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aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaARQUIVO 2008
Especial - Os 10 Melhores DVDs de 2010
01. ANTES SÓ QUE MAL ACOMPANHADO ![]()
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Planes, Trains and Automobiles 1987 EUA 1h33min RT 9,5
de John Hugues com Steve Martin, John Candy, Laila Robins
Em DVD pela Paramount
por Filipe Marcena
OPINIÃO Aviões, trens e automóveis. Ao mesmo tempo em que separam as pessoas,
as aproxima. É o caso de Neal Page (Steve Martin), workaholic da indústria do marketing
que precisa viajar de Nova York para Chicago dois dias antes do feriado de Ação de Graças.
Obviamente, os meios de transporte estão um caos e Neal vai penar para chegar à sua
família a tempo. O que ele não previu é que vai contar com a espaçosa companhia
de Del Griffith (John Candy), atrapalhado vendedor de argolas para cortinas de banheiros
que decide se tornar o companheiro de viagem de Neal. Opostos perfeitos, atritos certos,
resultados impagáveis. Antes Só Que Mal Acompanhado reuniu três artistas no auge
de seus talentos e culminou numa verdadeira obra-prima das comédias.
Ainda que seja um humor majoritariamente slapstick, o filme não se prende apenas
às piadas para construir sua narrativa. As situações cômicas beiram o anormal de tão
excessivas e se encadeiam com uma naturalidade assustadora (Neal é um dos personagens
mais azarados da história do cinema), mas entre uma gargalhada e outra, Hugues arquiteta
as personalidades da dupla central para fins não tão óbvios. Alguns diálogos são poderosos
e melancólicos, postos no filme com a maturidade cada vez mais rara no cinema de humor
moderno (barreira essa que Judd Apatow vem quebrando), fazendo com que humor e melancolia
não contrastem, mas se acrescentem. Este ano, o irregular Um Parto de Viagem contou a mesmíssima
história com personagens desenhados de maneira quase idêntica, mas de resultado morno. O que
separa o antigo filme do novo é que Hugues sabia brincar com as emoções. Seus filmes tinham alto
teor melodramático, que unido à comédia popularesca resultava num combo imbatível.
No filme de Todd Phillips, o drama só não é mais forçado por que Zach Galifianakis é um ator multiuso.
Steve Martin e John Candy, embora brilhantes, nem precisam fazer tanto esforço para cativar
o espectador. Bastou carisma, o bom texto e direção humanista de Hugues. Não se surpreenda
ao se pegar com lágrimas no rosto ao final. Clássico absoluto da Sessão de Tarde, Antes Só
Que Mal Acompanhado ganhou um lançamento atrasado em DVD, chegando às lojas em julho
desse ano. Logo as cópias esgotaram, provando o quanto o filme é querido pelo seu público.
Chame os amigos para reassistir ao filme e celebrar os finados John Hugues e John Candy.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
02. A CONVERSAÇÃO
The Conversation 1974 EUA 1h53min
de Francis Ford Coppola com Gene Hackman, John Cazale, Allen Garfield
Em DVD pela Lume Filme
A Lume Filmes continua fazendo um fantástico trabalho de resgate de obras importantes
e negligenciadas, como o clássico dos anos 70 A Conversação, genial e premiado filme
de Francis Ford Coppola, lançamento inédito no Brasil em cópia remasterizada. Da distribuidora,
também viram a luz do dia nas prateleiras de DVD filmes de David Cronenberg, Jane Campion,
Theo Angelopoulos, Peter Greenaway, Costa Gravas, Jacques Demy, Jules Dassin, Sam Peckinpah,
Todd Solondz, Michael Haneke e Vittorio De Sica, entre outros cineastas consagrados.
Destaque para as brilhantes capas, com design assinado por Renan Costa Lima.
A Lume Filmes é, facilmente, a melhor distribuidora independente nacional.
03. ENSINA-ME A VIVER
Harold and Maude 1971 EUA 1h31min
de Hal Ashby com Ruth Gordon, Bud Cort, Vivian Pickles
Em DVD pela Paramount
O romance estranho, incomum e inusitado entre o adolescente entediado Harold (Bud Cort)
e a excêntrica velhinha Maude (Ruth Gordon) conquistou uma legião de fãs em 1971, e colocou
o mestre Hal Ashby no mapa dos grandes diretores a florescer naquela década.
Ensina-me A Viver é uma pequena pérola de grande coração, que acabou sendo
redescoberto no Brasil com seu tardio, mas bem sucedido, lançamento em DVD.
04. A FALECIDA
1965 Brasil 1h30min
de Leon Hirzsman com Fernanda Montenegro, Paulo Grancindo, Ivan Cândido
Em DVD pela Videofilmes
Talvez o mais importante lançamento digital brasileiro, A Falecida é o filme de estreia
de Leon Hirzsman, baseado na obra de Nelson Rodrigues, e trazia a também estreante
Fernanda Montenegro brilhando como Zulmira, mulher que sonha com um funeral de luxo.
O disco é exemplar: traz depoimentos de Montenegro, Paulinho da Viola, Eduardo Coutinho,
Billy David, do produtor Joffre Rodrigues, filho de Nelson, do fotógrafo Dib Lufti, que foi
operador de câmera no filme, e filme extra Partido Alto, concebido em parceia com
Paulinho da Viola, e Nelson Cavaquinho. Obrigatório para a coleção.
05. A RELIGIOSA
La Religieuse 1966 França 2h35min
de Jacques Rivette com Anna Karina, Liselotte Pulver, Micheline Presl
Em DVD pela Cult Classic
Baseado na obra de Denis Diderot, A Religiosa conta a história de Suzanne, uma jovem
francesa do século XVIII que é obrigada pelos pais a entrar num convento. Ciente de que
não possui vocação para freira e demonstrando isso em suas atitudes, Suzanne passa por
dois conventos e três madres superioras, relacionando de maneiras diferentes com cada uma,
indo do sadismo ao amor maternal e ao lesbianismo. Uma obra confrontante da nouvelle vague
e do cineasta Jacques Rivette, o filme é apoiado por uma carismática performance da musa
Anna Karina. O DVD não traz muitos mimos, mas já vale pelo filme em si.
06. UMA NOITE ALUCINANTE 3
Army of Darkness 1992 EUA 1h17min
de Sam Raimi com Bruce Campbell, Embeth Davidtz, Marcus Gilbert
Em DVD pela Universal
Terceira parte da saga de Ash, o eterno anti-herói interpretado com gusto por Bruce Campbell,
o hilário Uma Noite Alucinante 3 ganha lançamento em DVD e Bluray no Brasil com muita dignidade.
Os discos trazem final alternativo, abertura original, informações técnicas, cenas deletadas e trailer,
além de uma bela embalagem. Mas a estrela do DVD é mesmo o filme, que joga Ash no século XIII
para andar a cavalo, lutar com espadas e destruir os demônios que atacam um castelo medieval.
Sam Raimi enfia o pé na jaca com um humor escrachado e irresistível.
07. OS VIVOS E OS MORTOS
The Dead 1987 Inglaterra 1h23min
de John Huston com Angelica Huston, Donal McCann, Dan O’Herlihy
Em DVD pela Cult Classic
Uma das obras-primas de John Huston, adaptação de Os Dublinenses de James Joyce,
Os Vivos e Os Mortos há tempos esperava por uma versão digital brasileira.
Justiça foi feita e a Cult Classic (que também lançou em 2010 filmes de Nagisa Oshima,
Bigas Luna, Carol Reed, Otto Preminger e William Wyler) distribuiu sua edição. O filme continua
belíssimo, narra uma celebração do Dia de Reis em Dublin, 1904, onde uma ceia é oferecida
por uma família para parentes e amigos, e antigas memórias renascem nos personagens.
08. DESAFIO À CORRUPÇÃO
The Hustler 1961 EUA 2h14min
de Robert Rossen com Paul Newman, Jackie Gleason, Piper Laurie
Em DVD pela Fox Filmes
Desafio à Corrupção já havia sido lançado pela Fox, mas em 2010 o filme ganhou uma edição dupla
através do selo Cinema Reserve. Dirigido por Robert Rossen, o filme traz Paul Newman chegando
ao auge em Hollywood como Fast Eddie Felson, um hábil jogador de sinuca que atinge o fundo do poço
e busca maneiras inescrupulosas de voltar a vencer. O DVD é um mimo só: tem comentários em áudio,
análise das jogadas, making of, galerias de fotos, trailers e os featurettes Fast Eddie Felson e a busca
pela fama, Em meio aos tubarões: A arte do jogo, A história dos bastidores, Como fazer uma tomada
e Paul Newman, a mão certeira de Hollywood. Uma aula para cinéfilos e aspirantes.
09. A TÊNUE LINHA DA MORTE
The Thin Blue Line 1988 EUA 1h41min
documentário de Errol Morris com Dale Holt, Gus Rose, Jackie Johnson
Em DVD pela Videofilmes
Saiu pela Videofilmes A Tênue Linha da Morte, clássico documentário de Errol Morris (Sob a Névoa
da Guerra, Procedimento Operacional Padrão) que ficou conhecido por salvar um inocente condenado
à morte. O filme retrata um erro do sistema penitenciário estadual do Texas, uma investigação do caso
de uma assassinato de um policial em Dallas. É Morris clássico, misturando depoimentos, detalhes
instigantes e simulações, culminando num final controverso. O DVD traz alguns episódios da série
documental First Person, onde Morris interroga vários tipos de pessoas.
10. A GRANDE TESTEMUNHA
Au Hasard Balthazar 1966 França 1h35min
de Robert Bresson com Anne Wlazemsky, Walter Green, Jean-Claude Gilbert
Em DVD pela Silver Screen
Por fim, o inesquecível burrinho Balthazar, protagonista do belo A Grande Testemunha,
de Robert Bresson. Exibido recentemente em salas recifenses em algumas mostras, o filme
ganhou um lançamento discreto e sem grandes atrativos pela Silver Screen, mas entra na lista
pelo filme que é. Bresson fez uma crônica sobre a natureza humana através de um animal com
rigor formal e despindo-se de emoções manipuladoras, paradoxalmente causando emoções genuínas.
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CRIMES DE PAIXÃO ![]()
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Crimes of Passion EUA 1984 1h52min RT 3,3
de Ken Russell com Kathleen Turner, Anthony Perkins, John Laughlin
Em DVD pela Silver Screen
por Filipe Marcena
OPINIÃO O inglês Ken Russell sempre foi de personalidade controversa e contraditória,
o que se reflete em seus filmes. Visionário e criador de poderosas e extravagantes
imagens, se equilibrava entre filmes violentos como The Devils (1971) e Gothic (1986,
lançado no Brasil pela Lume Filmes), lombras exóticas como Viagens Alucinantes (1980)
e o musical Tommy (1975), romances como O Namoradinho (1971) e Mulheres Apaixonadas
(1969), e drama eróticos pesados, especialmente em A Prostituta (1991), que trazia
Theresa Russell sendo explorada por seus clientes, e Crimes de Paixão (1984),
estrelado por uma Kathleen Turner linda, no auge da carreira. Este último foi lançado
em DVD recentemente no Brasil, através da Silver Screen, e é um dos poucos filmes
de Russel disponíveis no mercado digital brasileiro.
Crimes de Paixão mistura a afetação oitentista com o histrionismo natural do cinema
de Russell e, talvez por isso, seja um de seus filmes mais detestados (ainda que
cultuado por alguns). Por baixo dos neons coloridos, dos teclados de Rick Wakeman
na trilha sonora e dos cabelos felpudos há uma crítica feroz ao puritanismo e conservadorismo
americano na história de China Blue (Turner), uma prostituta desbocada e insaciável
que desperta a atenção do pastor Peter Shayne (Anthony Perkins). O que ele ainda não
sabe é que durante o dia ela é a trabalhadora Joanna, cujo desconfiado patrão contrata
o designer de roupas de sport Bobby Grady (John Laughlin) para descobrir seus segredos.
Grady sofre num casamento falido e sexualmente inativo e China Blue surge como uma
tentadora redenção. No meio tempo, o pastor Shayne passa a se considerar o salvador
de China Blue, e sua psicose ultrapassa até mesmo os impossíveis limites sexuais da mulher.
Você leu direito, psicose. Russell cria várias referências ao clássico de Hitchcock
junto com o roteirista Barry Sandler, não só pela escalação de Perkins, o adorável
Norman Bates, como na própria identidade do personagem. Vale salientar que Joanna
divide o sobrenome com a mocinha interpretada por Janet Leigh, Marion Crane.
Além das referências cinematográficas, Crimes de Paixão não hesita quando
mostra o tema central do filme: o sexo. É um dos filmes mais brutalmente eróticos
já feitos (uma famosa cena de bondage envolvendo China Blue e um policial causou
tanto impacto que chegou a ser satirizada em Top Gang 2), não só nas imagens
como na linguagem. O erotismo acontece em texto e subtexto, na palavra e no retrato,
nas divertidas 'safadezas ocultas' nos diálogos de China Blue e nas inserções
de quadros de Magritte, Aubrey Beardsley e gravuras eróticas chinesas.
O conjunto geral, que mergulha no cinema fantástico pelo design de produção,
figurino e interpretações teatrais, é de uma deliciosa, histérica e saudável
perversão, esmigalhando a culpa a qual critica, sem hipocrisia. Uma joia de Ken
Russell para ser vista e compartilhada sem pudor nesses tempos cada vez mais carolas.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
TRON - Uma Odisseia Eletrônica ![]()
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TRON EUA 1982 1h36min RT 7,0
de Steven Lisberger com Jeff Bridges, Bruce Boxleitner, Cindy Morgan, David Warner
Em DVD pela Disney/Buena Vista
por Filipe Marcena
OPINIÃO Apesar de o universo cyberpunk ser antiga fonte de criatividade na arte
(Metrópolis, Phillip K. Dick, Alien – O 8º Passageiro, etc.), jamais um filme havia exibido
estética tão sedutora, intoxicante e revolucionária quanto TRON – Uma Odisséia Eletrônica.
Esqueça o 3D: em 1982, o diretor Steven Lisberger propôs uma verdadeira experiência de imersão
pela imagem que até hoje funciona. Não só pelos cenários digitais e efeitos ambiciosos (hoje simplórios),
mas por fantasiar livremente na surreal premissa, uma viagem dentro do computador. E mesmo
com as espetaculares criações de Lisberger e dos designers Moebius e Syd Mead, de Blade Runner
e Alien, ainda sobrou espaço para a imaginação do espectador preencher as lacunas do universo TRON.
Infelizmente, TRON – Uma Odisséia Eletrônica não é apoiado pelo roteiro, que traz um enredo
fraco e pedestre. O gênio dos games e hacker Kevin Flynn, interpretado pelo sempre carismático
Jeff Bridges, procura nos computadores da ENCOM, empresa para a qual trabalhava, evidências
de que Ed Dillinger (David Warner) teria roubado quatro de seus jogos. Mas Flynn acaba sendo
desmaterializado e enviado para dentro do computador. Lá dentro, Flynn decide se unir a TRON
(Boxleitner), um programa independente de segurança, e ao programa Yori (Morgan), para
destruir o Programa de Controle Master e poder voltar ao mundo real. Não soa tão bem no filme.
Não fossem os efeitos especiais, TRON certamente se passaria por uma bobagem esquecível,
já que a narrativa se esforça em repelir quem assiste com personagens mal desenvolvidos
e ritmo irregular. Mas o que o enredo tem de pouco interessante é compensado com estilosas
cenas de ação e corridas de moto nas bem concebidas paisagens digitais. É incrível imaginar
que todo o visual de dentro do computador foi criado em outro cuja memória possuía
apenas 12 mega de capacidade. Seu celular, por exemplo, tem muito mais espaço que isso.
A tecnologia antiga e limitada não impede TRON de ser um filme (ainda) divertido.
Os figurinos são uma curiosidade à parte, mas clássica mesmo é a corrida de motos perto
do final, que transcende as restrições dos efeitos com talento. TRON – Uma Odisseia Eletrônica
é Sessão da Tarde indispensável para nerds de games e computação e cinéfilos.
Assistir sem grandes expectativas pode render uma experiência menos frustrante.
Prefira esse à sua continuação, Tron - O Legado, que acaba de estrear nos cinemas.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
FELICIDADE ![]()
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Happiness EUA 2009 1h41min RT 8,4
De Todd Solondz com Jane Adams, Phillip Seymour Hoffman, Dylan Baker
Em DVD pela Lume Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO Quando lançado em 1998 debaixo de forte polêmica e conservadorismo por parte
das distribuidoras, Felicidade foi considerado um filme 'doentil', tanto pelos odiadores
quanto pelos adoradores. É compreensível que o termo tenha sido empregado para classificar
o filme, mas considero que seja uma observação apressada, especialmente após reassistí-lo
alguns anos após minha primeira e inesquecível experiência com essa obra-prima.
Sim, nossos velhos conhecidos Joy, Bill, Allen, Trish, Helen, Mona, Lenny e Kristina
são criaturas extremamente perturbadas, confusas e frágeis. Mas quem pode julgá-los?
'Doentis' somos todos, e Solondz foi magistral ao capturar os complexos e variados pathos
que nos são inerentes. Se seu filme é considerado 'doentil' é porque ele acertou na mosca.
No suburbio americano de Nova Jersey vivem as problemáticas criaturas que protagonizam
a história. A doce professora Joy (Jane Adams, agora na série Hung) é considerada o fracasso
da família por suas irmãs Helen (Lauran Fyln Boyle) e Trish (Cynthia Stevenson).
Helen é uma egostista e bem sucedida escritora que se considera uma farsa e que passa
a manter uma estranha conexão com seu vizinho Allen (Phillip Seymour Hoffman),
um gordinho tarado que sente uma impiedosa atração por ela. Já Trish é uma dona de casa
classe média clássica, com seus preconceitos disfarçados e moral duvidosa. Vive com
seu marido Bill (Dylan Baker,fabuloso), um pedófilo que mantem um relacionamento muito
honesto e sincero com seu filho Billy (Rufus Read), ao mesmo tempo em que persegue seus
coleguinhas de classe. Enquanto isso, Mona (Louise Lasser) e Lenny (Ben Gazarra),
pais das três irmãs, estão se separando. Onde está a felicidade afinal?
No sexo, é claro. Todas as histórias de Felicidade estão profundamente enraizadas
em frustrações sexuais: Joy e seus miseráveis relacionamentos, Allen e suas taras, Helen
e a promiscuidade, Lenny e o sexo fora do casamento, Kristina (Camryn Manheim), vizinha
de Allen, e sua aversão por sexo, o pré-adolescente Billy e sua incapacidade de ter
um orgasmo. Numa sociedade casta, medicada e asséptica, as relações sexuais se tornam
tortuosas e perigosas. Solondz massacra e ironiza brutalmente seus personagens,
mas seu amor por eles vem desde a concepção. Até o condenável Bill, que estupra
meninos de 10 anos, possui contornos 100% humanos e identificáveis, incomodando
quem assiste. Sabe-se que pedofilia é um ato criminoso e que sua atitude é perversa,
mas percebemos Bill como um ser humano falho, e não como um monstro. Baker é genial
por equilibrar o olhar frio e maligno com o semblante angélico-paternal, fazendo
o espectador se sentir culpado por ter empatia por homem tão detestável.
Com diálogos excepcionais - sendo exemplares a do início com Adams e Jon Lovitz
e o que ocorre quase ao final entre Bill e Billy, este de uma crueldade absurda - , marcado
por uma fotografia leve e contrastante com os temas do filme e uma trilha sonora genail
repleta de bossa nova, Felicidade soca na boca do estômago enquanto faz cócegas nos pés.
Sua continuação lançada nesste ano, A Vida Durante A Guerra, que mostra o que aconteceu
com os personagens, mas com outros atores nos papéis, não chega a ser tão conciso
quanto o filme que o inspirou, mas também vale uma visita. Felicidade foi o primeiro
lançamento da maravilhosa Lume Filmes, e é um DVD obrigatório.
Traz entrevista com Todd Solondz, crítica de Kleber Mendonça Filho e trailers.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
PECADO DA CARNE ![]()
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Einayim Petukhoth/Eyes Wide Open 2009 Israel 1h30min RT 8,4
De Haim Tabakman com Zohar Strauss, Ran Danker, Tinkerbell, Tzahi Grad
Disponível para download
por Filipe Marcena
OPINIÃO Em 2005, O Segredo de Brokeback Mountain atingiu notoriedade mundial
ao colocar dois homens representantes do icônico tipo ‘cowboy’, relacionado à macheza
e ao individualismo, em uma situação amorosa e de dependência emocional. O filme
se utiliza da trágica condição do par, que enfrenta as adversidades do homofóbico
e reacionário interior norte-americano dos anos 60 e 70, para realizar um dos maiores
épicos sobre o amor romântico já produzidos por Hollywood. Em 2009, distante das
fronteiras de Los Angeles, outro filme abordou uma história muito parecida com
a contada por Ang Lee, sem qualquer traço de glamour ou apelação sentimental
e implicada num contexto diferente. Passou discretamente nos cinemas, provavelmente
pelo fato de ser uma produção israelense, mas é capaz de causar um impacto tão
ou mais forte que o romance cowboy de Ang Lee. O filme é Pecado da Carne, e o amor
impossível acontece entre dois membros de uma comunidade judia ultra-ortodoxa em Jerusalém.
Aaron Fleischman (Zohar Strauss, dos ainda inéditos Beaufort, indicado ao Oscar, e Líbano)
é um homem respeitado pela sociedade, pai de família e religiosamente dedicado. Logo no início
do filme descobrimos que seu pai acaba de morrer, deixando o açougue da família para o filho.
