

Kinemeite de Julho
Kinemeião de Julho



ANO DEZ Edição 452
Anticristo, Verdade, Estupidez e Fassbinder
> Todas as atenções cinéfilas da semana estão voltadas para Anticristo,
o novo filme de Lars von Trier, lançado com atraso na praça recifense.
Curiosamente, o filme estreia aqui na igreja do circuito alternativo,
o Cinema da Fundação, e também no templo do consumo fast-food,
o multiplex do Shopping Center Recife.
Será interessante observar as
desnorteadas reações de plateias tão distintas para esse filme que, acima
de tudo, é obra de horror saudavelmente agressivo,
polêmico, malcriado.
Assista Anticristo, opine, envie comentário para fernando@kinemail.com.br
Nos multiplexes, a estreia da semana é a comédia romântica A Verdade
Nua e Crua, com Katherine Heigl e Gerard Butler. Sessões extras
dos multiplexes exibem Bem-vindo e A Vida Secreta das Abelhas.
Na Fundaj, sessão especial para A Era das Estupidez e sessão Cineclube
Dissenso imperdível para Precauções Diante de uma Puta Santa,
raro filme de 1971, do transgressor alemão Rainer Werner Fassbinder,
que realizou 40 filmes até morrer, em 1982, com apenas 36 anos.
No Apolo e Parque, novas chances para conferir três fitas recomendadas
pelo Kinemail: A Bela Junie,
As Testemunhas e Caramelo. Agende-se!
DICAS DE CINÉFILO Confira Possuída,
filme de lobisomem
dos anos 90, em DVD comentado por Filipe Marcena LEIA
AQUI
LEITOR VIP Ganhe convites para ver Anticristo na Fundaj AQUI


![]()


UM HOMEM SÉRIO
EUA | Joel & Ethan Coen | 2009

ANTICRISTO
Antichrist Dinamarca/França 2009 1h49min RT 5,5
de Lars von Trier com Charlotte Gainsbourg, Willen Dafoe
Por Fernando Vasconcelos ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
OPINIÃO Antes de mais nada, preciso dizer que nunca achei o cinema de Lars von Trier
grande coisa. Ele cometeu uma obra-prima há mais de dez anos atrás, Ondas do Destino (1996)
e, desde então, é um esperto diretor que articula um cinema de efeito, soando tão pessoal
quanto artificial. Acho Dançando no Escuro (Palma de Ouro em Cannes) uma chatice sem fim.
Dogville eu respeito como um projeto bem sucedido e vigoroso, mas acho muito didático.
E o seu filme dogma-style Os Idiotas funcionou bem na época, mas não sei se acharia
a mesma coisa revendo hoje.
O que eu não posso negar é que sua obra é única, sem
igual. Anticristo, apesar da polêmica e ódio de alguns críticos, só confirma a regra.
Mais do que nunca, vemos aqui um diretor que sabe o poder que as imagens e os artifícios
do cinema podem provocar no espectador, especialmente no espectador sedado pela
produção audiovisual média medíocre e derivativa que domina o cinema atualmente.
Vejamos: Anticristo faz uso de preto-e-branco, câmera lenta, efeitos visuais, uso
magistral do som, formato tela larga e até mesmo dublês de corpo para cenas de sexo
gráfico. Mais CINEMA que isso, impossível. No mesmo ano que um filme inteligentíssimo
de gênero (terror ou horror), Arraste-me para o Inferno, foi meio que incompreendido
pelas plateias modernas, pela sua insana mistura de terror, comédia e cinefilia, é hora
do espectador se preparar para um verdadeiro filme de horror, cujo impacto visual
só foi visto antes em poucas fitas, como O Império dos Sentidos ou Irreversível. Até para
aqueles que, como eu, já tinham lido bastante sobre detalhes do que veria nas telas,
Anticristo causa um incômodo assustador e eu fico imaginando como irão reagir
tanto os espectadores letrados que verão o filme no Cinema da Fundação
quanto os contentes consumidores de séries multipléxicas como Jogos Mortais
e Halloween, com os seus
habituais baldes de pipoca e coca-cola. Tô pagando pra ver.
