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Kinemail Edição 573

Bicicleta, Sherlock, Escuridão e 50%

> Enfim, estreia no Recife um dos mais belos filmes de 2011, Prêmio
do Júri no Festival de Cannes, O Garoto da Bicicleta, dos irmãos belgas
Jean-Pierre e Luc Dardenne
. Estreiam também Sherlock Holmes - O Jogo
de Sombras
, a aventura sci-fi em 3D A Hora da Escuridão e temos
pré-estreias para As Aventuras de Tintim, animação de Steven Spielberg, enquanto o seu outro filme de 2011, Cavalo de Guerra, permanece
em cartaz. Nas sessões extras dos multiplexes, Borboletas Negras
e A Pele Que Habito. O Cinema da Fundação continua com As Canções
de Eduardo Coutinho. No Cinema São Luiz, o drama A Condenação.

DICAS DE CINÉFILO Filipe Marcena comenta 50%, com Joseph
Gordon-Levitt e Seth Rogen, lançado no Brasil direto em DVD LEIA AQUI

LEITOR VIP Ganhe convites e brindes de Alvin e os Esquilos 3,
Sherlock Holmes - O Jogo de Sombras e A Hora da Escuridão AQUI

aaaaa






John M. McDonagh | Irlanda | 2011
LEIA AQUI





O GAROTO DA BICICLETA
Le Gamin au Vélo Bel/Ita/Fra 2011 1h27min
de Jean-Pierre e Luc Dardenne com Cecile de France, Thomas Doret, Jérémie Renier

por Filipe Marcena

OPINIÃO Bom ver os irmãos Dardenne se arriscando. Agora os belgas decidiram correr
com a câmera atrás de um personagem com grande potencial para virar marionete
de melodrama novelesco e choroso, no caso, um menino abandonado pelo pai e louco
por sua bicicleta desaparecida. Mas estamos falando dos Dardenne, e o estilo seco e direto
dos cineastas continua lá, só que eles encontraram belas maneiras de aproximar o espectador
e emocioná-lo, sem jamais forçar a barra ou destoar da estética comum a eles. O Garoto
da Bicicleta
deve muito ao menino Thomas Doret, que em seu primeiro filme se apresenta
como um ator incrivelmente seguro e talentoso, mesmo sob a pressão de ser protagonista
e aparecer em 95% das cenas. Seu personagem é Cyril, rapazinho decidido e solitário
que segue em busca do pai (Jérémie Rennier), que o abandonou. Sua bicicleta,
peça que também se torna uma motivação de vida, está sumida junto com o pai.
Com a chegada da cabeleireira Samantha (Cécile de France, ótima) na vida de Cyril,
o menino começa a repensar seus sentimentos de frustração e solidão.

O Garoto da Bicicleta
possui ares singelos, mas uma estrutura de montanha-russa. Difícil
é ficar indiferente às situações. Às vezes é a tensão, às vezes a doçura, às vezes a compaixão,
sempre tem algo que nos deixa vidrados, intimidados, como só os belgas sabem nos deixar.
É o filme mais acessível da dupla, aqui eles falam pra um público amplo, evitando serem
herméticos. Se apostar numa verve mais popular nesse momento da carreira foi ou não
uma boa decisão só o tempo dirá, embora vê-los lidar com sentimentos mais comuns
e de fácil identificação tenha me proporcionado uma doce surpresa que eu gostaria que fosse
experimentada por mais pessoas. Na crítica contra a maneira hipócrita com que a sociedade
lida com os menos favorecidos e excluídos (e estamos falando da Bélgica), os irmãos Dardenne
criaram um filme cheio de amor e compreensão. O calor humano exala da tela.