Suas crenças e conceitos são desafiados com a chegada de Ezri (Ran Danker), um belo jovem
que se torna aprendiz no açougue. Irremediavelmente e mutuamente atraídos, Aaron aos
poucos se afasta da comunidade para consumar sua paixão por Ezri, que já não é bem visto
entre os judeus ortodoxos da região, e passa a questionar seu relacionamento com a esposa
Rivka (Tinkerbell), com seus quatro filhos e com Deus. Em um dos momentos mais poderosos
do filme, Aaron confronta o Rabino Vaisben (Tzahi Grad) clamando abertamente que
estava morto antes de conhecer Ezri. Os ortodoxos logo se tornam violentos e hostis
pelo controle social, proibindo a presença do jovem na comunidade.
Silencioso, sutil e evocativo como seu título original (Olhos Bem Abertos), Pecado da Carne
não apoia sua história apenas no romance homossexual e suas idiossincrasias. O estreante
Haim Tabakman se aprofunda em nuances que vão além da sexualidade. A opressora Jerusalém,
com o constante e significativo preto no branco das roupas dos judeus, é filmada como
um labirinto de ameaçadoras e altas paredes gradualmente se fechando sobre os personagens,
a materialização dos sentimentos de Aaron para com suas responsabilidades espirituais
e paternas (sua e de seu falecido pai), enfatizado pelos raros e essenciais momentos
que se passam em natureza aberta. A necessidade de Aaron de unir a obrigação religiosa
e seu desejo por Ezri é a perfeita síntese do dilema de identidade desse homem que não
sabe viver sem ambos. Um filme que causa empatia por ser humanista, em total respeito
para com a história e que ilumina questões difíceis com dignidade e pungência.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
RONDA DA NOITE ![]()
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Nightwatching 2007 Reino Unido 2h14 RT 8,2
De Peter Greenaway com Martin Freeman, Toby Jones, Emily Holmes, Natalie Press
Em DVD pela Europa Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO O aclamado cineasta britânico Peter Greenaway retornou, em 2007,
aos holofotes com o filme Ronda da Noite, seu retrato fílmico da vida do pintor
holandês Rembrant. Desde 8 1/2 Mulheres que Greenaway vivia em certa obscuridade
com projetos de pouca notoriedade ou bastante pessoais. Ronda da Noite testou
a relevância e o impacto da obra de Greenaway anos após o auge de sua carreira e, mesmo
com o sucesso em festivais de todo o mundo e a positiva recepção da crítica, o filme mal
foi lançado nos cinemas. No Brasil, ganhou uma chance em DVD através da Europa Filmes,
lançado recentemente. É o mesmo Greenaway de sempre, e em boa forma.
Encarnado com vigor por Martin Freeman (o Arthur Dent de O Guia do Mochileiro das Galáxias),
o Rembrant especulado por Greenaway foi um homem extraordinariamente comum. Famoso
e arrogante por causa seu talento, nutria um imenso amor por sua esposa e prima de seu
agente Hendrick Uylenburgh, Saskia (Eva Birthistle). Rico e famoso, pintava cenas bíblicas
e mitológicas. A pedido de sua esposa grávida, aceitou pintar um quadro em grupo para
a Milícia de Mosqueteiros de Amsterdã. O quadro ficou conhecido como The Nightwatch,
ou Ronda Noturna (a A Ronda da Noite do título) e foi ponto de virada na carreira do pintor.
Ciente das conspirações, assassinatos e dos jogos de poder e interesse envolvendo os soldados
da milícia, Rembrant expõe em seu quadro o lado hipócrita da sociedade holandesa da Era de Ouro.
Sua derrocada vem com a morte de seus próximos e com a vingança dos conspiradores.
É impressionante como Greenaway condensa todo tipo de arte no filme com clara compreensão
do que faz. O teatro e a coreografia dos atores dentro dos planos milimetricamente construídos,
as palavras literárias clamadas com paixão pelos atores, a bela música da trilha sonora e,
obviamente, a fotografia e os enquadramentos que copiam os quadros do homem que inspirou
o filme. Greenaway sempre foi um mestre visual, trata suas composições como uma tela sendo
pintada, uma pena não poder observar seu trabalho numa tela de cinema. Seu talento para
o quadro resultou em críticas ao hermetismo de suas obras, de significado aparentemente
raso ou fechado em si, o que cai por terra em Ronda da Noite. Não só por causa da abordagem
um pouco mais direta, sem deixar de ser poética, do protagonista e de sua história, mas pelo
cativante desempenho de Freeman. Sua figura de homem regular e seu humor sarcástico
conectam facilmente com o espectador, aproximando as intenções de Greenaway de seu
objetivo, o público. Para apreciar Ronda da Noite basta observá-lo como se observa
o famoso quadro: encante-se pelo plano geral, mas preste atenção nas entrelinhas.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
MARÉ DE AZAR ![]()
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Extract 2009 EUA 1h32min RT 6,2
de Mike Judge com Jason Bateman, Mila Kunis, Kristen Wiig, Ben Affleck
Em DVD pela Paris Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO As comédias de Mike Judge nunca emplacaram de verdade. Desde Beavis and Butt-head
o diretor equatoriano se mostra especialista em satirizar o homem contemporâneo e suas infelizes
vidas, especialmente as dos americanos. O humor negro e impiedoso é amargo ao paladar
do público multipléxico, que recebeu bem apenas o ainda pouco visto Como Enlouquecer Seu Chefe,
maravilhosa crônica sobre o papel do trabalho na vida do ser humano (e que trazia Jennifer Aniston
numa rara atuação acima da média). Seu filme seguinte, o distópico e irônico Idiocracy, mal foi
exibido nos cinemas norte-americanos e no Brasil foi lançado discretamente em DVD. Por pouco
sua mais recente produção não teve o mesmo destino, o inferior mas divertido Maré de Azar.
Exibido rapidamente nos cinemas do sul e sudeste, o filme acaba de ser lançado na surdina
em formato digital no Brasil. Maré de Azar é o retorno de Judge à temática que o tornou popular
entre os cinéfilos: o ambiente de trabalho. Joel (Bateman) é o politicamente correto dono
de uma empresa que fabrica extratos. Bem sucedido e rico, Joel passa por um momento infeliz
no casamento com Suzie (Wiig), acumulando frustrações sexuais. Numa noite de álcool e drogas
com seu amigo Dean (Affleck), Joel é convencido a contratar um garoto de programa para transar
com sua mulher, para assim se livrar da culpa e poder traí-la com sua nova funcionária
Cindy (Kunis), uma sexy e misteriosa garota com antecedentes criminais. Somado
ao descarrilamento de sua então controlada vida, um acidente com seu empregado
Step (Clifton Collins Jr.) resulta num processo contra a empresa.
Maré de Azar cola uma série de situações na vida de Joel sem muito critério narrativo. O filme
termina tão abruptamente quanto começa e o timing da direção de Judge soa equivocado
na maioria do tempo, sobrando para o elenco tirar o melhor do roteiro. Para a nossa sorte,
eles conseguem. Apesar de errar na construção geral, Judge é muito competente na criação
de personagens. Jason Bateman encarna o mesmo tipo mané que fez no horroroso Coincidências
do Amor, mas agora com um material bem mais interessante para trabalhar. A cena em que
ele fuma maconha é o melhor exemplo de seu talento cômico. Enquanto isso, Mila Kunis ruma
a uma carreira decente em mais uma performance digna de nota (vale lembrar que a jovem
ganhou o prêmio de atriz revelação no último Festival de Veneza por Cisne Negro, de Darren
Aronofsky, que estreia no início do ano que vem). Mas quem realmente impressiona são
os coadjuvantes: Kristen Wiig engrandece uma personagem pouco desenvolvida com
o carisma de sempre, David Koechner está tão irritante quanto hilário como Nathan,
o vizinho de Joel e Suzie, assim como o novato Dustin Milligan como o retardado prostituo
Brad, e Gene Simmons (do Kiss), arranca gargalhadas em sua minúscula participação.
O filme ainda conta com J.K. Simmons, Ben Affleck e Clifton Collins Jr., todos ótimos.
Maré de Azar deve muito a cada membro do elenco pelo seu sucesso parcial. Mesmo assim,
ainda que irregular, o filme tem três ou quatro momentos cômicos excepcionais que valem
a visita. Judge pode ter tropeçado, mas ainda não perdeu totalmente o equilíbrio.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
TODAS AS GAROTAS DO PRESIDENTE ![]()
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Dick EUA 1999 1h34min RT 7,0
de Andrew Fleming com Michelle Williams, Kirsten Dunst, Dan Hedaya, Will Ferrell
Em DVD pela Columbia TriStar
por Filipe Marcena
OPINIÃO Existe alguma outra instituição que seja mais satirizada que a política?
Qualquer movimento errado (às vezes até certo) de algum membro do governo
e minutos depois já estão disponíveis piadas, cartuns, montagens, vídeos, músicas
e milhares de tweets sobre assunto, especialmente em época de eleições. Agora
imagine um cineasta produzindo um filme que ridiculariza um momento turbulento
da história de um país. Não, não é Quentin Tarantino e seu Bastardos Inglórios,
mas Andrew Fleming, diretor do clássico da sessão da tarde dos anos 90 Jovens Bruxas,
e seu filme de 1999 que dava novo significados ao período das investigações
do escândalo Watergate e ao presidente Richard Nixon. O ambíguo título original
do filme sintetiza com perfeição o espírito de Todas As Garotas do Presidente
(Dick é tanto um apelido para Richard quanto um gíria para pênis, e também imbecil).
No caso Watergate, os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, do Washington Post,
acabaram revelando as intenções de Nixon em destruir o Partido Democrata após
um assalto ao complexo Watergate, onde se encontrava o escritório do Partido, através
de um informante infiltrado chamado de Garganta Profunda. Todas As Garotas
do Presidente prontamente revela quem foi o informante secreto. Ou foram:
Betsy Jobs (Kirsten Dunst) e Arlene Lorenzo (Michelle Williams) são duas adolescentes
americanas de 15 anos que sofrem de retardamento mental teen. Completamente lesadas,
elas testemunham o assalto a Watergate, certas de que se trata de um roubo de joias e,
dias depois visitam a Casa Branca numa viagem escolar. Eventualmente as duas conhecem
o presidente e seu cachorro Checkers, ganhando a simpatia de ambos. Desconfiado que
as garotas possam ser testemunhas do assalto, Nixon as contrata como Passeadoras
de Cães Oficiais da Casa Branca. Obviamente as duas não fazem ideia do que está
acontecendo, mas se empolgam com o novo emprego. Arlene até nutre uma paixão
repentina pelo presidente. Mas água mole em pedra dura tanto bate até que as garotas
se tocam de que algo está errado com seu ídolo, principalmente quando os repórteres,
interpretados por Will Ferrell e Bruce McCulloch, entram em cena.
Todas As Garotas do Presidente tem ‘clássico cult’ escrito em cada frame. Além
da ousadia e irreverência do roteiro de Fleming e Sheryl Longin, repleto de insights
inteligentes quanto às pontas soltas da história verdadeira, traz Dunst e Williams,
rostos já reconhecíveis na época, em performances excepcionais. Sorte delas, pois
é raro encontrar personagens tão boas para jovens atrizes como Betsy e Arlene.
Dan Hedaya não fica pra traz com sua hilária caricatura de Nixon. A estética setentista
kitsch corta todo o peso e seriedade que o caso Watergate traria, mas isso não significa
que o filme não é sagaz em sua crítica. A trilha sonora, por exemplo: você dificilmente
encontrará melhor utilização da canção You’re So Vain, da Carly Simon, como em
Todas As Garotas do Presidente. A cena é brilhante, malvada, engraçada
e perspicaz, e é apenas um exemplo do que o filme tem a oferecer. Irresistível!
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
REBELDE COM CAUSA ![]()
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Youth in Revolt EUA 2010 1h30min RT 6,8
de Miguel Arteta com Michael Cera, Portia Doubleday, Steve Buscemi, Zach Galifianakis
Em DVD pela Swen Filmes
por Filipe Marcena
OPINIÃO Hipster: termo dos anos 40 ressuscitado dos anos 90 pra cá que descreve
jovens adultos e adolescentes mais velhos, urbanos e de classe média com interesse
em cultura e moda não-mainstream, música alternativa, indie rock e cinema independente,
fetichizando o autêntico. Usam roupas estilo retrô e vintage, apropriam-se de estilos
contra-culturais do passado (pós-punk, beat, hippie, grunge), descartando tudo o que
tais estilos defendiam e fazem caretas quando você diz que escuta bandas como Coldplay.
Não é difícil ter um amigo hipster, ou mesmo descobrir que você é um. A cultura/mentalidade
hipster vem se tornando cada vez mais comum, especialmente com o avanço desenfreado
do compartilhamento de dados e informações. Existem até ícones hipster. Michael Cera,
por exemplo. Desde que sua carreira deslanchou com o sucesso de Superbad – É Hoje!,
ele vem interpretando tipos hipsters constantemente: se seu Evan já tinha algo hipster
em sua persona e Paul Bleeker dividia sua ‘hipsteria’ com sua super-hipster namorada Juno,
o Nick de Nick & Norah – Uma Noite de Amor e Música era um óbvio membro deste
grupo, isso porque ainda não vimos Scott Pilgrim Contra O Mundo, onde ele luta por
uma garota que é hipster até os dedos dos pés. Nesse meio tempo Michael esteve em
outro filme hipster (ou que ao menos fala sobre hipsters), o recém lançado direto em DVD
Rebelde Com Causa, tradução brasileira para o original Juventude em Revolta.
Michael interpreta Nick Twisp, um típico adolescente hipster norte-americano. Ele curte
Frank Sinatra, prosa clássica, Fellini e é virgem. Um dia ele se muda com sua mãe
perturbada (Jean Smart) e seu mais recente padrasto (Zach Galifianakis, de Se Beber,
Não Case!) para um trailer no campo, apenas por uns tempos. Lá ele conhece a bela
Sheeni Saunders (Portia Doubleday), jovem fã de Acossado, literatura francesa
e Serge Gainsbourg, além de ter uma coleção de vinis. Ele logo se apaixona pela garota.
Vários obstáculos se impõem entre o casal, como um suposto namorado de Sheeni,
as famílias de ambos e o internato para onde a garota vai. Para ficar com ela, Nick
precisa virar um homem. É quando surge François Dillinger, o alterego macho, esperto
e cafajeste de Nick, que se materializa sempre que o rapaz precisa de ajuda. Ou para
arranjar uma encrenca. Rebelde com Causa é cheio de humor negro, assim como
sua base literária Youth in Revolt: The Journals of Nick Twisp, série do americano
C. D. Payne. O talentoso diretor Miguel Arteta (Chuck & Buck, Por Um Sentido na Vida
e Em Boa Companhia) ironiza seus personagens e revisita os clichês de comédias
adolescentes com bastante eficiência e resultados engraçadíssimos. Cera, mais à vontade
do que nunca, merece notoriedade por sua personificação de François, um arquétipo
necessário que o jovem ator materializa com bom humor e competência (é provavelmente
seu melhor papel até agora). Os ótimos atores (Buscemi, Galifianakis, Jean Smart,
Fred Willard, Ray Liotta, Justin Long, M. Emmett Walsh, Rooney Mara, Adhir Kalyan,
Ari Graynor) estão todos hilários em suas curtas participações, mas é a gracinha
Portia Doubleday que rouba a cena como o ‘troféu’ de Nick.
Mas atenção: não julgue Rebelde Com Causa como um ‘filme de hipster’ e ignore
o contexto. Mesmo sendo um produto de sua crítica, com suas canções indie-folk,
trata-se de um filme irônico em seu próprio conceito, e de uma maneira melancólica.
A ‘juventude revoltada’, fatia que o filme satiriza, está bem arraigada na realidade,
e Rebelde Com Causa é uma boa maneira não de explicar, mas de interpretar
a ideia de hipster. Os próprios títulos, original e nacional, riem dos personagens
e, automaticamente, dos jovens dos anos 2000. François Dillinger é a personificação
do ideal desse grupo que junta num caldeirão uma série de referências e ideais
de tempos e movimentos passados, resultando no que seria ‘ser cool’ e ‘ter atitude’.
Todos querem ser François, ou pensam que o são. Nick Twisp quer mergulhar em François,
sair do desastre que é sua vida e tomar uma posição. Rebelde Com Causa é a redenção
do hipster, ainda que, mais uma vez, seja uma redenção irônica. Por baixo de toda a epiderme
fashion-pseudo-intelectual-fake-inautêntica, tem um filme sincero e doce sobre a mocidade.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
VIVENDO NO ABANDONO ![]()
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Living in Oblivion EUA 1994 1h32min RT 8,8
de Tom DiCillo com Steve Buscemi, Catherine Keener, Dermot Mulroney, James LeGros
Em VHS pela LK-Tel Video, DVD importado ou download
por Filipe Marcena
OPINIÃO Ah, a dor e a delícia de fazer cinema! Participar do processo de produção
de um filme é uma experiência desgastante, enriquecedora e capaz de transformar
personalidades. Ninguém sai de um set de cinema a mesma pessoa que entrou.
Um membro de uma equipe de cinema faz e desfaz amizades, aprende a trabalhar
em grupo, lida com as situações mais inusitadas, desenvolve habilidades criativas
e cresce profissional e pessoalmente. Ainda assim, poucos membros de uma equipe
de cinema são reconhecidos pelo seu trabalho, talento e esforço. Isso é Vivendo
no Abandono, filme independente americano, cult dos anos 90, e um dos melhores
exemplos de metalinguagem no cinema de que possa me lembrar.
Conheça a equipe de Vivendo no Abandono, o filme dentro do filme: o diretor
é Nick Reve (Steve Buscemi), que reúne em si todas as inseguranças que passam
na cabeça de alguém que exerça tal tarefa. Sob sua batuta estão a produtora Wanda
(a sumida Danielle von Zerneck), nervosa e exigente como as melhores platôs;
o fotógrafo Wolf (Dermot Mulroney) e seu ego inflado; a atriz Nicole Springer
(Catherine Keener), bela, talentosa e vulnerável; e o galã Chad Palomino (James
LeGros), que sofre do 'mal do artista', tem sempre uma opinião para dar e cujo
personagem é uma notável sátira à Brad Pitt, então em começo de fama e estrelato.
Junto a mais alguns outros membros, o grupo se organiza para filmar cenas
do projeto, um filme de baixo orçamento. Mas essa não é uma equipe tão tranquila
quanto parece no princípio, principalmente quando a imprevisibilidade decide
interferir e
brincar com a paciência e autocontrole deles.
Vivendo no Abandono brinca com a percepção de realidade, sonho, cinema
e os limites entre os três. Tudo está relacionado ao pathos dos personagens.
No decorrer da narrativa nunca se sabe o que realmente está se assistindo
ou acontecendo, o que importa é o que o todo significa. E o filme traz vários
prismas sobre a relação do homem e sua imaginação. As construções do filme
e do filme dentro do filme são a base da crônica de Tom DiCillo, que escreveu
e dirigiu com inteligência invejável um filme rico em detalhes e signos (o sobrenome
de Nick é apenas um dos mais óbvios). O filme é apoiado por um elenco primoroso,
em especial pela linda Catherine Keener, musa do cineasta. É extasiante a sequência
em que ela precisa realizar uma tomada dezenas de vezes, e só consegue a perfeita
quando a câmera está desligada. Bem humorado e irônico, DiCillo sempre aproveita
para alfinetar a indústria de cinema e os filmes de gênero. Vivendo no Abandono,
apesar de pouco visto e conhecido, está no mesmo time do maravilhoso
A Noite Americana de François Truffaut, como filme obrigatório para cinéfilos,
cineastas e aspirantes. Cinema sobre o próprio cinema é sempre inspirador.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
REQUIEM ![]()
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Alemanha 2006 1h33min RT 8,8
de Hans-Christian Schmid com Sandra Hüller, Burghart Klaubner, Imogen Kogge
Em DVD pela Casablanca Filmes
OPINIÃO Desde que O Exorcista criou longas filas no cinemas de todo o mundo
nos prolíficos anos 70, centenas de filmes tentaram repetir o impacto que a obra
de William Friedkin e William Peter Blatty causou. Com algumas raras exceções
(A Profecia, The Evil Dead, Atividade Paranormal), nenhum foi capaz de abordar
a possessão demoníaca com criatividade e sucesso. Em 2005, O Exorcismo
de Emily Rose contou a história de uma jovem garota do interior americano que
teria morrido durante um ritual de exorcismo e do julgamento do padre negligente.
O filme é inspirado no famoso caso (que também teria inspirado Blatty e seu best seller)
da alemã Anneliese Michel, jovem estudante com histórico psiquiátrico problemático
que acreditava estar possuída. O filme de Scott Derrickson se esforçava para equilibrar
o dilema da garota entre o sobrenatural e o científico, mas é inegável que todas as cenas
de possessão de Emily Rose remetem diretamente à Regan MacNeil, por mais
impressionante que seja a performance de Jennifer Carpenter. Além disso, o filme
quase anula o desenvolvimento da protagonista para investir pesado nas sequências
do tribunal e nas discussões entre o padre e sua advogada. Um ano após o sucesso
inesperado de O Exorcismo de Emily Rose, Réquiem estreava no Festival de Berlim
contando exatamente a mesma história, dessa vez mantendo as características
principais intactas (Alemanha, anos 70). Pode não ser mais assustador
que o filme americano, mas definitivamente é mais perturbador.
