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ANO DEZ Edição 498

A Origem, os Morangos e um Homem Sério

> Férias encerradas, inicia temporada de melhores filmes em cartaz.
Nos multiplexes, o 'hypado' A Origem de Christopher Nolan, que nós
não achamos grande coisa. Confira nossa opinião e comente de volta.
O Cinema São Luiz surpreende com uma programação de altíssimo nível:
Estreia Um Homem Sério dos irmãos Joel & Ethan Coen, indicado aos Oscar
de melhor filme e roteiro, exibe obra-prima essencial de Ingmar Bergman,
Morangos Silvestres na Sessão Cinemateca e - numa temporada que ignora
o lindo Ponyo e faz mais de 6 milhões de espectadores para Shrek Para
Sempre
... - O Cinema São Luiz resgata outra grande animação do japonês
Hayao Miyazaki, O Castelo Animado, nas Sessões Infantis. Adultos
certamente apreciarão esse filme mais do que as crianças. Não perca.

Temos ainda Meu Malvado Favorito 3-D, o nacional 400 Contra 1 e
prés de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres e À Moda da Casa.
No Cinema da Fundação, sessões para À Prova de Morte, continuam
Uma Noite em 67,
Tudo Pode Dar Certo, e temos ainda sessão gratuita
do Cineclube Dissenso para Pai (1966), do húngaro Istvan Szabó.
Assista, opine, participe, comente para fernando@kinemail.com.br

DICAS DE CINÉFILO Filipe Marcena comenta Clube dos Pervertidos,
mais uma aloprada comédia trash e desbocada de John Waters. AQUI

LEITOR VIP Convites Aprendiz de Feiticeiro e Meu Malvado Favorito AQUI








Greg Mottola | EUA | 2011
LEIA AQUI




A ORIGEM
Inception EUA 2010 2h28min
de Christopher Nolan com Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page,
Marion Cotillard, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Tom Hardy, Michael Caine

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO 'Peraí, a gente está entrando no sonho de quem agora?' pergunta
que a 'arquiteta de sonhos' vivida por Ellen Page faz a certa altura do filme é o
que bem resume esse tão 'hypado' projeto de Christopher Nolan, o diretor que
ganhou Hollywood com o indie Memento - Amnésia e, anos depois, garantiu
bilheterias marrudas para Batman, em dois filmes metidos a besta, 'densos', com
os personagens de quadrinhos. A pergunta de Ellen Page garante risadas para alguns,
mas está longe de ser um momento de humor. Os filmes de Christopher Nolan são 'densos',
'complexos' e a frase de Ellen Page tem função explicativa, para esclarecer aos
espectadores o que está acontecendo, porque está acontecendo e o que vai provocar
mais na frente da trama, nesse filme cuja ação é majoritariamente explanação,
contrariando o princípio básico do bom cinema: contar histórias fluentes e críveis.

O cinema de Chistopher Nolan sempre mexeu com a questão do Tempo, da Memória, da Ilusão,
e nada junta melhor esses conceitos do que o Sonho. Aliás, em análise psicológica, Cinema
nada mais é que a tentativa de reproduzir o Sonho como arte. A partir dessa premissa,
a expectativa (e o hype) por A Origem (tradução meio sem sentido para Incepção, Implantação)
era altíssima, especialmente para cinéfilos que consideram Batman - O Cavaleiro das Trevas
uma obra-prima (!) do cinema. Em tempos de internet, nunca antes foi tão rápido definir um filme
como obra-prima como aconteceu com A Origem, que já faturou assombrosos (para um filme 'denso',
'complexo') 200 milhões de dólares somente nos EUA, ficando 3 semanas consecutivas em primeiro
lugar nas bilheterias. Felizmente, a internet também é capaz de diluir a 'importância' de um filme
rapidamente, logo fazendo brincadeiras e paródias espalhadas pelo YouTube, Twitter e Blogs, como
já está acontecendo nesse caso. Visto o filme, só posso confirmar o ditado: don't believe the hype.
Aclamado como original, ousado, inteligente, complexo, a impressão que fica é que o filme é
engenhoso sim, mas nada tanto asssim. Depois de visto, é esquemático e bem quadradinho.
Como uma espécie de Danny Ocean (George Clooney na trilogia 13 Homens e um Segredo),
Leonardo DiCaprio vive Cobb, um líder de um esquadrão de especialistas em roubos.
'Vive' não é bem o termo, porque rigorosamente nenhum personagem aqui tem vida, são
apenas peões de um jogo esperto criado pelo roteiro duro de Nolan, com função apenas
de dialogarem regras, explicando para o espectador o que o filme jamais conseguiria tornar
inteligível através dos personagens em ação. Quem mais sofre é Ellen Page, já indicada ao Oscar
por Juno mas aqui como Ariadne, 'a arquiteta do labirinto', apenas útil para fazer o papel
do espectador, perguntando sobre o que está acontecendo no filme, devidamente respondida.

