em Splice, mas recomendo o filme para quem está
a fim de reunir a família nessa sexta-feira e acabar com o clima de Páscoa de uma vez.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
PÂNICO ![]()
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Scream EUA 1997 1h40min
de Wes Craven com Neve Campbell, Courtney Cox, David Arquette, Drew Barrymore
Disponível para download
por Filipe Marcena
OPINIÃO “Do you like scary movies?” Quando um filme que se autoproclamava terror fez
tal pergunta logo no início de sua projeção, tive três reações imediatas. Primeiro percebi
que esse filme não era um teen slasher ordinário, pois a autorreferência e a metalinguagem
não soavam artificiais como um acaso de roteiro. Depois, dei uma risada tensa ao perceber
que o filme me desafiava descaradamente a assumir meu gosto pelo medo numa experiência
fílmica e a continuar assistindo ao que aquela misteriosa voz se preparava para fazer com
a frágil loirinha Casey (Drew Barrymore). Imediatamente, conclui: “Isso vai ser divertido”.
Pânico cumpriu o que prometeu, e não só pra mim, mas para os milhões de pessoas que
lotaram os cinemas bem antes de eu assistir ao filme na minha gloriosa cópia em avi.
Sim, porque o maior e mais assistido filme do gênero jamais foi lançado em DVD no Brasil
devido a confusões quanto aos direitos autorais, pertencentes a uma falida distribuidora.
O download ou a importação são as únicas maneiras de assistir ao filme. Estranho isso não
ter se resolvido a tempo do lançamento da quarta parte da saga da imortal Sidney Prescott.
Imortal por que Sidney, interpretada pela sumida Neve Campbell, conseguiu sobreviver
a três filmes e vários assassinos Ghostface sedentos por seu sangue. No original, ela está
no fim da adolescência e ainda sofre pela perda da mãe, assassinada um ano antes dos
eventos que ocorrem na Woodsboro de 1997. Assassinatos estão ocorrendo na cidadezinha
suburbana, e todos são suspeitos. Apoiada pelo namorado Billy (Skeet Ulrich). pela amiga
Tatum (Rose McGowan) e seu irmão policial Dewey (David Arquette), Sidney enfrenta
a perseguição do assassino mascarado e da convencida repórter Gale Weathers (Courtney Cox),
autora de um livro prestes a ser lançado sobre o caso de sua mãe. Mas é claro que é tudo
um motivo para o roteirista Kevin Williamson (que sumiu depois dos fiascos Tentação Fatal
e Amaldiçoados, mas retorna para o quarto filme) e o diretor Wes Craven brincarem com
as nossas expectativas, transformando o previsível em engraçado. Quem conhecer minimamente
o gênero se diverte com as referências à filmes, personagens, atores e cineastas que
o marcaram (incluindo o próprio Craven, que faz uma hilária participação). Isso seria arrogante
e irritante se Williamson e Craven não soubessem dosar as referências com as piadas e as
cenas de suspense, o que dá energia à própria trama por tabela. O auge fica por conta de Randy,
personagem cinéfilo interpretado por Jamie Kennedy que, além de recitar as famosas regras
dos filmes de terror, protagoniza a ótima cena onde, assistindo à Halloween, pede desesperado
para que Jamie Lee Curtis vire de costas e veja que Michael Myers está atrás dela, sem perceber
que o Ghostface também está bem atrás dele. Suspense e comédia em perfeito equilíbrio.
Além da metalinguagem, Pânico me instiga por atingir em sua diegese um raro nível onde
autoconsciência e demência se completam. Última vez que testemunhei isso num filme foi
no maravilhoso Arraste-me Para O Inferno, de Sam Raimi. Esses filmes deixam explícito
que estamos assistindo a uma ficção, uma obra criada por alguém para dizer algo, pouco
se preocupando com suspensão de realidade. Ao mesmo tempo, demonstram-se empolgados
como farsa assumida que nos apresenta, e nos fazem mergulhar na trama e nos interessar
pelos personagens/arquétipos. É como se cada um de nossos olhos enxergasse o filme
de uma maneira: o discurso nada discreto do autor e a descabida história fictícia. Faz muito
tempo que a suspensão parcial de realidade no cinema não é novidade, mas raramente
acontece sem ser acompanhado de certa pretensão (Dogville, por exemplo, e não acho
que pretensão seja algo sempre ruim). O que Pânico propõe é uma revisita a um gênero
cansado (e que logo cansou novamente após suas sequências), desconstruindo clichês
para nos surpreender. Não foi o primeiro a fazê-lo e muito menos o último, bem sei.
Mas fez de maneira uniforme, charmosa, focada e absolutamente divertida, deixando
de ser um filme para cinéfilos para ser um sucesso entre o grande público, por um motivo
ou por outro. Torçam para que Pânico 4 atualize a série sem perder as qualidades do original.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
A MENTIRA ![]()
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Easy A EUA 2010 1h32min
de Will Gluck com Emma Stone, Amanda Bynes, Patricia Clarkson, Stanley Tucci
Em DVD pela Sony
por Filipe Marcena
OPINIÃO Tudo começou em 1995, quando Amy Heckerling resolveu dirigir uma livre adaptação
do clássico literário Emma, de Jane Austen, e o resultado foi o cultuado As Patricinhas de Beverly Hills.
O filme fez um sucesso inesperado e catapultou Alicia Silverstone ao estrelato (que pouco durou,
é verdade). Um ano depois, Romeu + Julieta, de Baz Luhrman, colocava Leonardo DiCaprio
e Claire Danes protagonizando o trágico romance de Shakespeare e era aclamado por crítica
e público. Em 1999, a comédia 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você virou um queridinho entre
os jovens ao modernizar outra obra clássica de Shakespeare, A Megera Domada. Sucesso,
Heath Ledger e Joseph Gordon-Levitt revelados e Julia Stiles musa teen. Naquele mesmo ano,
a ácida comédia Segundas Intenções trazia Sarah Michelle Gellar, Ryan Phillipe e Reese Witherspoon
num triângulo provocante inspirado em As Ligações Perigosas, de Chordelos de Laclos. Stiles investiu
em mais uma adaptação de Shakespeare, Jogo de Intrigas, versão adolescente de Otelo realizada
por Tim Blake Nelson, que encarou uma recepção morna e o fracasso comercial. O formato estava
cansado até que em 2006 Amanda Bynes estrelou Ela é O Cara, ligeiro sucesso que recriava outra
obra shakespereana, Noite de Reis. No ano seguinte, lá estava Bynes na recriação do conto
da Branca de Neve, Ela e Os Caras, filme mais interessado em ganhar uns trocados do que
em fazer uma releitura interessante do conto que ficou famoso através dos irmãos Grimm.
Finalmente, em 2010 chegamos em A Mentira, tradução pouco criativa de Easy A.
No filme somos apresentados a Olive Penderghast (Emma Stone, de Zumbilândia), garota
suburbana que narra sua história via webcam. A história é sobre como um falso rumor de que
ela teria perdido a virgindade, iniciado pela própria, a transformou na maior ‘vagaba’ da escola.