Michaela Klinger está indo para a faculdade. Finalmente abandonará a bucólica vida
no interior alemão com seus pais e irmã e realizará seu sonho de estudar Pedagogia.
Mas durante o primeiro ano no curso, Michaela volta a sofrer crises de epilepsia que
até então estavam controladas, mesmo tomando os medicamentos necessários.
A base religiosa cristã somada ao desequilíbrio mental a fazem crer, pouco a pouco,
que está tomada pelo demônio, levando seus amigos e parentes a questionarem
o que realmente está incomodando a jovem mulher. As coisas pioram quando
um padre que acredita em Michaela decide realizar um exorcismo. Para começar,
Réquiem não é um filme de gênero. O diretor Hans-Christian Schmid evita a qualquer
custo amortecer o enredo com cenas de horror gráfico, não existe uma vontade
de convencer o espectador de coisa alguma. Pelo contrário, Schmid trabalha
com uma estética naturalista à la Dogma 95 que não só confere veracidade
à história como exclui qualquer possível maneirismo técnico comum ao gênero terror,
uma decisão inteligente. O interesse de Réquiem está recaído em Michaela e sua luta
interior contra sua própria eferverscência juvenil. A possessão pode ser interpretada
como um mecanismo de defesa da moral imposta por seus pais na sua infância,
uma maneira de aceitar e ao mesmo tempo rejeitar sua sede por maior liberdade.
Isso, claro, se você não ficar arrepiado com Sandra Hüller. Atriz de teatro, Hüller venceu
o Urso de Prata de melhor atriz por Réquiem, sua estreia no cinema. Mesmo que Schmid
(ou também meu próprio ceticismo) observe o filme como um estudo psicológico de uma
personagem atormentada pelos conflitos inerentes à maioria dos jovens, Hüller trata de tentar
nos convencer de que estamos mesmo testemunhando uma legítima possessão demoníaca.
De garota tranquila de voz baixa, Michaela passa a se tornar gradativamente violenta, psicótica,
rebelde, numa transformação assustadoramente verossímil. Nas cenas de exorcismo, a atriz
garante um frio na espinha. Réquiem é um filme tão econômico quanto emocionalmente
poderoso e vai muito além do que a capa da edição nacional do DVD promete.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
AS CORÇAS ![]()
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Les Biches França 1968 1h33min
de Claude Chabrol com Jacqueline Sassard, Stéphane Audran, Jean-Louis Trintignant RT 8,6
Em DVD pela Cinemax
OPINIÃO Claude Chabrol foi o único de seus ‘companheiros de onda’ que trabalhava
constantemente dentro de um gênero, em particular, o thriller. Seus filmes
trazem uma forte aura de mistério e enredos instigantes que submergem
na psique dos personagens, quase sempre trazendo uma crítica social mordaz.
O sexo é sempre sensual, como nos recentes A Dama de Honra e Uma Garota Dividida
em Dois, ambos excelentes, e nos antigos A Mulher Infiel, Laços de Sangue,
Mulheres Fáceis e As Corças. Este último traz já de início um prólogo lascivo
e altamente erótico mostrando pouca pele e nenhum diálogo à respeito disso.
E é só o começo de um dos filmes mais queridos do mestre francês.
Frédérique (Stéphane Audran, então esposa de Chabrol e vencedora do Urso de Prata
no Festival de Berlim) é uma bela e arrogante mulher da burguesia francesa.
Ela passeia pelas ruas até que conhece Why (Jacqueline Sassard), desiludida
jovem artista que desenha corças pelos asfaltos e calçadas de Paris. Encantada,
Frédérique convida Why para sua casa, que termina seduzida por ela. Logo as duas
viajam para a casa de campo de Frédérique em St. Tropez , onde mora um estranho
casal gay. Numa noite de pôquer com amigos, elas conhecem o arquiteto Paul Thomas
(Jean-Louis Trintignant, de Aquele Que Sabe Viver). Ele logo se interessa por Why
e, após uma noite juntos, a jovem nega à Frédérique ter mais algum interesse por ele.
No outro dia, Frédérique é quem vai atrás de Paul e os dois começam um relacionamento,
escanteando Why. O suspense é intensificado, a tragédia é inevitável.
A única que sabe exatamente para onde quer ir e porque é a câmera de Chabrol:
enquanto os personagens vagam sem saber o que querem, seus corpos parecem
meticulosamente coreografados para a câmera, que se movimenta com elegância.
As Corças soa como um exercício de estilo para Chabrol, mas sem auto-indulgências
e belo como seus atores. O sexy triângulo amoroso situado numa rica mansão
seria material perfeito para uma novela das 8 um pouco mais ousada, e o que
vemos é cinema puro e intenso. O ambiente burguês é um contraste para a
selvageria disfarçada dos personagens, corças lutando contra sua própria
natureza até que a obsessão doentia destrua tudo. Um obscuro enigma costurado
com precisão por Chabrol, que iniciou sua era de ouro a partir desse filme
e partiu para A Mulher Infiel e O Açougueiro. Disponível em DVD no Brasil
numa fraca edição que não faz jus ao filme, As Corças é um dos clássicos
do recém falecido cineasta, a ser descoberto pelos ainda pouco familiarizados
com a extensa filmografia de Chabrol. As Corças é um excelente começo.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
QUERIDO ZACHARY - Uma Carta Para um Filho, Sobre seu Pai ![]()
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Dear Zachary: A Letter to a Son about his Father 2008 EUA 1h35min RT 9,4
documentário de Kurt Robert Kuenne
Em DVD pela Oscilloscope (importado) e download
OPINIÃO 'Uma carta para um filho sobre seu pai.' Esse é o subtítulo de Querido Zachary
e a linguagem adotada pelo documentarista Kurt Kuenne para contar uma trágica história.
Como numa carta dedicada a destrinchar um fato verdadeiro e de extrema importância
para quem vai lê-la, o filme é incrivelmente informativo, cheio de documentos, depoimentos
e provas do acontecido. Seria mais um interminável documentário jornalístico caso não fosse
uma das coisas mais emocionalmente arrasadoras que já testemunhei em um filme.
Andrew Bagby era um homem amado por todos. Médico respeitado, amigo presente, parente
atencioso, um ser humano que deixou uma marca positiva em quem manteve qualquer tipo
de contato com ele. Bem, exceto em Shirley Turner. Anos mais velha que ele e já com dois
filhos, Shirley namorou com Andrew por algum tempo, até que ele resolveu terminar
o relacionamento. Em 5 de novembro de 2001, Andrew foi encontrado morto num
estacionamento na Penssylvania, com 5 tiros. Shirley estava destinada a passar o resto
de seus dias num presídio quando, surpresa, revelou estar grávida de Zachary, filho
de Andrew. Os pais de Andrew, já extremamente baqueados, submergem no torturante
jogo de Shirley que resultou no livro Dance with The Devil e ajudou na criação deste filme.
Kuenne foi amigo de infância de Andrew e começou a fazer o documentário antes mesmo
de descobrir a futura existência de Zachary, que virou peça central do projeto.
Kuenne é completamente parcial quanto à história (e como não ser quando se é tão próximo a ela?)
e desde o título puxa instantaneamente o espectador pelo coração. A estrutura é audaciosa, indo
e vindo pelos locais e pessoas envolvidas na história de Andrew, antes e após sua morte, e a montagem,
também de Kuenne, é veloz e sucinta, tirando praticamente todo o tempo morto possível, sendo
as únicas pausas existentes as que sublinham o sentimento que a cena traz. Essa estrutura, um belo
acerto técnico, é apenas um pedestal para a assustadora e revoltante história de Andrew, seus pais,
Shirley e Zachary. Desde os primeiros minutos eu estava totalmente absorvido pelo filme e ao fim
estava em frangalhos. É tão absurdo, cruel e estarrecedor que eu insisto para que o leitor não
procure informações sobre o caso antes de assistir ao filme. Especialmente pelo fato de que na metade
do filme há uma revelação de sugar fora o ar dos teus pulmões. Esta carta não é apenas para
o desafortunado Zachary, mas para aqueles que ainda possuem alguma humanidade. Imprescindível.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
UM PEQUENO ROMANCE ![]()
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A Little Romance 1979 EUA/França 1h47min RT 7,9
de George Roy Hill com Laurence Olivier, Diane Lane, Thelonious Bernard
Em DVD pela Warner
OPINIÃO Uma Paris ensolarada, uma entediada menina rica, um esperto garoto
humilde, um encontro inesperado e a vontade de ficarem juntos para sempre.
Há conceito mais clichê de amor romântico do que este? Quantos filmes já tentaram
nos contar essa já ultrapassada história antes? Nos anos 50 a idéia de um casal
adulto vivendo o 'amor perfeito' não só era aceitável como era um fim em si mesmo,
especialmente das mulheres ocidentais que suspiravam por Humphrey Bogart.
Hoje o cinema mal consegue contar uma história dessa natureza, não sem apelar
para os lugares comuns. Certamente pelo fato de que o amor romântico já foi
aceito como sentimento lírico, e não como uma nuvem flutuando sobre um casal.
Os recentes Educação e Brilho de Uma Paixão, que mostram jovens lidando com
suas pré-concepções do amor, conseguiram abordar o assunto com algum sucesso,
especialmente o segundo. First love burns brightest, dizia o slogan do filme de Jane
Campion. O pouco conhecido Um Pequeno Romance falou exatamente sobre isso.
O filme de George Roy Hill, de Golpe de Mestre e Butch Cassidy & Sundance Kid,
é uma declaração de amor ao cinema e à cinefilia, antes de qualquer coisa.
Um Pequeno Romance mergulha em referências para contar a história de amor
de Lauren e Daniel. Ela é uma garotinha americana que mora na França com
a mãe e seu padrasto cineasta. Ela lê sobre existencialismo, entende Física
aos 13 anos e é interpretada por Diane Lane adolescente, em seu primeiro papel.
Ele é um charmoso francesinho maníaco por cinema à la Antoine Doinel que conhece
Lauren no set de filmagem do padrasto dela. Ele também é um gênio, lê sobre
existencialismo e gosta de física. É o suficiente para os dois se apaixonarem.
O jovem casal é apadrinhado por Julius (Laurence Olivier), que é convencido
por eles a levá-los para Veneza para que eles se beije sob a Ponte dos Sinais
ao pôr-do-sol. De acordo com a lenda, os casais que assim o fazem tem seu amor
selado para sempre. É claro que as famílias das crianças não ficam nada felizes.
Mesmo que já tenhamos descido essa estrada antes, Um Pequeno Romance
cativa por se tratar de um casal pueril, inocente, com sentimentos honestos.
São pequenos gênios que ainda não foram mordidos pelo mosquito do cinismo.
A química de Lane e Thelonious Bernard (que não seguiu carreira, é hoje um dentista
em Paris) é o que o filme tem de melhor. Laurence Olivier está perfeito na primeira
parte de sua aparição, encarnando o mentor que contrapõe a efervecência juvenil, mas
parece não saber lidar tão bem com roteiro quando este torna Julius um alívio cômico.
No terceiro ato, Roy Hill apela para a formulaica corrida contra o tempo e o filme
perde um pouco o ritmo, para logo em seguida se esmerar em partir o coração
do espectador, num final que homenageia Os Incompreendidos de Truffaut.
Foi o último sucesso de Roy Hill, que abandonou a carreira anos depois,
mas não sem antes dar esse presentinho para os cinéfilos. Amor romântico
é um de casal crianças apaixonadas e Um Pequeno Romance sabe disso,
com toda a pieguice e melodrama que vem com ele.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
UMA CIDADE CHAMADA PÂNICO ![]()
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Panique Au Village 2009 Bélgica/França 1h17min RT 8,7
Animação de Stéphanie Aubier e Vincent Patar
Em DVD pela Paris Filmes
OPINIÃO Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado o Kinemail
arriscou uma visita a essa obscura animação belga que havia estreado meses antes
no Festival de Cannes. Tão obscura que a sessão estava vazia. Para a surpresa
dos
poucos presentes, Uma Cidade
Chamada Pânico provavelmente foi o filme mais
divertido de toda a Mostra. Baseado na série de TV homônima dos mesmos criadores,
Stéphanie Aubier e Vincent Patar, o filme traz o mesmo tipo de humor rápido comum
nesse formato. Mas você não cruza com animações tão escrotas, anárquicas
e absurdas assim todo dia. Sério, Uma Cidade
Chamada Pânico faz Bob Esponja
parecer desenho da Disney.
Em caóticos 77 minutos, conhecemos o Cowboy, o Índio
e o Cavalo, três amigos
que moram juntos. No dia do aniversário do Cavalo, o Cowboy
e o Índio decidem
comprar uma churrasqueira para ele, mas acidentalmente compram
50 milhões
de tijolos, o que causa uma catástrofe na cidade onde eles moram. E isso
é só o começo dos eventos que se desencadeiam de maneira avulsa, no western
mais improvável da história. Não vale a pena
narrar o que acontece, é ver para crer.
Aubier e Patar apostam na caracterização
e no nonsense para criar humor, não há
espaço para lógica. Personagens esquisitos pipocam na tela, fatos se sucedem sem
a menor coerência, dubladores berram em histeria e a pequena cidadezinha
enlouquece.
É um sonho bizarro e alucinógeno, um País das Maravilhas com
bonequinhos em stop-motion que imitam
antigos brinquedos infantis.
Se existe
uma classificação para o filme, esta seria
comédia surrealista. Felizmente, toda essa
bagunça cuidadosamente concebida funciona maravilhosamente bem. Com criatividade
visual, a dupla de diretores segura as pontas (opa!)
da selvageria animada, criando
piadas tão bobas quanto hilárias que são atiradas como que por metralhadoras
no espectador. O excesso de esquizofrenia chega a cansar um pouco - como eu disse,
o formato televisivo, ainda que filmado em CinemaScope, parece mais apropriado - ,
mas tem diversão insana o suficiente para causar frequentes gargalhadas.
Falar mais sobre o filme pode estragar a experiência, então tudo o que me resta
agora é fazer uma forte recomendação de Uma Cidade
Chamada
Pânico,
a mais impressionante e irreverente animação que você não verá nos cinemas.
Assista assim que puder, serão os 77 minutos mais imprevisíveis e engraçados
que você terá esse ano. O DVD traz apenas o trailer original.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
AS DIABÓLICAS ![]()
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Les Diaboliques 1955 França 1h47min RT 9,6
de Henri-Georges Clouzot com Simone Signoret, Véra Clouzot, Paul Meurisse
Em DVD pela Cinemax
OPINIÃO O francês Henri-Georges Clouzot, cineasta contemporâneo a Alfred Hitchcock,
pouco foi reconhecido pelo seu trabalho como cineasta, pelo menos não como o popular-
quase-clichê mestre do suspense. Ganhou o leão de ouro em Veneza por Manon, de 1949,
e o urso de prata em Berlim por O Salário do Medo, de 1953, mas seus filmes são raros,
pouco vistos e conhecidos. Em 1996, o desaparecido Jeremiah S. Chechik (da bomba
Os Vingadores) resolveu refazer um dos clássicos de Clouzot. O resultado foi Diabolique,
aquela porcaria estrelada pelas então belas Sharon Stone e Isabelle Adjani
e que
naufragou em todos os aspectos. Serviu apenas para resgatar As Diabólicas, suspense
brilhantemente arquitetado e que recebeu lançamento em DVD no Brasil recentemente.
Se Clouzot terminou por ficar com a fama de 'primo exótico' de Hitchcock, ele pôde
se vangloriar ao menos de uma vitória: As Diabólicas é baseado no conto 'Celle Qui
N'Etait Plus', de Thomas Narcejac, cujos direitos eram disputados pelos dois cineastas.
De acordo com a lenda, Clouzot conseguiu comprá-los minutos antes de Hitchcock
tentar concretizar o acordo. O estranho é assistir ao filme e perceber as semelhanças
entre ambos, tanto nos defeitos quanto nas (muitas) qualidades. Para começar
a estrela da produção é a loura platinada alemã Simone Signoret, querida em Hollywood,
que interpreta
Nicole Horner. Ela é a amante de Michel Delassalle (Meurisse), marido
de Christina
(Véra Clouzot, esposa do diretor), que por sua vez é dona de uma escola
para meninos
controlada por Michel. Ele se casou pelo dinheiro da moça, que sofre
nas mãos do bruto
e covarde marido.
Além disso, ela sabe do relacionamento dele
com Nicole, as duas
chegam a jantar na mesma mesa e trocar confidências. Cansada
de ver Christina sofrer,
Nicole arma um plano para se vingar de Michel. As duas fogem
para uma casa em outra
cidade, atraem Michel para o local, drogam e afogam o homem.
Mas, depois que
ela se livram do corpo, coisas estranhas acontecem.
As Diabólicas é um típico thriller noir dos anos 50, com todas as sombras,
personagens de moral duvidosa e reviravoltas intricadas do roteiro. Felizmente
está além do óbvio, já que a história não é artificializada e o que acompanhamos
a trajetória psicológica dos personagens. Existe um mecanicismo da estrutura
narrativa - característica que Hitchcock também se encaixa e que talvez fosse
comum aos filmes comerciais da época, seja esse mecanicismo complexo ou não -
que
endurece um pouco a fluidez, mas
os persongens têm camadas o suficiente
para atrair nosso interesse. E, o mais importante, todo o desenrolar da trama
conduz a um dos finais mais apavorantes do cinema. É difícil discorrer sobre
os 15 minutos
finais, mas posso afirmar que o talento de Clouzot para o suspense
não perdia em nada para o seu colega inglês. Sem se utilizar de música em momento
algum e provando inteligência no controle da cadência, Clouzot faz uma aterradora
(e, para os cinéfilos, até tocante) homenagem
a Nosferatu numa imagem inesquecível
que infere um significado simbólico ao conceito
de 'vampiro' e, de quebra, arrepia
os fios de cabelo do pescoço. É definitivamente
uma
das grandes cenas do cinema
de horror, e até mesmo além de gêneros. O tom macabro é ainda maior se levarmos
em consideração o triste fim de Véra Clouzot, morta ainda jovem de um ataque
cardíaco, e que trás relações assombrosas com o filme. Em breve estreia em Recife
O Inferno de Clouzot, documentário sobre um dos filmes inacabados do francês,
mas não assista sem antes conferir essa jóia assustadora.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
CLUBE DOS PERVERTIDOS ![]()
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A Dirty Shame 2004 EUA 1h28min RT 5,4
de John Waters com Tracey Ullman, Johnny Knoxville, Selma Blair, Chris Isaak
Em DVD pela PlayArte
OPINIÃO Em 2004 John Waters completava 4 anos anos sem produzir um novo filme.
O último havia sido Cecil Bem Demente com Melanie Griffith, exibido na Fundaj.
Mas o rei da baixaria, criador de Hairspray (o original) e Pink Flamingos, devidamente
comentado e indicado aqui no Dicas de Cinéfilo, preparava o lançamento de sua
mais recente produção, Clube dos Pervertidos. Foi uma volta a boa e velha forma
para Waters: o filme foi classificado com NC-17
- a mais alta nos Estados Unidos,
classificação geralmente empregada em filmes pornô - por causa do palavreado
extremamente sacana, simulações de sexo e confrontos com temas
controversos.
Fato,
Clube dos Pervertidos é de mau gosto e é compressível que metade dos
espectadores o tenham detestado. Fato também é que a outra metade, que não se ofende
tão facilmente com palavrões e safadeza,
se divertiu pacas com os excessos e a acidez
do humor de Waters. Claro que o filme foi um fracasso nas bilheterias e no Brasil foi despejado
diretamente nas prateleiras das locadoras. Desde quando ficamos tão limpinhos?
Baltimore é cenário para a grande maioria dos filmes de Waters, a cidade já famosa
pelos tipos esquisitos que moram por lá (ou você esqueceu da eterna Divine?).
Quem mora
lá é Sylvia Stickles, encarnada com vontade pela comediante Tracey Ullman
(não morra
sem ver sua personificação da Reneé Zellweger na web). Ela é uma infeliz
mulher de meia idade cujo tesão desapareceu há algum tempo. Seu marido Vaughn
(Chris Isaak) bem que tenta reacender o fogo da esposa, mas sempre é dispensado.
Já a filha do casal,
a exorbitantemente peituda Caprice (Selma Blair), está em prisão
domiciliar por exibicionismo
perigoso em suas atrevidas
performances em bares
de strip-tease. Um dia Sylvia leva uma pancada na cabeça num acidente automobilístico,
mas é salva por Ray Ray (Johnny Knoxville, da série Jackass), um guru sexual que
a escolhe como 12º apóstolo de um revolucionário
clube sexual. Graças à pancada -
e ao inusitado sexo oral realizado por Ray Ray ainda no local do acidente - Sylvia passa
de uma 'neutra' para uma viciada em sexo, passando a viver
numa constante
procura
por alguém que 'regue seu repolho', como a própria clama. Ela se junta ao clube,
que reúne outros 11 tarados com perversões das mais variadas. Os problemas começam
quando os cidadãos neutros de Baltimore, incluíndo sua mãe Big Ethel (Suzanne Shepherd,
hilária), revoltam-se
com a sexualidade livre que conquista cada vez mais espaço,
começando assim uma guerra
entre fundamentalistas cristãos anti-sexo e pervertidos
sexuais viciados. A bagunça
em que Baltimore (e, logo, o filme) se torna é um insano
espetáculo de despudor,
propaganda pró-sexo no mesmo estilo do posterior e também
bagunçado Shortbus,
e hilariantes piadas classe B de fazer a vovó sair da sala.
