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ANO DEZ Edição 501

Vincere, Karate Kid, Chambon e Cabiria

> Destaque da semana é a estreia de Vincere de Marco Bellocchio
no Cinema da Fundação, cinema italiano de primeira qualidade. O melhor
do cinema italiano é destaque também nas duas últimas exibições na Sessão Cinemateca do Cinema São Luiz para Noites de Cabiria de Federico Fellini.

O público infanto-juvenil tem bom programa no remake de Karate Kid,
agora ambientado na China e estrelado pelo filho de Will Smith, Jaden
e nas pré-estreias para O Pequeno Nicolau, adaptação de quadrinhos
franceses do mesmo autor de Asterix. Passadas as férias, o Cine Rosa
e Silva retoma a programação selecionada da sala 3, com o drama francês
Mademoiselle Chambon. Estreia comédia romântica Par Perfeito
e A Jovem Rainha Vitória continua no Rosa e Silva e nos multiplexes.
O Cinema São Luiz relança Educação, indicado ao Oscar de melhor
filme, e continua com Toy Story 3 nas Sessões Infantis aos domingos.

Confira Barry Lyndon em indicação do leitor em DVD, assista um
raro filme Super 8mm sobre David Lynch e veja as Revistas do Mês.
Assista, opine, participe, comente para fernando@kinemail.com.br

DICAS DE CINÉFILO Filipe Marcena comenta Um Pequeno Romance,
do diretor George Roy Hill (Butch Cassidy & The Sundance Kid). AQUI

LEITOR VIP Convites para Karate Kid e Mademoiselle Chambon AQUI








Greg Mottola | EUA | 2011
LEIA AQUI




VINCERE
Vincere Italia 2009 2h08min
de Marco Bellocchio com Giovanna Mezzogiorno, Filippo Timi, Michela Cescon

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO Marco Bellocchio é um diretor italiano que impressionou a crítica em 1965,
aos 26 anos, com o filme De Punhos Cerrados, um ataque feroz à vida burguesa.
Os temas que movem o cinema rebelde de Bellocchio são a política, o sexo, o estado
das coisas na vida moderna. Muito antes que virasse moda, Bellocchio causou sensação
em 1986 ao incluir uma felação explícita em O Diabo no Corpo, uma releitura do cinema
noir, sob a ótica da psicanálise. Em 2003, fez uma revisão crítica vigorosa das ações
da esquerda política nos anos 70, no ótimo Bom Dia, Noite. Agora em 2009, já aos
70 anos, Bellocchio continua jovem e malcriado num épico muito pessoal, com
seu olhar instigante sobre o poder, o fascimo, a direita, a Igreja e outras camadas
da História, narrando a história do ditador italiano Benito Mussolini a partir
de sua amante Ida Dasler e seu filho bastardo. A princípio, temos aqui o clichê
do drama histórico, 'filme de época', esse rótulo que cabe a filmes inócuos
e cosméticos como A Jovem Rainha Vitória, também em cartaz aqui no Recife.
Pois Bellocchio oferece exatamente o oposto. Vincere é um filme cheio de energia,
momentos de pura poesial visual, homenagem à força do cinema mudo, um melodrama
genuinamente italiano, um espetáculo de atuação dos protagonistas Giovanna Mezzogiorno
e Filippo Timi, um achado em raras imagens de arquivo de guerra, com um Mussolini
assustador, traduzindo em imagens porque a Itália se curvou ao fascismo e apoiou
o Terceiro Reich na Segunda Guerra Mundial. Não se fazem mais filmes assim.

Alguns comentaristas observam a crítica política em Vincere como muito atual,
numa metáfora da Itália de Silvio Bercusloni. Rico em camadas de leituras, Vincere
pode ser visto assim também. Mas acredito que o filme tem um escopo maior,
mais amplo, ao falar de poder, loucura e, sim, amor (ou tesão, sexo, dito de forma
mais adulta). No início somos apresentados ao jovem comunista Mussolini desafiando
a existência de Deus, em inflamado discurso a favor da classe trabalhadora,
sob o olhar apaixonado da jovem Ida Dalser, que não hesita em vender tudo
o que possui para ajudar seu amante a fundar um pequeno jornal, às vesperas
de estourar a Primeira Guerra Mundial. Ida engravida. Mussolini casa com outra
mulher e renega Ida e seu filho. Logo, rumo à Segunda Guerra Mundial, Mussolini
adere ao nacionalismo militar, em conchavo com a Igreja Católica. Isso é a narrativa
histórica dos fatos, mas Bellocchio, cineasta de primeira grandeza, transforma
a História num épico com elementos de teatro, ópera, letreiros retrô, num filme que usa
imagens de outros filmes e documentários de guerra como pouco se vê, integrados à narrativa
de forma dramática devastadora, alcançando um resultado vigorosamente cinematográfico.