O roubo aqui transforma-se em algo mais 'complexo'. A gangue de Cobb trabalha
entrando nos sonhos das pessoas, para roubar segredos das suas mentes para clientes
poderosos. Sempre com roupas impecáveis, assim como a turma de Danny Ocean,
às vezes parece que estamos num set de produção de moda para revistas masculinas.
Joseph Gordon-Levitt, alto, magro e elegantérrimo, parece que está no filme só pra
desfilar em terninhos chiques, inclusive na sequência mais comentada e bela, quando
luta flutuando sem gravidade num hall de hotel de luxo num sonho de nível 2. Ah, esqueci
de dizer que existem vários níveis de sonho dentro do sonho e várias regrinhas para fazer
a festa dos nerds com glossário de termos e teorias e possibilidades de leituras para
alimentar blogs de discussão esvaziados desde o final de LOST. Tudo isso poderia gerar
ótimo entretenimento e deslumbramento com uma narrativa enigmática, mas não é bem
o caso. Nolan não pretende desnortear como David Lynch (Cidade dos Sonhos e Império
dos Sonhos
) nem está interessado em surrealismo (como Salvador Dali e Luis Bunuel
de O Cão Andaluz, O Anjo Exterminador e O Discreto Charme da Burguesia). O negócio
de Nolan é mais objetivo, pragmático, assim A Origem leva mais de uma hora se explicando,
preparando o espectador com atividade cerebral funcional para entrar em terreno seguro.
E quando a ação de fato começa, os sonhos acontecem em espiral simultânea, cada um deles
com características clichês de blockbuster: um sonho é uma perseguição de automóveis com
tiroteios e colisões espetaculares, outro é ambientado em montanhas de neve com... explosões
e tiroteios. E eu me perguntando: quem diabos sonha sonhos assim??? Mas ok, há uma
explicação: A Origem é espertamente também um blockbuster que custou U$ 160 milhões
de dólares. Então, vamos fazer barulho, senão a plateia dorme!! E aí é que entra o que mais
me incomoda, a trilha sonora. Cometida pelo freguês do Oscar Hans Zimmer, é uma das trilhas
mais irritantes, intrusivas e chatas do cinema recente, além de ser totalmente esquecível
(duvido alguém conseguir assobiar um único tema musical do filme na saída da sala). Marca
registrada do cinema de Nolan, todos tem um mantra orquestrado infernal, praticamente no filme
inteiro, forçando um tom de gravidade, seriedade, importância, que as imagens por sí só
não oferecem. E a impressão final é que, se em Batman a trilha estava no volume 7,
aqui em A Origem os trombones, teclados e oboés estão tocando no volume 10!

Voltando ao filme, a missão do grupo não é roubar, mas implantar uma ideia na mente
de um herdeiro milionário, para que ele, por vontade própria, favoreça um concorrente
numa transação corporativa. Paralelo a isso, Cobb tem um ajuste de contas com o passado,
envolvendo uma esposa morta (?) e filhos que ele está impedido de ver. No mínimo é curioso
que Leonardo DiCaprio tenha vivido, com mais dramaticidade, um personagem muito parecido
no recente Ilha do Medo de Scorsese. Em A Origem eu estava pouco ligando se o plano
mirabolante ia ser bem sucedido, muito menos para o destino de Cobb, sua esposa e seus filhos,
apesar da bela Marion Cotillard aparecer sempre nos sonhos com o semblante tristonho ou chorando,
tentando imprimir algo vagamente humano ao filme. Mas a prioridade é o espetáculo visual.
Uma das boas sacadas de A Origem é criar um jogo de dilatação temporal na parte final quando,
em montagem paralela, o tempo estendido das longas perseguições e tiroteios acontecem ao mesmo
tempo que os poucos segundos que uma van leva para cair duma ponte num rio. Ideia semelhante
movia o divertido Femme Fatale de Brian De Palma, onde a mirabolante aventura do filme inteiro
equivalia ao rápido espaço de tempo em que a protagonista adormecia e afundava o rosto numa
banheira, acordando em poucos segundos. É uma ideia poderosamente cinematográfica.
Por fim, A Origem vale pelo espetáculo visual, que tem grandes momentos - e que imagino
serem mais incríveis ainda se vistos num cinemão IMAX. Mas, para um filme tão 'hypado'
e promovido como 'primeiro grande filme, obra-prima, de 2010', eu esperava mais, bem mais.
Visto em 03/08 como convidado da UCI Cinemas
| Warner Bros.
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para
fernando@kinemail.com.br