Visto em 17/12/2011 como convidado do Cinema da Fundação
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para
filipeap1988@hotmail.com



SHERLOCK HOLMES - O JOGO DE SOMBRAS
Sherlock Holmes - A Game of Shadows EUA 2011 2h08min
de Guy Ritchie com Robert Downey Jr, Jude Law, Noomi Rapace, Rachel McAdams

por Felipe André

OPINIÃO
Não consigo lembrar com clareza do primeiro Sherlock Holmes, ou mesmo
se vi o filme. A releitura pop dos textos de Sir Arthur Conan Doyle criada por Guy Ritchie
sempre me pareceu tão plana e aborrecida que provavelmente o filme passou batido
pelos meus olhos quando o assisti. De qualquer maneira, as opiniões sobre aquele primeiro
volume da trilogia pretendida pelo diretor se tornam brandas, se comparadas com este
insuportável Sherlock Holmes - O Jogo de Sombras. Muito aplaudido - e também
criticado - por ter transformado o clássico detetive numa figura cheia de humor ácido
que não tem medo de enfrentar uma boa briga, Ritchie agora triplica o tom desse
registro, e faz de Holmes uma espécie de super-herói. As sequências em que o personagem
calcula todos os passos de seus inimigos, segundos à frente dos mesmos, beiram o ridículo
e parecem apenas querer emular truques que o diretor utilizava em seus próprios filmes
de ação como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch – Porcos e Diamantes.

Em uma sequência de perseguição numa floresta, o uso de câmera lenta apenas para
espetacularizar as centenas de tiros disparados contra os protagonistas ricocheteando
e explodindo de encontro a árvores secas, é a prova concreta de que este aqui nunca
tentou perpassar a barreira da diversão vazia e ser um filme realmente interessante.
Downey Jr faz o que pode para manter seu Sherlock Holmes num nível Jack Sparrow
de loucura, sempre parecendo estar bêbado, mas o roteiro dos irmãos Michele e Kieran
Mulroney não faz jus a seu próprio personagem, mudando o tom e as intenções de Holmes
a cada segundo. Não me espantaria que no meio da projeção o próprio detetive parasse
no meio da tela e gritasse “Para onde vamos agora?” tamanha é a confusão da trama
de espionagem que jamais chega a empolgar, já que o vilão expõe suas intenções desde
os minutos iniciais do filme. No mais, apesar do "bromance" com o parceiro Watson (Jude Law),
este é um filme das mulheres: Rachel McAdams, Noomi Rapace e Kelly Reilly são as peças
mais vivas e interessantes de um produto que, acredito eu, não conquistará o público.
Visto em 10/01 como convidado da Warner Bros/UCI Kinoplex
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para
f_andre2@hotmail.com



A HORA DA ESCURIDÃO
The Darkest Hour EUA 2011 1h29min
de Chris Gorak com Emile Hirsch, Max Minghella, Olivia Thrilby, Rachel Taylor, Joel Kinnaman

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO
Como trazer alguma novidade para filme sobre ataque de alienígenas?
Vamos filmar em Moscou! Vamos filmar em 3D! Hummm.... má ideia. A Hora
da Escuridão
é um filme de horror, aventura e sci-fi que tem a seu favor
a total despretensão, assumindo-se uma boba Sessão da Tarde sem qualquer
efeito colateral. Mesmo assim, o filme erra em quase todos os níveis.
Talvez nas mãos de um mestre do cinema B (John Carpenter, por exemplo),
a coisa ficasse realmente divertida, mas dirigido pelo desconhecido
Chris Gorak, o filme é um pastiche que começa à Premonição num avião,
para apresentar dois protagonistas insossos (um feito e tanto, já que,
a príncipio, Emile Hirsch e Max Minghella são dois bons atores da nova
geração) chegando a Moscou para negócios de internet (à A Rede Social?)
onde logo serão enganados pelo rival vilão russo (Joel Kinnaman, sueco).