Toda a sujeira de Clube dos Pervertidos é coordenada por Waters com um saudável
experimentalismo. Ao longo do filme, letreiros piscam com palavras que definem o estado
psicológico dos personagens, uma tentativa arriscada de conseguir humor, mas de acordo
com o espírito do longa.
O autor também se utiliza de num fiapo de enredo, preferindo
desenvolver seus ótimos protagonistas. A história fica caótica do meio pro final, mas num
universo onde
uma mulher tem os seios do tamanho dos de Caprice e pessoas viram
viciadas em sexo
com uma paulada na cabeça não dá pra cobrar tanta coerência.
É como numa orgia,
ou você relaxa e participa ou sai antes do primeiro orgasmo para
não se sujar. O engraçado é que mesmo a situação sendo absurda, não está tão longe
do que se vê na realidade. Os fundamentalistas religiosos, com o repúdio mortal e fora
de controle a tudo o que esteja ligado ao sexo pelo prazer, são caricaturas próximas
demais do que se encontra em cultos e missas à fora. Waters filma com bom humor,
mas
é assustador quando se faz uma comparação. Felizmente, o pessoal freak do clube
faz o contraponto.
Como nas orgias em geral,
o final
de Clube dos Pervertidos é feliz,
divino até. E ainda traz uma participação especial inusitada.
Ainda bem que em Baltimore
e no resto do planeta as pessoas
ainda gritam let's go sexing! Gritemos todos, afinal.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
UM HOMEM SÉRIO ![]()
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A Serious Man 2009 EUA 1h46min RT 8,8
de Joel & Ethan Coen com Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Sari Lennick, Fred Melame
Em DVD pela Universal
OPINIÃO O mercado distribuidor/exibidor está cada vez menos confiável. Mesmo que
um
filme seja nomeado ao Oscar principal, aplaudido pela crítica e tenha no cartaz
nomes como Joel e Ethan Coen, ele pode não estrear numa sala perto de você. E se for
uma
daquelas obras-primas raras nos cinemas é que a situação complica de verdade.
Vide o caso de Um Homem
Sério. É compreensível que tal obra seja lançada com modéstia
pela Universal, pois se trata
um filme muito pessoal dos irmãos cineastas (em alta com
o sucesso de Onde Os Fracos Não Têm Vez e Queime Depois de Ler) que discorre sobre
fé, inércia e metafísica
através do judaísmo, religião pouco popular no Brasil. Mas
daí a lançá-lo
em ridículas 8 cópias? Os mais de 40 mil espectadores brasileiros não foram
o
suficiente para garantir uma exibição em Recife, e Um Homem
Sério foi distribuído
em DVD ainda em abril. É criminoso nos obrigar a assistir a um dos mais visualmente
elaborados filmes dos Coen na tela da TV, e não numa sala de cinema.
Seco e preciso como todo bom filme by Coen Bros., Um Homem
Sério se passa no
subúrbio americano do final dos anos 60 e traz como objeto o professor de física
Larry Gopnik. Como o título entrega, ele é um homem sério, correto e limpinho.
É um judeu de fé, um marido e pai esforçado e um trabalhador decente. Fora isso
ele não faz o menor esforço para alterar o status quo de sua vida singela. Portanto,
Gopnik acha que há algo de errado com seu 'carma', já que seu mundo começa
a desabar pouco a pouco: sua filha Sarah é uma ladra, seu filho Danny é problemático,
seu irmão Arthur é uma ameba que vive às suas custas, sua mulher Judith o trai com
um homem chamado Sy Ableman e um aluno coreano
o ameaça por tê-lo reprovado.
Suas crenças são postas à prova, e cada vez que ele procura a ajuda de um rabino,
Gopnik ganha mais perguntas e menos respostas. Existe mesmo um ser superior
julgando suas atitudes? Vale a pena ser um homem sério? Pode ele
atribuir esse adjetivo
a si mesmo? O melhor de tudo é que
se trata de uma
comédia, e uma bastante cruel.
Em Um Homem
Sério os Coen estão confortáveis ao demonstrar o quanto entendem
e dominam a arte de fazer filmes. Todo cinéfilo dá aquele sorriso no canto da boca
quando se depara com certas cenas. Por exemplo: quando Gopnik fuma um baseado,
os irmãos
criam um esquema de signos com a iluminação, as lentes (Roger Deakins,
muito obrigado)
e o som
para situar a condição do protagonista. Várias cenas depois
esse esquema volta, dessa vez acompanhando outro personagem, e é impossível conter
as risadas; ou ainda na sequência
inicial que narra uma fábula judaica, dando todos
os índices das questões a serem postas
sob uma estética retrô; e ainda na genial cena
em que Gopnik chega a uma conclusão após um longo cálculo feito num quadro com giz.
Os irmãos também conduzem
os magníficos atores com a competência de sempre,
os traços e características físicas
dos intérpretes
se encaixam com seus personagens
à perfeição; e Stuhlbarg lidera
o elenco
com sensibilidade. E o roteiro é tão bom que não
é necessário entender todos os termos do judaísmo para compreender os diálogos
e o próprio enredo do filme, já que eles sobrevivem no contexto. Um Homem Sério
é um absurdo de apuro técnico e ainda mais absurdo na serenidade e bom humor
com que fala sobre assuntos... sérios.
O martírio psicológico
de Gopnik e família deságua num final abrupto e inacreditável
de tão irônico e cruel,
é como se os Coen decidissem que, após se divertirem com
as desventuras de seu
personagem e perceberem que ele atingiu algum esclarecimento,
eles
queriam se divertir um pouco mais. Pena que o personagem
não ouviu ao rádio
de seu
filho Danny. Porque para o rabino Marshak e para os Coen,
o segredo para
as divagações
filosóficas que movem Larry Gopnik está no som
da Jefferson Airplane.
Talvez eu gostasse ainda mais do filme caso ele mexesse com meu coração tanto
quanto mexeu com meu cérebro, provavelmente a especificidade dos temas e o meu
pouco conhecimento do judaísmo tenha
sido uma barreira. Felizmente isso não
comprometeu
a fruição, Um Homem Sério é tão universal quanto particular dos
irmãos Coen.
O DVD infelizmente vem ausente de extras.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
O SERVIÇO DE ENTREGAS DA KIKI ![]()
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Majo no takkyûbin/Kiki's Delivery Service 1989 Japão 1h43min RT 10,0
de Hayao Miyazaki com as vozes de Minami Takayama, Rei Sakuma, Keiko Toda
Em VHS nacional e DVD importado pela Disney, download
OPINIÃO Enquanto é motivo de alegria finalmente ter a oportunidade de assistir ao
maravilhoso
Ponyo nos cinemas brasileiros, é triste
constatar que existem apenas dois
dos outros nove filmes do mestre japonês da animação Hayao Miyazaki disponíveis no
Brasil, sendo estes os premiados O Castelo Animado (2004) e A Viagem de Chihiro (2001).
A única maneira de conhecer melhor a obra deste gênio é através da internet e da importação
de seu trabalhos em DVD ou VHS. Se clássicos como a fantasia adulta Princesa Mononoke
(1997) e Meu Amigo Totoro (1988) mal ganharam chance por aqui, que dizer dos filmes
menos conhecidos, como o encatador O Serviço de Entregas da Kiki? Lançado em 1997
em VHS pela Disney Brasil, o filme foi um sucesso estrondoso de vendas (reza a lenda
que vendeu mais de 1 milhão de cópias no país) e chegou a ser exibido na TV paga,
mas foi esquecido pela casa do Mickey e não vê previsão para seu lançamento em
formato digital. Vale a pena procurá-lo, assim como toda a filmografia do Miyazaki.
A Kiki do título (dublada por Kirsten Dunst na versão americana) é uma garotinha
de 13 anos que está prestes a efetuar sua cerimônia de passagem para o mundo adulto
e se tornar uma bruxinha emancipada. Sim, bruxa, com direito a vestido preto,
vôos na vassoura e um gato
preto falante e muito abusado chamado Jiji. O rito
de passagem consiste em se mudar para uma cidade onde não existam bruxas
e passar a viver lá, vivendo experiências que a façam crescer como pessoa e feiticeira.
A cidade escolhida é Koriko e lá ela conhece pessoas que modificam sua maneira
de encarar a vida, como o menino Tombo - que logo se apaizona por Kiki - ; a jovem
e misteriosa pintora Úrsula, que mora na floresta; e Osono, uma senhora prestes a dar luz
e que é dona da Padaria Gutiokiban. Esta praticamente adota Kiki e a contrata como
entregadora de suas encomendas, que chegam aos clientes via vôo de vassoura.
A espirituosa garota enfreta os desafios de seu novo emprego e da inevitável
maturidade, inclusive tendo seus poderes de bruxa ameaçados.
O Serviço de Entregas da Kiki é tão atemporal quanto qualquer outro filme
do cineasta japonês. Mesmo sendo de 1989, soa tão atual quanto Ponyo. E também
possui as mesmas características que tornaram Miyazaki um autor consagrado:
a animação incrivelmente bela e detalhada, a inexplicável magia inerente ao
ambiente em que a história se passa, e os personagens cativantes, misteriosos
e de características que enriquecem sua personalidade. Preste atenção na cena em que
Kiki chega à Koriko, um desbunde visual de encher os olhos. O enredo é simples e singelo,
mas abordado com densidade filosófica e psicológica, sem jamais se tornar pedante
para crianças
ou adultos. E ainda é divertidíssimo, graças principalmente ao gato Jiji.
Espécie de parente longíquo de Marvin, o robô de O Guia do Mochileiro das Galáxias,
Jiji vive de mau-humor e fazendo comentários sarcásticos e bem humorados, dominando
quase todas as cenas em que aparece. Aliás, Miyazaki demonstra inteligência ao anular
o alívio cômico quando a história fica um pouco mais séria, sem prejudicar a presença
do personagem felino. A delicada trilha sonora de Joe Hisashi, que musicou a maioria
dos filmes do diretor e também o recente A Partida,
é uma delícia para os ouvidos.
Concluindo a trama num clímax tenso, cômico e arrebatador, O Serviço de Entregas
da Kiki é o antídoto perfeito para o cinismo vigente em produções voltadas para crianças,
independente do meio de comunicação: uma história honesta e verdadeiramente
mágica
sobre abandonar a infância sem perder o encanto de viver.
E quanto à
Kiki, ela faz parte
do time de adoráveis
heroínas do mestre Miyazaki,
ao lado de Chihiro, Nausicaä, Sofi,
princesa Mononoke e da mais nova Ponyo. Está em boa companhia.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA ![]()
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Bring Me The Head of Alfredo Garcia 1974 EUA/México 1h53min RT 8,3
de Sam Peckinpah com Warren Oates, Isela Vega, Robert Webber, Gig Young
Em DVD pela Lume Filmes
OPINIÃO Fresquinho nas prateleiras de todo o Brasil, Tragam-me A Cabeça de Alfredo
Garcia é o segundo de três clássicos de Sam Peckinpah a serem lançados pela Lume Filmes
(o primeiro foi Assassinos de Elite, de 1975, e o próximo será Pat Garrett & Billy The Kid,
de 1973,
previsto
para agosto), distribuidora responsável pelos lançamentos mais
importantes desse formato que é cada vez mais ameaçado pela pirataria. Enquanto
as versões 'sólidas' dos filmes ainda persistem,
a dignidade dos DVDs
brasileiros
se mantém com o lançamento desse
bizarro western/road movie, joia que só viu
a luz por aqui na época de seu lançamento nos cinemas e recentemente na TV paga
ou via download. Perfeito para chamar os amigos cinéfilos e assistir em grupo nessas férias.
História simples, personagens complexos: um poderoso rancheiro mexicano clama
o título do filme quando descobre que tal homem engravidou sua jovem filha. Dois
caçadores de recompensa americanos investigam seu destino, e acabam por encontrar
o pianista Bennie (Warren Oates, excelente), que por sua vez descobre que sua namorada
Elita (Isela Vega) tem informações sobre o paradeiro de Garcia, a esta altura já morto
e enterrado. O casal parte em busca do cadáver (e da cabeça), numa jornada
tortuosa e violenta cujos fins são alterados pelos caminhos mal traçados. Tragam-me
A Cabeça
de Alfredo
Garcia é um legítimo filme B, com cenas de nudez, tiroteios
e algums momentos de pura escrotice, tudo bem amarrado pela mão de Peckinpah,
mestre nas cenas violentas, montadas alternando tomadas em slow-motion e em velocidade
natural. A primeira sequência causa um forte impacto no espectador, e após a introdução
do argumento, o tom do filme fica mais divertido. M é nos quinze minutos finais que
temos a prova do porque Peckinpah considerava este o seu filme mais pessoal.
O anti-herói Bennie, que vive bêbado
e de conduta machista, está interessado apenas
na recompensa e arrasta Elita consigo
na busca pela cabeça. Antes mesmo de chegar
em seu destino, Bennie já sofre interferências em sua personalidade por Alfredo Garcia,
primeiro amor de sua namorada. Sua relação com as mulheres e com o mundo cão
ao seu redor se transforma
gradualmente. Um dos motivos que levou Peckinpah
a fazer este filme foi para replicar as acusações de misoginia.
As mulheres de Alfredo Garcia são sacralizadas por Bennie/Peckinpah, mesmo que
apanhem, levem tiros e sejam mortas. A fúria crescente nos atos do protagonista
é intensificada quando observa os caçadores de recompensa americanos tratando
mulheres como cães, o que o relembra dos maus tratos sofridos por Elita. Já a filha
do rancheiro e as mulheres da casa, sempre silenciosas, são responsáveis pelas
palavras definitivas da trama. A própria Elita é uma mulher corajosa, de fibra, e bem
feminina.
Estão todas acima dos homens do filme, que não enxergam além da própria
ganância
e parecem sempre ter certeza que estão no controle da situação. A cabeça
de
Garcia, que jamais chegamos a conhecer profundamente, oferece um novo prisma
à Bennie, um homem todo atrapalhado e trágico, mas que tem cojones de herói
e defende sua nova e solitária moral. O final, que rima brilhantemente com o início,
lembrou-me o de O Grande Roubo do Trem, de Edwin S. Porter, mas com um significado
novo e invertido em relação ao moralista filme de 1903. Um detalhe que engrandece
ainda mais Tragam-me
A Cabeça
de Alfredo
Garcia, filme que incomoda, diverte,
choca, e se aventura
em questões existencialistas sem perder o prumo, pra ficar
guardado pra sempre na sua cabeça.
Viva Peckinpah! DVD necessário na coleção.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
AQUELE QUE SABE VIVER ![]()
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Il Sorpasso 1962 Itália 1h45min
de Dino Risi com Vittorio Gassman, Jean-Louis Trintignant, Catherine Spaak
Em DVD pela Versátil
por Fernando Vasconcelos
OPINIÃO Realizado em 1962, com a Itália já recuperada da Segunda Guerra,
o filme capta
a atmosfera hedonista e consumista da era dos automóveis conversíveis,
da vida
de playboy, das festas na praia ao som do rock e twist de Peppino di Capri
e do sexo
e amor livre dos anos 60. Embora não comente nenhum filme de Dino Risi
no seu
documentário Minha Viagem à Itália, sabe-se que Martin Scorsese também
adora Aquele Que Sabe Viver. O título original Il Sorpasso pode ser traduzido como
A Ultrapassagem, título rico em significados depois que você assiste ao filme.
Com belo roteiro de Dino Risi, Ettore Scola e Ruggero Maccari, o filme narra
o encontro de Bruno Cortona (Vittorio Gassman cativante, extraordinário),
um quarentão narcisista, sedutor, desesperado por uma juventude que já lhe escapa,
e Roberto Mariani (vivido pelo ator-ícone francês Jean Louis Trintignant, aqui
bem novinho em um dos seus primeiros papéis como protagonista), um tímido
estudante de Direito. Em feriadão religioso tradicional, Roberto resolve ficar em casa
estudando para provas. Bruno, passeando pela cidade deserta, precisa de um telefone
e sobe ao apartamento de Roberto. (Obs. Roteiro impossível na era do celular eh, eh)
Daí, um convite para almoçar é o início de uma viagem de aventuras e descobertas
que Bruno oferece à Roberto, durante imprevisíveis dois dias e duas noites, dirigindo
em alta velocidade, farreando, paquerando garotas por onde passam etc. e diálogos
impagáveis, como quando Bruno comenta, ao passar por um ciclista: '- Ciclismo
é um esporte anti-estético, engrossa as pernas. Eu prefiro jogar sinuca...'
O carro é um personagem à parte: tem foto de Brigitte Bardot colada no painel,
que tem um incrível toca-discos (sim, para LPs de vinil!!) portátil e uma buzina
que será maravilhosamente usada quase como trilha sonora ao longo do filme.
Entre porres de vinho, bailes em clubes, festas na praia, Roberto descobrirá
que Bruno é um boa-vida, com ex-mulher, uma filha estonteante (Catherine Spaak)
e conta bancária instável e, aos poucos, também homem solitário, melancólico,
tentando esconder-se numa imagem de eterno curtidor das boas coisas da vida.
No final, uma mudança radical de registro de comédia para drama fecha
o filme com chave de ouro. É daqueles finais inesquecíveis pra cinéfilo.
Entre as grandes sacadas do humor gaiato de Dino Risi, num dos diálogos entre
Bruno e Roberto, Vittorio Gassman comenta sobre uma balada pop no som
do carro: - Essa música tem aquela coisa, a solidão, a incomunicabilidade,
e aquela outra coisa que está na moda, a alienação, como nos filmes de Antonioni.
Você viu O Eclipse? Antes que Roberto comece a responder, Bruno já completa:
- Eu dormi, tirei uma boa soneca. Mas é um grande diretor, esse Antonioni!
Dino garante que o próprio Antonioni se divertia muito com essa cena de
Aquele Que Sabe Viver, um filme perfeito, lindo, que eu recomendo e desejo
que vocês
experimentem o mesmo encanto que eu tive ao assisti-lo/descobri-lo.
Boa hora pra ver o filme, em homenagem ao grande Dino Risis que se foi.
Vou logo avisando, a única locadora daqui de Recife onde encontrei o DVD
foi a Classic Video, na Torre. Pra comprar, você encontra na Livraria Cultura.
Visto em 29/08/2007
Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br
NARCISO NEGRO ![]()
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Black Narcissus 1947 Inglaterra 1h40min RT 10,0
de Michael Powell & Emeric Pressburger com Deborah Kerr, Kathleen Byron, David Farrar
Em DVD pela Editora NBO
OPINIÃO Em Mopu, no alto do Himalaia, um antigo harém chamado 'A Casa
das Mulheres' pertencido a um general, tranformou-se em Casa da Santa Fé
através das freiras
do Convento da Ordem das Servas de Maria em Calcutá.
O local, adornado por pinturas eróticas em suas paredes, precisa ser reorganizado
a fim de se tornar uma escola cristã e um hospital, e cinco jovens freiras britânicas
encabeçadas pela Irmã Clodagh (Deborah Kerr) aceitam o convite de morar em Mopu
para trabalhar
e pregar o cristianismo entre os habitantes. Mas as memórias daquelas
paredes, uma persistente presença masculina e lembranças recalcadas do passado
individual das
freiras terminam por atrapalhar os planos do convento e obrigar essas
mulheres a rever suas crenças, desilusões e sexualidade. Michael Powell, diretor
do cultuado Peeping Tom - A Tortura do Medo,
e seu frequente colaborador Emeric
Pressburger fizeram de Narciso Negro um clássico britânico que ficou pra história
pela natural polêmica causada, pelo excepcional visual do filme (vencedor dos Oscar
de fotografia e direção de arte), ambição cinematográfica e honestidade ao tratar
de um tema
que facilmente poderia descambar para o panfletário ou folhetinesco.
O sufocante melodrama é tão vertiginoso quanto o ambiente em que se passa.
O que impressiona é que nada foi filmado em locação e todos os cenários, pinturas
e miniaturas convencem
na construção do espaço, e a elaborada fotografia
de Jack Cardiff (Guerra e Paz)
nivelou o uso do technicolor a um alto patamar,
quase um parâmetro para a época. São fatores essenciais para o desenrolar
da trama graças ao poder que a montanha exerce nos personagens, incluíndo
a macabra floresta que ganha destaque perto do clímax. Os personagens humanos,
no caso, estabelecem-se como icônicos, mesmo que às vezes as soluções do filme
para eles sejam um pouco excessivas. A Irmã Clodagh de Deborah Kerr serve como
base moral e fio condutor de nosso entendimento da situação. Mas é a Irmã Ruth,
interpretada
pela ótima Kathlyn Byron, que se destaca por sua progressiva perda
de lucidez e über-sexualidade que se liberta selvagemente ao se sentir seduzida
pelo cínico
Sr. Dean (David Farrar). A beleza de Narciso Negro está no não
julgamento de seus protagonistas - ainda que Ruth quase vire uma vilã de filme
de horror - já que existe a consciência das necessidades corpóreas por parte do mais
devoto
dos personagens.