por Filipe Marcena

OPINIÃO É bastante óbvio o sucesso que A Origem vem tendo no mundo inteiro.
Não é por causa do Leonardo DiCaprio ou porque Christopher Nolan dirigiu os bem
sucedidos últimos filmes do Batman, e muito menos pelos efeitos especiais. Está cada
vez mais perceptível a necessidade pública de esquecer a realidade, especialmente
entre nós jovens. O fanatismo por videogames e RPG e o sucesso de filmes como Harry Potter,
O Senhor dos Anéis, Matrix, Avatar e A Origem estão conectados pelo fato de todos
apresentarem um versão melhorada, superior e, principalmente, mais bonita da realidade.
Vivemos nos tempos da hiperrealidade, e a sede crescente por meios de escape traz
como consequência a produção em escalas cada vez mais largas de produtos que saciem
esse desejo. É tudo aquilo que Baudrillard falou sobre simulacros e sobre viver se afastando
da própria natureza humana ao invés de compreendê-la. Dito isso, A Origem não traz
absolutamente nada de revolucionário e inovador, como se tem falado por aí.

Nolan criou um mundo paralelo que possui suas próprias regras e leis, o dos sonhos.
Os dele, ao menos. Ele usa essa estrutura como base de uma história sobre família
(bingo!) e sobre crime de negócios, onde pessoas são capazes de entrar nos sonhos
alheios e retirar ou plantar ideias. Nas cenas de sonhos, toneladas de muitíssimo bem
executados efeitos especiais (bingo!!) e no elenco, vários rostos conhecidos e de fácil
conexão com as massas (bingo!!!). Mas Nolan esqueceu que, para contar uma história
desse tipo, ele precisava confiar no espectador. E ele obviamente não o faz, como
denunciam os demasiado explicativos diálogos ao longo das 2h28min. E ele ainda opta
por uma montagem que não dá ritmo para que as conversas soem ao menos naturais.

Tudo funciona como uma grande maquinaria, dentro e fora dos sonhos.
A personagem de Marion Cotillard traz alguma humanidade, mas é pouco
para tanta conversa fiada. Assim o enredo, que é complexo mas não é difícil
(e muito menos inteligente) não ganha chance de cativar o espectador,
precisando de Hans Zimmer para comentar 80% do filme com sua trilha sonora
estrondosa e nos dizer o que sentir. Eu não senti coisa alguma a não ser irritação.
A Origem é mais um fenômeno sócio-cultural do que artístico ou cinematográfico,
assim como os filmes citados anteriormente. Pior do que a cada vez mais
costumeira sensação de vazio pós-sessão é imaginar que, no futuro, as pessoas
vão viver como o Jimmy Bolha, dentro de seu próprio mundinho. Que pesadelo.
Visto em 03/08 como convidado da UCI Cinemas
| Warner Bros.
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para
filipeap1988@hotmail.com


UM HOMEM SÉRIO
A Serious Man 2009 EUA 1h46min
de Joel & Ethan Coen com Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Sari Lennick


por Filipe Marcena

OPINIÃO Mesmo que um filme seja nomeado ao Oscar principal, aplaudido pela crítica e tenha
no cartaz nomes como Joel e Ethan Coen, ele pode não estrear numa sala perto de você.
E se for uma daquelas obras-primas raras nos cinemas é que a situação complica de verdade.
Vide o caso de Um Homem Sério. Lançado no Brasil com apenas ridículas 8 cópias
pela Universal, só agora o filme chega aos cinemas do Recife, graças à curadoria do Cinema
São Luiz, que conseguiu uma das últimas cópias disponíveis, antes da incineração (sim, as cópias
em 35 mm de qualquer filme são destruídas após carreira comercial). Um Homem Sério já foi
lançado em DVD. É criminoso nos obrigar a assistir a um dos mais visualmente elaborados
filmes dos irmãos Coen na tela da TV. Aproveite a oportunidade de conferir no cinema.