O que isso tem a ver com todos os outros filmes que citei acima? Olive percebe que sua história
tem muitos pontos de convergência com a de Hester Prynne, a protagonista de A Letra Escarlate,
romance de Nathaniel Hawthorne. Essa também é a diferença de A Mentira em relação àqueles
filmes: ele sabe que é uma adaptação livre de um clássico da literatura, e deixa isso bem claro.
Isso não o torna melhor ou pior, mas diferente. O enredo é narrado em flashbacks, divididos
em capítulos objetivos e declamados por Olive. Sarcástica, bem humorada, crítica e com uma
língua afiada, Olive é incrivelmente empática e ser interpretada por Emma Stone, atriz de talento
imensurável, engrandece a personagem. Uma tarefa que a ruivinha tira de letra, mesmo contracenando
com Patricia Clarkson, Stanley Tucci, Thomas Haden Church, Lisa Kudrow e Malcolm McDowell.
Os personagens secundários não são menos divertidos na brincadeira dos estereótipos: Aly Michalka
faz de Rhiannon, melhor amiga de Olive, um divertido poço de contradições; Brandon, o angustiado
rapaz gay que pede um favor improvável à Olive, ganha dignidade e momentos hilários através
do ator Dan Byrd; e até a própria Amanda Bynes dá as caras como a fanática religiosa Marianne
Bryant, principal algoz da protagonista (e esses são apenas os jovens). Pra completar. A Mentira
também se pretende como uma homenagem a John Hugues e ao cinema teen dos anos 80, com
direito a número musical e tudo mais. É difícil não se deixar levar pelo filme e suas brilhantes sacadas,
alta média de piadas por minuto e o carisma de Stone, merecedora de sua indicação ao Globo de Ouro,
o qual deveria ter ganhado. Uma pena que a direção de Will Gluck seja melhor para os atores do que
para o filme em si, que segue um tanto apressado, sem grandes atenções para a imagem, salvo
raras exceções. Felizmente não compromete. Se A Mentira representa para os filmes sobre adolescentes
um retorno às inspiradas adaptações de histórias clássicas, que esse retorno seja muito bem vindo.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
NO CAMINHO DOS ELEFANTES ![]()
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Elephant Walk EUA 1953 1h43min
de William Dieterle com Elizabeth Taylor, Dana Andrews, Peter Finch
Em DVD pela Paramount
por Filipe Marcena
OPINIÃO Um Lugar ao Sol, Assim Caminha a Humanidade, Quo Vadis, De Repente,
No Último Verão, Ivanhoé, A Megera Domada, O Pecado de Todos Nós, Quem Tem
Medo de Virginia Woolf, Gata em Teto de Zinco Quente. Esses são alguns dos filmes
estrelados por Elizabeth Taylor que registraram uma forte impressão na era de ouro
de Hollywood e na memória dos fãs de cinema, e que solidificaram a carreira de Taylor
como uma excelente intérprete. Seus grandes olhos azuis-violeta, seu carisma dentro
e fora da tela e seus muitos e atribulados relacionamentos a transformaram numa das
maiores superestrelas a pisar no planeta. Cleópatra, um filme lembrado por suas falhas,
ainda que seja popular, foi o blockbuster que definiu uma geração (salários milionários,
orçamento astronômico de 300 milhões de dólares ajustados, troca de diretores, roteiro
incompleto) graças a Taylor, que o transformou num épico pomposo. Mas bem antes
de atingir tal nível de poder em Hollywood, ela buscou popularidade entre o público.
No Caminho dos Elefantes, realizado uma década antes da extravagância sobre a rainha
egípcia, foi um dos filmes que serviu de degrau para Liz. Não que seja um filme memorável.
Liz interpreta Ruth, jovem noiva inglesa do rico John Wiley (Peter Finch) que se muda com
ele para o Ceilão, antigo Sri Lanka. Wiley cuida das plantações herdadas por seu pai, que
é reverenciado por todos no local. Isolada, Ruth descobre que a gigantesca mansão onde
mora está localizada no meio do ‘caminho dos elefantes’, um espaço que servia de trajeto
para os animais, estes obviamente muito hostis aos humanos. Um conflito surge quando
o produtor Dick Carver (Dana Andrews), amigo de John, deixa clara sua atração por Ruth,
e o triângulo se forma. O que segue é um romance melodramático um tanto absurdo, daqueles
onde a casta mocinha não pode ouvir uma grosseria sem cobrir o rosto com os braços e se jogar
desesperadamente no travesseiro para chorar. Como pano de fundo estão a seca que devasta
as plantações, uma epidemia de cólera entre os locais e os raivosos elefantes.
Entre os vários problemas do filme está o clichê pouco trabalhado da garota divida em dois,
onde ela precisa escolher entre a boa vida (dinheiro) e a paixão. Os personagens mudam de
índole arbitrariamente, a ponto de você torcer para que Ruth fique sozinha e saia correndo dali.
Os coadjuvantes e figurantes locais, coitados, são tratados como figuras exóticas e estereotipadas
que, além de incapazes de superar a própria submissão, de pouco servem para a narrativa.
Por outro lado, o filme tem boas noções de entretenimento. A primeira aparição do elefante
logo no início lembrou-me a impactante chegada do tiranossauro rex em Jurassic Park.
São pelas criaturas que verdadeiramente torcemos, afinal aqueles branquelos estrangeiros
atrapalharam toda uma tradição de séculos. E quando a natureza decide tomar de volta o que
é seu é que No Caminho dos Elefantes chega ao seu auge. É diversão tendendo para o camp,
pra se assistir na Sessão da Tarde e se divertir. E Elizabeth Taylor, que substituíra Vivien Leigh
após as gravações terem começado, parece se divertir com as cenas nonsense, e ainda
está incrivelmente linda. Ela não será lembrada por No Caminho dos Elefantes, mas
não deixa de ser uma curiosidade, tanto por fazer parte da irregular carreira da falecida
diva hollywoodiana quanto pela aura B que paria sobre a produção.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
CANDY ![]()
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Candy 2005 Austrália 1h48min
de Neil Armfield com Heath Ledger, Abbie Cornish, Geoffrey Rush
Em DVD pela Califórnia Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO Abbie Cornish ascendeu como um foguete. Após alguns trabalhos bem sucedidos
no cinema e na TV da Austrália, sua terra natal, foi revelada ao mundo aos 15 anos no drama
Sommersault, de 2004, onde interpretou uma adolescente no auge do amadurecimento sexual.
Logo após estava trabalhando com Heath Ledger em Candy, filme pouco visto, mas que solidificou
seu status de atriz promissora. Eles interpretam um jovem e inconsequente casal apaixonado,
tão viciados um no outro quanto na heroína que consome suas vidas. É uma história de amor
cujo conflito (e sempre há de existir um conflito) é a incapacidade dos jovens de se afastar
das drogas, da autodestruição e do esgotamento do outro.