Por falar em narciso negro, ainda existe o núcleo indiando
cujos
destaques
são
Dilip Rai, príncipe encarnado pelo indiano Sabu e que usa
um perfume
da fragrância que dá título ao filme; a jovem nativa Kanchi (a bela
Jean
Simmons),
que
seduz o príncipe; e a inesquecível Angu Ayah (May Hallat), velhinha
algo
governanta das freirinhas e seu humor sarcástico e convicções fortes. Todo o elenco
acerta no tom. Com excessão de um ou outro detalhe equivocado ou exageradamente
artificial, o belo Narciso Negro sobreviveu ao tempo e mantém ainda hoje
os aspectos
que
foram aclamados na sua época. O DVD traz biografias, trailer
e fotos de arquivos mostrando detalhes por trás das cenas da produção.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
STARDUST - O Mistério da Estrela ![]()
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2007 Inglaterra/EUA 2h07min RT 7,6
de Matthew Vaughn com Claire Danes, Charlie Cox, Michelle Pfeiffer, Robert De Niro
Em DVD pela Paramount
OPINIÃO O britânico Matthew Vaughn
costumava produzir filmes de seu parceiro
Guy Ritchie, como Snatch - Porcos e Diamantes e Jogos, Trapaças e Dois Canos
Fumegantes. Logo ele sentou na cadeira de diretor e fez Nem Tudo é O Que Parece
(Layer Cake), thriller cômico que ganhou hype, lançou Daniel Craig ao mainstream
e virou cult no mundo todo. A boa recepção de público e crítica mostraram que pular
para o cinemão hollywoodiano era uma questão de tempo. Acabou caindo de pára-quedas
em Stardust - O Mistério da Estrela, baseado na obra de Neil Gaiman. O filme passava
por uma pre-produção complicada, com vários diretores e atores entrando e saindo
do projeto, como Terry Gilliam, Scarlett Johansson e Sarah Michelle Gellar. Gaiman
sugeriu à Paramount o nome de Vaughn, que topou a proposta do amigo. Em 2007
a fantasia estreou com números fracos, mas se tornou querido entre os poucos
que visitaram. No Brasil passou quase despercebido no cinemas, e o Dicas de Cinéfilo
aproveita o lançamento do ótimo e absurdo Kick-Ass, dirigindo por Vaughn,
para recomendar uma assistida a esse conto de fadas inusitado.
O primeiro acerto de Vaughn nesse filme foi não levar a história à sério. Até porque
ela é sobre um jovem rapaz chamado Tristan Thorn (Charlie Cox) que promete à
mimada patricinha-de-época Victoria (Sienna Miller) uma estrela cadente como
prova de seu amor, e só assim ela se casará com ele ao invés do arrogante Humphrey
(Henry Cavill). Por acaso, uma estrela cai do céu neste dia. Ela se chama Yvaine (Claire
Danes) e parou na Terra porque o Rei de Stormhold (Peter O'Toole), no leito de sua
morte, arremessou um colar de rubi para os céus. O colar é uma aposta feita pelo Rei:
o primeiro de seus quatro filhos vivos que capturá-lo, tomará o trono. Enquanto isso,
a bruxa Lamia (Michelle Pfeiffer) também entra na corrida pela estrela, já que o
coração desta garantirá vida eterna para ela e suas irmãs. A palavra de ordem
é diversão e por 2 horas Vaughn oferece aventura, ação, romance, comédia e horror,
gêneros que funcionam de acordo com o humor e idade de quem assiste, mas estão
dispostos ao enredo de forma coerente e uniforme.
O equilíbrio entre o extremamente brega e a sátira ácida aos filmes fantásticos
põe Stardust acima da mediocridade. Vaughn sabe que nós conhecemos todos
os arquétipos apresentados, logo ele brinca com nossas expectativas e faz dezenas
de referências durante o filme. É como se os personagens tivessem certa consciência
de que
estão ali para nos entreteter, no melhor espírito Sessão da Tarde das antigas,
e o melhor exemplo são os fantasmas dos falecidos filhos do Rei e seus comentários
sarcásticos.
O elenco entra na brincadeira. Pfeiffer está em perfeita forma, e não é só física;
Cox é um simpático anti-herói desajeitado; Miller, que também esteve em Layer Cake,
nasceu para esse tipo de papel; Mark Strong, um dos filhos vivos do Rei, mostra porque
agora é o vilão-sensação de Hollywood (Shelock Holmes, Robin Hood e o próprio
Kick-Ass); Robert De Niro aparece no personagem mais improvável de sua carreira
(contar mais estraga) e diverte
em sua aparição, assim como as hilárias participações
de O'Toole e Ricky
Gervais. Só Claire Danes que parece não se encontrar no filme,
por mais que sua beleza
se encaixe como uma luva em sua peronagem. A parte técnica
também merece
créditos pela concepção visual, Stardust é 'cafonamente' lindo.
Interessante também
é ver como o filme ganha uma sobriedade repentina no meio
da magia, ficando próximo
do cruel e do perverso (os assassinatos são ligeiramente
atenuados com criatividade
para não chocarem tanto), detalhes que só enriquecem
a experiência. E quando
o inevitável final feliz enfim acontece fica difícil se arrepender
de ter participado
da brincadeira. O clichê do 'filme para toda família' cai bem em Stardust,
mas ele é bem menos ordinário que tal
frase. Stardust está para as fantasias
assim
como Kick-Ass está para os filmes de super-heróis: desconstrói o gênero para o qual
pertence com ousadia e irreverência, fazendo-o sobreviver por mais um dia.
O DVD tem erros de gravação, making of, cenas inéditas e trailer.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
HELVETICA ![]()
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2007 Inglaterra 1h20min RT 8,8
de Gary Hustwit com Michael Bierut, Neville Brody, Dimitri Bruni, Massimo Vignelli
Em DVD e Bluray pela Plexifilm (importado) ou download
OPINIÃO Com exceção dos designers gráficos e pessoas que tenham qualquer
conhecimento sobre fontes e tipografias, o documentário Helvetica é, de início,
um enigma. O que um filme sobre um tipo de letra teria de interessante a oferecer?
Poderia ser uma chata matéria de telejornal caso o diretor e designer Gary Hustwit
não soubesse exatamente o quê e com quem
falar sobre uma das fontes mais
famosas que existem. Para a minha surpresa, Hustwit conseguiu realizar em seu
primeiro filme
o que a maioria dos cineastas tenta durante toda uma carreira:
expandir a nossa percepção ao revelar e explorar um universo por trás de algo
simples como uma tipografia. Bom, 'simples' não é bem a palavra.
Para um tema incomum, Hustwit preferiu seguir um caminho usual em se tratando
de documentários, investindo em entrevistas com pessoas importantes do design -
entre elas Matthew Carter, criador de fontes como Verdana e Tahoma, e Massimo
Vignelli, que incorporou pesado a Helvetica em seus trabalhos, como na popular
marca da American Airlines, a mesma há 43 anos - e fazendo um apanhado
histórico de seu objeto de estudo, visitando lugares e personalidades que fizeram
com que a Helvetica ganhasse a importância que tem hoje.
Mas Helvetica vai além
do formato clássico do documentário ao questionar seu tema. Por que a Helvetica
é importante? Qual a interferência que ela causa na vida social? Quais as implicações
que a 'Revolução Helvetica' trouxe consigo? Um grande grupo de especialistas,
um mais nerd que o outro, são pura eloquência e empolgação ao discorrer sobre
tais questões com argumentos que passam pelo efeito sensorial, econômico, político,
psicológico, estético e artístico causado pela fonte. Assisti a esse debate com uma
mistura de fascinação e
incredulidade, tamanha obsessão que alguns entrevistados
e às vezes o próprio filme chegam a atingir. Para exemplificar, a designer
norte-americana Paula Scher relembra dos tempos em que era 'moralmente oposta'
a Helvetica porque era a fonte usada pelas corporações e pelos militares na época
da Guerra do Vietnã.
A fonte, uma das mais limpas e legíveis e influentes
já desenhadas (a conhecida Arial do seu PC é uma prima pobre redesenhada
a partir da Helvetica), é questão de amor
e ódio para alguns.
Helvetica é, assim como a própria tipografia, limpo e preciso. Talvez não tão enxuto
quanto poderia de ser, mas cheio de detalhes enriquecedores. Entre um depoimento
e outro, Hustwit apresenta vários clipes com imagens capturadas de vários lugares
onde a fonte é utilizada (e, acredite, ela é mais popular do que se imagina), musicados
por temas econômicos de bandas como Caribou e El Ten Eleven. Não se
desespere
se começar a procurar a Helvetica no seu habitat por um tempo, nem se a encontrar
com uma frequência assustadora. Mas agradeça a Hustwit e seu filme
caso você
se pegue
refletindo sobre os menores e mais 'insignificantes' detalhes
presentes
ao seu redor e encontrando valores e questões não percebidos anteriormente.
Sim, Helvetica é poderoso a esse ponto. Jamais lançado no Brasil, você pode
encontrar o documentário em DVD e Bluray para importação ou para download.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
FORA DO JOGO ![]()
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Offside 2006 Irã 1h25min RT 9,5
de Jafah Panahi com Sima Monbarak-Shahi, Shayesteh Irani, Ayda Sadeqi, Golnas Farmani
Em DVD pela Sony (importado) ou download
A Dica de Cinéfilo dessa semana é Fora do Jogo, emocionante filme do iraniano
Jafah Panahi, que foi notícia recentemente ao ser preso pelo governo do Irã por rodar
filmes que discordam do regime e pela greve de fome feita por ele.
Panahi já foi solto,
mas seus filmes continuam proibidos em sua terra natal. Fora do Jogo nunca foi
lançado no Brasil, e o texto a seguir foi escrito por Fernando Vasconcelos durante
a Mostra Internacional de São Paulo em 2006. Concordo com cada palavra.
Filme perfeito para se assistir em época de Copa de Mundo.
por Fernando Vasconcelos
OPINIÃO Pra última sessão dessa terça dei uma chance ao cinema iraniano, tão festejado
nos anos 90 (com filmes realmente excelentes) mas fora do hype cinéfilo nos últimos anos.
Escolhi Fora do Jogo (Offside, 2006), a mais recente fita de Jafar Panahi, autor de um
dos primeiros sucessos do cinema iraniano no Brasil, O Balão Branco (1995), também seu
primeiro filme. Dele também são O Espelho e O Círculo. O que me encanta mais no cinema
feito no Irã é a capacidade espantosa que seus roteiristas e diretores têm de fazer um filme
coeso, bem resolvido, a partir de pequenas histórias cotidianas que muitos acreditariam
não ser suficiente nem pra um curta metragem. Fora do Jogo conta a história de seis
garotas tentando entrar no estádio onde acontece o jogo que classificará o Irã para
a recente Copa do Mundo 2006. No Irã, entre outras regras sociais, as mulheres
são proibidas de assistir jogos de futebol nos estádios.
De forma absolutamente natural, sem forçar a barra da 'mensagem política', Panahi
acompanha de forma ágil e documental (se não me engano, o filme foi rodado
literalmente durante a tal partida de futebol, o que confere o seu incrível realismo)
a trajétória dessas garotas que conseguem furar as catracas de entrada mas são
barradas no caminho para as arquibancadas por um grupo de seguranças militares.
Fora do Jogo é um exemplo de cinema instigante, inteligente, que nunca põe
o discurso acima da ação, nunca segue o caminho mais esperado, que está sempre
dois passos a frente do espectador e, por isso, torna-se empolgante.
Com humor nas discussões entre as garotas e os jovens seguranças (fantásticos atores),
com inocência emanada nas horas decisivas do jogo e momentos de surpreendente
suspense quando um segurança procura nos banheiros do estádio uma garota fugitiva,
Fora do Jogo é um filme completo, sem uma nota fora do lugar, que caminha para
um final tocante e de grande beleza, quando as meninas são levadas pelos seguranças
num furgão, junto com um garoto com fogos de artifício (também proibidos no estádio)
e a cidade em festa pela classificação do Irã. São 90 minutos de puro cinema, o primeiro
filme dessa Mostra em que eu acompanhei a salva de palmas ao final da sessão.
É imperdível. Aliás, que vergonha
que o cinema brasileiro nunca tenha feito nada
em cinema sequer parecido com esse filme iraniano sobre essa nossa chamada
'paixão nacional'...
Visto em 24/10/2006 na 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br
O INQUILINO ![]()
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Le Locataire 1976 Inglaterra/França 2h06min RT 8,9
de Roman Polanski com Polanski, Isabelle Adjani, Melvyn Douglas, Shelley Winters
Em DVD pela Cinemax
OPINIÃO Aposto que Roman Polanski não imaginava que um dia desceria uma espiral
do terror parecida com que seu personagem Trelkovsky sofre em O Inquilino, dirigido
pelo próprio em 1976. Acusado de dois estupros ocorridos há cerca 30 anos,
o polonês
está na Suíça em prisão domiciliar praticamente impossibilitado de se comunicar
com
o mundo. Enquanto é comparado ao demônio por parte da imprensa, seu novo filme
O Escritor Fantasma recebe apoio da crítica e do público por onde passa. A persona
do diretor está cada vez mais intricada para nós que vemos que de fora, e continuará
nesse rumo enquanto houver pressão externa cobrando pelo seu passado. O Inquilino
é exatamente sobre isso, mas no caso de Trelkovsky, a desintegração da personalidade
é gerada por um passado que não pertence a ele.
No caso, o passado é o de Simone Choule, ex-moradora de um apartamento francês.
A jovem acabara de tentar suicídio, pulando de sua janela por razões misteriosas.
Trelkovsky descobre isso ao alugar o apartamento de Choule para o estranho Sr. Zy
(Melvin Douglas), velhinho ameaçador e que preza pelo silêncio. Quando a antiga inquilina
morre no hospital, o polonês consegue o apartamento, eventualmente conhecendo
fatos e pessoas bizarras que fizeram parte da vida de Simone Choul, como sua amiga
Stella (Isabelle Adjani) e seu 'admirador secreto' Georges Badar (Rufus). A paranoia
começa quando os vizinhos o acusam de fazer barulhos constantes durante a noite,
mesmo quando ele não está presente, e um banheiro social que fica de frente para
a janela de Trelkovsky apresenta movimentos que vão além da compreeensão deste.
Tem algo de Kafka, algo de Hitchcock e certo humor negro no filme.
O Inquilino faz parte da 'trilogia involutária dos apartamentos sombrios', iniciada
em Repulsa ao Sexo e seguido de O Bebê de Rosemary. Divide características
com ambos, como personagens
de sanidade mental instável e solitários, frequentes
alucinações, paranoia e conspirações
da vizinhança, tudo filmado com homogênea
elegância e genuína tensão. A opressão de um sociedade desestabilizada sobre
um personagem isolado é tema recorrente em Polanski, e ainda mais forte em O Inquilino.
Provavelmente por ser este um filme de horror psicológico aterrador, com momentos
de gelar a espinha. A cena em que Simone grita no hospital quando Trelkovsky
e Stella vão visitá-la ficará gravada no meu imaginário como tatuagem, e as macabras
cenas do já mencionado banheiro também são difíceis de esquecer, graças também
ao fotógrafo Sven Nykvist. Contribui para o suspense
um incômodo criado pela frequente
sensação de estar sendo observado (ou ouvido) e pela dúvida nunca abertamente revelada
do porquê das tensões entre os vizinhos e Trelkovsky (é por causa dos barulhos?
Por que ele é um polaco na França? Ou é por causa da antiga moradora?), isso
mexe com os nervos do protagonista e com os de quem assiste.
Ao final, O Inquilino submerge de vez no terror psicológico, e perturba ver Polanski
nos derradeiros minutos, menos por sua performance e mais pelo seu figurino drag.
Muitos podem se frustrar com a 'conclusão inconclusiva', culpa da falta de costume.
O Inquilino não é um filme de explicações nem procura uma lógica, está mais para
uma montanha russa cheia de loops. Daqueles filmes para se assitir à noite quando
não há ninguém em casa. Com sorte, Polanski encontrará uma solução menos trágica.
Como curiosidade, o diretor francês Jacques Audiard, do premiado O Profeta, que exibe
semana que vem no Festival Varilux,
fez parte da equipe do filme como assistente de montagem.
DVD do Cinemax inclui filme em seu formato widescreen original e galeria de posters.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
IF... ![]()
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1968 Inglaterra 1h51min RT 9,6
de Lindsay Anderson com Malcolm McDowell, David Wood, Richard Warwick, Christine Noonan
Em DVD pela Lume
OPINIÃO No alegórico If..., do diretor Lindsay Anderson, a protagonista é College House,
uma típica escola britânica para meninos que serve cenário para os personagens.
Como Mick Travis (Malcom McDowell, antes de estourar com Laranja Mecânica) que,
assim como seus colegas, está voltando para as aulas após férias. Com um denso bigode,
reflexo de sua ainda pueril rebeldia, Mick detesta o ambiente escolar. A College House
funciona como uma ditadura, onde a obediência e a disciplina andam sorrateiras pelos
corredores à procura de um infrator. O diretor escolhe alunos Seniores para ajudar
no controle dos alunos Junior, utilizando métodos violentos de repreensão. Mick também
acredita na violência, mas tem uma concepção própria, idealizada sobre o assunto.
O choque entre opressão e rebeldia atinge o estopim quando Mick e seus amigos são
penalizados por beber na escola.
Inspirado em Zero de Conduta de Jean Vigo, If..., que apesar de fazer parte no divisor ano
de 68 e de ter absorvido as influências
da contracultura, foi filmado meses antes do evento
mais significativo do movimento,
as revoltas estudantis em maio daquele ano.
O filme de Anderson capturou o espírito
jovem em voga quase fez um presságio dos atos
rebeldes que aconteceram logo em seguida, e ainda soam controversos se pensarmos
nos famigerados casos de alunos invadindo suas escolas com metralhadoras. Teorias
defendidas à parte, If... é de um apuro técnico primoroso. Anderson trabalha sobre uma
atmosfera repressora, com os imponentes cenários da escola representando não só uma
instituição de ensino de método rígido, mas quase um presídio. Tanto que na única sequência
onde dois personagens saem para a rua, o filme se desprende da narrativa e se desenrola livre
e imprevisível, exibindo a mesma sensação de liberdade dos protagonistas. As tomadas
em preto-e-branco, tão questionadas na época, foram uma escolha técnica resultante
de um defeito de iluminação, e que acabou se tornando um estilo. E o filme ainda evita
trilhas sonoras, utilizando-se apenas de canções de coral de garotos nas cartelas que
dividem a narrativa em capítulos, o que acrescenta na atmosfera alegórica.
If... foi um sucesso surpresa de bilheteria, venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes
e influenciou uma geração, o que serviu como mais uma prova de seu acerto na representação
do zeitgeist de 68, para a surpresa da Paramount, que investiu pesado no fiasco Barbarella
no lugar do filme de Anderson. Trunfo de um filme que sobre transportar o macro para o micro
de forma audaciosa, ressonante e até mesmo fantástica,
especialmente em seu final
de abordagem quase surrealista, cheio de fúria. Um clímax horripilante que encerra o filme
de maneira assustadoramente profética. Na época, muitos protestaram contra a violência
de If..., colocando-a em questão algo incitador. Engraçado como o filme parece ser um
contra-argumento em si mesmo, especialmente por causa de seu intrigante e desafiador título.
A Lume Filmes disponibilizou If... em DVD meses atrás, procure e descubra um dos filmes
mais importantes da new-wave britânica.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
ITALIANO PARA PRINCIPIANTES ![]()
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Italiensk for Begyndere 2000 Dinamarca 1h37min RT 8,8
de Lone Scherfig com Anders W. Berthelsen, Anette Støvelbæk, Peter Gantzler
Em DVD pela Imagem
OPINIÃO Quando o Dogma 95 foi criado pelos dinamarqueses Lars von Trier
e Thomas Vinterberg e vivia seu auge
com filmes como Os Idiotas e Festa de Família,
dos respectivos diretores, o movimento era relevante enquanto cinema rebelde.
Hoje pouco se fala sobre o que aconteceu com o Dogma, e seus criadores parecem
mais preocupados em filmar suas viagens particulares. Felizmente, alguns
diretores interessantes mostraram-se ao mundo junto com Dogma, como Harmony
Korine (Gummo),
o experiente ator francês Jean-Marc Barr (Lovers) e a também
dinamarquesa Lone Scherfig, diretora de Italiano Para Principiantes. Scherfig
também comandou Educação, que foi indicado a 3 Oscar incluindo melhor filme,
e que está em pré-estreia
no Recife essa semana.
Educação é escrito por Nick Hornby, tem um elenco de estrelas, produção caprichada
e, mesmo independente, atingiu uma parcela razoável do público. Não há muito do Dogma
no filme, nada na verdade. Scherfig teria se aproveitado do manifesto para entrar
no mainstream? Ou tudo aconteceu por acaso? É quando Italiano Para Principiantes
é posto em questão. Primeiro filme da diretora e décimo segundo do Dogma, trata-se
de uma comédia romântica (opa... Regra nº8: São inaceitáveis os filmes de gênero)
sobre um grupo de pessoas cheias de problemas familiares e/ou financeiros que
se encontram num curso de italiano promovido pela prefeitura. São personagens
de facil identificação, são de carne e osso. É simpático mas, baixada a poeira do Dogma,
sobra o que não foi com o hype. E não é nada de inovador, original e nem mesmo
tão preso às regras que ajudaram na concepção do projeto.
O estilo
naturalista pregado pelo movimento está lá, mas só porque um filme não
segue um modelo hollywoodiano não significa que ele seja menos comercial.
Sente-se um maniqueísmo por parte do roteiro de Scherfig, a narrativa é sabotada
pela conveniência. Muitas vezes você está à frente do filme, só na expectativa do que já
é esperado acontecer, característica mór da comédia romântica nossa de cada dia.
E ainda tem os personagens dos italianos sexy e de sangue quente, estereótipo
cansado e que não ganha novos contornos aqui.