Largados na Moscou moderna e cosmopolita, entre anúncios de Pepsi e McDonalds
do leste europeu, nossos rapazes vão parar numa boate da moda, onde estão duas
garotas americanas de passagem em férias, uma loira e uma morena (adivinha qual
vai morrer?). Enfim, Moscou é invadida por estranhas entidades elétricas meio
invisíveis (um desafio pra se tornar algo interessante em 3D...) e a primeira sequência
de ataque, onde humanos são pulverizados instantaneamente, no melhor estilo
quadrinhos, é o que o filme tem de melhor. Apavorado, nosso grupo de cinco
personagens dolorosamente desinteressantes esconde-se por dias num porão,
para sair em busca de ajuda à Extermínio, trocando Londres e zumbis por Moscou
e alienígenas. O que se segue é um show de diálogos ruins (tão ruins que até
divertem), fugas e perseguições com rombos de lógica e uma coleção de russos
sobreviventes (cientista maluco, militares patrióticos, garotinha loira esperta)
que estariam melhor numa comédia. Algumas mortes pelo caminho - que você
não liga a mínima - e uma saída do apocalipse através de submarinos nucleares
(é sério!) completam a brincadeira, que dura intermináveis hora e meia.
Para quem vai ver em 3D, vale notar que o efeito é bem usado espacialmente,
com boa profundidade e imagem clara, nas locações abertas em Moscou. Mas não
espere maiores emoções ou surpresas com o efeito visual, pois não existem.
Visto em 11/01 como convidado da Fox Filmes/UCI Kinoplex
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para
fernando@kinemail.com.br


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Crônicas cinéfilas, opinião, cartas do leitor etc


Sobre Guerra e Canções

> Cavalo de Guerra certamente tem um uso interessante dos recursos visuais, como
a iluminação propositalmente fake, os closes extremamente tradicionais (rosto inteiro),
tudo como no cinema clássico. É um exercício estético de Spielberg, muito bem executado,
é verdade, mas que não vai muito além disso, principalmente porque o roteiro, apesar
de se passar na Inglaterra, é mais uma história de vencedor, de superação e tal, com
a ingenuidade (e maniqueísmo) dos filmes antigos. Como apreciador de filmes de guerra,
tive um prazer extra que foi ver mais cenas de batalha filmadas por Spielberg — e ninguém
filma a guerra como ele. É um bom filme, mas como entretenimento que se propõe a ser,
não tenho dúvida que vai acabar virando um grande sucesso da Sessão da Tarde.

Sobre As Canções, achei um bom filme. Eduardo Coutinho dá espaço para seus convidados
e deixa eles reinarem na tela. Mas talvez aí esteja o problema: ele está ausente demais.
Senti falta do traço de autoria dele. Não consigo deixar de comparar com Jogo de Cena,
em que pra mim ele mostrou todo o seu poderio como diretor e criador em cima do que
ele mais gosta de trabalhar, que são as pessoas, tanto na forma do documentário (inovadora)
como no conteúdo (a discussão do que é o ator, a pessoa e o personagem). Este As Canções
acaba deixando um certo gosto de mais-do-mesmo. É como Edifício Master, mas sem
o interessante recurso do ambiente físico das pessoas. Ele usa novamente um palco como
cenário (desta vez do ponto de vista inverso, o que é significativo se você pensar que as pessoas
cantam no filme), mas tudo parece uma tentativa de ser neutro, objetivo. É como se ele quisesse
isolar cada vez mais as pessoas de qualquer outro elemento externo a elas para tentar lhes
captar a essência, deixar que elas mesmas digam quem são. Em tempos de egos inflados,
a causa é nobre, e o resultado é bom. Mas eu esperava mais de As Canções.
Heber Costa | hocs_x@terra.com.br