Vamos lá: a historinha começa com Ele (ou Adão, Willen Dafoe que, ironia das
ironias, também já foi o Cristo de Scorsese) e Ela (ou Eva, Charlotte Gainsbourg
numa entrega visceral ao personagem que
rendeu o prêmio de melhor atriz em Cannes,
apesar do repúdio dos jurados pelo filme), transando no chuveiro, em imagens tão belas
quanto clichê, cinicamente similares ao mais manjado anúncio publicitário chique.
Enquanto gozam divinamente, o bebê do casal escapa do berço e, encantado pela neve,
pula da janela para a morte. Ela entra em depressão, pela culpa inconsolável. Ele,
terapeuta (explicando seus métodos num 'terapeutês' raso que só pode ser cinismo
de von Trier), propõe curá-la, enfrentando seus medos mais profundos, que Ela
diz ser a floresta, o Éden. O casal muda-se para uma cabana no meio da floresta
(referência direta ao Evil Dead de Sam Raimi) e, dividindo o filme em partes intituladas
Luto, Dor e Desespero, fica claro que o que vem pela frente não será nada bacana...
A ideia de que a natureza humana é maligna reflete-se na natureza selvagem,
Ela anuncia:
'A Natureza é a igreja de Satanás!', um lobo 'fala': 'O Caos reina!'.
Até aqui, os simbolismos psicanalíticos e bíblicos simplórios podem soar sedutores
para as plateias elegantes de 'filmes de arte', mas eis que von Trier enterra o pé
no acelerador e, mesmo no nível do simbolismo, Anticristo desce sem pudores para
o terror mais demencial, (porno)gráfico
e terrivelmente desagradável. É um diretor
alegremente cuspindo na cara de todo tipo de espectador (críticos de cinema inclusos)
e, ohmyholygod!, como eu gostei disso: é essa parte do filme que realmente funciona!
Para os que consideram o cinema de Lars von Trier misógino (vide o sofrimento pelo qual
já passaram os seus personagens para Emily Watson, Bjork e Nicole Kidman), você precisa
ver ao que Charlotte Gainsbourg é submetida nesse aqui... Para os que querem entender
o que o diretor quis dizer com esse filme, teve até quem comentou que a narrativa
é 'a Biblia ao contrário', começando com a morte do inocente 'crucificado' e terminando
com Adão e Eva no Éden. Enigmática cena final remete à chegada/volta da Humanidade
ao Paraíso, na imagem de mulheres sem rosto (não nuas, mas vestidas) mas também
parecem uma releitura do final do clássico B A Noite dos Mortos-Vivos. Lars von Trier
nos créditos finais, dedica o filme ao cineasta russo Andrei Tarkovski...
Não faltará
espaço para elocubrações cinéfilas
mas o que eu sei, meu caro, é que você nunca
mais esquecerá umas duas ou três imagens do mais radical terror gráfico. E certamente
terá seus piores pesadelos com elas. Vá e Veja. Cinema extremo é isso aí!
Visto em 16/09 como convidado do Cinema da Fundaj
Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br
Por Filipe Marcena ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
OPINIÃO Anticristo. Todo aquele buzz em cima da famigerada sessão em Cannes.
Gente desmaiando, passando mal. Versão editada nos Estados Unidos. Ódio nas coletivas.
Mas mesmo antes disso tudo, quando o filme ainda era apenas um roteiro, o que realmente
não saía da minha cabeça era a seguinte pergunta: o que o demente do Lars von Trier
vai aprontar mexendo no gênero do terror? Pouco mais de um ano depois e minha
resposta estava lá. E eu, incrédulo, mal conseguia me controlar na cadeira.
Von Trier usa todo tipo de artifício para fazer seu estômago se contorcer, te fazer sofrer
e se arrepender de ter entrado naquela sessão. Trilha sonora de uma atmosfera assustadora,
fotografia fria e sufocante, Ele (um sofrido Willem Dafoe), Ela (uma perturbada Charlotte
Gainsbourg), o Éden, as estranhas forças da natureza e terror genital explícito como você
certamente nunca viu. Às vezes bobo, às vezes auto-explicativo, quase sempre doentio e brilhante.