O filme só não cai na mediocridade
total porque Scherfig não
abusa de sentimentalismos e Italiano Para Principiantes
tem bastante humor e também sua parcela
de sinceridade. Os atores também tiram
de letra nas performances. Mas se existe algo realmente curioso no filme é sua obsessão
com a morte, fator importante na redenção de todos os personagens. Matar um
personagem quando não se precisa mais dele pode até parecer uma solução
fácil
de roteiro, mas no caso
de Italiano Para Principiantes é uma escolha corajosa,
já que não é apenas um deles que abandona o filme no meio. Encantou e ainda deve
encantar boa parte de seus espectadores, mas é inegável que o filme só ganhou
notoriedade devido
às circunstâncias
da realização.
Vale como curiosidade do Dogma 95.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
A PROPOSTA ![]()
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The Proposition 2005 Austrália 1h44min RT 8,7
de John Hillcoat com Guy Pearce, Ray Winstone, Danny Huston, Emily Watson
Em DVD pela Califórnia Filmes
OPINIÃO O músico, cantor e compositor australiano Nick Cave, mais conhecido
como líder da banda The Bad Seeds, tem uma saudável relação com o cinema.
Em 1987 apareceu em Asas do Desejo, de Wim Wenders, tocando algumas
canções com sua banda. No ano seguinte conheceu o então estreante na direção
cinematográfica
John Hillcoat, com quem trabalhou em Ghosts... of the Civil Dead
contribuindo na feitura do roteiro, na composição da trilha sonora e na interpretação.
Logo em seguida participou de Johnny Suede ao lado de Brad Pitt e sob o comando
de Tom DiCillo, e durante toda a década de 90 compôs trilhas para vários curtas
metragens. E antes de fazer uma ponta no pouco visto O Assassinato de Jesse James
Pelo Covarde Robert Ford em 2007, Cave escreveu o roteiro de A Proposta,
um western moderno que, como nas melhores revisões do gênero, subverte esse
estilo tão americano e simultaneamente o traz de volta à vida com brutalidade,
poder e palpável ressonância pós-sessão. Hillcoat dirigiu o filme para o parceiro.
A Proposta do título é o que o Capitão Stanley (Ray Winstone) oferece para
Charlie Burns (Guy Pearce), irmão do meio de uma família fora-da-lei. Para salvar
o caçula Mike (Richard Wilson), Charlie tem que ir em busca do mais velho e perigoso
dos irmãos, Arthur (Danny Huston), que estuprou e assassinou a família Hopkins
com sua gangue. Stanley acredita que a prisão de Arthur e companhia poupará a vida
do mais jovem, mesmo que outros membros
da sociedade queiram a cabeça dos Burn.
Será que Charlie e, principalmente, a comunidade em que eles vivem, estão prontos
para aceitar essa proposta? 'Essa terra será civilizada', diz o Capitão Stanley. Nick Cave
é niilista e impiedoso, mas há certa poesia incrustada nos personagens
quando
se chega ao fim da sanguinolenta redenção. Mais do que um estudo sobre moralidade,
civilização e fraternidade, A Proposta é um filme sobre um estado de espírito.
Assim como na mais nova colaboração Cave/Hillcoat, o ainda em cartaz A Estrada,
A Proposta é um primor em execução técnica. Cuidadosa recriação de época
e caracterização, montagem e mise-en-scène intensas, brilhantes performances
dos atores e fotografia tão bela quanto sufocante em seu Cinemascope. Hillcoat
mostra-se mestre em criar uma ambientação adequada para seus filmes,
e a comunidade
retratada neste não precisa de muito tempo em tela para causar
angústia
pela falta de perspectiva dos locais. O final do século XIX no deserto
australiano estava algo próximo do 'terra de ninguém', onde o preconceito
contra
aborígenes
e a violência descontrolada dominavam (por violência eu digo cabeças
estouradas a tiros, torturas, corpos empalados e por aí vai). Tanto Stanley, quanto
Arthur e Charlie Burns
tem noções particulares de comunidade - um prega o amor
e a família, o outro a civilidade -
, e se no fundo eles desejam a mesma coisa,
o choque de ideias mal articuladas, contrastantes e impostas na base da agressão
impedem um consenso. A proposta de Stanley, por mais cruel que seja, é mais 'pacífica'
e razoável que a execução dos Burn, tão desejada pelo personagem de David Wenham,
tendo em vista as condições. Mas para Cave e seu roteiro, é impossível escapar
da dualidade das coisas. A sequência da ceia de Natal ao final do filme é nada menos
do que perfeita e pontua A Proposta com uma nota desnorteante e que retorna
à memória de tempos em tempos.
Saia com o coração arrasado pelas canções
compostas por Cave e pela sempre ótima Emily Watson, que empresta delicadeza
e amargura à sua Martha, mulher de Stanley. E que Nick Cave faça mais filmes.
Obs.: A Califórnia Filmes lançou o filme em DVD num assassino formato fullscreen (tela cheia)
quando o formato original de A Proposta é Cinemascope.
Recomendo altamente que o leitor
importe ou baixe o filme e o assista como foi feito (em tela larga).
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.co
ALICE ![]()
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Alice ou La Dernière Fugue 1977 França 1h28min
de Claude Chabrol com Sylvia Kristel, Charles Vanel, André Dussolier
Em DVD pela Lume Filmes
OPINIÃO Não é por acaso que a protagonista desse estranho filme de Claude
Chabrol se chama Alice Carol. E também não é à toa que a Lume Filmes resgata
essa injustamente esquecida obra e a lança em DVD na mesma época em que outra
Alice toma os cinemas de assalto. Mas não se engane. A única coisa que esse Alice
francês de 1977 e o novo desperdício de milhões promovido por Tim Burton tem
em comum é a matéria prima que inspirou as interpretações pessoais de cada cineasta.
E se Burton realizou uma fantasia mercenária sem imaginação, não se pode acusar
Chabrol de ter seguido um caminho rendondindo. Alice é um filme verdadeiramente
perdido nas 'maravilhas' do país da moça, tão confuso quanto a própria. Há um claro
respeito à obra de Lewis Carroll que nenhum efeito especial mirabolante pode pagar.
A Alice de Chabrol é interpretada pela sex symbol Sylvia Kristel, a eterna Emmanuelle.
No ótimo monólogo inicial entende-se porque Alice não é feliz com seu marido,
um homem detestável. Decidida, ela se despede dele e segue viagem em seu carro
sem um destino em vista. No caminho, o parabrisa de seu carro quebra e ela é socorrida
por
Henri Vergennes
(Charles Vanel), senhor que oferece o conforto de sua mansão
por uma noite.
Logo Alice percebe que está presa num universo irracional e sombrio
onde ela está sempre sendo vigiada. Não há respostas.
Resta entrar na toca do coelho.
Não é um conto sobre fantasia, realidade ou desejo apenas, mas sobre uma mulher
presa em seus próprios labirintos
e sem a menor idéia de como sair. O fato de Kristel
ser a atriz escolhida para interpretá-la traz algo de interessante para sua Alice.
Em certo momento do filme, uma Kristel nua (sem botox nem silicone!) e muito sensual
está no quarto de hóspedes da mansão de Vergennes se preparando para um banho.
Barulhos estranhos ocorrem no ambiente, um relógio parado começa a funcionar e vozes
denunciam que alguém a observa e brinca com ela, pede para que ela 'não pense'.
Alice tenta cobrir seu corpo, assustada. De repente, o 'tempo' pára novamente.
É uma das melhores sequências do filme e me fala muito sobre a personagem.
Alice acredita que terceiros a observam como um objeto, incluindo seu marido,
e ela é consciente do que sua beleza causa nas pessoas (os homens do filme a lembram
constatemente disso). A figura de Kristel, que era ícone erótico nos 70, faz um
intertexto inteligente com esse traço de Alice.
Se o universo
animalesco - e que toma
conta do miolo do filme, quase que totalmente silencioso e visual -
da mulher
for contextualizado para o lado psicológico, pode-se interpretar tais cenas como
pistas do passado
da personagem e a bizarra cena da comemoração em família
parece guardar chaves que enriquecem o filme como estudo de personagem.
Alice ainda é vencedor em criar uma atmosfera opressora e sublime, a fotografia
do antigo colaborador de Chabrol, Jean
Rabier, é essencial na construção.
Aliás, os efeitos visuais do filme são basicamente realizações de fotógrafo
e montagem, com criativo uso de lentes em certa tomada de suspense. O final
aterrador pode não cair no gosto de muitos e parecer auto explicativo, mas encerra
o filme com
classe. Mais uma vez a Lume Filmes demonstra sua importância
para o mercado audiovisual brasileiro, pois Alice só está disponível em DVD
em sua terra natal, versão Área 2. Nem nos EUA o filme existe em mídia digital.
Mais um motivo para você trocar o espetáculo vazio em 'terceira dimensão' que está
em cartaz por essa pérola escondida de Claude Chabrol. Só temos a agradecer.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.co
GAROTA FANTÁSTICA ![]()
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Whip It 2009 EUA 1h51min RT 8,4
de Drew Barrymore com Ellen Page, Marcia Gay Harden, Juliette Lewis, Kristen Wiig
Em DVD pela Califórnia Filmes
OPINIÃO Quando uma popular estrela de cinema decide dirigir um projeto,
vários narizes se torcem em desaprovação. Quando essa estrela é Drew Barrymore,
que nunca foi grande atriz mas é sempre
uma figura carismática, o preconceito
se atenua. Em 2008 ela chamou suas colegas atrizes, incluindo uma Ellen Page
recém saída de uma indicação ao Oscar (e que abandonou Arraste-me Para O Inferno
para estar aqui), pediu para que Shauna Cross adaptasse seu próprio livro chamado
'Derby Girl', sobre meninas competindo no esporte Roller Derby, juntou uma equipe
e filmou. No ano seguinte, estreou Garota Fantástica (tradução apelativa de Whip It,
ou Chicoteie). Surpresa não foi o filme em si, mas a calorosa recepção da crítica.
Barrymore parece ter seguido os conselhos de seu mentor Steven Spielberg enquanto
transformava essa batida historinha de auto aceitação
em um filme de esportes
e conflitos familiares convincente, otimista, feminista - no melhor sentido
da expressão - e radiante, como a própria
atriz/diretora parece ser em pessoa.
O enredo
é uma tecla já muito batida: Bliss Cavendar (Page) é uma jovem de 17 anos
moradora de Bodeen, Texas, que participa de concursos de beleza para agradar
sua mãe Brooke (Marcia Gay Harden). Não encontra um rumo na sua vida.
Por engano
acaba conhecendo o Roller Derby, perigoso esporte onde apenas mulheres sobre patins
competem em uma pista oval, e decide tentar a novidade. Inclua a melhor amiga Pash
(Alia Shawkat), o novo namoradinho e uma gangue de parceiras e rivais de time.
Pronto, você sabe como isso vai acabar desde os primeiros minutos, mas Barrymore,
consciente dos clichês com que lida, traz um frescor que faz a experiência parecer novidade.
O segredo está nos relacionamentos entre personagens, como a mãe e o pai, interpretado
por Daniel Stern. Apesar do tom cômico e de diversão geral que toma a fita, o casal
jamais apela para a histeria ou exageros ao discutir com Bliss, e quando Brooke
condena as escolhas da filha nós vemos uma mãe preocupada com a saúde desta,
e não um arquétipo simplório que achávamos que ela fosse. As companheiras de time
de Bliss, as Hurl Scouts, são como qualquer time em filmes de esporte, cada uma
com sua particularidade, mas todas com a mesma paixão. Kristen Wiig, como a capitã
Maggie Mayhem, é a mais interessante. E se Barrymore arranca algumas risadas
como Smashley Simpson, a antagonista Iron Maven (Juliette Lewis) é o exemplo
ideal de como funciona o esporte feminino e o espírito do filme: as moças sentam
o cacete uma nas outras, mas há um respeito maior entre elas que está acima
de qualquer regra. Algo também notável é como as mulheres e os homens estão
socialmente nivelados no filme. Elas são as estrelas do show, mas nem por isso
eles resumem-se a meros alívios cômicos ou pares românticos.
Como de costume, Ellen Page engradece o filme e eu nunca a vi melhor. Ellen jamais
se confunde com suas antigas personagens (e há muito o que se comparar com Juno),
talvez por ela nunca ter exibido tantas facetas numa só. Todo o elenco a acompanha.
A trilha sonora não podia ser mais divertida, vai de Ramones, Breeders e Dolly Parton
a Clap Your Hands And Say Yeah e Kings of Leon. Até 'Domingo no Parque' se ouve.
Pena que as sequências de Roller Derby não consigam passar do aceitável, impressão
de que faltou uma pós-produção
mais cuidadosa, menos apressada. A energia de diretora
estreante e o apego ao material devem ter impedido Barrymore de enxugar Garota
Fantástica um pouco mais. Tropeços de uma atriz cujo primeiro trabalho na direção
respeita o espectador mais do que metade dos filmes onde atuou, e sua postura é mais
honesta do que a maioria das pessoas por quem
já foi dirigida. O suficiente pra mim.
Difícil é não terminar com um ligeiro sorriso estampado no rosto.
Obs.: A versão nacional do DVD, além de vir vazia de extras, está em tela cheia.
Indico a importação do DVD/Blue-ray estrangeiro ou mesmo o download do filme,
já que ele foi filmado em bem utilizado e largo CinemaScope.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
INTERVENÇÃO DIVINA ![]()
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Yadon Ilaheyya / Divine Intervention 2002 Palestina 1h32min RT 8,1
de Elia Suleiman com Elia Suleiman, Manal Khader, George Ibrahim, Amer Daher
Em DVD pela Pandora
OPINIÃO Intervenção Divina é puro cinema do primeiro ao último segundo.
Quase não há diálogos, e quando ocorrem estão lá apenas para acrescentar
às inesquecíveis imagens
minunciosamente planejadas por Elia Suleiman.
O cineasta palestino nascido numa Jerusalem dominada
por Israel filmou algo
que lembra um selvagem
devaneio com ares de autobiografia fantástica e um olhar
incomum e audacioso sobre sua terra natal, 'uma crônica de amor e dor' como entrega
o subtítulo.
Em sua base, Intervenção Divina é
um conjunto de esquetes
que
contextualizam a condição político-social dos palestinos
que vivem em Israel
ao mesmo
tempo em que criticam e satirizam a situação, interligados pelo olhar de Suleiman.
O humor é no melhor estilo
Jacques Tati, observando os costumes e as relações
dos conterrâneos do diretor com uma deliciosa ironia. E o filme ainda tem um estilo pop
que a princípio parece paradoxal ao denso silêncio que permeia as sequências,
mas são essenciais. É absurdo e é brilhante.
A estrela do filme é o próprio Suleiman (Um personagem? Ele mesmo? Uma versão?),
que retorna a Jerusalem para acudir seu pai doente. Enquanto isso ele mantém
um caso com uma misteriosa mulher, cujo amor é consumido na fronteira com Ramala
numa bizarra e ardente coreografia de mãos. Soldados
israelenses exibem uma
desumanidade esdrúxula, vizinhos perdem a noção de respeito, a cidade afunda
no cinismo e na ignorância. Suleiman, com sua marcante mecha branca e fisionomia
caricatural e pitoresca,
mas com um traço
de melancolia, apenas assiste, mantendo
a mesma expressão durante todo o filme. Os múltiplos significados das cenas são atingidas
no
efeito
Kuleshov
e nos planos gerais estáticos onde você escolhe pra onde olhar.
E apesar da óbvia tendência pró-Palestina, o diretor não aponta vilões ou mocinhos,
as coisas acontecem por força das circunstâncias. Ou de seus desejos mais malucos.
Em Intervenção Divina tem-se um
Suleiman niilista quanto a uma solução do conflito
palestino. Ele sabe e observa o que acontece, ridiculariza, e 'encerra' a história com
um final tão catártico quanto adequadamente ridículo. Uma bela ninja palestina vinda
dos céus chutando o traseiro de soldados israelenses dançarinos, simples e genial.
Uma grande piada visual sobre um assunto tão explorado e prostituído pela mídia,
refrescante de se ver. O que dizer sobre o balão vermelho com o desenho de Yasser Arafat?
E quando
a mulher cruza a fronteira desfilando ao som de música eletrônica, o que não
faria
feio
numa propaganda de perfume?
Ou ainda a cena em que Suleiman e um israelense,
cada um em seu carro, se encaram parados frente a um semâforo aberto, atrapalhando todo
o trânsito e resumindo todo o conflito em uma única
cena? Cinema arguto, penetrante, e mais
divertido que muito blockbuster. Uma das obras-primas da década passada, assim como
O Que Testa do Tempo, mais recente filme de Suleiman que conclui a trilogia iniciada
em Crônica de Um Desaparecimento, ainda inédito no Brasil. Intervenção Divina
é um filme universal e que pede
para ser visto. Portanto assista o quanto antes.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
CLAMOR DO SEXO ![]()
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Splendor in The Grass 1961 EUA 2h04min RT 8,3
de Elia Kazan com Natalie Wood, Warren Beatty, Pat Hingle, Audrey Christie
Em DVD pela Lume
OPINIÃO Assistir a Clamor do Sexo, um dos clássicos de Elia Kazan que acabou
de ser lançado em DVD pela milagrosa Lume Filmes, em tempos de hedonismo
e banalização da sexualidade causou-me sentimentos mistos. Por um lado fiquei
grato por não ter nascido e crescido num tempo e numa sociedade tão repressora
e moralista como a americana dos anos 20 e 30, onde sexo antes do casamento
era garantia de uma passagem só ida ao inferno na Terra. Por outro, a maturidade
emocional conquistada pela protagonista Deanie Loomis, encarnada por Natalie Wood,
após enfrentar a hipocrisia de seus próximos é algo tão belo quanto raro de se perceber
em pós-adolescentes contemporâneos (inclui-se aí os personagens desesperados
e neuróticos da série American Pie) e, muitas vezes, em adultos já emancipados.
Sendo a sexualidade algo particular e complexa para se generalizar,
a repressão e a super-sexualização são caminhos tão opostos quanto
tortuosos para lidar com o assunto, e acredito que uma consciência sexual
sadia vem naturalmente, se o sexo for tratado da mesma forma.
Infelizmente não é o que acontece com Deanie. Bela, jovem e louca para ativar
sua vida sexual, a moça briga com a própria consciência em ceder ao seu também
jovem e belo namorado Bud Stamper (Warren Beatty, estreando no cinema).
Bud vem de uma família rica e seu pai, um caipira machão e extremamente ambicioso,
quer que ele não perca seu tempo com Deanie e que invista numa carreira acadêmica.
Já a garota, perdida nos seus impulsos sexuais reprimidos, recebe conselhos equivocados
de sua mãe, que crê que não há prazer para mulher no sexo. O casal mantém a castidade
até o limite, enquanto a irmã de Bud, Ginny, afunda na promiscuidade. A consequência
da intervenção social e fincanceira no relacionamento de Bud e Deanie é destruidora,
e amor e altruísmo são peças chave na resolução do romance. O título original do filme
foi retirado de uma obra do poeta romântico inglês William Wordsworth. O esplendor
na relva, o calor da juventude, o momento que se perde para nunca mais.
Clamor do Sexo segue a cartilha do melodrama com todos os prós e contras que vem
com o gênero, e Kazan é excelente em retratar os dilemas do casal, a interferência
das convenções sociais e do conformismo com sua ambições de épico romântico.
Os personagens, incluíndo Ginny Stamper, são vítimas de suas inevitáveis idealizações,
criaturas trágicas. E se existe um inegável moralismo por parte do próprio filme
(basta ver o destinos de Ginny e do pai de Bud, representantes do excesso), há também
certa confrontação às regras. A cena em que uma desestabilizada e agressiva Deanie
discute com sua mãe na banheira e desconta todo seu tesão canalizado em ódio na mulher
é surpreendente, acentuada pela atuação memorável de Natalie Wood. Aliás, o processo
de amadurecimento de Deanie é comovente e sem sentimentalismos, como o poema
de Wordsworth. Clamor do Sexo influenciou e ainda influencia o cinema (tem muitas
coisas em comum com A Última Sessão de Cinema, realizado dez anos depois e já
comentado aqui no Dicas de Cinéfilo, e também com o ainda inédito em Recife Educação),
graças a maneira brutal com que expõe a vida pré-revolução sexual no interior americano.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
SOUTHLAND TALES - O FIM DO MUNDO ![]()
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Southland Tales 2007 EUA 2h25min RT 3,6
de Richard Kelly com Dwayne Johnson, Seann William Scott, Sarah Michelle Gellar
Em DVD pela Universal
OPINIÃO Ainda me pergunto como Richard Kelly conseguiu levantar dinheiro para filmar
seu recente A Caixa. De diretor promissor graças a repercussão de Donnie Darko entre
os cinéfilos, Kelly passou a ser malvisto por causa do muito detestado Southland Tales
-
O Fim do Mundo que, em maio de 2006, foi exibido numa versão inacabada de 160 minutos
no Festival de Cannes, onde a maioria dos que assistiram considerou o filme um desastre
completo e fadado ao fracasso. Mais de um ano depois a produção estreou em alguns cinemas
americanos, com 20 minutos a menos e efeitos finalizados. A profecia feita em Cannes
acabou se realizando e
Southland Tales foi um imenso fracasso financeiro e de crítica.
Confuso, incoerente, pretensioso, intricado e inassistível foram alguns dos adjetivos
que o filme recebeu. E eu concordo plenamente com todos, exceto com o último.