A vargengrandense feliz

> Fiquei muito feliz quando li os comentários sobre O Cangaceiro de Lima Barreto
no Kinemail (LEIA ABAIXO). Mais feliz ainda por ver citado o nome da cidade onde
a fita foi rodada, Vargem Grande do Sul, minha cidade natal. E surpresa pela citação,
pois a grande mágoa dos vargengrandenses que vivenciaram o grande momento
era Lima Barreto não ter incluído o nome da cidade nos créditos finais do filme.
Coisas do tipo amor próprio ferido. De fato, havia umas paragens por lá, onde
as cenas foram gravadas, muito parecidas com o sertão nordestino. Eu adorava
brincar ali, bancando a cangaceira, hehe. Lembro-me muito pouco do grande evento,
memórias remotíssimas por sinal, mas sempre relembradas pelos meus irmãos mais
velhos nas nossas reuniões familiares. Na época, tínhamos um cão, Piloto, que participou
das filmagens. Sua grande aparição foi quando Lampião, deitado na rede, lhe dá um chute
na bunda (não me lembro da cena, tenho que rever o filme para confirmar). No final de tudo,
perdemos o Piloto. Ele preferiu acompanhar Lima Barreto, sua troupe e toda a parafernália.

A biblioteca Municipal de Vargem Grande do Sul se chama Lima Barreto. Nessa biblioteca estão
expostas várias fotos e artigos sobre o filme. Agradeço ao autor da sessão Dicas de DVD do Leitor,
Pedro Henrique, pelas notícias a respeito. Vou procurar esse DVD e tentar rever Piloto!
Eliana Perrone | esperrone@yahoo.com.br

Nós do Kinemail que agradecemos. Um feedback cinéfilo desse não tem preço :)


Dica de DVD do leitor - O Cangaceiro

por Pedro Henrique

> A Companhia Cinematográfica Vera Cruz foi considerada a Hollywood brasileira, por ter
sido o mais importante estúdio cinematográfico da década de 50, se caracterizando dentro
dos moldes profissionais internacionais. Todo esse investimento foi refletido em prêmios
internacionais, tendo como o seu maior estandarte O Cangaceiro (Brasil, 1953) de Lima
Barreto, considerado o maior filme de aventura do cinema nacional.

O enredo é simples. O capitão Galdino (Miton Ribeiro) e seu bando de cangaceiros raptam
uma professora chamada Olívia (Marisa Prado) de uma pequena cidade do sertão nordestino.
Teodoro (Alberto Ruschel), um dos cangaceiros do bando, acaba se apaixonando pela
professora e decide fugir com ela pelo sertão, despertando a ira de Galdino.
A produção foi inteiramente rodada em Vargem Grande Do Sul, interior de São Paulo.
Segundo o diretor, a paisagem era muito semelhante com a nordestina. O filme exigiu
tanto dinheiro na época, que colocou a Vera Cruz em falência. Quando exibido no Festival
de Cannes, O Cangaceiro ganhou o prêmio de melhor filme de aventura, chamando
a atenção dos críticos e ganhando distribuição internacional pela Columbia Pictures.
Fez um tremendo sucesso no Brasil e em outros países. Na França chegou a passar cinco
anos em cartaz e foi o responsável em apresentar o cinema brasileiro ao exterior.

Grandes nomes da cultura popular do Brasil fizeram parte da produção, como Rachel De Queiroz,
responsável pelos diálogos, e o artista plástico Caribé que ficou a cargo dos figurinos e direção
de arte. A fotografia foi encomendada ao norte-americano Chick Fowle. A trilha sonora de Gabriel
Migliori resgatou a canção Olê Mulher Rendeira do folclore popular nordestino e aqui é usada
como tema principal. O filme recebeu uma menção especial para música no Festival de Cannes.
O Cangaceiro reuniu efeitos de montagem do cinema soviético. Composições de imagem
no estilo do cinema mexicano de Emilio Fernandez e o tom épico na linha do western americano.
Com este filme, Lima Barreto foi por muitos anos o único cineasta brasileiro citado em antologias
e livros de cinema editados no exterior. O filme sai agora em DVD duplo pela Versátil numa edição
restaurada, com raros curtas metragens de Lima Barreto e ainda um documentário de Paulo Duarte
com mais de 3 horas de duração, intitulado O Velho Guerreiro Não Morrerá – O Cangaceiro de Lima
Barreto 50 anos Depois
, com depoimentos de Anselmo Duarte, Fernando Meirelles e Walter Lima Jr.
Pedro Henrique | phmmts@hotmail.com