Seco e preciso como todo bom filme by Coen Bros., Um Homem Sério se passa
no subúrbio americano do final dos anos 60 e traz como objeto o professor de física
Larry Gopnik. Como o título entrega, ele é um homem sério, correto e limpinho.
É um judeu de fé, um marido e pai esforçado e um trabalhador decente. Fora isso
ele não faz o menor esforço para alterar o status quo de sua vida singela. Portanto,
Gopnik acha que há algo de errado com seu 'carma', já que seu mundo começa
a desabar pouco a pouco: sua filha Sarah é uma ladra, seu filho Danny é problemático,
seu irmão Arthur é uma ameba que vive às suas custas, sua mulher Judith o trai com
um homem chamado Sy Ableman e um aluno coreano o ameaça por tê-lo reprovado.
Suas crenças são postas à prova, e cada vez que ele procura a ajuda de um rabino,
Gopnik ganha mais perguntas e menos respostas. Existe mesmo um ser superior
julgando suas atitudes? Vale a pena ser um homem sério? Pode ele atribuir esse adjetivo
a si mesmo? O melhor de tudo é que se trata de uma comédia, e uma bastante cruel.

Em Um Homem Sério os Coen estão confortáveis ao demonstrar o quanto entendem
e dominam a arte de fazer filmes. Todo cinéfilo dá aquele sorriso no canto da boca
quando se depara com certas cenas. Por exemplo: quando Gopnik fuma um baseado,
os irmãos criam um esquema de signos com a iluminação, as lentes (Roger Deakins,
muito obrigado) e o som para situar a condição do protagonista. Várias cenas depois
esse esquema volta, dessa vez acompanhando outro personagem, e é impossível conter
as risadas; ou ainda na sequência inicial que narra uma fábula judaica, dando todos
os índices das questões a serem postas sob uma estética retrô; e ainda na genial cena
em que Gopnik chega a uma conclusão após um longo cálculo feito num quadro com giz.
Os irmãos também conduzem os magníficos atores com a competência de sempre, os traços
e características físicas dos intérpretes se encaixam com seus personagens à perfeição;
e Stuhlbarg lidera o elenco com sensibilidade. O roteiro é tão bom que não é necessário entender
todos os termos do judaísmo para compreender os diálogos e o próprio enredo do filme, já que
eles sobrevivem no contexto. Um Homem Sério é um absurdo de apuro técnico e ainda
mais absurdo na serenidade e bom humor com que fala sobre assuntos... sérios.

O martírio psicológico de Gopnik e família deságua num final abrupto e inacreditável
de tão irônico e cruel, é como se os Coen decidissem que, após se divertirem com
as desventuras de seu personagem e perceberem que ele atingiu algum esclarecimento,
eles queriam se divertir um pouco mais. Pena que o personagem não ouviu ao rádio
de seu filho Danny. Porque para o rabino Marshak e para os Coen, o segredo para
as divagações filosóficas que movem Larry Gopnik está no som da Jefferson Airplane.
Talvez eu gostasse ainda mais do filme caso ele mexesse com meu coração tanto quanto
mexeu com meu cérebro, talvez a especificidade dos temas e o meu pouco conhecimento
do judaísmo tenha sido uma barreira. Felizmente isso não comprometeu a fruição,
Um Homem Sério
é um filme tão universal quanto particular dos irmãos Joel e Ethan Coen.
Visto em 07/08 no Cinema São Luiz
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para
filipeap1988@hotmail.com


MEU MALVADO FAVORITO 3-D
Despicable Me EUA 2010 1h32min
animação digital dirigida por Pierre Coffin e Chris Renaud