A partir da metade, afastada violentamente de Mussolini, Ida é internada num hospício
onde é proibida de ver o filho e passa a viver no limite da loucura, com a ideia fixa
de ser reconhecida como a esposa de Mussolini que, num efeito puramente cinematográfico,
passa a ser mostrado apenas em filmes do verdadeiro Mussolini, saindo de cena o ator
Filippo Timi, um recurso genial, que amplifica o sentido da palavra projeção. Muito bom isso.
Aparentemente agora um melodrama típico sobre uma pessoa sã internada num hospício,
tão já visto no cinema americano, novamente Bellocchio revela-se desconcertante:
Ida Dalser projeta-se como um duplo de Mussolini, o que explica sua paixão no ínicio
e obsessão rumo ao final, quando, num desses grandes e raros momentos do cinema
atual, a câmera registra sua satisfação ao ser reconhecida como vítima por uma
multidão, numa cena que remete ao Mussolini sendo aclamado pelos italianos
embriagados pela imagem poderosa do seu líder fascista. Medo, muito medo.
Poder, política, sexo e loucura, sob um olhar adulto e profundamente crítico de um
cineasta a observar as contradições da História e do ser humano tornam Vincere
um daqueles filmes que não se pode deixar de ver. Cinema com letras maiúsculas.
Visto em 21/08 como convidado do Cinema da Fundação
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para
fernando@kinemail.com.br


KARATÊ KID
The Karate Kid EUA 2010 2h20min
de Harald Zwart com Jaden Smith, Jackie Chan, Taraji P. Henson

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO O filme original é um daqueles sucessos pop com a cara dos anos 80.
Na Hollywood atual, a cara do cinema é fazer remakes. Nem precisa dizer que esse
aqui é desnecessário, mas o novo Karatê Kid chega a ser simpático, se comparado
ao que é oferecido atualmente ao público infanto-juvenil. No caso, mais direcionado
para o público infantil, para ver com toda a família. Família é a palavra-chave
aqui. O filme é estrelado pelo pirralho Jaden Smith, filho de um dos mais bem
sucedidos empresários de cinema em Hollywood, o ator Will Smith. Smith e a esposa
Jada Pinkett Smith estão entre os produtores e com muito profissionalismo executaram
um produto perfeito para o filhote garantir muitos milhões de dólares para o patrimônio
familiar. Karatê Kid, assim, chove no molhado, repete o filme original passo a passo,
embora seja ambientado agora na China (outro acerto de marketing mundial,
para o mercado da nova potência do Oriente). Não falta a música tema cantada por
Justin Bieber. Lady Gaga, Gorillaz e o próprio Jaden Smith também estão na trilha
sonora. De forma que, sem grandes novidades, o filme foi a surpresa das bilheterias
ianques das férias, agradando em cheio com sua fórmula pronta para o sucesso.
Ah, vale citar que karatê agora é só branding, já que nessa nova versão
a luta marcial é o kung-fu, cujos ensinamentos filosóficos são ilustrados
em belas cenas cartão postal turístico, com direito até a Muralha da China.

Há de se reconhecer que o garoto tem carisma e ganha a plateia, logo de início.
Mas o centro dramático do filme está em Jackie Chan, fora do registro cômico,
revelando-se um ator bem decente. Outro ponto que diferencia o filme da média
é a lentidão narrativa, esticando a historinha para inacreditáveis 2 horas
e 20 minutos de duração. Pode deixar os pirralhos impacientes, mas acaba
sendo um diferencial positivo, pois o filme não precisa de narração em off
nem diálogos explicativos (uma praga que domina os roteiros atuais) e constrói
a historinha corretamente, com a ação e o andamento da trama fluindo com diálogos
mais naturais que a média. Se servir para mostrar aos jovens espectadores
como se pode contar uma historinha à moda antiga, o filme já está no lucro.

