

Kinemeiete de Agosto





ANO DEZ Edição 478
Tempo, Adjetivo, Sonho, Livro e Monstros
> E temos mais uma semana extraordinária nos cinemas do Recife!
Uma concentração de títulos prováveis do Top Ten Kinemail 2010 estão em
cartaz nos cinemas da cidade. Começando por O Que Resta do Tempo,
de Elia Suleiman, lançamento do Cine Rosa e Silva. Excelente filme deste
cineasta palestino, diretor também do ótimo Intervenção Divina, de 2002.
No Cinema da Fundaj, o também excepcional Polícia, Adjetivo, um filme
policial romeno, diferente de todos os que você já viu. Confira e comente.
Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar permanece no Rosa e Silva,
A Fita Branca tem últimas sessões na Fundaj e Guerra ao Terror continua
em sessão única no BOX Guararapes.
Onde Vivem os Monstros agora
está em cartaz em mais salas, estreando também no Rosa e Silva.
Essa semana conta ainda com o drama musical de Bob Fosse Cabaret (1972)
em sessão única gratuita do Cineclube Dissenso/Fundaj e pré-estreias
de A Mente que Mente, Um Segredo em Família e Bons Costumes.
Um Sonho Possível e O Livro de Eli são mais estreias dessa semana.
Assista, opine, participe, comente para fernando@kinemail.com.br
DICAS DE CINÉFILO Filipe Marcena comenta Eu, Você e Todos Nós AQUI
LEITOR VIP Ganhe convites para O Livro de Eli, O Que Resta
do Tempo e Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar AQUI


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UM PEQUENO ROMANCE
EUA/FRA | George Roy Hill | 1979

O QUE RESTA DO TEMPO ![]()
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Le Temps Qu'il Reste/The Time That Remains Palestina/França 2009 1h45min
de Elia Suleiman com Elia Suleiman, Saleh Bakri, Samar Tanus
por Fernando Vasconcelos
OPINIÃO Depois do inclassificável Intervenção Divina (2002), um dos melhores
filmes que quase ninguém viu nessa década (disponível em DVD), o diretor
palestino Elia Suleiman (espécie de Buster Keaton contemporâneo) volta
mais incisivo ao retratar a questão política e geográfica Palestina/Israel
e emociona profundamente pelo lado humano, ao contar memórias da sua relação
com a família, especialmente com a mãe, nesse filme que, iniciando com
o protagonista nos dias de hoje, pegando um táxi para visitar a mãe, enfrenta
uma tempestade no caminho e, na espera com o motorista, abre uma janela
para contar a história da sua família a partir de 1948, com a criação
do Estado de Israel, onde depois do primeiro embate bélico entre os dois
povos, os palestinos saíram perdendo e passaram a viver confinados
sob eterna vigilância israelense em Nazaré, cidade natal do diretor.
Em saltos temporais, das décadas seguintes até os dias de hoje, Suleiman
mostra, em tom de farsa e alegoria, com um humor ferino e fortemente visual,
como nada muda, restando a nós, humanos (palestinos, no caso), continuar
a viver pelo tempo que resta. Com forte herança do cinema crítico visual
do francês Jacques Tati, Elia Suleiman faz um cinema que não se parece
com nada hoje em dia. Construído como uma coleção de vinhetas, com negação
do formal plano/contraplano clássico americano, faz uso incomum de planos
frontais e enquadramentos com forte definição e significação do espaço,
chegando a lembrar história em quadrinhos. Se há uma certa dificuldade,
inclusive para esse que escreve, em captar as sutilezas do humor referencial
à cultura daquele povo, ainda assim predomina em O Que Resta do Tempo
o tema universal do opressor e do oprimido, alcançando momentos de anarquia
visual e ironia poderosa. Mas não estaríamos diante de um grande filme
se Suleiman não fizesse deste seu mais belo filme uma delicada homenagem
ao seu pai, sua mãe, sua família, longe de qualquer sentimentalismo barato
ou clichê. E assim, emociona. O uso de ícones da cultura ocidental de massa
(na trilha sonora, por exemplo, temos uma versão eletrônica de Staying Alive,
dos Bee Gees), configura um filme pop que, ao falar de uma sociedade
em tensão política e guerra, vai muito além, com poesia e dramaticidade
pungente, nas cenas finais do protagonista adulto com sua mãe.