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO Uma surpresa nessa temporada de férias, Meu Malvado Favorito
chama atenção por não ser da Pixar (Toy Story) nem da Dreamworks (Shrek),
mas de um novo estúdio de animação digital, da Universal. Como maior mérito,
o filme utiliza com exagero o efeito 3-D e eu diria que não deve ser tão
divertido assim quando visto em projeção plana. Se é pra valer a pena
levar os pirralhos para pagar mais caro por uma sessão de cinema família,
então Meu Malvado Favorito é o filme. Com design bonito de ver, é super
colorido e fará a festa da criançada. Temos o protagonista Gru, um solteirão
que se acha o maior vilão do mundo e vive maquinando planos de grandes
roubos. No início da fita, descobrimos que uma pirâmide do Egito foi roubada,
mas o autor do feito não foi Gru. Ele então decide roubar a Lua, para resgatar
sua fama de mau. Previsivelmente, Gru não é tão mal assim, tem um coração
mole. Logo o filme providencia três órfãs fofinhas, para criar o arco
dramático que deixará Gru, apesar do visual esquisito de vilão de cinema
mudo, também fofinho para a criançada. Muita correria, piada pronta
e efeito visual acontecerão pelo caminho, incluindo um incrível passeio
de montanha russa, como prometido, em '3-D de arregalar os olhos'.
Pouco original, com referências à inúmeras animações já vistas antes,
Meu Malvado Favorito não é esperto o suficiente para cativar, mas cumpre
bem o papel de divertir a gurizada por hora e meia no escuro do cinema.
Visto em 02/08 como convidado da UCI Cinemas | Universal
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para
fernando@kinemail.com.br


400 CONTRA 1
Brasil 2010 1h32min
de Caco Souza com Daniel de Oliveira, Daniela Escobar, Branca Messina

> Filme estreia sem aviso aqui no Recife e aproveitamos para publicar a opinião
do colega paulista João Solimeo, que viu o filme no encerramento do III Festival
de Paulínia e escreve sobre cinema no blog www.cameraescurablog.blogspot.com

por João Solimeo

OPINIÃO Exibido no encerramento do III Festival Paulínia de Cinema, o longa
400 Contra 1 – Uma História do Crime Organizado, de Caco Souza, é confuso
e não mostra a que veio. Propõe-se a ser a biografia de William da Silva Lima,
o principal idealizador da organização criminosa Comando Vermelho. Em plena ditadura,
criminosos comuns e prisioneiros políticos dividiram as celas da colônia penal conhecida
como 'caldeirão do diabo', na Ilha Grande. A convivência levou a uma troca de idéias
entre os 'subversivos', que pregavam a revolução e o socialismo, e os presos comuns.

O tema já foi tratado, de forma muito melhor, pela cineasta Lúcia Murat em Quase Dois Irmãos,
de 2004, com Caco Ciocler e Flávio Bauraqui. 400 Contra 1 até começa bem, em 1980,
mostrando um assalto a banco praticado pelo grupo de William (Daniel de Oliveira). A trilha
sonora da época acompanha uma câmera nervosa e boa edição, prometendo um filme vibrante.
Mas então começam os problemas. Em vinhetas exageradas e repetitivas, o filme dá saltos
constantes no tempo, alternando datas nos anos 70, quando William foi preso na Ilha Grande,
com outros momentos que mostram fugas de presos, reuniões do grupo fora do presídio e cenas
de William com a amante, interpretada por Daniela Escobar. Estes saltos no tempo são confusos
e fora de ordem cronológica. Cenas dentro do presídio são intercaladas com outras fora,
em épocas diferentes, e não fica claro exatamente qual a ligação entre elas. O filme
não precisaria ter sido feito em ordem cronológica, mas estes pulos temporais não têm
função alguma além de tentar dar ao filme um estilo 'moderno', não linear.

Para complicar, o ritmo é atrapalhado por uma narração teatral e panfletária de Daniel Oliveira,
que é redundante e desnecessária. Há também a personagem de uma jovem advogada (Branca
Messina) que vai à Ilha Grande entrevistar os presos e supostamente revelar abusos de
autoridade praticados pela direção do presídio, mas é também uma personagem perdida.
O filme lembra, em alguns momentos, o alemão O Grupo Baader Meinhof, que também mostrava
uma organização criminosa que agia, inicialmente, com fins políticos. Por fim, falta ao filme
explicar qual a importância de transformar a vida de William em filme. É o retrato de um
revolucionário? É a celebração de um bandido? Em que a criação do Comando Vermelho
mudou a história do Rio de Janeiro? Nenhuma destas questões é respondida satisfatoriamente
e o que sobra é um filme com estilo truncado, muita violência e pouco conteúdo.
Visto como convidado do III Festival Paulínia de Cinema
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para
jsolimeo@ig.com.br