Ledger é Dan, rapaz que não possui nenhum outro estímulo não vida que não seja a bela Candice,
a Candy de Abbie Cornish. Ela, garota de família, rejeita seus pais e prefere passar seus dias
no paraíso com Dan. Para sustentar o vício, ele comete roubos e furtos, enquanto ela se prostitui.
Como em todo filme ou história sobre drogas, a linha é decadente. O filme revisita alguns clichês
com resultados relativos, mas em seus melhores momentos pode causar nós na garganta. Em papel
coadjuvante está Geoffrey Rush, que encarna Casper, amigo de Dan e Candy que gasta tempo e dinheiro
se drogando, traficando e transando com rapazes. Como Dan define em certo momento do filme,
a casa de Casper é para o casal como ‘a casa feita de chocolate e gengibre’ do conto de João e Maria.
É um filme de atores, e eles são muito bons. Ledger está confortável num papel que ele era acostumado
a fazer, um outsider atordoado e de bom coração. Sua figura em cena torna a experiência de assistir
Candy ainda mais triste e pungente, levando em consideração as causas de sua morte prematura
e seu imenso talento e carisma. O filme é narrado de um ponto de vista masculino, e Dan é um
personagem mais bem construído que Candy. Mas Abbie tira o melhor do roteiro, fazendo o impossível
para tornar Candy uma garota verossímil, misturando a doçura de seu nome com a rigidez de sua situação.
Quando um bebê entra em jogo, o filme massacra nosso coração e Abbie é certeira na caracterização,
brilhante. Já vimos histórias como a de Candy outras vezes, e até mais bem contadas, mas por traz
da batida mensagem anti-drogas, Candy, o filme, tem alguma humanidade.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
O INFERNO DE HENRI-GEORGES CLOUZOT ![]()
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L'enfer d'Henri-Georges Clouzot 2010 França 1h34min
de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea com Romy Schenider, Henri-Georges Clouzot
Em DVD pela Imovision
por Filipe Marcena
OPINIÃO Henri-Georges Clouzot, diretor de filmes como O Salário do Medo, O Mistério
de Picasso e As Diabólicas, este último já resenhado aqui no Dicas de Cinéfilo, estava no auge
do sucesso quando mergulhou numa espiral decadente infernal. Literalmente, no caso.
Com um orçamento ilimitado, o francês deu início a L’Enfer, ambicioso filme sobre um homem
recém-casado que desconfia que sua mulher está sendo infiel, chegando ao limite da ilusão.
No elenco, Serge Regianni, de La Ronde e O Leopardo, como o marido ciumento, e a belíssima
Romy Schneider, estrela graças ao sucesso de Sissi – A Imperatriz e respeitada por ter trabalhado
com Orson Welles (O Processo), Otto Preminger (O Cardeal), René Clement (O Sol Por Testemunha)
e Luchino Visconti (Boccaccio ’70). Trabalhando num formato que profetizava a geração New Hollywood,
Clouzot foi incapaz de terminar seu filme. Exauriu a equipe e a si mesmo, deixando as várias horas
de filme rodado no limbo. Décadas depois, o colecionador e aficionado por cinema Serge Bromberg
vê-se preso num elevador com Vèra, viúva de Clouzot. Assim nasceu O Inferno de Henri-Georges
Clouzot, documentário que resgata o material da fracassada produção mostrando que,
para além do caos, havia genialidade e inspiração em L’Enfer, a obra inacabada.
Em parte, Bromberg segue a escola Peter Biskind de análise dos mitos do cinema, num estilo
"quem é quem e o que fez nos bastidores" solidificado pelas curiosas e inúmeras imagens
de testes de figurino e momentos de diversão em frente à câmera. A aura de diva e musa
inspiradora de Schneider é particularmente explorada pela câmera, que a adora desesperadamente.
Ela embarcava num papel muito sedutor, com direito a cenas de nudez e puramente eróticas,
deixando-se levar nas cenas de delírio. Estas, ambiciosas, foram inspiradas na arte cinética
por qual Clouzot estava apaixonado, exigindo muitas horas e dólares de testes de acordo
com as exigências do diretor. O filme era lapidado à perfeição pelo cineasta, que refazia
tomadas até seus atores não agüentarem mais, atrasando as filmagens que já corriam
o risco de serem canceladas por causa de um lago, uma das principais locações, que logo
seria transformado em uma represa. Desavenças, conflitos e abandonos são contados
através de depoimentos de pessoas que trabalhavam na equipe, incluindo Costra-Gavras
e Catherine Allégret, filha de Simone Signoret e do cineasta Yves Allegret, então estreante
na frente das câmeras. Existe também uma encenação do roteiro com as atores Berenice
Bejo e Jacques Gamblin, já que o áudio de L’Enfer não foi gravado (as imagens são
acompanhadas de sons e trilha sonora gravados apenas para o documentário).
O Inferno de Henri-Georges Clouzot homenageia Clouzot sem deixar de observar suas
obsessões impossíveis e excessos, o ser humano imperfeito escondido atrás do mestre do cinema.
O filme dentro do filme é belíssimo - mérito também do fotógrafo William Lubtchansky - uma aula
de como se deve (e não se deve) fazer um filme. Mesmo L’Enfer não sendo um filme por inteiro,
as belas imagens de Romy Schneider ficam registradas na memória e nos fazem desejar que
ele
o fosse. Para os curiosos, a dica é assistir logo após este documentário Ciúme – O Inferno
do Amor Possessivo, que o sempre interessante Claude Chabrol (1930-2010) realizou em 1994
baseado no roteiro original de Clouzot, com Emmanuelle Béart e François Cluzet.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
IDIOCRACY ![]()
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Idiocracy EUA 2006 1h24min
de Mike Judge com Luke Wilson, Maya Rudolph, Dax Sheppard, Terry Crews
Em DVD pela Fox
por Filipe Marcena
OPINIÃO Se existe um filme com grandes possibilidades de ser reconhecido futuramente como
uma profecia realizada este é Idiocracy. Mike Judge escreveu e dirigiu essa ambiciosa comédia
em 2005 para a Fox, que rejeitou o filme a ponto de escanteá-lo com um ano de atraso num
lançamento limitado, pobre e sem marketing, condenando-o ao fracasso. No Brasil, só viu a luz
do dia em DVD. E foi nesse formato que Idiocracy virou objeto de culto entre cinéfilos.
Imagino que não apenas por ser uma comédia escrota e engraçadíssima como só o Mike Judge faz,
mas por estar de maneira impressionante e deprimente próxima da realidade atual, mesmo o enredo
se passando num distante 2505. Explico: o filme conta a história de um homem e uma mulher que
aceitam um experimento do governo e são congelados, mas acabam esquecidos e só acordam
500 anos depois, para descobrir que a humanidade ficou absolutamente retardada.