É difícil de digerir. Não faço ideia do que o dinamarquês quis com esse filme, mas torço para
que outras cabeças como a de von Trier realizem mais filmes provocantes como Anticristo.
Visto em 16/09 como convidado do Cinema da Fundaj
Mande sua opinião para filipeap1988@hotmail.com
A VERDADE NUA E CRUA
The Ugly Truth EUA 2009 1h35min RT 1,5
de Robert Luketic com Katherine Heigl, Gerard Butler, Eric Winter
Por Fernando Vasconcelos ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
OPINIÃO Saída da série de TV Grey's Anatomy para o mercado cinematográfico com
Ligeiramente Grávidos, Katherine Heigl desce ladeira abaixo em apenas dois filmes,
o nem tão horrível Vestida Para Casar e esse definitivamente horrível A Verdade
Nua e Crua, que concorre com Noivas em Guerra pelo título de pior comédia romântica
do ano, ambos bastante próximos do formato 'comédia romântica Globo Filmes'. Medo...
A fórmula cansada mostra sempre uma mulher meio neurótica (aqui também algo
retardada) e um galã sexy grosseirão (Gerard 'This is Sparta!' Butler) que ao final descobrirão,
sabe-se lá por quê, que foram feitos um para o outro. Disfarçado com a outra fórmula, a do
'filme para rapazes', A Verdade Nua e Crua coloca na boca do casal palavrões e baixarias
sexuais, mas não consegue esconder que é a sua comédia careta e moralista de sempre,
onde deve-se rir de gritos histéricos quando se vê alguém nu (vide A Proposta, que
chega a ser bom diante desse aqui). Curtinho na duração, a primeira hora solta
uma piada atrás da outra, quase todas sem graça. No terço final, a coisa constrange,
deixando de lado a comédia e tentando fazer romance, aí é que não tem mais graça
mesmo. O mais incrível dessa comédia que trata a protagonista como uma perfeita
idiota é que o roteiro foi escrito por TRÊS mulheres (!!): Nicole Eastman, Karen McCullah Lutz
e Kirsten Smith, a partir de um argumento 'original' de uma delas. Em resumo, as mulheres
do filme lamentam o quanto suas vaginas são pouco usadas e sonham com um homem
(ou um pênis?) para preenchê-las (não seus corações, suas vaginas mesmo!). Eu poderia
jurar que uma ideia dessas só sairia da cabeça de um homem, dos mais idiotas.
Visto em 16/09 como convidado da UCI Cinemas | Sony Pictures
Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br
Por Filipe Marcena ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
OPINIÃO O cúmulo do estereótipo fácil: mulheres são românticas e carolas, homens
são cafajestes e safados. O horroroso A Verdade Nua Crua se baseia nessa batida
e imbecil teoria pra fazer comédia. Imbecil como seus personagens, interpretados
pelas estrelas do momento Gerard Butler e Katherine Heigl. Sem graça, sem charme
e tolo até dizer chega, A Verdade Nua Crua não consegue nem sustentar sua teoria,
quanto mais sua premissa, e logo vira romance mela-cueca. Pior de tudo é que esse
lixo vai fazer o maior sucesso com as tiazinhas solteironas, tiozinhos encalhados
e casais abestalhados, que gastarão 32 reais (mais uns 20 de pipoca e refrigerante)
pra levar duas horas de suas vidas rindo como hienas, assistindo a isso.
Visto em 16/09 como convidado da UCI Cinemas | Sony Pictures
Mande sua opinião para filipeap1988@hotmail.com
A ERA DA ESTUPIDEZ ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
The Age of Stupid 2009 1h40min RT 8,3
de Franny Armstrong com Pete Postlethwaite
> O ator Pete Postlethwaite interpreta um velho sobrevivente no devastado
mundo de 2055. Ao analisar cenas das muitas tragédias ambientais ocorridas
no início do século 21, ele se pergunta por que os seres humanos não se salvaram
quando ainda tinham a chance. O filme mostra a que ponto chegou a destruição
ambiental no mundo e alerta para a responsabilidade de cada indivíduo em impedir
a anunciada catástrofe global, misturando documentário e ficção. Esta sessão
única de A Era da Estupidez faz parte de um projeto lançado mundialmente
em 40 países, alertando sobre a urgência da questão do aquecimento global.