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Sessões extras



MORANGOS SILVESTRES
Smultronstället/Wild Strawberries 1957 1h31min
de Ingmar Bergman com Victor Sjöström, Ingrid Thulin, Bibi Andersson, Max Von Sydow
CINEMA SÃO LUIZ | SESSÃO CINEMATECA | sexta, 20h e sábado, 10h

> Sinopse: Isaak Borg, médico e professor aposentado, viaja de Estocolmo até a Universidade
de Lund, em que lecionou, para receber um título honorífico pelos 50 anos de carreira.
Desde a véspera até a chegada em Lund, Borg é invadido por recordações do passado,
sonhos e memórias, conduzindo os seus pensamentos a mergulhar em seu inconsciente,
onde percebe que em toda a sua vida o seu temperamento foi áspero, distanciando-o
dos amigos e da família. Constatando a sua velhice e solidão a qual se encontra,
e a proximidade da morte, Issak repensa a sua vida no percurso de carro até Lund.

Um dos primeiros grandes sucessos de crítica de Ingmar Bergman. Foi um grande acerto
a escolha, para o papel central, de Victor Sjöström, famoso diretor do cinema mudo
que também fez carreira em Hollywood. Ele dá o tom certo ao personagem, nunca deixando
a história cair em qualquer sentimentalismo. Muito inovador na época pelo uso dos
flashbacks (pela primeira vez se fazia um personagem interagir com figuras de seu
passado) e pela famosa sequência de sonho inicial, com simbolismos bastante claros.
Excepcional fotografia em preto e branco e um elenco esplêndido, com atores favoritos
do diretor (reparem a ponta de Max Von Sydow num posto de gasolina), o título do filme
se refere aos morangos que eram colhidos silvestres na casa de verão de sua infância.
Morangos Silvestres recebeu Urso de Ouro Melhor Filme no Festival de Berlim 1958, Globo
de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original (1960).


O CASTELO ANIMADO
Hauru No Ugoku Shiro/Howl's Moving Castle Japão 2005 1h58min
animação dirigida por Hayao Miyazaki
CINEMA SÃO LUIZ | SESSÃO INFANTIL | domingo 08, 10h e 14h

> Sinopse: A jovem Sophie conhece o belo mágico Hauru e desperta o ciúme da Bruxa
das Terras Desoladas, que a transforma em uma velha. Buscando um modo de desfazer
o feitiço, acaba encontrando o castelo de Hauru, que mudava sempre de lugar.

O desenho animado é baseado no romance da escritora inglesa Diana Wynne Jones,
que foi aluna de J.R.R. Talkien, autor de O Senhor dos Anéis. Em O Castelo Animado,
Diana se volta contra a guerra e sentimentos como ciúme e o ódio, que geram infelicidade.
O castelo não se move apenas no espaço, mas também entre diversas dimensões,
criando uma ideia muito sofisticada de possibilidades de mundos diferentes.
Considerada a obra mais ocidentalizada de Hayao Miyazaki, O Castelo Animado
recebeu indicação ao Oscar de Melhor Animação e ganhou vários prêmios
importantes, incluindo o Urso de Ouro de Melhor Filme (desconsiderando ser uma
animação) no Festival de Veneza e prêmios de melhor animação pelos críticos
de Nova York, Los Angeles e San Diego e da Academia de Ficção Científica, Fantasia
e Horror dos EUA. Miyazaki é considerado um dos maiores animadores vivos, trabalhando
com animação tradicional, feita à mão, utilizado computação gráfica apenas em acabamento
e iluminação. Realizador de A Viagem de Chihiro, Oscar 2003 de Melhor Animação
e do novo Ponyo, atualmente em cartaz em algumas capitais do Brasil.
Obs. Apesar de estar na Sessão Infantil, O Castelo Animado tem uma complexidade
narrativa mais adequada para adultos. Classificação indicada para maiores de 10 anos.