Ignorado na premiação em Cannes 2009 e na indicação ao Oscar de filme estrangeiro,
vale comentar que a irreverência politicamente incorreta de Suleiman, alfinetando
a política israelense, não é do agrado da média da mídia mundial, inclusive jornalistas
e críticos de cinema. Se pensarmos que os judeus dominam boa parte do mercado
cinematógrafico mundial, não só os EUA, dá pra imaginar o quanto o humor irônico
e inteligente (também conhecido como o poder da Arte) de Elia Suleiman incomoda.
Visto em 28/10/2009 como convidado da Mostra SP 2009
Revisto em 20/03 como convidado do Rosa e Silva
Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br

POLÍCIA, ADJETIVO ![]()
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Politist, Adjectiv Romênia 2009 1h55min
de Corneliu Poromboiu com Dragos Bukur, Vlad Ivanov, Irina Saulescu
por Fernando Vasconcelos
OPINIÃO Como pode um país tão remoto para nós e boa parte do mundo, a Romênia,
produzir uma quantidade absurda de filmes tão bons, surpreendentes, inesperados,
num período tão curto de tempo, os últimos 4 ou 5 anos? Uma boa explicação
para essa visibilidade está no farto circuito de festivais de cinema, que vez
por outra tornam 'moda' a cinematografia de algum país (vide o cinema
iraniano nos anos 90). No caso da Romênia, uma explicação menos rasteira
identificaria o momento histórico e uma realidade dura e violenta
de um país que abre-se lentamente para o mundo contemporâneo
depois de longas trevas de regime de uma ditadura comunista e, claro,
o inquestionável talento de um punhado de diretores que querem expressar-se
com uma energia que nunca se vê, por exemplo, no cinema nacional.
Depois de dirigir a estranha comédia A Leste de Bucareste, Corneliu Porumboiu
nos brinda com um filme mais estranho ainda, Polícia, Adjetivo, um inteligente
e absurdo misto de policial, comédia e drama kafkaniano, prêmio do júri
na mostra Un Certain Regard em Cannes e escolhido pelos jornalistas o melhor
filme exibido em Cannes. Em Polícia, Adjetivo, vemos a atuação burocrática
e autoritária da força policial, onde silenciosamente o policial Cristi (Dragos Bucur)
revela-se uma pedra no caminho do processo. Ele é designado para investigar
uma denúncia contra um adolescente que fuma maconha e oferece a droga
regularmente para dois amigos. Cristi passa oito dias seguindo o jovem, buscando
provas para inocentá-lo e pedindo mais tempo a seus superiores para que possa
encontrar os traficantes graúdos. Ele argumenta que a prisão arruinaria a vida
do rapaz e que a Romênia irá se adaptar em breve à legislação da União Europeia,
que não prevê punição de prisão aos consumidores. É um dilema em que podemos
fazer um interessante paralelo com o nosso tão 'preto no branco' Tropa de Elite,
que privilegia a urgência e histeria da ação. Polícia, Adjetivo vai na contramão.
Ao tomar o ponto de vista do policial, revela como uma investigação dessas
pode ser tão anticinematográfica. Instala-se o tédio, a repetição, a ausência
de suspense hitchcockiano. O que está na tela é o lento regsitro 'documental',
que mostra que a realidade não é coisa de cinema. Público pode reagir mal.
Rumo ao final, de estrutura bastante teatral, com humor ferino, Cristi confronta
seus superiores numa reunião burocrática que leva a uma análise semântica
do significado de palavras como Policial, Moral e Ética, literalmente com o dicionário
na mão. Nessa absurda e originalíssima sequência, pode-se até dizer que Poromboiu
nega o príncipio do cinema, com sua câmera estática reforçando a inércia dos personagens
na solução do caso. Afiado, desconcertante,
hilário. Só vendo para crer. Não perca.
Visto em 17/10/2009 como convidado da II Janela de Cinema do Recife
Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br
ONDE VIVEM OS MONSTROS ![]()
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Where The Wild Things Are EUA 2009 1h40min
de Spike Jonze com Catherine Keener, Mark Ruffalo, Max Records
por Filipe Marcena
OPINIÃO Esse novo filme de Spike Jonze (Adaptação, Quero Ser John Malkovich)
foi aguardado com bastante ânsia pelos fãs do diretor e por pais loucos para levar
seus filhos à versão cinematográfica do livro homônimo de Maurice Sendak.