O homem em questão é o americano comum Joe Bauers (Luke Wilson e sua perfeita cara de americano
comum), que é praticamente obrigado a aceitar a proposta do Pentágono de ser o representante militar
congelado no tempo. A mulher é Rita (Maya Rudolph, atriz e comediante que admiro desde A Última Noite,
de Robert Altman), prostituta junkie que topa participar do projeto em troca da retirada de queixas
criminais contra sua pessoa. Com total sarcasmo e humor negro, Judge mostra como é o planeta Terra
de daqui a 500 anos que Joe e Rita dão de cara. Crianças comemoram aniversários em lanchonetes
chamadas Buttfuckers, as pessoas bebem Gatorade ao invés de água nos bebedouros, a linguagem
das pessoas se resume a gemidos, gírias e palavrões, a ‘ecomonia’ está a mil e tudo e todos ao redor
estão estampados com propaganda. Os humanos simplesmente pararam de raciocinar. Logo Joe e Rita
são as duas criaturas mais inteligentes da Terra, o que atrai a atenção do ‘galeroso’ presidente dos EUA,
Camacho (Terry Crews, que parece estar naqueles clipes ostentadores de rappers famosos), que decide
contratar Joe para resolver a questão das plantas que pararam de nascer. Bater em bêbado é fácil,
mas uma nação de idiotas é incrivelmente perigosa e Joe acaba sendo ajudado/atrapalhado pelo seu
‘advogado’ Frito Pendejo (ou Pentelho Frito, em espanhol, interpretado por Dax Sheppard).
Judge filma sem grandes aspirações estéticas (nesse âmbito, o show é da bem humorada direção de arte),
mas isso não impede que ele se faça entender através do seu olhar agudo para a crítica social e para
a comédia absurda. Infelizmente, fica clara a tentativa da Fox de imbecilizar o filme, que exigiu cortes,
redublagens e uma desnecessária narração para explicar Idiocracy para o público o qual ele satiriza
(ou pelo menos fazer com que os imbecis não percebam que estão sendo satirizados, o que é... bem imbecil).
Ainda assim, o material sobrevive por baixo da mutilação, e é o suficiente para perceber o quanto aquela
sociedade fictícia mimetiza a nossa, ou vice-versa. Basta passar num shopping, num multiplex ou dar
uma volta na rua para reconhecer criaturas que parecem ter saído diretamente do filme. São as mesmas
idiocracias e idiotias. Com sorte, essas pessoas assistem à Idiocracy, tomam uma porrada e vergonha
na cara. E que seja rápido, antes que coloquem no mercado poltronas com privadas embutidas!
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
REINO ANIMAL ![]()
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Animal Kingdom Austrália 2010 1h52min
de David Michôd com James Frecheville, Jacki Weaver, Ben Mendelsohn, Guy Pearce
Em DVD pela Sony
por Filipe Marcena
OPINIÃO Vez ou outra algumas joias do cinema australiano chegam ao Brasil. Impulsionado
pelo sucesso em festivais e premiações, especialmente aqueles dedicados à experiente atriz
Jacki Weaver, Reino Animal é um dos mais bem sucedidos da recente safra. O estreante
na direção de longas de ficção David Michôd realiza o que se chama de estudo de personagens,
com um olhar emotivo e clínico à la Discovery Channel, no sentido mais melancólico possível
(perceba o uso do slow-motion), de uma família urbana de criminosos em decadência. ‘Só os
mais fortes sobrevivem’ é a lei da selva, mas o título de Rei é constantemente indefinido.
Joshua (Frecheville) mal esboça reação ao perceber que sua mãe acaba de morrer de overdose
de heroína, nem tira os olhos do reality show que passa na televisão. Sua avó Janine (Weaver)
também não parece tão comovida quando vai buscar seu neto para morar com ela e seus filhos
ladrões e assassinos. Baz (Joel Edgerton) é o mais ‘íntegro’ da família, sempre preocupado com
seus irmãos e sua esposa. Craig (Sullivan Stapleton) é inconsequente e passional, age antes
de pensar. Darren (Luke Ford) é o mais novo entre os irmãos, e o mais inseguro. E Andrew
‘Pope’ (Mendelsohn), o mais velho, é o mais perigoso e procurado de todos. Josh cai
de pára-quedas nesse universo que sua falecida mão não gostaria que ele vivesse,
mas é uma experiência que expurgará a inércia de sua vida jovem e imatura.
Cada personagem de Reino Animal é detalhadamente cuidado por Michôd. Não há
os clichês nem as notas falsas dos filmes de gangster, ele constrói personagens que,
antes de criminosos, são seres humanos. Então quando o Pope, que Ben Mendelsohn
encarna como uma criatura discretamente assustadora, comove-se ao assistir ao clipe
da canção Out of Love do Air Supply na TV, sua estrutura emocional é delineada.
Ele é um dos melhores personagens graças a sua tridimensionalidade e inconstância,
ora chocando com seu sangue-frio, ora comovendo com sua carência e solidão.
O melhor diálogo do filme é o que ocorre entre ele e Darren, quando o mais velho
questiona a sexualidade do mais novo numa cena sutil e sugestiva sobre a relação
entre Pope e seus irmãos. Guy Pearce, a única estrela do longa, faz uma participação
como o detetive Leckie, mas quem rouba a cena é Jacki Weaver como Janine: dona
de um rosto que perece ter sido desenhado para o papel, Weaver interpreta uma mulher
aparentemente carinhosa com seus filhos, de voz manipuladora, beirando o sensual.
Mas como todos os personagens de Reino Animal, ela é tridimensional. E quando Weaver
finalmente mostra a que veio é de perder o chão. Ela é a leoa que ruge por sua prole,
que morde por amor maternal e que transformou todos ao seu redor no que eles são.
Filme não lançado no Brasil, é uma pena não vê-la numa tela de cinema.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
MALDITO FUTEBOL CLUBE ![]()
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The Damned United 2009 Inglaterra 1h33min
de Tom Hooper com Michael Sheen, Timothy Spall, Colm Meaney, Jim Broadbent
Em DVD pela Sony
por Filipe Marcena
OPINIÃO Maldito Futebol Clube é uma cinebiografia do treinador Brian Clough, um homem
de língua descontrolada que, junto ao seu parceiro Peter Taylor, ressuscitou o time Derby County
e o transformou no campeão da Liga de 1972, mesmo sob os protestos do dono do time
Sam Longson contra os gastos excessivos. É também a história de rivalidade e egolatria
de Clough e Don Revie, ex-treinador do Leeds United (o ‘maldito United’ do título original)
que alcançou o cargo no time da Inglaterra na mesma época. Clough criticava duramente
o estilo violento e desonesto com que Revie guiava o United, e quando aceitou substituí-lo,
sofreu todas as humilhações possíveis dos jogadores mal-acostumados e quase destruiu
sua carreira. É também a insuspeita ‘história de amor’ entre Clough e Taylor, amigos que se tornam
parceiros de trabalho e desequilibram a amizade quando um ego tenta superar todos ao redor.
Escrito por Peter Morgan (Além da Vida, Frost/Nixon, A Rainha), Maldito Futebol Clube divide
a história em duas partes – ou dois clubes -, a época do Derby e a época do Leeds. As duas fases
da vida de Clough são narradas simultaneamente, a fim de resultar no efeito 'causa e consequência'
que funciona na maioria das vezes. Mas a espinha dorsal do filme não está nos diálogos ou na estrutura,
mas no elenco. Para ser mais exato, no fabuloso Michael Sheen. Conhecido por uns por suas
performances como o jornalista David Frost em Frost/Nixon e como Tony Blair em A Rainha,
e mais conhecido por suas participações em TRON – O Legado e nas séries Crepúsculo e Anjos da Noite,
Sheen ganhou em Maldito Futebol Clube um filme só pra si. E ele aproveita muito bem a oportunidade.