Como o próprio título do filme denuncia, Southland Tales tem várias tramas e subtramas
que se desenrolam paralelamente numa Los Angeles alternativa em 2008, três anos após
um ataque nuclear
destruir parte do estado do Texas. O epicentro seria
Boxer Santaros
(Dwayne 'The Rock' Johnson), famoso ator de filmes de ação que tenta conseguir dinheiro
para financiar a produção de um roteiro seu chamado The Power, ao lado da atriz pornô,
apresentadora e cantora pop Krysta Kapowski (Sarah Michelle Gellar, engraçada), mais
conhecida como Krysta Now. Ela mantém um relacionamento com Boxer e pretende deslanchar
a própria carreira com a ajuda da diretora de filmes eróticos Cindy Pinziki (Nora Dunn) que,
por
sua vez, é uma rebelde que apóia um grupo de neo-marxistas cuja intenção é derrubar
o governo federal e a USIDent, espécie de coorporação que controla
cada passo
dos cidadãos.
Enquanto isso, Roland Taverner (Seann William Scott)
se disfarça de policial para concluir
um plano de extorsão política junto aos neo-marxistas, ajuda Boxer na composição de seu
personagem no filme, e lida com seu duplo Ronald. Esses
e muitos outros contos da terra
do sul
são narrados em capítulos por Pilot Abilene (Justin Timberlake), astro do cinema que lutou
na guerra do Iraque, foi usado como cobaia
e voltou para Los Angeles com o rosto desfigurado.
Southland Tales comenta a política e a sociedade contemporânea através de uma distopia
futurísca com ares de noir, referências cristãs e alguma comicidade, sempre com um olhar
sarcástico. A impressão que causa à primeira vista é a de que Richard Kelly parece tão perdido
quanto nós enquanto vemos o filme. Mas ele não tem
só uma ideia a ser desenvolvida,
e sim dezenas. Observá-las é uma odisseia que, se vista com o devido humor, pode ser divertida.
Southland Tales peleja para funcionar como um todo - sua grande falha - mas ganha força
quando
percebemos a excelência de seus pedaços - seu grande trunfo. Ou Kelly é um gênio
e estamos muito atrás de sua capacidade ou sua pouca experiência e muita ambição acabaram
sendo a pedra no meio do caminho de sua avidez de jovem cineasta talentoso. Saberemos
com o avançar de sua carreira e do efeito do tempo sobre Southland Tales. Não deixa
de ser curioso ver o filme sambar entre momentos puramente verborrágicos e outros fantásticos.
Da cabeça de Kelly saiu um sem número de personagens curiosos, como o Barão Von Westphalen,
cientista interpretado pelo ótimo Wallace Shawn, e sua gangue que inclui a mística Serpentine
(Bai Ling) e Dr. Katarina Klutzer (Zelda Rubinstein, de Poltergeist e recém falecida). Também
temos Miranda Richardson
como
Mama Mae Frost,
comandante da USIDent, esposa do senador
Bob Frost (Holmes Osborne) e mãe de Madeleine
Frost Santaros (Mandy Moore), esposa de Boxer
Santaros.
Já os membros do grupo neo-marxista são interpretados
por vários atores
vindos
da comédia (Dunn, Cheri Oteri,
Jeneane Garofalo, Amy Poehler),
que tentam transpor
o humor estranho do texto de Kelly para o filme.
Vê-los
representando pessoas que não
são necessariamente cômicas é engraçado por si só. Todos esses personagens e outros,
como os
de Lou Taylor Pucci, Jon Lovitz e Christopher Lambert, ganham espaço
no filme,
mesmo que muitas vezes não fique claro sua importância na narrativa. São personagens-signos,
prato cheio para quem quiser interpretá-los de acordo com o Evangelho de Richard Kelly.
Southland Tales é um delírio cinéfilo que foi longe demais, e para o bem. Fica claro que Kelly
se divertiu e fez um filme com aspirações cult (a cena musical com Justin Timberlake ao som
da The Killers, a trilha sonora por Moby, as várias referências a outros filmes,
os quadrinhos lançados
com os primeiros capítulos da saga, o visual fantástico), e ele não facilita a visita de ninguém.
Mas não se pode acusar suas experimentações de não sair do status quo do cinema atual,
fugir
da mediocridade e do formulaico. Southland Tales é filme válido pela atitude excêntrica,
audaciosa e subversiva de Richard Kelly. Ele pode não ter feito o grande sucesso do último
final de semana, mas definitivamente fez
um filme singular e intrigante.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
EU, VOCÊ E TODOS NÓS ![]()
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Me and You and Everyone we Know 2005 EUA 1h31min RT 8,2
de Miranda July com Miranda July, John Hawkes, Miles Thompson
Em DVD pela VideoFilmes
OPINIÃO Fato 1: Seres humanos não sabem lidar com relacionamentos amorosos
Fato 2: Aqueles que acreditam que sabem vão quebrar a cara cedo ou tarde. Todo
dia estreiam no multiplex trocentos
filmes que usam e abusam da palavra amor
(devem ter uns 3 em cartaz agora) para atrair os pobres seres humanos que vivem
tão intrigados com esse sentimento. Quase nenhum desses filmes consegue sair
do lugar-comum, dizer algo que não tenha sido dito antes ou mesmo proporcionar
uma experiência essencialmente romântica. Eu, Você e Todos Nós, que foi exibido
nas sessões de arte há alguns anos atrás, é uma feliz exceção. Primeiro por ignorar
a idéia do cansado amor romântico já tão explorado em filmes do gênero e colocar
os pés no chão nas relações interpessoais
dos vários personagens. Segundo, por ser
um filme terrivelmente, estranhamente, irresistivelmente fofo.
O filme é a estréia da americana Miranda July (que deve ser prima da Zooey Deschanel)
nos longas, e ela também é uma das protagonistas. Eu, Você e Todos Nós acompanha
a vida de vários personagens lidando com suas concepções sobre o amor. Richard
(John Hawkes) é um atendente de loja de sapatos que acabou de ser abandonado
pela esposa, que preferiu ficar com outro. Ele se encanta por
Christine (July), que ganha
a vida como taxista de idosos e é artista nas horas vagas. Christine trabalha para
uma casal de velhinhos cuja mulher está muito doente. Já os filhos de Richard
embarcam em suas próprias viagens amorosas: Peter, o mais velho, descobre
a sexualidade com duas adolescentes
promíscuas, e o caçula Robby
acha sua própria
idéia de amor eterno através de um chat on line. Sylvie, a vizinha
dos irmãos, é uma
menina obcecada em comprar eletrodomésticos e materiais para o lar, já que aguarda
pelo seu marido.
Esses e outros personagens, cada um mais interessante que o outro,
são observados por July sob um olhar inesperado, e por isso mesmo prazeroso.
A estética 'indie', que já virou um template do cinema moderno, pode incomodar
alguns, mas a abordagem agridoce de July e seu jeito incisivo de mexer em certas
feridas e tabus
estão acima das
convenções
de estilo. Eu, Você e Todos Nós
exala sinceridade e isso é que faz o filme ser tão adorável. Miranda ama seus
personagens, deixa isso bem claro e quer que nós os amem também, o que não
é muito difícil. O universo onde o filme se passa remete a uma mistura
de Todd Solondz
com Robert Altman, mas
a capacidade da mulher de criar situações imaginativas,
brilhantes
em sua maioria, as sutis conexões que ocorrem em tela, e sua maneira
peculiar de observação fazem de Eu, Você e Todos Nós uma obra única.
Poucas vezes
no cinema se vê cenas tão espirituosas como a do pássaro no teto do carro ou
a do encontro no banco da praça.
E Miranda
ainda entrega um dos melhores conceitos
de amor
já proferidos no cinema, não importa o gênero, e vindo de uma criança: ))<>((.
Falar o que é esse símbolo, além de ser ousado demais, estraga a rica significação
e a surpresa de assistir ao filme. Mas posso dizer que
esse conjunto de sinais resume
bem o que é Eu, Você
e Todos Nós. Estranho, poético, cru, engraçado, sinistro e,
finalmente, muito romântico. Recomendado.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
STARMAN - O HOMEM DAS ESTRELAS ![]()
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Starman 1984 EUA 1h55min RT 7,8
de John Carpenter com Jeff Bridges, Karen Allen, Charles Martin Smith
Em DVD pela Sony
OPINIÃO The Dude. Jeff Bridges dificilmente será lembrado por outro papel
que não seja o da comédia dos irmãos Coen O Grande Lebowski. Sabe-se lá
explicar a demora pelo reconhecimento da Academia, sendo ele um dos grandes
atores que Hollywood já teve. Mas antes de conquistar o Oscar por Coração Louco
(e bem depois de ser indicado pela primeira vez por A Última Sessão de Cinema,
comentado aqui no Dicas de Cinéfilo), Bridges estrelou Starman, romance sci-fi
dirigido por John Carpenter e feito para estourar durante as férias de verão de 84.
Não foi um grande sucesso, mas rendeu mais uma
indicação ao Oscar para Bridges
e hoje é considerado cult. Está agora disponível em DVD e Blue Ray no Brasil.
Jenny Haden (Karen Allen, recém saída do sucesso de Caçadores da Arca Perdida)
é uma solitária mulher que acabou de perder Scott (Bridges), o homem que amava.
Numa noite, uma nave espacial cai perto de onde ela mora e de lá sai um alienígina
que, através de fotos e de uma mecha de cabelo, toma a forma do falecido Scott.
Depois
de uma tensa apresentação, o 'homem das estrelas' convence Jenny a levá-lo
para o Arizona, onde a nave mãe irá buscá-lo em dois dias antes que ele morra.
A busca pelo conhecimento e a (re)descoberta de sentimentos será inevitável.
Há ainda uma subtrama envolvendo esforços das autoridades em descobrir
onde estão mulher e alienígina disfarçado. Starman não é exatamente original
nem é o melhor momento da carreira de Carpenter (aqui obviamente com aspirações
spielberguianas), mas funciona por dois simples motivos: pela crença da equipe
em estar fazendo um filme de entretimento comovente, ainda que
despretensioso,
e pelo talento da dupla central de atores, especialmente ele.
Os primeiros 15 minutos de Starman são brilhantes, simples assim.
Usando quase
nenhum diálogo, os personagens e a trama são apresentados através apenas
de imagens, num dos melhores exemplos de como se escrever o primeiro ato
de um roteiro, algo tristemente em falta até no mais caro blockbuster moderno.
A cena é tocante, expositiva sem ser explicativa, e logo em seguida torna-se tensa,
curiosa e finalmente solidifica o enredo. Depois disso nós sabemos o que virá
a acontecer e imprevisibilidade não é forte do filme, mas charme e empolgação
sobram pelas bordas. Mesmo em seus momentos de pieguice, Starman se sustenta
graças a verossívil performance de Jeff Bridges, que realiza a tarefa de interpretar
um E.T. inofensivo, indiscreto, boa 'gente' e descuidado que descobre o que há de bom
e ruim em ser um humano com destreza excepcional, sendo mais do que o próprio
roteiro e filme pedem. Ele e Karen Allen colocam o filme um nível acima do escapismo
puro, e mesmo que não passasse disso ainda seria uma boa Sessão da Tarde,
tendo em vista o encanto com que Carpenter filma a história. Também é interessante
perceber como os efeitos e a trilha sonora envelheceram bem: são obviamente
oitentistas e ultrapassados, mas não dá pra imaginar o mesmo filme
sem estes.
Filme onde o espetáculo e a sensibilidade coexistem sem se atrapalharem.
Uma doce surpresa do passado e uma curiosidade para novos fãs do The Dude.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
O SEGUNDO ROSTO ![]()
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Seconds 1966 EUA 1h47min RT 8,7
de John Frakenheimer com Rock Hudson, John Randolph, Salome Jens
Em DVD pela Lume Filmes
OPINIÃO 'Quem são segundos? A resposta é aterrorizante demais para por
em palavras...' O slogan de O Segundo Rosto não poderia ser mais honesto.
A perturbadora história, baseada num livro de David Elly, é narrada através
de imagens tão singulares e carregadas de significado que palavras não podem
definir a experiência de assisti-las. Esse thriller sci-fi de John Frankenheimer
perdeu-se no tempo desde que fracassou nos cinemas em 1966,
mas é redescoberto
no Brasil
pela Lume Filmes, que o lança em DVD neste mês. Livremente inspirado
no mito de Fausto, O Segundo Rosto já começa com os créditos do mestre
Saul Bass, um montage de um rosto distorcido que funciona acertadamente
como a nota inicial do filme. Em seguida conhecemos Arhtur Hamilton (John Randolph),
homem de 50 anos
que está sendo procurado pelo seu amigo Charlie. Mas Charlie
está morto, e Arthur custa a acreditar no que está acontecendo. Charlie
faz uma proposta a Arthur:
pede para que ele visite uma misteriosa companhia
(que curiosamente se esconde atrás de uma fábrica de carne) e peça por
uma vida completamente nova.
E é o que acontece eventualmente.
A companhia forja a morte de Arthur usando um outro corpo e transforma
o homem fisicamente, dando a identidade
de um pintor chamado Tony Wilson,
e o manda para um local distante e paradisíaco para viver a vida desejada
pelos homens de sua idade.
Nessa segunda fase do filme, Tony (agora
interpretado
por Rock Hudson) descobre que mudar de identidade para viver la vida loca
não é o que ele imaginava, e que voltar atrás é uma opção perigosa.
São os riscos
de vender a alma ao diabo. É uma bizarra viagem que Frankenheimer conta num
tom pesado de paranoia com o apoio do gênio da fotografia James Wong Howe,
que fez um trabalho notável com as lentes
e profundidade de campo, fotografando
com uma estranheza ímpar e riqueza visual admirável, quase alucinógena.
Foi a única indicação ao Oscar do filme, o que foi uma injustiça pois Rock Hudson
está em um de seus melhores momentos e também merece créditos.
A primeira reflexão que o filme geralmente provoca é sobre a paranoia da classe
media,
que acredita que 'tinha uma vida antes do casamento e hoje não tem mais',
e visto sob esse prisma o filme soa moralista no final. Mas será que ao escalar o astro
Rock Hudson para o papel de Tony, não estaria Frankeheimer querendo dizer
outra coisa? Hudson foi um galã que passou por um casamento frustrado e que
depois teve sua homossexualidade descoberta pelo grande público.
Uma interessante
analogia entre a vida de Hudson e seu 'segundo rosto' e o filme de Frankenheimer
pode ser feita, já que há alguns traços na história que
fomentam essa idéia,
como a 'fidelidade eterna' entre Arthur e Charlie, a beleza física pós-operatória,
a vida que Arthur/Tony
leva depois do recomeço, a cerimônia do vinho à Baco...
mas que ainda leva
a um final moralista. Até lá, O Segundo Rosto oferece muito
o que pensar e, principalmente, muito o que se ver. Joia rara a ser descoberta.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA ![]()
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The Last Picture Show 1971 EUA 2h06min RT 10,0
de Peter Bogdanovich com Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybill Shepherd
Em DVD pela Sony Pictures
OPINIÃO No início dos anos 70 o cinema americano passou por uma drástica
transição. O produtor deixava de ser o pivô na produção de um filme e os estúdios
começaram a perder o direito ao corte final, enquanto os diretores, inspirados
nas idéias de diretor-autor de Jean-Luc Godard e da nouvelle vague, brigavam
pela visão própria dos filmes que faziam. Nessa leva de diretores
rebeldes
estava o narcisista novaiorquino Peter Bogdanovich. Fã inveterado de cinema,
ele se tornou amigo de alguns de seus ídolos como Orson Welles, Howard Hawks
e John Ford, que inflaram o ego e ajudaram a deslanchar a carreira do então jovem
diretor. Foi quando Bogdanovich adaptou o livro The Last Picture Show com
a ajuda
do autor Larry McMurtry (Laços de Ternura e roteirista de Brokeback
Mountain),
seu segundo filme. Independente do que tenha acontecido com a carreira
do cineasta ou do que se ouve sobre ele, A Última Sessão de Cinema revela
porque Bogdanovich foi um dos diretores mais importantes de sua época.
Na pequena e fictícia cidade texana de Anarene, os anos 50 começam devagar.
Sonny (Timothy Bottoms, de Johnny Vai à Guerra) e Duane (Jeff Bridges) são
amigos que passam o tempo no cinema de Sam The Lion (Ben Johnson)
e na lanchonete do mesmo, entretendo a garçonete Genevieve (Eileen Brennan).
Enquanto isso, a belíssima Jacy Farrow (Cybill Shepherd) começa a descobrir
sua sexualidade e seu poder sobre os homens. A vida dos três personagens avança
com uma insuspeita inocência até que, aos poucos, eles se perdem num emaranhado
de situações e sentimentos que os tiram, inconscientemente ou não, da inércia
da cruel Anarene. Sonny envolve-se com Ruth Popper (Cloris Leachman), mulher
de meia idade e esposa do treinador; Duane revê seus conceitos de amizade
e masculinidade ao se apaixonar por Jacy, que se vê cada vez mais promíscua.
Sua mãe Lois (Ellen Burstin) afunda numa vida indesejada enquanto relembra
seu passado e trai seu marido com Abilene (Clu Gulager). E no cerne dessa cidade
estão o bom e velho cinema Sam The Lion e seu filho doente Billy (Sam Bottoms,
irmão de Timothy).
A Última Sessão de Cinema se virou para o interior literal dos Estados Unidos
com olhos destemidos e incisivos
procurando o interior
de seres
humanos postos
numa condição de isolamento. O que encontrou foi uma sociedade que se
autodestrói às escondidas, que não amadurece e precisa transgredir para sobreviver.
As personalidades trágicas de Anarene são filmadas com curiosidade e estranha
discrição por Bogdanovich, que faz transparecer com naturalidade a melancolia
destes
se sobrepondo às máscaras sociais usadas. Foi uma pancada nos americanos
(muitos torceram o nariz na época) e,
ao mesmo tempo, uma evocativa elegia
ao nostálgico fim de um lugar e de uma era, seja temporral ou cinematográfica,
com uma autenticidade
perturbadora e efeito universal. As cortantes cenas finais
são para ficar guardadas na memória. A Última Sessão de Cinema também
conta com notáveis fotografia e montagem, além das performances brilhantes
de todo o elenco, incluíndo Jeff Bridges,
Ben Johnson
e as adoráveis Ellen Burstin
e Cloris Leachman, ambas em personagens especiais
no filme (os quatro foram
indicados ao Oscar, Johnson e Leachman venceram na categoria de coadjuvantes).
O DVD lançado pela Sony em 2004 faz jus ao filme. Além de apresentar a versão
do diretor com oito minutos a mais de duração, traz um recente documentário
de uma hora chamado The Last Picture Show: A Look Back, contando sobre
o processo de produção do filme
através de depoimentos de Bogdanovich, elenco
e equipe, e outro realizado alguns anos após o lançamento oficial de A Última
Sessão de Cinema explicando porque o filme foi relançado com um minuto a mais,
além dos eventuais trailers e filmografias. E se o material adicional peca pela falta
de legendas, vale o investimento pelo valor do filme em si. Se a palavra 'clássico'
está relacionada a uma seleta lista, Bogdanovich pode se orgulhar por seu filme
fazer parte dela. Enquanto o conceito
de cinema existir, independente de qual for,
A Última Sessão de Cinema será lembrado com doce nostalgia.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
FOME ANIMAL ![]()
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Dead Alive/Braindead 1992 Nova Zelândia 1h39min RT 8,5
de Peter Jackson com Timothy Balme, Diana Peñalver, Elizabeth Moody, Ian Watkin
Em DVD pela WorksDVD
OPINIÃO Em 1987, um pequeno e nojento filme chamado Bad Taste (aqui
conhecido como Trash - Náusea Total) revigorava a cena B apostando no
bom humor e no gore absoluto.
Vinha da Nova Zelândia, foi feito da
maneira
mais caseira
possível com ajuda de amigos e vizinhos e trazia como protagonista
o próprio diretor, Peter Jackson, então com 25 anos de idade. Como o sucesso
absoluto do filme, Jackson conseguiu um orçamento um pouco mais robusto
para realizar seu próximo projeto, chamado Fome Animal, onde ele mais
uma vez transpôs para a tela suas obsessões com sangue, desmembramentos
e criaturas bizarras. Isso tudo bem antes dele atingir o estrelato com a trilogia
dos anéis e o remake do gorila gigante.
Em Fome Animal, uma ratazana infectada com uma doença estranha morde
seres humanos e acaba presa numa jaula de zoológico. O local é frequentado
por Lionel Cosgrove (Timothy Balme, idêntico ao Steve Carrell), um inseguro
rapaz que vive com sua mãe Vera (Elizabeth Moody), megera que controla
a vida do filho para não perdê-lo de vista. Essa relação edipiana é abalada
pela adorável Paquita (Diana Peñalver), neta de macumbeira que acredita
que Lionel é o amor da sua vida. Os dois acabam namorando, mas, num infortúnio,
Vera é mordida pela ratazana doente no zoológico e é infectada. Ela morre e,
inexplicalmente, volta à vida com muita vontade de comer carne humana.
É quando o lado carniceiro do filme atinge níveis altíssimos, numa série
de imagens grotescas e nauseantemente engraçadas.
Fome Animal investe seu humor negro na sátira à sociedade neozelandesa
dos anos 50 e seus costumes, (desaprovação do romance interracial, importância
do status social) com o apoio de hilários personagens que, cada vez que se tranformam
numa criatura canibal, garantem gargalhadas misturadas com ânsias de vômito.