O gosto de decepção parece ter aparecido em várias bocas, inclusive na deste
que vos escreve. Mesmo amplamente expandido em relação a sua versão literária,
a história é bastante simples. O garoto Max (o ótimo Max Records) sente-se isolado
e rejeitado por sua família. Após uma briga com sua mãe (Catherine Keener), Max
foge para uma floresta onde encontra um grupo de monstros de mais de 2 metros
de altura. Acaba virando o rei desse bando e desenvolverá sentimentos particulares
por cada um, mas comandar uma pequena sociedade, imaginária ou não,
é uma provação que Max vai precisar enfrentar sem medo.
Tecnicamente Onde Vivem Os Monstros é impecável, do design de produção à fotografia
exuberante. Os monstros são um caso a parte, feitos artesanalmente com pouca ajuda
de CGI e com movimentos e expressões que beiram a perfeição. Mas, na estrutura dramática,
alguma coisa pareceu perdida no meio do caminho. As soluções para os entraves são muito
fáceis, e por mais que se leve em consideração o ambiente infantil da história, a falta
de consistência incomoda, especialmente em se tratando de Jonze. A trilha sonora, apesar
de correta (não dá pra imaginar Max ouvindo Hannah Montana), é utilizada à exaustão,
funcionando como muleta para a falta de emoções genuínas. Às vezes dá certo, às vezes não.
Felizmente os personagens são cativantes e excêntricos, dublados com carinho por um bando
de gente talentosa. As raras crianças que também não ouvem Hannah Montana vão adorar.
Visto em 13/03 como convidado do BOX Guararapes
Mande sua opinião para filipeap1988@hotmail.com
UM SONHO POSSÍVEL ![]()
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The Blind Side EUA 2009 1h58min
de John Lee Hancock com Sandra Bullock, Tim McGraw, Quinton Aaron, Kathy Bates
por Filipe Marcena
OPINIÃO É deprimente constatar que estamos em 2010 e o cinema ainda é capaz
de produzir coisas como este Um Sonho Possível. Ao assistir ao filme tive a sensação
de estar vendo um filho bastardo de O Nascimento de Uma Nação, longa podre
de racista que D. W. Griffith lançou em 1915. Se Griffith merece créditos por ter
criado um divisor de águas da linguagem cinematográfica e ter dado o pontapé inicial
para o que conhecemos hoje por cinema, Um Sonho Possível não consegue mais
do que estabelecer uma estrutura velha e ultrapassada de narrativa, e aos tropeços.
Fora que, enquanto Griffith era abertamente racista (não que isso seja algum mérito),
a equipe de Um Sonho Possível nem parece perceber o quanto sua visão de raça
e cultura é deturpada e preconceituosa, e que isso gerou uma cria perigosa.
A história é inspirada no livro The Blind Side: Evolution of a Game e na vida de Leigh Anne Tuohy,
uma mulher casada, rica, decidida e WASP (White Anglo-Saxan Protestant, ou Protestante
Anglo-Saxão Branco, a página do Wikipédia sobre esse grupo oferece link direto para
a da Ku Klux Klan). Nos anos 90, Leigh Anne, num estalo de compaixão, levou para casa
o jovem rapaz negro apelidado de Big Mike, bolsista na escola de seus filhos e de passado
conturbado, com a ajuda do marido. Big Mike entrou para a família Tuohy, ganhou o apoio
deles e acabou se tornando um grande jogador de futebol americano. Em curtas linhas,
parece uma bela história de altruísmo, e acredito que a atitude da verdadeira Leigh Anne
tenha sido honesta, independente de suas crenças. Mas a transposição de John Lee Hancock
é tão desleixada, preguiçosa e de intenções tão equivocadas que Um Sonho Possível resultou
num pastiche pseudoliberalista com altas doses de etnocentrismo e autocongratulação branca.
Os conceitos do filme sobre etnia e cultura são fáceis de encontrar e analisar, já que Hancock
usa e abusa abertamente de clichês bastante ignorantes para identificar seus personagens.