Dicas de Cinéfilo - 50%



50%
50/50 EUA 2011 1h40min

de Jonathan Levine com Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Angelica Huston
Em DVD pela Swen Filmes

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Se você não tem nada de realmente novo a dizer/fazer com um filme, não o faça.
Você perde o seu tempo e o dos outros numa obra medíocre que pode até enterrar sua carreira.
Exceto no caso de Hollywood. Lá faça de qualquer jeito, pois com sorte dá pra garantir uns trocados.
Resultado, a média da qualidade dos filmes vai lá pra baixo. Só essa lógica para justificar o sucesso
de crítica que foi este 50%, filme indie que causou polêmica antes mesmo de estrear por causa
de seu antigo título, “Eu Tenho Câncer”. Houve um medo da parte dos produtores de ofender
o público, o que justificou a mudança. Não que a troca de títulos tenha resolvido alguma coisa:
o filme ainda é uma ofensa à humanidade, em vários sentidos. Pior: é baseado em uma história
real e o roteiro é autobiográfico, sendo Will Reiser o responsável. Isso está longe de ajudar.
Aparentemente, Reiser é uma criatura que, após passar por um raro e problemático tipo de câncer,
tirou como única lição da experiência que a doença é um ótimo motivo pra trocar de namorada.

O diretor Jonathan Levine, estreante, vai na onda do roteiro. Isso significa uma romantização pobre
e previsível de um tema delicado, no caso, como o ser humano lida com a proximidade da morte.
O protagonista Adam (Joseph Gordon-Levitt, esforçando-se num papel que pouco cobra dele)
é um ser irritante de tão passivo, ele jamais guia sua própria história. O roteirista se encarrega
de justificar seus atos transformando os personagens secundários em clichês sem vida e até
perigosos em sua construção e resolução. Seth Rogen seria o mais prejudicado como o melhor
amigo de Adam, Kyle, um ser desprezível e incompatível com a persona do protagonista. Assim
como a maioria das pessoas que permeiam a história de 50% (título que se refere às chances
de Adam sobreviver), Kyle é unidimensional e jamais ganha qualquer importância real no roteiro,
a não ser o de insuportável alívio cômico. Mas não é pior do que os papéis femininos. Jamais vi
caracterização tão caricatural e sem perspectiva de um grupo de mulheres num filme. Temos aqui
a mãe neurótica (Anjelica Houston, apenas neurótica), a namorada chata (Bryce Dallas Howard,
encarnando o clichê), e a meiga terapeuta com ares de novo romance (Anna Kendrick, que quase
salva a primeira metade do filme). A personagem de Howard é praticamente um boneco de vudu
para Reiser, que humilha a personagem até o limite numa cena de rompimento surreal, e que
se torna ainda mais patética por tentar extrair humor da ridícula situação – nem vou discutir
a cena em que Adam e Kyle tacam fogo nos quadros dela. Misoginia mandou lembranças.

A sensação de oportunidade perdida se atenua pela total ignorância do filme em lidar com
as dicotomias e aflições do personagem. Estamos falando de um filme sobre um jovem com
câncer, e tudo o que ganhamos são algumas piadas inapropriadas, pouquíssimos diálogos
inspirados e dezenas de canções fofas que tentam distrair da falta de profundidade do roteiro,
representar os sentimentos de Adam e nos fazer refletir, obviamente falhando em todas as tarefas.
Levine não consegue nem equilibrar o (pouco) drama com o humor (grosseiro), tornando tudo
ainda mais equivocado e frívolo. Lá pelo final eu não conseguia mais olhar pra tela sem sentir
vergonha alheia. Se achar original por inserir humor de maconheiro numa história de câncer
provou-se uma imbecilidade em 50%, e reduzi-la a um romance esquemático e sexista é um
ultraje. Pelo menos não tive que encarar isso numa tela de cinema. O filme saiu no Brasil direto
em DVD. Prefira a genial telessérie The Big C, estrelada por Laura Linney (com duas temporadas
disponíveis para download), que lida com o tema com muito mais sagacidade e bom humor.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

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