Clough não é exatamente um homem gostável (na verdade, é bastante arrogante e obcecado),
e isso dificultaria a aproximação do espectador ao protagonista. Mas Sheen transparece as fragilidades
de Clough com inteligência, sendo impossível não sentir empatia por esse homem errante, em confronto
consigo mesmo. No apoio estão Jim Broadbent como Longson, Colm Meaney como o intrigante Revie
e Timothy Spall, que, como Taylor, finalmente ganha um tempo considerável de tela num filme.
O mais interessante de se assistir a Maldito Futebol Clube hoje é perceber o quanto ele é semelhante
ao outro filme de Tom Hooper, O Discurso do Rei (sim, aquele filminho desconhecido que chega timidamente
ao Oscar com 12 indicações). Visualmente são idênticos, com as mesmas lentes grande angular, a mesma
fotografia dessaturada e os mesmos planos descentralizados muito próximos da publicidade (e que pouco
significam pra mim). Além disso, ambos contam a história de homens de grande ego que, após falhar
e passar por humilhações, precisam reconhecer seus defeitos, pisar no chão e se (re)conectar com outro
ser humano, um amigo. Com direito a subtexto gay (mais bem trabalhado em Maldito que em Discurso).
Hooper repete seus maneirismos, mas seu mais recente e reconhecido trabalho não é tão eficaz quanto
o anterior. Creio que seja pelo fato de que o roteiro de David Seidler seja mais ‘certinho’, maniqueísta
ou óbvio demais para eu me importar com o que se passa na tela em O Discurso do Rei. Imagens,
templates e sentimentos já há muito desgastados e trabalhados sem novas cores e impressões.
Não é o caso em Maldito Futebol Clube e do roteiro de Morgan, que mesmo não sendo a originalidade
transformada em palavras, reutiliza clichês com mais sagacidade e frescor. E Brian Clough
é um personagem muito mais difícil quanto à personalidade que o Rei George XI de Colin Firth,
que gagueja com talento. Quantos prêmios Michael Sheen ganhou por esse filme mesmo? Ah, nenhum...
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
ALEXANDRIA ![]()
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Àgora 2009 Espanha/Inglaterra 2h07min
de Alejandro Amenábar com Rachel Weisz, Max Minghella, Oscar Isaac, Michael Lonsdale
Em DVD pela Flashstar
por Filipe Marcena
OPINIÃO Lançado no Festival de Cannes 2008, Alexandria, segunda produção em língua
inglesa (mas de co-produção espanhola) do aclamado cineasta Alejandro Amenábar (Os Outros,
Mar Adentro), foi recebido friamente pela crítica e esquecido pelas distribuidoras, sendo lançado
apenas no ano seguinte na Espanha, com grande sucesso comercial. Dentro do contexto do Festival,
o filme pode ter sido ofuscado em meio às outras produções de grande porte que Cannes recebeu
naquele ano, mas não merecia destino tão trágico: mesmo com o sucesso em terras espanholas,
o filme naufragou no resto do mundo, não conseguindo cobrir os US$70 milhões de seu orçamento.
Fato é que, mesmo contando uma história de fácil assimilação para o grande público, o filme foi
uma aposta corajosa de seus produtores, pois não se trata de um típico épico de sandália e espada.
Alexandria (ou Àgora no original, nome dos templos sagrados do Egito Antigo) é uma espécie
de biografia da filósofa e astróloga Hypatia, interpretada com firmeza e delicadeza pela sempre
linda Rachel Weizs. Sua vida é narrada através de um enredo quase novelesco: a beleza
e a inteligência de Hypatia atraem Orestes (Oscar Isaac), um de seus discípulos e alunos,
e o jovem escravo cristão Davus (Max Minghella, de A Rede Social). Ela recusa o amor de ambos,
o que criará o conflito que será a primeira espinha dorsal do filme. A segunda, de veia histórica,
é a invasão do fundamentalismo cristão no Egito, assim como o aumento dos seguidores da religião.
Violentos, os cristãos ameaçam invadir a biblioteca de Alexandria e queimar todos os escritos
e 'blasfêmias'. Cada um dos personagens embarca em uma viagem particular de ambição
e auto-descoberta (no caso de Hypatia, também de descobertas que mudaram o mundo
quanto aos movimentos de rotação e translação da Terra), sendo o amor um sentimento
incapaz de alterar drasticamente os rumos dessa história.
Alexandria se inspira no cinema clássico americano em suas estruturas. Além do romance
e dos rostos conhecidos, possui um impressionante design de produção – incluindo cenários
criados com ajudas de bons efeitos digitais – e trilha sonora grandiosa, garantindo certo prazer
para os olhos e ouvidos (ainda que com alguma cafonice). Mas o que tira o filme do status quo
é sua bem-vinda discussão sobre a filosofia no mundo antigo e, logo, no mundo contemporâneo.
Superando-se os inevitáveis erros históricos e certas caracterizações tendenciosas, Alexandria
é um raro filme voltado para o grande público que enxerga e traduz em imagens a importância
da Ciência e da reflexão ontem e hoje. Hypatia é uma protagonista abertamente ateia que
desconstrói os discursos machistas, manipulativos e brutais de seus superiores religiosos.
Sua coragem e convicção na afronta contra os modelos de pensamentos em voga nas mentes
da maioria dos líderes vão além de sua nula força física, tornando-a uma heroína naturalmente
inspiradora. As fraquezas do filme estão justamente no que concerne os amores de Hypatia,
que só ganham algum significado na meia hora final, mesmo assim de maneira insatisfatória.
Pode não trazer grandes novidades para o seleto público dos estudados e conhecedores
de seus temas, mas ressuscita para o cinemão mainstream questões básicas sobre a importância
do estudo e do discernimento contra a brutalidade ignorante e cega dos preconceitos.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
ENTERRADO VIVO ![]()
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Buried 2010 EUA 1h40min
de Rodrigo Cortez com Ryan Reynolds
Em DVD pela Califórnia Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO Imagine aquela sufocante cena de Kill Bill - Volume 2 onde a Noiva é enterrada
viva dentro de um caixão. Agora transforme tal cena num longa-metragem de uma hora
e quarenta minutos. Isso é Enterrado Vivo, um filme-desafio que Recife não assistiu nos
cinemas por negligência dos exibidores. Desafio realizado com êxito pelo cineasta Rodrigo Cortez,
que soube lidar com as limitações de sua história com inteligência e habilidade, e também
um desafio para o público, que fracassou em aceitar o convite do filme de passar um longo
tempo num espaço extremamente claustrofóbico. Em casa o filme perde esse valor, mas
talvez seja uma maneira mais atraente para o público de se aproximar do filme.