A destacar ainda o pirralho chinês do Mal, Cheng (Zhenwei Wang) que enfrentará
nosso herói mirim no previsível torneio de luta final. Como diz o mestre Jackie
Chan, não existe aluno ruim, o que existem são professores ruins (o Mal, assim,
é representado pelo professor adulto, o grande vilão). O filme original teve duas
continuações. Se depender do sucesso deste, Jaden Smith vai crescer fazendo as novas
continuações e tornando-se mais um adolescente milionário de Hollywood. Papai sabe tudo.
Visto em 24/08 como convidado da UCI Cinemas | Columbia Pictures
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fernando@kinemail.com.br


MADEMOISELLE CHAMBON
Mademoiselle Chambon França 2009 1h41min
de Stéphane Brizé com Vincent Lindon, Sandrine Kimberlain, Aure Atika

por Felipe Silva

OPINIÃO Desde que o cinema francês se entende por gênero, o tema da infidelidade já foi
revisado de tantas maneiras quanto possíveis. Seja troca de favores, homossexualidade,
repressão social, tudo já foi pretexto para que os diretores franceses criassem suas
histórias de casais que procuram um escape na cama do vizinho. Esse é um dos motivos
para Mademoiselle Chambon não ter muitos atrativos. A fórmula já está gasta há bastante tempo.
Na trama somos apresentados a Jean, sua esposa Anne-Marie e seu filho, numa cena divertida
em que os três tentam fazer a lição de francês do garoto, mas ficam emperrados por definições
gramaticais. A sensação primeira é de que o filme poderia ser um drama leve, mas não é bem assim.
Jean trabalha como pedreiro, e ao ser convidado para falar no colégio de seu filho sobre sua
profissão, cria uma ligação muito sutil com a professora do garoto, Véronique Chambon,
a mademoiselle do título. Durante um conserto de uma janela na casa da professora, os dois
são envolvidos pela melodia do violino que escutam e Jean acaba por beijar a mulher, que
corresponde ávida, e a partir daí se mantêm uma tensão gélida a cada encontro dos dois.
É meio difícil crer num pedreiro com tamanha sensibilidade e numa professora sem o menor
senso ético; e essa é das leves derrapadas que fazem o filme não conseguir o que almejava.

Não há problema com os atores, já que Vincent Lindon (do recente Bem-Vindo) e Sandrine
Kiberlain são bastante eficientes, sendo curioso o fato de já terem sido casados na vida real.
Todos os coadjuvantes conseguem acompanhar o nível, especialmente nas cenas em família;
mas o roteiro não auxilia nesse esforço. Escrito pelo diretor Stéphane Brizé, o texto é muito
recortado, com silêncios e tempos mortos desnecessários. Por fim, o filme é desagradavelmente
parecido com Partir, de Yvan Attal, que trata exatamente da mesma situação, com Kristin Scott
Thomas e Sergi Lopez. No caso de Partir, a mulher é quem trai o marido com, vejam só, um pedreiro.
De qualquer forma, Mademoiselle Chambon tem público certo nas espectadoras adultas, e pode
ser um programa interessante para aqueles que fogem dos dramas manjados e coloridos que
o cinema americano tem fabricado. É um filme completamente francês, seja isso bom ou ruim.
Visto em 25/08 como convidado do Cine Rosa e Silva
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para
f_andre2@hotmail.com

A JOVEM RAINHA VITÓRIA
The Young Victoria Inglaterra/EUA 2009 1h45min
de Jean-Marc Vallée com Emily Blunt, Rupert Friend, Paul Bettany, Miranda Richardson

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO Mais um filme chapa branca do gênero 'drama de época', A Jovem Rainha
Vitória
conta, com ares de filme de encomenda para a realeza britânica, a história
dos primeiros anos da Rainha Vitória (1819-1901), que assumiu o trono da Inglaterra
com apenas 18 anos, já casada com o tímido Príncipe Albert, que ela escolheu por
amor, apesar da pressão das tramoias políticas e familiares por um casamente arranjado.
Isso está nos letreiros iniciais e finais do filme. Já o filme em si, equilibra-se entre
uma vistosa direção de arte, figurino e fotografia primorosos e um roteiro insosso,
burocrático, que consegue fazer até a ótima Emily Blunt ficar apagada, como
a protagonista. Grandes nomes como Paul Bettany, Miranda Richardson e Jim Broadbent
batem ponto com atuações corretas, mas esquecíveis. Cabe ao ambicioso vilão
interpretado, mais uma vez, por Mark Strong (Sherlock Holmes, Robin Hood, Kick-Ass)
um personagem mais interessante, embora saia logo de cena. Bem realizado mas
nem um pouco envolvente, com uma trama cansada e sem muito vigor, o filme
arrasta-se até um fato surpreendente, perto do final, que unirá os corações
de Vitória & Albert num longo casamento e reinado feliz. God Save The Queen.
Visto em 22/08 como convidado do Cine Rosa e Silva
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para
fernando@kinemail.com.br