PAI
Apa/Father - Diary of One Week Hungria 1966 1h35min
de Istvan Szabó com András Balint, Miklos Gabor, Daniel Erdely, Kati Sólyom
CINECLUBE DISSENSO | CINEMA DA FUNDAJ | sábado 07, 14h ENTRADA FRANCA

> Neste sábado 07 de agosto, às 14h, o Cineclube Dissenso exibe Pai de Istvan Szabó.
Vencedor do Grande Prêmio no Festival de Moscou, o filme é o segundo longa-metragem
do cineasta (reconhecido mundialmente por sucessos dos anos 80 como Mephisto
e Coronel Redl), em sua fase e estilo representantes do novo cinema húngaro.
Narra as memórias de um menino que sobrevive na Budapeste destruída pela Segunda
Guerra e que, mesmo crescido, esforça-se para descobrir mais da vida de seu pai, vítima
do conflito. A sessão contará, em sua abertura, com a exibição do curta experimental
Concerto (1963), do mesmo diretor. Depois da sessão, debate na sala Edmundo Morais.

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Kinemeiete(s) e Kinemeião de julho




> As Garotas de Tarantino foram as eleitas como as Kinemeietes de julho
com 48% dos votos do leitor. Em segundo lugar ficou Evan Rachel Wood com 24%,
em terceiro Maria Flor com 21% e por último Alice Braga com 7% do total de 75 votos.
Em foto da revista VANITY FAIR na época do lançamento de À Prova de Morte nos EUA (2007),
da esquerda para a direita: Sidney Tamiia Poitier, Marley Shelton, Rose McGowan, Jordan Ladd,
Vanessa Ferlito, Rosario Dawson, Tracie Thoms, Mary Elizabeth Winstead e Zoe Bell.
Na capa da RollingStone, saíram Rosario Dawson e Rose McGowan como Very Bad Girls,
em referência aos dois filmes Grindhouse: À Prova de Morte e Planeta Terror.
Rosario e Rose são as mais conhecidas da turma, mas vale notar que Zoe Bell (a garota que
fica perigosamente em cima do carro no final do filme) é dublê de verdade em Hollywood.



> Kurt Russell é o Kinemeião de julho, também pelo filme de Quentin Tarantino.
com 39% dos votos do leitor. Em segundo lugar ficou Kristen Stewart (?!) com 27% dos votos,
em terceiro Caio Blat com 19% e por fim, Adrien Brody com 15% do total de 67 votos.
Na foto, como o lendário Snake Plissken de Fuga de Nova York (1981) e Fuga de Los Angeles (1996),
ambos de John Carpenter, que ainda realizou com Kurt o ótimo O Enigma do Outro Mundo (The Thing,
1982) e o clássico da Sessão da Tarde Os Aventureiros do Bairro Proibido (Big Trouble in Little China,
1986). Astro na Hollywood dos anos 80, Kurt Russell, nascido em 1951, começou ainda criança participando
de séries de TV como O Pimentinha (1962), Perdidos no Espaço (1966) e Daniel Boone (1969)
e já adulto em Gunsmoke (1974), Havaí 5-0 (1977) e As Panteras (1978). Além dos seus melhores
filmes feitos com o diretor John Carpenter, também esteve em Silkwood, Tombstone, Conspiração
Tequila
, Tango & Cash, Soldado do Futuro, Poseidon e fez a voz de Elvis Presley em Forrest Gump.


Dica de DVD do leitor: FARGO

por Pedro Henrique

> Que os irmãos Coen são dois loucos talentosos isso ninguém duvida!
Desde que eles mostraram para o qual vieram ao mundo no Festival
de Sundance de 1984 com Gosto de Sangue (Blood Simple), o cinema
independente norte-americano nunca mais seria o mesmo. Aproveitando
a bemvinda estreia de Um Homem Sério no Cinema São Luiz, vale lembrar
que quando lançaram Fargo (EUA, 1996), o seu filme mais conhecido depois
de Onde Os Fracos Não Tem Vez, Ethan e Joel Coen já acumulavam reconhecimento
e prêmios importantes do cinema, como a Palma de Ouro em Cannes para Barton Fink.