Para contar uma história inteiramente do ponto de vista de um caixão era necessário um ator
que, além de competente, tivesse carisma o suficiente para segurar a atenção do espectador.
Ryan Reynolds, ator que se fez na comédia e tem pouca experiência em filmes de outros gêneros,
provou-se uma boa escolha para interpretar Paul Conroy, um motorista de caminhão contratado
por uma empresa no Iraque que, aos poucos, percebe que está trancado num caixão e enterrado
a vários metros da superfície. Depois dos momentos de desespero, Paul descobre, pista após
pista, que ele não foi posto ali sem motivos. Revelar mais estraga a experiência de ver
por si mesmo os caminhos encontrados por Cortez para manter seu filme sempre nos trilhos,
jamais pedante em sua locação restrita.
Enterrado Vivo se equilibra na atuação de Reynolds e na criativa fotografia de Eduard Grau.
Sempre existe um ângulo e um enquadramento inédito no filme, a luz e as cores são brilhantemente
utilizadas através dos artefatos que Paul possui, sendo a escuridão algo pontual. E a simples e eficaz
técnica jamais se sobrepõe ao desenvolvimento físico e dramático do protagonista. A tensão criada
por vários elementos do roteiro (a bateria do celular que descarrega, o ar prestes a acabar) ganham
fortes dimensões de horror em momentos, senão cruciais, absolutamente apavorantes (a presença
de um animal em certo momento do filme provavelmente tirou da sala aquelas pessoas que já
estavam propensas a fazê-lo). Enterrado Vivo é uma jóia do horror minimalista, que
injustamente foi mal visto nos cinemas do Brasil e do mundo. Descubra em DVD.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
IRMA VEP ![]()
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Irma Vep 1996 França 1h39min
de Olivier Assayas com Maggie Cheung, Jean-Pierre Léaud, Nathalie Richard
Disponível para download
por Filipe Marcena
OPINIÃO Irma Vep pode ser interpretado como um mito. É uma história de forte poder
simbólico que divaga sobre a realidade e os seres humanos através de uma deusa/heroína.
O mito é posto em ação na vida do homem através do rito. No caso do filme do mestre
Olivier Assayas, a deusa é Maggie Cheung e o rito é o ato de fazer filmes, e toda a ‘mitologia’
envolvida está relacionada à cultura e ao povo de cinema. Tal metáfora é desenvolvida
através da história de Rene Vidal (Léaud), um cineasta em decadência mental e artística
que prepara um remake de Os Vampiros, uma série muda sobre ladrões em 10 episódios
de Louis Feuillades. A protagonista da série é Irma Vep (anagrama de Vampire), musa
dos vampiros. Para interpretá-la, Rene convida a própria Maggie Cheung, atriz por qual
possui fascínio e que considera a figura perfeita para encarnar a ladra vampiresca.
Ao longo de seus curtos 99 minutos, acompanhamos o atribulado processo de produção
e o que a presença da Maggie significa para os filmes, o de Assayas e o de Rene.
Irma Vep é uma dádiva de Assayas, que recentemente nos presenteou com os também
brilhantes Horas de Verão e Carlos. Dádiva por ser um filme que levanta questões atuais
sobre o estado do cinema como arte e como entretenimento e por nunca fazer questão
de respondê-las com arrogante pretensão, mas sim dividi-las e espalhá-las; Por ser uma
meditação sobre a inspiração, incorporada pela belíssima e carismática Cheung, e sobre
aqueles que a incitam, ao mesmo tempo em que é sobre uma atriz conhecida que tem
dificuldades em lidar com a geniosa equipe francesa, incluindo a figurinista lésbica Zoe
(Richard), que nutre uma inegável atração por ela; Mas, principalmente, por ser um filme
de infinitas discussões sobre o cinema contemporâneo, seus meios, seus fins, passado
e futuro e ainda ser pop, repleto de referências simbólicas, ritmo leve, comicidade
palatável a qualquer público e com vários momentos puramente cool.
Assayas deve ser uma pessoa fantástica, a julgar pela maneira honesta e enérgica
com que filma. Longas tomadas cheias de movimento e quadros inusitados, personagens
pulsando vida na tela numa coreografia tão natural que parece exaustivamente ensaiada
e um olho especial para a sátira. O elenco é excepcional, mas Maggie Cheung tem o filme
todo para si. Não apenas por interpretar a si mesma e por interpretar uma musa, mas por
ter sido realmente a musa de Assayas, que se casou com ela após as filmagens.
Cada frame de Irma Vep transpira essa verdade, a câmera ama Cheung e nós a amamos
junto com o obcecado francês; metalinguagem é como dois espelhos de frente um para o outro.
Em certo momento Maggie decide interpretar Irma Vep na vida real, como se tentasse entender
a personagem. O resultado é a vibrante sequência no hotel, a mais marcante do filme junto
com os cinco minutos finais. Irma Vep é o cinema questionando o cinema, não por uma
despeitada e oca ousadia, mas para transformá-lo. Prova cabal da paixão de Assayas por ele.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
A MÃE E A PUTA ![]()
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La Mamam et La Putain 1973 França 3h37min
de Jean Eustache com
Jean-Pierre Léaud, Bernadette Lafont, Françoise Lebrun
Em DVD pela Lume Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO O fértil período da Nouvelle Vague apresentou uma forte tendência de discutir
a feminilidade. Os franceses fizeram obras que traziam pontos-de-vista inéditos sobre a mulher
e seus muitos prismas em filmes como Viver a Vida, Jules & Jim e Masculino Feminino, que
observavam personalidades femininas sob óticas sociais e emocionais. Esse reconhecimento
da existência de uma mulher não clássica e seu produto se tornou parâmetro em futuras produções
francesas, que analisavam, admiravam e desconstruíam a mulher moderna. Em 1973 foi lançado
no Festival de Cannes um dos mais impactantes destes filmes, A Mãe e A Puta, dirigido por Jean Eustache.
Já no título, ele provocava o espectador ao colocar numa mesma sentença dois opostos extremos
da índole de uma mulher de acordo com as ‘leis sociais’. Mas o choque maior vinha mesmo durante
a projeção, quando se percebia o que o título realmente queria dizer.
No enredo, Alexandre (Léaud, o Antoine Doinel) é um homem de 30 anos que mora num apartamento
com Marie (Lafont), uma mulher mais velha e livre. Ele acaba de sair de um relacionamento infrutífero,
abandonado por outra pessoa, mas logo passa a se encontrar com a jovem enfermeira Veronika (Lebrun).
Os três acabam se relacionando num triângulo complexo, perturbado e bastante falado. Não há julgamentos
fáceis em A Mãe e A Puta, mas sim uma metáfora para essas classificações de oposição rasas.
Alexandre é um homem que não se deseja prender a ninguém, mas ama com disposição as duas mulheres.
Já estas desafiam o rótulo fácil: Marie possui um temperamento forte e algo maternal quanto a Alexandre,
e mantém relações com vários homens em vários níveis. Já Veronika se veste como uma beata e age
com timidez, mas é cheia de histórias sexuais fetichistas e posicionamentos fortes quanto à sua sexualidade.