PAR PERFEITO
Killers EUA 2010 1h40min
de Robert Luketic com Katherine Heigl, Ashton Kutcher, Catherine O'Hara

> Sinopse: Jen (Katherine Heigl), conhece o homem perfeito. Seu nome é Spencer
(Ashton Kutcher), ele é bonitão, educado e inteligente. Mas o que Jen não sabe é que
Spencer ganha a vida como matador de aluguel, contratado pelo governo. Eles vivem
o casamento dos sonhos até que em uma bela manhã, o casal descobre que Spencer
é o alvo de um golpe milionário. O que parecia ser um Par Perfeito transforma -se
num jogo de vida ou morte, enquanto eles tentam lidar com os sogros e sobreviver.

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Sessões extras



SESSÃO SURPRESA
CINECLUBE DISSENSO | CINEMA DA FUNDAJ | sábado 28, 14h ENTRADA FRANCA

> O Cineclube Dissenso exibe neste sábado 28/08 às 14h, mais uma SESSÃO SURPRESA,
como sempre no último sábado do mês. Como sempre também, a única dica do filme
está no flyer acima. O objetivo é brincar com a expectativa do público e permitir uma
experiência rara hoje em dia: ver um filme com o mínimo de informação prévia possível.


SESSÃO CINECABEÇA
CINEMA SÃO LUIZ | sábado 28, 14h | Exibição em DVD e 35 mm ENTRADA FRANCA

> A Federação Pernambucana de Cineclubes – FEPEC traz para o CineCabeça deste
sábado 28 uma sessão recheada de documentários e sons pernambucanos. Na programação
estão os curtas Do Morro?, Fuloresta do Samba, O Mundo é uma Cabeça e Tebei.
Após a exibição, bate papo com a presença de Paloma Granjeiro, Rafael Montenegro
e outros convidados. Excepcionalmente, haverá projeção em 35mm de dois dos curtas.
Mais informações em www.fepec.blogspot.com

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Dica de DVD do leitor: BARRY LYNDON

por Pedro Henrique

> Em 1971, Stanley Kubrick amargou por ver Laranja Mecânica ser banido dos cinemas
da Inglaterra e de alguns países da Europa dada à polêmica do filme ser baseado
na distopia homônima de Anthony Burgess, causando uma grande celeuma
na sociedade inglesa dos anos 60, pelo seu conteúdo de extrema violência.
Quatro anos depois, Kubrick viria a realizar mais uma adaptação para as telas
de outro romancista inglês chamado William Makepeace Thackeray: Barry Lyndon
(Barry Lyndon, Inglaterra, 1975), que conta a história de Redmond Barry (Ryan O’Neal),
um jovem arrogante da sociedade irlandesa que tem uma grande paixão pela prima
a qual se encontra comprometida com um capitão. Redmond então trava um duelo com
o capitão, que acaba sendo morto. O protagonista então é obrigado a fugir para tentar
sobreviver, chegando a ingressar no exército britânico. Desse ponto em diante, vamos
acompanhando a transformação de personalidade de Redmond. Kubrick adotou um tipo
de narrativa muito lenta, humana: um verdadeiro truque para que não sejam sentidas
bruscamente as mudanças do personagem. Em alguns momentos, ele se mostra um verdadeiro
crápula, mas com outras qualidades em outros aspectos. Kubrick teve a brilhante ideia
de escalar os atores Ryan O’Neal e Marisa Berenson como protoganistas. Recém saído
do sucesso Love Story, O’Neal era um dos maiores galãs hollywoodianos. Pena que,
mesmo revelado bom ator por Kubrick, O’ Neal caiu logo depois no ostracismo.