A visão de ‘gueto’ do filme é a de quem assiste à novela das oito: drogas, tráfico, violência,
criminalidade e pobreza filmadas de maneira tão falsa que se me dissessem que as cenas
do bairro de Big Mike foram filmadas no Projac eu acreditaria. Já Big Mike, interpretado
pelo inexpressivo, talvez propositalmente, Quinton Aaron, é um personagem desenhado
de forma a não se encaixar no arquétipo do negro bandido. Na verdade, Mike é apenas
um peão no filme, está lá para os verdadeiros protagonistas brincarem com ele, transformá-lo
num ídolo e se sentirem felizes consigo mesmo por isso. A cultura negra é completamente
abolida da vida de Mike e do filme, e isso é posto como a verdadeira salvação do personagem:
ele se torna um branco (futebol americano é um jogo majoritariamente caucasiano). Mike não
manifesta opinião, não se rebela, não toma decisões, ele só faz o que é mandado. Passa a maior
parte do filme agindo como um retardado e jamais expõe outra dimensão de sua personalidade
(seu passado, mostrado em ligeiros flashbacks, nunca é aprofundado). Enquanto isso, a Leigh Anne
de Sandra Bullock (que só ganhou mesmo o Oscar porque rendeu US$ 450 milhões em 2009
nos EUA, com esse filme e as comédias A Proposta e Maluca Paixão) é a boa samaritana perfeita,
uma heroína cujo único defeito aparente é sua aspereza. Mas a própria composição da personagem
soa racista: Leigh Anne é rica, decidida, protestante, anglo-saxã e branca, MAS tem um bom coração,
diferente de suas amigas peruas. Se não a ‘culpa branca’, qual o grande conflito desse personagem?
Atenção na horrível cena em que ela se pergunta se é uma boa pessoa ou nas patéticas sequências
de almoço entre amigas. Pra fechar o circo de horrores que são os personagens, tem-se Sean Tuohy,
o apático e inepto marido de Leigh Anne interpretado por Tim McGraw, Jae Head e Lilly Collins como
os filhos legítimos e irritantes da família Tuohy, e Miss Sue, a tutora democrata encarnada por
Kathy Bates, que protagoniza uma bizarra cena com Big Mike onde ela tenta convencê-lo
a mudar de Universidade. Um leque muito estranho de representações para um filme só.
Se a ética de Um Sonho Possível é um exercício em regressão social, a estética nem merece
muitos comentários. Basta dizer que tem a aura de um raso filme pra TV sem qualquer sinceridade
e filmado com uma assepsia excruciante. O uso manipulativo de close-ups por Hancock é o suficiente
para causar ojeriza em espectadores mais atentos. O desejo de que Um Sonho Possível não
tivesse sido feito ou sequer pensado só não é maior do que minha revolta em ver tamanha porcaria
ser lançada nos cinemas de todo o mundo como se fosse uma história bela e inspiradora.
O filme inspira o quê? A exclusão e destruição de outras culturas, religiões, etnias
ou pensamentos que não sejam a dos protestantes anglo-saxões brancos? Ou será que
eu estou exagerando, deveria enxergar o filme como um marco da evolução humana e pedir
para que todos os meus amigos ricos
adotassem um negro pobre (coitados, são incapazes
de se resolver sozinhos. Não é, Preciosa?). Um Sonho Possível me enoja profundamente
e é, desde já, um dos piores filmes que já vi na minha ainda curta vida de cinéfilo.
Visto em 17/03
Mande sua opinião para filipeap1988@hotmail.com
O LIVRO DE ELI ![]()
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The Book of Eli EUA 2010 1h58min
de Albert & Allen Hughes com Denzel Washington, Gary Oldman, Mila Kunis, Jennifer Beals
por Fernando Vasconcelos
OPINIÃO O Livro de Eli é mais um filme pós-apocalíptico de Hollywood. Tendo como
base a referência inevitável da trilogia Mad Max, o filme também tem algo de faroeste
à Sergio Leone, estética de disaster movie com cenários áridos de destruição e desolação
num mundo onde água é ouro e, foco nos adolescentes, ação e luta estilo samurai
de história em quadrinhos. Tudo que você já está cansado de ver no gênero. O que o filme
dos irmãos Allen e Albert Hughes (fora de cena desde Do Inferno, de 2001) apresentam
como novidade é um argumento de forte apelo religioso, ao ponto de O Livro de Eli
ter sido chamado de gospel movie.
A boa notícia é que, dentro do que se propõe, ser
um filme-pipoca sombrio com 'mensagem religiosa', o filme funciona muito bem.