Aliás, Jackson apresenta uma variedade impressionante e inventiva de
maneiras para
se trucidar uma criatura. Cabeças despencam, agulhas
entram em lugares incômodos,
pessoas se partem ao meio, explodem em pús verde, engolem cachorros inteiros
e por aí
vai, culminando num banho de sangue onde nosso herói salva o dia com
com um cortador de grama afiadíssimo em punho. É de fazer você se afastar da TV
pra não terminar ensaguentado. E o melhor, sem perder a humildade nem levando-se
a sério
em hipótese alguma. Com o fracasso de Um Olhar do Paraíso, faço aqui meu
humilde pedido à Peter Jackson: faça como Sam Raimi e retorne às origens.
É bom pra botar o pé no chão novamente e
honrar esse gênero tão malvisto
e malquisto em Hollywood. Quem gosta de 'terrir gore', está sempre faminto por mais.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES ![]()
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An American Werewolf in London EUA 1981 1h37min RT 8,8
de John Landis com David Naughton, Jenny Agutter, Griffin Dunne
Em DVD pela Universal
OPINIÃO A Universal Studios é conhecida como a casa de vários monstros
do cinema e produtora de uma série de filmes baseados neles, como Drácula,
Frankenstein, a Múmia,
o Homem Invisível, o Monstro da Lagoa Negra e um dos
mais famosos, o Lobisomem. Frequentemente estrelados por Boris Karloff, Bela
Lugosi e John Carradine, esses filmes tornaram-se fonte de dinheiro para o estúdio,
que produzia pelo menos um desses filmes por ano. 1941 foi o ano de
O Lobisomem,
protagonizado por Lon Chaney. Nessa crise criativa que vive a nova Hollywood,
surgiu a oportunidade de refazer esse clássico, e este estréia nesse fim de semana
no Brasil com Benício del Toro estrelando. Dica de cinéfilo: esqueça esse remake,
passe na locadora e descubra essa outra versão da história do homem que vira
lobo
produzida pela própria Universal em 81: Um Lobisomem Americano em Londres.
Não há nada de novo na história: dupla de amigos americanos viajam à Londres,
terra da lendária criatura. Lá são atacados pela besta, que é encoberta pelos
moradores locais.
Jack (Griffin Dunne) morre e David (David Naughton) é mordido
pelo bicho. David sofre
de alucinações após o ocorrido, e percebe que algo nele está
mudando, para a preocupação de sua namorada enfermeira Alex (Jenny Agutter)
e do Dr. Hirsch (John Woodvine). Cada vez mais consciente de sua condição graças
às visitas do cadáver de Jack, David vê-se dividido entre seu novo instinto assassino
e o perigo que é para os próximos. John Landis (Os Irmãos Cara-de-Pau) dirige
o thriller num tom que mistura horror e comédia com perfeição. Ciente de que um
homem peludo mordendo gente não é algo para se levar à sério, Um Lobisomem
Americano em Londres jamais tenta ser mais do que é: um filme B enxuto com
um monstro convincente, piadas, sexo, trilha cool e diversão trash.
O ponto alto dessa versão, além da despretensão, é o incrível trabalho de Rick Baker,
também maquiador do novo lobisomem. A sequência da tranformação de David
é algo agoniante e surreal, inacreditável em seus detalhes como as mãos e os pés
que crescem, os pêlos que nascem e o rosto que se projeta para frente. Baker ganhou
um Oscar por seu trabalho nesse filme, nada mais justo.
O remake perde feio nesse
quesito ao utilizar apenas maquiagem digital na hora da transformação, o que tira
credibilidade e verossimilhança. O protagonista
David Naughton também
merece créditos
pela sua atuação 'selvagem', ele se divertiu e nós o acompanhamos. Existe também
uma abrupta cena de acidente que choca pela crueldade e pelo realismo
com que
é mostrada, e o final num cinema pornô é uma joia. Aqui no Dicas de Cinéfilo já falei
sobre dois outros filmes de lobisomem, os ótimos Possuída e Diabel. Um Lobisomem
Americano em Londres se junta ao time dos clássicos modernos sobre a criatura
lupina (que não inclui os Anjos da Noite nem esse novo remake de quinta categoria).
Assista em noite de lua cheia.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
ESTRANHOS PRAZERES ![]()
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Strange Days EUA 1995 2h25min RT 5,9
de Kathryn Bigelow com Ralph Fiennes, Angela Bassett, Juliette Lewis
Em VHS e download
OPINIÃO A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas começa a década
hospedando um embate estilo Davi e Golias no Oscar 2010: de um lado, com 9 indicações,
o blockbuster Avatar, filme de maior bilheteria da história e com efeitos visuais nunca vistos
antes;
do outro, também com 9 indicações, o pequeno e arrasador Guerra ao Terror,
que arrebatou fãs ao oferecer um olhar peculiar sobre a Guerra do Iraque. Como nas
melhores brigas, seus respectivos diretores James Cameron e Kathryn Bigelow já foram
casados. E como nos melhores casamentos, o casal trabalhou junto em contribuições
que os fizeram crescer pessoal, profissional e artisticamente. O filho desse matrimônio
foi Estranhos Prazeres (ainda não lançado em DVD por aqui) que não poderia definir
e mesclar melhor as identidades cinematográficas de seus autores.
Em
Estranhos Prazeres tem-se o choque de um roteiro de boa premissa desenvolvido
na base do lugar-comum e uma direção competente e imaginativa que faz de tudo para
que os chavões do roteiro não pareçam tão repetitivos. Baseado numa história própria,
Cameron, com ajuda do co-roteirista Jay Cocks, pôs no papel ideias que viriam a influenciar
(e muito) sua última e colossal empreitada: numa Los Angeles alternativa, o século XX está
prestes a acabar. Num mundo mergulhado no crime e na violência, Lenny Nero (Ralph Fiennes)
é um ex-policial que trabalha ilegalmente com gravações squid, pequenos discos que contém
memórias, emoções e trechos da vida copiados diretamente do córtex de um ser humano,
e que podem ser revisitadas por outra pessoa, desde que esteja disposta a pagar para viver
a vida de um estranho por certo período de tempo. O próprio Lenny costuma reviver
seu passado com Faith (Juliette Lewis, sexy e descobrindo seus dotes vocais), sua jovem
ex-namorada que agora é uma famosa vocalista de uma banda de rock. A vida de Lenny
sofre uma guinada quando ele recebe um disco anônimo com a gravação de um homem
assassinando uma prostituta amiga de Faith. Logo ele vê-se preso numa teia de intrigas
e assassinatos, e conta com ajuda de sua amiga Macey (Angela Bassett, excelente) e Max
(Tom Sizemore) para
desvendar
o caso e salvar sua vida e a de Faith.
É um thriller
neo-noir sci-fi que só não vira um samba do Na'vi doido graças a mão firme
de Bigelow ao juntar as subtramas com alguma coerência.
São fascinantes as similaridades entre Estranhos Prazeres e Avatar. E não me refiro
apenas a 'cena-gêmea' onde um homem sem pernas redescobre o prazer de correr
ao testar
um disco squid (meu queixo foi ao chão), mas aos conceitos de 'ser o outro' que ambos
os filmes dividem.
Os protagonistas só conseguem ser felizes quando não estão em seu
próprio corpo, e se em Avatar essa idéia é utilizada com extrema pieguice e melodrama,
em Estranhos Prazeres ela tende a melancolia e a triste aceitação de uma realidade
indesejada por parte dos angustiados personagens. Ainda assim, o filme esquece do assunto
quando decide focalizar na investigação do assassino, deixando a impressão de que
as gravações squid são apenas muletas narrativas
para que o crime e a resolução deste
se desenrolem.
Com todos os problemas de roteiro, Estranhos Prazeres tem saldo
positivo
por ainda ser um thriller de ranger os dentes. A ágil e movimentada câmera
de Bigelow fazem as
2h25min de duração parecem bem menos
do que são. As incríveis
cenas das gravações squid, filmadas com câmeras especiais para que a sensação de ponto
de vista fosse a mais real possível, são brilhantemente coreografadas por Bigelow, assim
como as pontuais sequências de ação e pancadaria. Visualmente o filme é puro anos 90
(hoje está mais para retrô futurista), o que é bastante curioso tendo em vista que
as filmagens ocorreram apenas cinco anos antes
do tempo diegético. Estranhos Prazeres
sastifaz como entretenimento e como um olhar bizarro num futuro 'anos 2000' que não
é tão passado assim. Quanto ao duelo dos ex, direção se sobrepõe ao roteiro, ponto
pra Bigelow. No dia 7 de março veremos se o pussy power vai desbancar o rei do mundo...
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
DESONRA ![]()
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Disgrace Autrália/África do Sul 2008 1h59min RT 8,4
de Steve Jacobs com John Malkovich, Jessica Haines, Eriq Ebouaney
Em DVD pela Flashstar
OPINIÃO O apartheid, época terrivelmente desumana e racista na história da África
do Sul, foi um tema recorrente nos filmes do ano passado. Cada um a sua maneira,
Distrito 9, Invictus e o menos popular Desonra analisaram as feridas causadas
pelas deturpadas leis segregadoras na sociedade sulafricana. Distrito 9 usa
o gênero sci-fi para fazer uma alegoria documental sobre alienígenas presos
em Joanesburgo com eficiência e Invictus oferece um prisma positivista ao mostrar
Nelson Mandela supostamente unindo a nação através do esporte. Desonra também
é forte em alegoria, mas é praticamente um anti-Invictus: uma cruel história onde
seres humanos
miseráveis buscam redenção frente a desgraça, narrada com uma
veracidade perturbadora e longe de entregar resuloções baratas a problemas tão
profundos. Como de costume, poucos viram o filme ou sequer ouviram falar dele,
e sendo um filme tão pequeno em custos, sem efeitos visuais ou star power,
foi lançado diretamente nas locadoras do Brasil nesse mês.
Em Desonra conhecemos David Lurie (John Malkovich), professor universitário que
costuma passar um tempo com prostitutas. Ele se interessa por uma de suas alunas
e praticamente a força a sair com ele, drogando a garota e transando com ela quando
esta se encontra desmaiada. O caso segue até que a aluna decide revelar às autoridades
da universidade o que está ocorrendo, causando a demissão do niilista David. Ele, por
sua vez, muda-se para Eastern Cape para morar com Lucy, sua filha lésbica e recém
abandonada pela
esposa. Alguns dias depois, três rapazes negros invadem a casa deles,
estupram
Lucy, roubam e queimam parte do rosto de David. Lucy prefere não denunciar
o crime alegando que na cultura sulafricana é normal estuprar, pondo David em situação
crítica com sua filha, com o lugar e com sua própria masculinidade e humanidade.
O poder das imagens que se assiste não é mérito apenas do livro no qual foi inspirado
(Disgrace, do vencedor do prêmio Nobel J. M. Coetzee), mas da honesta e elegante
direção do australiano Steve Jacobs e do roteiro intrigante de Anna Maria Monticelli.
Desonra não apela para emoções fáceis e não eufemisa a história, o que pode causar
um saudável desconforto em quem assiste. Desconforto necessário para se compreender
o espírito pós-apartheid que impera no lugar. Além disso, David Lurie é um homem
destestável logo de início, e Malkovich é certeiro na performance de um personagem
tão cheio de camadas, assim como a estreante Jessica Haines. Não será um problema
se você souber admirar as brilhantes sequências do crime e do perdão à família da
aluna, apenas para citar exemplos. O gosto amargo na boca é forte , especialmente
no final que, ainda que difícil de aceitar, é relativamnete esperançoso e compreensível.
Desonra perturba pelas suas imagens, e ainda mais por não esconder o sentimento violento
nascido do choque político na África do Sul. Filme arrasador que merece ser descoberto.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
MINHA ADORÁVEL LAVANDERIA ![]()
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My Beautiful Laundrette Inglaterra 1985 1h37min RT 10,0
de Stephen Frears com Gordon Warnecke, Daniel Day-Lewis, Saeed Jaffrey
Em DVD pela Platina
OPINIÃO Durante o governo da infame Primeira-ministra Margaret Thatcher
na Inglaterra dos anos 80, muitos estrangeiros partiram para o país em busca
das promessas de riqueza. Em Londres, a família paquistã Hussein estabeleceu
uma vida estável liderada por Nasser (Saeed Jaffrey), mantendo pequenos negócios
e algumas atividades ilegais, sem medir esforços ou escrúpulos para conseguir dinheiro.
Nasser contrata seu sobrinho Omar (Gordon Warnecke) para trabalhar lavando carros,
a fim de ajudar seu irmão alcoólico Ali. A mãe de Omar suicidou-se e Ali vive na miséria
por causa de seus ideais socialistas, que vão de encontro ao Thatcherismo.
Omar é um jovem e ambicioso rapaz, que logo pede para o tio para gerenciar
um de seus negócios, uma quase falida lavanderia. Nasser gosta da idéia e dá permissão
para seu sobrinho, já mirando num casamento entre ele Tania Hussein (Rita Wolf).
O que Nasser não sabe é do relacionamento especial que existe entre Omar
e Johnny (Daniel Day-Lewis), garoto que costumava andar com um grupo de jovens
punks brancos e que ajuda Omar a reerguer a lavanderia.
Minha Adorável Lavanderia é ponto alto na carreira do inglês Stephen Frears.
Extremamente atento ao tempo e à época em que vivia, ele confeccionou, em parceria
com o roteirista Hanif Kureishi (Vênus, Recomeçar), uma crônica autêntica e detalhada
da situação econômica e social da Londres de Thatcher, destrinchando as tensões raciais,
o ódio aos imigrantes asiáticos e um romance gay sem apelar pra propaganda
nem levantar bandeiras.
É uma descrição de um trecho da história britânica fascinante
por não ser 100% fiel ao realismo e nem dar uma pretensiosa aula ao espectador,
que é capaz de entender e se indentificar com ambiente e personagens mesmo sem
ter vivido naquele lugar naquela época.
Universal, atemporal e ao mesmo tempo
tão particular.
É curioso como Minha Adorável Lavanderia vive e respira anos 80 - dos cabelos
e das roupas aos neons e à trilha sonora - mas jamais soa velho, preso àquela década.
A cultura oitentista choca-se com a então moderna câmera de Frears, que faz um
cinema quase mágico, fazendo um paradoxo que deu sobrevivência ao filme.
Também interessante é o olhar do diretor inglês sobre o casal homossexual.
Praticamente não há uma trama quanto ao relacionamento de Omar e Johnny,
eles simplesmente namoram e trabalham juntos em prol da lavanderia. Nunca
se questionam quanto à sair do armário e nenhum dos outros personagens demonstra
grande
interesse na relação dos dois. O romance é coadjuvante na narrativa, mas
é protagonista no significado da história e em poder imagético, amor belamente
filmado.
Também é extraordinário o elenco, especialmente o sumido Warnecke e Day-Lewis,
em início de carreira e já se mostrando imensamente maduro. Filme essencial,
independente de sua visão política, raça, orientação sexual ou local onde mora.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
LUNAR ![]()
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Moon Inglaterra 2009 1h37min RT 8,9
de Duncan Jones com Sam Rockwell, Dominique McElligot, Kevin Spacey
Em DVD pela Sony
OPINIÃO O ano passado foi curioso quanto a filmes de ficção científica, ou sci-fi.
2009 viu o retorno de Star Trek surpreender até os trekkies mais xiitas e conquistar
público, crítica e prêmios; Distrito 9, que pegou os cinemas de supetão com um enredo
intrigante e efeitos que vão além de seu relativo baixo orçamento; e o filme-evento
Avatar, bem mais interessante como avanço tecnológico que como cinema.
Mas, abaixo do circuito mainstream, o indie britânico Lunar agradou cinéfilos
sedentos por um cinema mais interessado no personagem que no espetáculo.
Não que Lunar não tenha uma queda pelo fantástico. Algumas imagens construídas
digitalmente são de grandiosa beleza plástica, assim como são a maioria das tomadas
que se passam no ambiente externo da Lua, impressiona o que foi feito
com tão poucos
recursos. Felizmente, o filme não se deixa encantar por seus méritos técnicos,
focando no dilema do protagonista Sam Bell. Personificado com entusiasmo pelo
excelente Sam Rockwell (Os Vigaristas, Frost/Nixon), Sam é um astronauta que está
prestes a terminar seu contrato de três anos na estação da empresa Lunar. Logo
no começo do filme aprendemos que a Lua é abundante
do gás hélio-3, e que tal
elemento é um combustível limpo e em demanda na Terra, onde o gás é raro.
O trabalho de Sam é periodicamente colher e enviar o hélio-3 para a Terra. Como
a comunicação com seu planeta natal é complicada e escassa, o único relacionameto
que Sam cultiva é com o robô ajudante GERTY (voz de Kevin Spacey). Faltando apenas
duas semanas para seu contrato acabar, Sam sofre um acidente na colheitadeira
e é resgatado pelo robô. Crente que está sofrendo de alucinações, ele volta
ao local do acidente
e faz uma surpreendente descoberta que coloca em jogo sua identidade e sanidade.
Há ecos óbvios de 2001 - Uma Odisséia no Espaço e várias referências a outros filmes
de ficção científica, mas o que faz de Lunar um exemplar
proeminente no gênero
são as questões morais e existenciais que se colocam. Não é 'original' tampouco
revolucionário, mas providencia uma inteligência que faz falta no mainstream.
Duncan Jones exibe ambição em sua estreia atrás da câmeras, e merece créditos
por isso, mas preciso confessar que às vezes a
narrativa parece emperrar, dando
a impressão de se estar assistindo a um simples exercício de estilo. Nada que afunde
o filme, mas manter a tensão é essencial num filme desse tipo. Sorte de Jones
ter Rockwell dominando a tela, ele coloca Lunar no bolso e dá vida ao filme.
A trilha sonora de Clint Mansell também é mais um memorável trabalho do compositor.
Para fãs do gênero é um presente. O DVD vem com making of, comentários
e material especial sobre o filme.
Curiosidade: O diretor Duncan Jones é filho de David Bowie. Qualquer
referência a Space Oddity não é mera coincidência...
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
O SEGURANÇA FORA DE CONTROLE ![]()
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Observe and Report EUA 2009 1h50min RT 5,0
de Jody Hill com Seth Rogen, Anna Faris, Michael Peña, Ray Liotta
Em DVD pela Warner
OPINIÃO Uma das comédias mais engraçadas de 2009, senão a melhor comédia,
não passou nos cinemas.
Lançado em abril nos EUA, Observe and Report dividiu
a crítica e foi rejeitado pelo público, acusado de
ser um filme perverso, hediondo,
vulgar, obsceno, subversivo, deprimente e com um humor negro demais.
E eles estavam certos. Fazer o quê se os yankees são tão castos e politicamente
corretos? O Segurança Fora de Controle (obrigado por mais uma tradução tosca,
Warner Bros. Brasil) é tão sujo, demente, pesado e brutal que é impossível
conter o choque à primeira vista. E também é impossível conter as gargalhadas.
Ronnie Banhardt
(Rogen) é um segurança bipolar que trabalha num movimentado
shopping. No local ocorre uma investigação de ataques
cometidos por um tarado
que se mostra para mulheres indefesas no estacionamento, comandado pelo detetive
Harrison (Liotta). Quando Brandi (Faris), garota da sessão de perfumaria por quem
Ronnie é apaixonado, é atacada pelo tarado, o jovem segurança se une aos seus
parceiros Dennis (Peña), Charles (Jesse Plemons), John e Matt (John e Matt Yuan)
para procurar o criminoso
e se vingar. Mas o temperamento e os métodos de Ronnie
são bem peculiares. Adicione piadas racistas, sexistas, muita violência, drogas, nudez,
diálogos ácidos e personalidades destetáveis para ter uma idéia
do quão cruel o filme é.
O diretor Jody Hill (do inédito The Foot Fist Way), com suas influências Tarantinescas,
abandona qualquer eufemismo e pisa na jaca, para o horror
dos puritanos e para
a diversão dos seres humanos que sabem diferenciar
cinema de realidade.
Observe and Report funciona como uma assustadora alegoria americana,
sob a ótica de Jody Hill. Ronnie
é o típico americano médio, gordo, alienado e com
problemas familiares. Ele não é gostável, é grosso, mal-educado e não tem modos
nem para se relacionar com a gentil atendente da cafeteria, mas lá no fundo
nutre o desejo de ser
admirado por ser um herói, mesmo sem perceber que sua
definição de heroísmo seja um tanto quanto deturpada. Ronnie vive em seu mundinho
fechado e, quando não entende ou não sabe o que fazer, recorre à violência.
O shopping é síntese perfeita da nação norte-americana (e, por consequência,
dos países de cultura americanizada) e Ronnie caracteriza o homem que cresceu
nesse lugar. O fato de Ronnie ter um pé na realidade talvez seja o que mais amedronta
no filme, e isso é desagradável de se constatar. Observe and Report ainda tem o melhor
desempenho da carreira de Seth Rogen, que nunca caiu tão bem num papel,
e da sempre hilária Anna Faris. A cena em que seus personagens tem um encontro
está em algum lugar entre o muito nojeto e o extremamente cômico. Destaque também
para Michael Penã como o estereotipado Dennis, também muito engraçado, e à trilha sonora
rock'n'roll. O DVD vem no formato original widescreen e com erros de gravação nos Extras.
Obs.: Quentin Tarantino elegeu Observe and Report um dos melhores filmes de 2009.
Precisa de mais algum motivo para ir agora à locadora?
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
ARQUIVO 2011
ARQUIVO 2009
ARQUIVO 2008