Na trilha sonora, música de Thom Yorke, do Radiohead.
Leia mais sobre o projeto em www.ageofstupid.net
Visto em 22/09 como convidado do Cinema da Fundaj
Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br
PRECAUÇÕES DIANTE DE UMA PUTA SANTA ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
Warnung Vor Einer Beiligen Nutte Alemanha 1971 1h43min RT 8,5
de Rainer Werner Fassbinder com Lou Castel, Eddie Constantine, Hanna Schygulla
CINECLUBE DISSENSO
> Expoente do Novo Cinema Alemão, Rainer Werner Fassbinder dirigiu mais
de 40 filmes em 17 anos de intensa atividade, sendo apontado como um dos
mais controversos e criativos artistas alemães. Morreu de overdose aos 36 anos
num quarto de hotel, em 1982, logo após realizar seu último filme, Querelle.
Ficou conhecido por filmes como As Lágrimas Amargas de Petra von Kant,
O Casamento de Maria Braun, Lola, Berlim Alexanderplatz e Lili Marlene.
O pouco conhecido Precauções Diante de uma Puta Santa foi realizado em 1971.
Filme retrata uma equipe de filmagem isolada em um hotel na costa da Espanha
que, enquanto espera a conclusão dos trabalhos, se depara com problemas técnicos
e financeiros, enquanto desenvolve relações marcadas pela disputa pelo poder,
paixão, desespero e solidão. Após a sessão gratuita, debate aberto ao público.
_____________________________________________________________________________________________
Crônicas cinéfilas, opinião, dicas etc
Up e Hangover
Fiz uma sessão dupla no cinema: Assisti Up – Altas Aventuras
e Se Beber, Não Case! no mesmo dia! Mais uma vez a Pixar acerta a mão
com esse Up – Altas Aventuras. O filme é cativante e novamente acerta
em cheio ao tentar agradar o público adulto. A animação é impressionante
do ponto de vista técnico, muito bem feito mesmo, o que é ainda mais
surpreedente quando se considera que os personagens são visualmente
caricatos e, ao mesmo tempo, verossímeis! A dublagem de Chico Anysio
caiu como uma luva. Muito divertido, e tocante também.
Sobre Se Beber, Não Case!, duas palavras pra começar: muito escroto.
Sem cair no mau gosto, o filme deixa pra trás a barreira do politicamente correto
para transformar um cliché (despedida de solteiro em Las Vegas) num monte
de situações absurdas e hilariantes. Gostei do equilíbrio entre os personagens
e da boa participação de Heather Graham (Boogie Nights veio à memória).
A trilha sonora colabora muito para o espírito do filme. Pra completar o pacote,
um final bacana: sem lições de moral, sem virar xarope e mantendo a gaiatice.
Heber Costa | hocs_x@terra.com.br
A Órfã
A Órfã é uma grata suspresa! Sim, porque julgando pela duração e imaginando
ser o sobrenatural o vilão maior do filme, já me dava arrepios. Mas, ao contrário,
me diverti vendo esse thriller. Elenco ótimo, as crianças então... Só o pai que
pareceu-me deslocado, chapadão. E afora aqueles clichês, você até pode brincar
de 'adivinha-quem-vai-aparecer-em-segundo-plano-no-espelho?', os sons,
o armário, a tempestade, a falta de luz, alguém passando na frente da câmera
e etc. está tudo lá! O filme tem seus momentos, como a cena inicial, bem macabra.
E o roteiro sabe conduzir bem o público, tanto que em determinado momento (digno
de novela das oito), as pessoas chegam a vibrar com a cena. Palmas e urros
da plateia na pré-estreia. Esther não está para brincadeira e ela não deixará
barato, fato. Se A Órfã ganhar uma continuação... Te cuida, Samara!
Jurandy Filho | dypromo@yahoo.com.br
Siga o Kinemail no Twitter
> Além das críticas e programação local completa aqui no Kinemail, agora você
também pode acompanhar as dicas de cinema, DVD, séries, filmes na TV etc
que o Kinemail posta quase todo dia no Twitter. Follow www.twitter.com/kinemail