Não foi um enorme sucesso de bilheteria, mas fez quase US$ 100 milhões nos EUA.
Pelo tipo de filme, tenho impressão que se Will Smith, com sua carismática vocação
pra Cristo, fosse o protagonista, o filme faria 5 vezes mais dinheiro nos multiplexes.
Denzel Washington é um homem solitário com a missão de proteger a única cópia de um
livro que pode salvar a humanidade (sim, a Biblia Sagrada), que deve chegar intacto
até a costa oeste americana, uma San Francisco em ruínas,
onde uma sábia comunidade
está montando uma biblioteca com os livros salvos, recolhidos de toda parte do mundo.
O que é bacana é que não só a Bíblia
está sendo salva, mas todo um universo da literatura
mundial, onde é óbvia a referência
ao clássico Fahrenheit 451 de Ray Bradbury nos minutos
finais.
Os minutos finais também guardam uma reviravolta que dará mais sentido ao personagem
de Denzel Washington, o Eli do título, e não devo falar mais. Voltando ao início, Eli carrega
consigo o último exemplar da Bíblia no planeta. Para a ação existir, é claro que precisamos
de um vilão (Gary Oldman, quem mais?) que também cobiça o Livro, mas com o objetivo
maligno de dominar os humanos da sociedade caótica que restou. Afinal, religião é o ópio
do povo, certo? O roteiro é bem simplório, mas Denzel Washington consegue carregar
o filme nas costas e, mesmo com o excesso de filmes recentes
com visual pós-apocalíptico,
O Livro de Eli é visualmente interessante, com boa fotografia de cores escassas, quase
em preto e branco, uso de câmera bem cuidado, nada de edição MTV nem efeitos visuais
desnecessários e poucas, mas boas, cenas de ação. Aliás, o filme tem pouquíssima ação,
o ritmo é lento e os diálogos movem mais o filme do que a ação. Quanto ao contexto
religioso, O Livro de Eli agradará bastante e pode ser até emocionante para os crentes.
E, para os descrentes, a 'mão de Deus' não chega a incomodar e o filme diverte bem.
Visto em 21/03 como convidado da UCI Cinemas
Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br
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Cineclube Dissenso
CABARET ![]()
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Cabaret EUA 1972 2h04min
de Bob Fosse com Liza Minnelli, Michael York, Marisa Berenson, Joel Grey
CINECLUBE DISSENSO | FUNDAJ | sábado 20, 14h ENTRADA FRANCA
> Sinopse: Sucesso de público e crítica e vencedor de oito Oscar, incluindo
melhor direção para Bob Fosse, este musical nunca foi lançado em DVD no Brasil.
Baseado no livro Adeus a Berlim (1939), de Christopher Isherwood,
o filme acompanha o percurso de diversos frequentadores do cabaré
Kit Kat Klub, na decadente Berlim dos anos 30. A sessão é gratuita
e seguda de debate com os realizadores do Cineclube Dissenso.
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Onde vivem e onde crescem os monstros
Apesar de ser um filme bastante criativo, Onde Vivem os Monstros
não tem nada de original. Bate na mesma tecla de tantos outros filmes
sobre o tema: a fuga para um mundo imaginário, cheio de seres estranhos.
Talvez, a única novidade seja a idéia de os monstros serem tristes.
Não é que não seja bom. O problema é que ele não me agradou como
eu gostaria. Pra ficar no mesmo tema, eu prefiro Ponte para Terabítia.
É na infância em que boa parte do caráter do ser humano é formada.
É nesse período que a pessoa tem contato com os outros seres humanos
(principalmente, seus pais) e em que vem a ser inserida nos meandros
da sociedade. E tais primeiras influências poderão ser levadas para
o resto de uma vida. Não que elas sejam o principal motor para os
caminhos que se toma durante a vida, mas chegam a ser um mecanismo
importante que fazem rodar toda a engrenagem. Creio ser esse o
principal objetivo de Michael Haneke nesse excepcional filme que
é A Fita Branca: a formação do ser humano, para o bem ou para o mal.
Para isso, ele utiliza a figura de um professor como narrador e condutor
da estória ali contada, além também de trabalhar com os principais
formadores de sujeitos, os pais, e todos os seus medos e frustrações.
Frustração essa repassada por meio de castigos e muito bem apreendida
e levada à praça pelas crianças. O filme é uma demonstração muito boa
da imbecilidade humana, muito bem simbolizada pela idéia de que a pureza
pode ser externada por meio de uma fita branca presa ao braço.