Seguem-se nada pedantes três horas e meia (!) de longas tomadas, diálogos pesados e realistas sobre
o amor e sobre sexo e performances poderosas do trio de atores. Lebrun se torna o elo forte do elenco
ao protagonizar um monólogo redentor de 10 minutos, de humanidade e sinceridade arrasadoras.
Antes de qualquer coisa, A Mãe e A Puta é um filme para cinéfilos. Há constantes referências a filmes
e cineastas, a maioria incluída com naturalidade na diegese e compondo um quadro cultural rico sobre
uma época e um lugar. Um deleite para fãs. A Mãe e A Puta é um complexo conto moral que destrói
a classificação burra do caráter feminino – a mulher pode ser mãe, pode ser puta e tudo o que existe
no meio, tudo ao mesmo tempo – e reflete sobre o vazio de uma geração. Uma pérola setentista
redescoberta pela Lume Filmes, que lançará o disco em breve nas lojas. Obrigatório ser descoberto.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
PAPRIKA ![]()
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Papurika 2006 Japão 1h30min
animação de Satoshi Kon
Em Blu-ray pela Sony Pictures
por Filipe Marcena
OPINIÃO Cinema é sonho e vice-versa. Tal afirmação vem sendo debatida e estudada por
pessoas de raízes acadêmicas das mais variadas através dos anos. Quando o cinema fala
sobre o sonhar pode-se considerar a obra quase metalingüística. São poucos os filmes que
dividem as muitas características de um sonho, presos nas fórmulas que os atrapalham e/ou
impedem de desbravar profundamente o simbolismo, a aparência de desconexo e a representação,
limitando-se a serem simplórios ‘substitutos’ do sonho, com tempo e enredo determinados
antecipadamente na mente de quem assiste. Alguns cineastas quebram essa ‘regra’, e outros
o fazem expressando seus próprios conceitos sobre ela. David Lynch é o mais popular de todos
graças às suas obras que desconstroem narrativas à maneira dos sonhos, sempre repletas de significações
nebulosas e inusitadas. Menos conhecido foi Satoshi Kon, mestre japonês da animação, falecido em 2010
aos 46 anos vítima de câncer. Realizou quatro filmes, uma série e deixou um filme inacabado.
Seu último filme completo foi esse genial Paprika, lançado no Brasil apenas em Blu-Ray.
Inspirado no livro de Yasutaka Tsutsui, Kon adentra o universo dos sonhos para costurar um mosaico
mágico baseado em referências literárias, cinematográficas e míticas. Apresentando uma pluralidade
artística impressionante, Paprika se passa num tempo onde pessoas são capazes de controlar e monitorar
sonhos de terceiros. A séria Dra. Atsuko Chiba é expoente na área por usar o método como tratamento
psicoterápico, solucionando problemas e traumas de seus pacientes através de seu alterego, a extrovertida
Paprika. Quando o DC Mini, dispositivo utilizado no tratamento, é roubado e pessoas passam a ter seus
sonhos atormentados por influências do ladrão, Paprika se encarrega de caçar o culpado. O enredo lembra
vários filmes, não é? Matrix, A Cela, Estranhos Prazeres e o problemático A Origem são apenas os primeiros
nomes que me vem à cabeça. Este último foi bastante acusado de copiar Paprika (os filmes citados são
posteriores ao lançamento do livro, 1993), e as similaridades são mesmo óbvias. O engraçado é que
o filme de Kon não esconde suas inspirações artísticas e filosóficas (‘Tenho saudades dos tempos em
que nos preocupávamos com o nosso futuro’, diz um dos personagens), pelo contrário, se utiliza de tais
referências de maneira pop e original, orquestrando suas ideias em imagens arrebatadoras, impecavelmente
concebidas e simbólicas. Paprika é uma viagem verdadeiramente surreal que não perde tempo
se auto-explicando e que entretêm apostando na inteligência e na bagagem cultural do espectador.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
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Especial - Os 10 Melhores DVDs de 2010

01. ANTES SÓ QUE MAL ACOMPANHADO ![]()
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Planes, Trains and Automobiles 1987 EUA 1h33min
de John Hugues com Steve Martin, John Candy, Laila Robins
Em DVD pela Paramount
por Filipe Marcena
OPINIÃO Aviões, trens e automóveis. Ao mesmo tempo em que separam as pessoas,
as aproxima. É o caso de Neal Page (Steve Martin), workaholic da indústria do marketing
que precisa viajar de Nova York para Chicago dois dias antes do feriado de Ação de Graças.
Obviamente, os meios de transporte estão um caos e Neal vai penar para chegar à sua
família a tempo. O que ele não previu é que vai contar com a espaçosa companhia
de Del Griffith (John Candy), atrapalhado vendedor de argolas para cortinas de banheiros
que decide se tornar o companheiro de viagem de Neal. Opostos perfeitos, atritos certos,
resultados impagáveis. Antes Só Que Mal Acompanhado reuniu três artistas no auge
de seus talentos e culminou numa verdadeira obra-prima das comédias.
Ainda que seja um humor majoritariamente slapstick, o filme não se prende apenas
às piadas para construir sua narrativa. As situações cômicas beiram o anormal de tão
excessivas e se encadeiam com uma naturalidade assustadora (Neal é um dos personagens
mais azarados da história do cinema), mas entre uma gargalhada e outra, Hugues arquiteta
as personalidades da dupla central para fins não tão óbvios. Alguns diálogos são poderosos
e melancólicos, postos no filme com a maturidade cada vez mais rara no cinema de humor
moderno (barreira essa que Judd Apatow vem quebrando), fazendo com que humor e melancolia
não contrastem, mas se acrescentem. Este ano, o irregular Um Parto de Viagem contou a mesmíssima
história com personagens desenhados de maneira quase idêntica, mas de resultado morno. O que
separa o antigo filme do novo é que Hugues sabia brincar com as emoções. Seus filmes tinham alto
teor melodramático, que unido à comédia popularesca resultava num combo imbatível.
No filme de Todd Phillips, o drama só não é mais forçado por que Zach Galifianakis é um ator multiuso.
Steve Martin e John Candy, embora brilhantes, nem precisam fazer tanto esforço para cativar
o espectador. Bastou carisma, o bom texto e direção humanista de Hugues. Não se surpreenda
ao se pegar com lágrimas no rosto ao final. Clássico absoluto da Sessão de Tarde, Antes Só
Que Mal Acompanhado ganhou um lançamento atrasado em DVD, chegando às lojas em julho
desse ano. Logo as cópias esgotaram, provando o quanto o filme é querido pelo seu público.