Já Marisa Berenson, vinha de uma fama como modelo nos anos 60, tendo feito também
uma breve carreira como atriz nos anos 70, atuando em filmes como Morte em Veneza
de Luchino Visconti. Na parte técnica, o filme já é uma grande atração. Kubrick
sempre foi um diretor muito ousado para a sua época. E sua ousadia não tinha limites:
boa parte do figurino do filme é composta de roupas feitas há 200 anos; para capturar
com perfeição a atmosfera das pinturas do século XVIII, Kubrick foi capaz de encomendar
à NASA lentes especiais para captar cenas noturnas apenas com luz de velas, não usando
assim qualquer tipo de luz artificial mesmo para as tomadas externas durante o dia.
Esse brilhante trabalho de fotografia rendeu a John Alcott um Oscar e o filme recebeu
mais três estatuetas da Academia, ainda sendo indicado nas categorias de melhor
filme, diretor e roteiro adaptado. Na época do seu lançamento, Barry Lyndon não
foi um sucesso comercial e é até hoje o filme menos conhecido de Stanley Kubrick.
Mas é de longe, na minha opinião, o melhor de toda a sua obra de alta qualidade.
Pedro Henrique | phmmts@hotmail.com


A Hollywood feliz de David Lynch

> No atual estado de pobreza artística de Hollywood, um diretor como David Lynch pena
para conseguir produzir seus filmes, praticamente banidos para distribuição comercial.
Inland Empire - O Império dos Sonhos (2006) e Mulholland Drive - A Cidade dos Sonhos
(2001) foram vistos apenas nos circuitos menores, dois filmes 'difíceis' demais para as plateias
atuais, cuja compreensão de 'filmes sobre sonhos' é algo, no máximo, como Inception - A Origem.
Hoje, Lynch dedica-se a produções experimentais e exercícios em vídeo digital, aparentemente
tendo desistido de vez do formato 'filme de Hollywood para multiplexes', onde seu trabalho
não tem mais espaço. Mas nem sempre foi assim. Após o bizzaro Eraserhead (1976), Lynch
ganhou carta branca para realizar um 'filme grande' em Hollywood, O Homem Elefante (1980),
sucesso de crítica e público, realizado em preto e branco e indicado a 8 Oscar, incluindo
filme e direção para o jovem David Lynch, então com 34 anos. O filme não ganhou nenhuma
estatueta, mas seu prestígio na terra do cinema abriu as portas para David Lynch torrar muitos
milhões numa ambiciosa adaptação do best-seller de ficção científica Duna (1984), um épico
com pretensões de ser um Guerra nas Estrelas lisérgico, para adultos. Realizado antes
da era dos efeitos especiais digitais, Duna tinha cenários gigantescos e um sofisticado padrão
de efeitos especiais mecânicos, miniaturas e maquiagem, num trabalho que, apesar de parecer
ridículo diante dos efeitos CGI atuais, resultou em um visual belíssimo, único e inesquecível.

O filme abaixo, realizado em Super 8 mm pela atriz Sean Young, revela com nostalgia
o alto astral que foram os bastidores da produção de Duna. Dá até saudade dos anos 80 :)



Duna foi um fracasso retumbante de crítica e público, mas não enterrou a carreira de David Lynch.
Pelo contrário, logo depois ele se recuperaria com Veludo Azul (1986) e Coração Selvagem (1990),
dois cults do final dos anos 80 que hoje, talvez, não encontrariam público. Foi também o início
da 'série de todas as séries de TV', o marco Twin Peaks. Quem matou Laura Palmer? foi o bordão
que marcou o início dos anos 90. Em 1997, Lynch dava um passo a frente com o entorta-neurônio
A Estrada Perdida, um dos filmes mais ousados e enigmáticos do cinema contemporâneo.
Em 1999, ele realizaria seu filme mais acessível ao grande público, mas ainda um filme estranho,
belo de uma forma bem particular, A História Real. Chegamos a Mulholland Drive - A Cidade
dos Sonhos
(2001) e, voltando ao início do texto, não há mesmo mais espaço, no cinema medíocre
feito para as plateias atuais, para os filmes de David Lynch. Como os tempos mudaram.
Fernando Vasconcelos | 25.08.2010

Revistas de setembro

> Revistas bacanas do mês de setembro, com links para os sites oficiais:

www.moviescopemag.com

www.rolingstone.com

www.playboy.com

www.wired.com

www.esquire.com

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