Saindo da estória e passando para a forma, é não menos bela. O filme é
visualmente muito bonito, com enquadramentos que muitas vezes parecem
pinturas. Uma outra coisa: Apesar de já ter visto filmes digitais, eu ainda não tinha
visto uma imagem tão bonita e limpa como a desse filme. Belo, muito belo.
Rodrigo Tenório | tenorio@hotlink.com.br
Oscar, Ilha de Scorsese e Amor em SP
Achei os prêmios deste Oscar 2010 justos, no geral. Mas a Academia cometeu
dois micos imperdáveis: Avatar, um filme basicamente feito com animação
em computador, ganhar Melhor Fotografia? E com concorrentes como
A Fita Branca? Inaceitável. Sandra Bullock gannhando um Oscar de Melhor
Atriz? Ela é no máximo simpática, mas sua vitória só pode ser explicada
por motivos comerciais. Ela era de longe a mais fraca das concorrentes
E que concorrentes: Helen Mirren, Meryl Streep, sem falar
nas ótimas novatas Carey Mulligan e Gabouray Sidibe).
Vi e gostei de Ilha do Medo. É o melhor dos filmes que Scorsese fez com
DiCaprio (que precisa comer muito arroz com feijão ainda para tomar o lugar
de DeNiro como parceiro de Scorsese). Gostei principalmente dos detalhes sutis
espalhados pelo filme. Percebeu como, diversas vezes, a montagem era 'falha'
de propósito? Há cenas em que claramente os personagens não estão em continuidade
de corte com o plano anterior. Ou a cena em que uma paciente pega um copo para
tomar água e ele 'some' da mão dela no plano em que ela está 'tomando água'!
E fiquei com a impressão que aquele farol estava cada vez em um lugar diferente
(a primeira vez que ele é visto os personagens não estão olhando para cima?).
O roteiro não 'faz sentido' se for analisado racionalmente, mas nada é racional
neste filme. Meu texto sobre o filme está no http://cameraescurablog.blogspot.com
Vi Quanto Dura o Amor? no Festival de Paulínia, com equipe e elenco
presentes. Acho que eu tenho muito mais tolerância com o cinema nacional
que você (que, percebo, não tem muita paciência). Gostei do filme. E não
acho que São Paulo não foi bem mostrada... Adorei a fotografia noturna
em Red Digital mostrando principalmente a Avenida Paulista e o bairro
japonês da Liberdade. Os personagens talvez seja 'exóticos' demais,
mas gostei das interpretações. Minha opinião aqui http://migre.me/oQbA
João Solimeo | jsolimeo@ig.com.br
Oh yeah, Ilha do Medo é ótimo de ver, e a montagem é um caso à parte. Coisa
da longa e genial parceria de Scorsese com sua montadora Thelma Schoonmaker.
Adorei. Logo no navio no início, o efeito é muito estranho. Fundo falso e plano/contraplano
onde DiCaprio e Mark Ruffalo nunca parecem estar no mesmo lugar. Sobre o farol,
ele muda tanto em percepção geográfica, que parece existir só na cabeça
do personagem. Lembro que li uma crítica americana onde o sujeito fala que
nunca viu um filme de Martin Scorsese tão mal montado! Eh eh, ele não entendeu
nadinha...
Segue um trecho de texto na Folha SP, que comenta bem isso:
'A montagem de Thelma Schoonmaker, velha parceira de Scorsese (ela montou todos
os filmes do diretor desde Touro Indomável, de 1980), merece um comentário à parte:
ao longo de Ilha do Medo, percebe-se claramente o que parecem ser erros de montagem
e continuidade. São pequenas falhas, cenas que são mostradas de um ângulo e que,
quando mostradas em ângulo reverso, trazem os atores em posições diferentes da anterior.
Há também cortes abruptos, que perturbam a fluidez narrativa. Difícil acreditar que artistas
como Schoonmaker e Scorsese, que operam num nível estratosférico de excelência, cometeriam
erros assim. Prefiro acreditar que foi uma decisão consciente: os 'erros' são muito discretos,
perceptíveis apenas o suficiente para causar um ligeiro desconforto no olhar. Como se diretor
e montadora estivessem sempre fragmentando a realidade e, assim, distorcendo-a.'
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