Em Fargo, existe um misto de suspense policial e comédia de situações com
pitadas de humor negro. Os diálogos também são um ponto forte da obra, junto
com o brilhante trabalho de edição de 'Roderick Jaynes' (pseudônimo para os
próprios Coen, que montam eles mesmos alguns de seus filmes) e as excelentes
interpretações do elenco. No filme, pura ficção mas com cartela de texto no início
informando o famigerado 'baseado em uma história real', a trama se desenrola
a partir do momento em que Jerry (William H. Macy), um falido vendedor
de automóveis, bola um plano junto com dois sujeitos (Peter Stormare e Steve
Buscemi) para seqüestrarem a sua própria esposa Jean. Jerry possui um sogro
que vive literalmente montado na grana e não o ajuda a financiar um projeto.
Daí a ideia de se realizar o seqüestro, para que o pai de Jean possa pagar
o resgate e Jerry embolsar a grana. Porém, como era de se esperar, nem tudo
sai como o planejado - três pessoas acabam sendo assassinadas (em sequências
memoráveis, por sinal). É então que entra a personagem da policial grávida
Marge Gunderson (Frances McDormand impecável e vencedora do Oscar de melhor
atriz por esse papel), que passa a investigar as mortes que ocorrem na cidade.

E é justamente aí onde o filme começa a ganhar forças. À medida que as investigações
vão prosseguindo, Jerry se vê ainda mais encurralado e precisa pensar numa maneira
de sair dessa. Seu sogro decide fazer a entrega do dinheiro do resgate para um dos
seqüestradores. E a coisa fica acaba ficando ainda mais complicada, resultando em mais
uma morte. Fargo levanta muito bem a questão da moral, que pode ser terrivelmente
manchada pelo lado negro da natureza humana. Mas consegue ser bastante divertido,
mesmo que o seu tipo de humor seja bem restrito para certos gostos, com tudo bem
costurado com muita simplicidade e eficiência. Não foi à toa que o filme levou duas
estatuetas da Acadêmia em 1997, sendo elas nas categorias de melhor roteiro original
(dos Coen, claro!) e melhor atriz para Frances Mcdormand. E ainda sendo
indicado em mais cinco categorias, entre elas melhor filme, direção e montagem.
Fargo pode e deve ser considerado, um dos grandes e melhores filmes dos anos 90.
Pedro Henrique | phmmts@hotmail.com


Especial revistas de agosto - Parte 2


> Concluimos a matéria da semana passada com duas indicações de revistas de cinema.
Esqueça as revistas de cinema com badalação de ídolos teen e cobertura de blockbusters,
pois aqui estamos falando de duas boas publicações estrangeiras direcionadas a quem
trabalha ou estuda na área audiovisual ou para cinéfilos com carteirinha de louco por cinema.

A Cinemascope, com apenas quatro edições anuais, é uma das mais respeitadas
publicações atuais sobre cinema. Editada por críticos e escritores americanos,
o conteúdo é norteado para críticas aprofundadas, reportagens, cobertura
de festivais de cinema, entrevistas e ensaios que discutem cinema num nível
apaixonado e profissional de cinefilia. Entre as quatro edições anuais,
uma sempre cobre o Festival de Cannes. Na última edição, o destaque de capa
foi para Apichatpong Weerasethakul, o tailandês que conquistou a Palma
de Ouro Cannes 2010 com Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives.

Já a MovieScope tem seis edições anuais e se autodefine pelo slogan Escrita
por cineastas, para cineastas
. De conteúdo ainda mais direcionado para profissionais
do ramo, a editoria prima pela informação técnica precisa, indicações de equipamentos,
reportagens sobre bastidores, edição, produção e finalização de filmes, tudo escrito
por jornalistas e colaboradores profissionais de cinema do mundo inteiro, cobrindo
o cinema feito em Hollywood, mas também o cinema europeu e filmes independentes.

A assinatura destas revistas em formato digital e impresso está disponível em www.zinio.com
Fernando Vasconcelos | 05.08.2010


À Prova de Morte no Cinema da Fundação


> Era 22h do dia 15 de dezembro de 2007 quando o Cinema da Fundação exibiu dentro
da Mostra Expectativa 2008 o filme À Prova de Morte, de Quentin Tarantino (ainda sob
a distribuição da Europa Filmes). Os espectadores que lotaram a sala naquela noite
nunca mais esqueceram daquela sessão. Na ocasião, o cinema divulgou a seguinte sinopse:

'A perfeita última sessão da noite, esta releitura sensacional dos filmes de gênero
dos anos 1970 vem pelas mãos de um dos mais hábeis autores da cinematografia atual.
Claramente dividido em duas partes, o filme apresenta dois grupos de mulheres,
ambos perseguidos pelo ex-dublê de filmes de ação StuntMan Mike, um matador
que utiliza seu carro reforçado como arma. Mesclando o absurdo com o espetacular,
Quentin Tarantino faz um filme incomum que se movimenta como poucos.'

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