Chame os amigos para reassistir ao filme e celebrar os finados John Hugues e John Candy.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
02. A CONVERSAÇÃO
The Conversation 1974 EUA 1h53min
de Francis Ford Coppola com Gene Hackman, John Cazale, Allen Garfield
Em DVD pela Lume Filme
A Lume Filmes continua fazendo um fantástico trabalho de resgate de obras importantes
e negligenciadas, como o clássico dos anos 70 A Conversação, genial e premiado filme
de Francis Ford Coppola, lançamento inédito no Brasil em cópia remasterizada. Da distribuidora,
também viram a luz do dia nas prateleiras de DVD filmes de David Cronenberg, Jane Campion,
Theo Angelopoulos, Peter Greenaway, Costa Gravas, Jacques Demy, Jules Dassin, Sam Peckinpah,
Todd Solondz, Michael Haneke e Vittorio De Sica, entre outros cineastas consagrados.
Destaque para as brilhantes capas, com design assinado por Renan Costa Lima.
A Lume Filmes é, facilmente, a melhor distribuidora independente nacional.
03. ENSINA-ME A VIVER
Harold and Maude 1971 EUA 1h31min
de Hal Ashby com Ruth Gordon, Bud Cort, Vivian Pickles
Em DVD pela Paramount
O romance estranho, incomum e inusitado entre o adolescente entediado Harold (Bud Cort)
e a excêntrica velhinha Maude (Ruth Gordon) conquistou uma legião de fãs em 1971, e colocou
o mestre Hal Ashby no mapa dos grandes diretores a florescer naquela década.
Ensina-me A Viver é uma pequena pérola de grande coração, que acabou sendo
redescoberto no Brasil com seu tardio, mas bem sucedido, lançamento em DVD.
04. A FALECIDA
1965 Brasil 1h30min
de Leon Hirzsman com Fernanda Montenegro, Paulo Grancindo, Ivan Cândido
Em DVD pela Videofilmes
Talvez o mais importante lançamento digital brasileiro, A Falecida é o filme de estreia
de Leon Hirzsman, baseado na obra de Nelson Rodrigues, e trazia a também estreante
Fernanda Montenegro brilhando como Zulmira, mulher que sonha com um funeral de luxo.
O disco é exemplar: traz depoimentos de Montenegro, Paulinho da Viola, Eduardo Coutinho,
Billy David, do produtor Joffre Rodrigues, filho de Nelson, do fotógrafo Dib Lufti, que foi
operador de câmera no filme, e filme extra Partido Alto, concebido em parceia com
Paulinho da Viola, e Nelson Cavaquinho. Obrigatório para a coleção.
05. A RELIGIOSA
La Religieuse 1966 França 2h35min
de Jacques Rivette com Anna Karina, Liselotte Pulver, Micheline Presl
Em DVD pela Cult Classic
Baseado na obra de Denis Diderot, A Religiosa conta a história de Suzanne, uma jovem
francesa do século XVIII que é obrigada pelos pais a entrar num convento. Ciente de que
não possui vocação para freira e demonstrando isso em suas atitudes, Suzanne passa por
dois conventos e três madres superioras, relacionando de maneiras diferentes com cada uma,
indo do sadismo ao amor maternal e ao lesbianismo. Uma obra confrontante da nouvelle vague
e do cineasta Jacques Rivette, o filme é apoiado por uma carismática performance da musa
Anna Karina. O DVD não traz muitos mimos, mas já vale pelo filme em si.
06. UMA NOITE ALUCINANTE 3
Army of Darkness 1992 EUA 1h17min
de Sam Raimi com Bruce Campbell, Embeth Davidtz, Marcus Gilbert
Em DVD pela Universal
Terceira parte da saga de Ash, o eterno anti-herói interpretado com gusto por Bruce Campbell,
o hilário Uma Noite Alucinante 3 ganha lançamento em DVD e Bluray no Brasil com muita dignidade.
Os discos trazem final alternativo, abertura original, informações técnicas, cenas deletadas e trailer,
além de uma bela embalagem. Mas a estrela do DVD é mesmo o filme, que joga Ash no século XIII
para andar a cavalo, lutar com espadas e destruir os demônios que atacam um castelo medieval.
Sam Raimi enfia o pé na jaca com um humor escrachado e irresistível.
07. OS VIVOS E OS MORTOS
The Dead 1987 Inglaterra 1h23min
de John Huston com Angelica Huston, Donal McCann, Dan O’Herlihy
Em DVD pela Cult Classic
Uma das obras-primas de John Huston, adaptação de Os Dublinenses de James Joyce,
Os Vivos e Os Mortos há tempos esperava por uma versão digital brasileira.
Justiça foi feita e a Cult Classic (que também lançou em 2010 filmes de Nagisa Oshima,
Bigas Luna, Carol Reed, Otto Preminger e William Wyler) distribuiu sua edição. O filme continua
belíssimo, narra uma celebração do Dia de Reis em Dublin, 1904, onde uma ceia é oferecida
por uma família para parentes e amigos, e antigas memórias renascem nos personagens.
08. DESAFIO À CORRUPÇÃO
The Hustler 1961 EUA 2h14min
de Robert Rossen com Paul Newman, Jackie Gleason, Piper Laurie
Em DVD pela Fox Filmes
Desafio à Corrupção já havia sido lançado pela Fox, mas em 2010 o filme ganhou uma edição dupla
através do selo Cinema Reserve. Dirigido por Robert Rossen, o filme traz Paul Newman chegando
ao auge em Hollywood como Fast Eddie Felson, um hábil jogador de sinuca que atinge o fundo do poço
e busca maneiras inescrupulosas de voltar a vencer. O DVD é um mimo só: tem comentários em áudio,
análise das jogadas, making of, galerias de fotos, trailers e os featurettes Fast Eddie Felson e a busca
pela fama, Em meio aos tubarões: A arte do jogo, A história dos bastidores, Como fazer uma tomada
e Paul Newman, a mão certeira de Hollywood. Uma aula para cinéfilos e aspirantes.
09. A TÊNUE LINHA DA MORTE
The Thin Blue Line 1988 EUA 1h41min
documentário de Errol Morris com Dale Holt, Gus Rose, Jackie Johnson
Em DVD pela Videofilmes
Saiu pela Videofilmes A Tênue Linha da Morte, clássico documentário de Errol Morris (Sob a Névoa
da Guerra, Procedimento Operacional Padrão) que ficou conhecido por salvar um inocente condenado
à morte. O filme retrata um erro do sistema penitenciário estadual do Texas, uma investigação do caso
de uma assassinato de um policial em Dallas. É Morris clássico, misturando depoimentos, detalhes
instigantes e simulações, culminando num final controverso. O DVD traz alguns episódios da série
documental First Person, onde Morris interroga vários tipos de pessoas.
10. A GRANDE TESTEMUNHA
Au Hasard Balthazar 1966 França 1h35min
de Robert Bresson com Anne Wlazemsky, Walter Green, Jean-Claude Gilbert
Em DVD pela Silver Screen
Por fim, o inesquecível burrinho Balthazar, protagonista do belo A Grande Testemunha,
de Robert Bresson. Exibido recentemente em salas recifenses em algumas mostras, o filme
ganhou um lançamento discreto e sem grandes atrativos pela Silver Screen, mas entra na lista
pelo filme que é. Bresson fez uma crônica sobre a natureza humana através de um animal com
rigor formal e despindo-se de emoções manipuladoras, paradoxalmente causando emoções genuínas.
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