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Kinemail Edição 580

Drive, Poder, Anjos, Mãe, Filha e Billi Pig

> Com o resultado do Oscar 2012, o grande vencedor O Artista ganha
algumas poucas sessões em horários ingratos nos multiplexes. Não perca.
O vencedor de Melhor Filme Estrangeiro, A Separação, continua em cartaz
no Cinema da Fundação. Nas estreias da semana, destacamos nos multiplexes
Drive, prêmio de melhor direção em Cannes 2011, com Ryan Gosling
e Carey Mulligan; Poder Sem Limites, curiosa ficção found footage,
agora sobre personagens que adquirem superpoderes e Mãe e Filha,
premiado longa do cearense Petrus Cariry, no Cinema da Fundação.

Mais estreias da semana são: Billi Pig, comédia com Selton Mello
e grande elenco televisivo; Anjos da Noite - O Despertar em 3D
e a comédia A Saga Molusco - Anoitecer. O drama Dawson Ilha 10
estreia nas sessões extras dos multiplexes, que ainda exibem também
A Pele Que Habito
, já em cartaz há quatro meses (!), um recorde.
Nesta edição, os leitores comentam A Invenção de Hugo Cabret.
Conheça Rodrigo Teixeira, um brasileiro na equipe de Efeitos Visuais
do filme. E vote na enquete Kinemeiete e Kinemeião de fevereiro!
Assista, comente, e-mails para
fernando@kinemail.com.br

No DICAS DE CINÉFILO conheça Cassy Jones - O Magnífico Sedutor,
dirigido por Luis Sergio Person em 1972, com Paulo José e Sandra Bréa AQUI

LEITOR VIP Ganhe convites pré-estreia de John Carter 3D e convites
e brindes de Tão Forte e Tão Perto e Poder Sem Limites AQUI

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CUPIDO NÃO TEM BANDEIRA

Billy Wilder | EUA | 1961
LEIA AQUI






DRIVE
Drive EUA 2011 1h40min
de Nicolas Winding Refn com Ryan Gosling, Carey Mulligan, Albert Brooks, Bryan Cranston

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO Chega enfim ao circuito nacional o festejado Drive, que aqui não foi traduzido
nem subtitulado, mantendo assim a aura cult do título. Desde que faturou o prestigiado
prêmio de melhor direção no Festival de Cannes 2011 (concorrendo com A Árvore da Vida
e Melancolia, lembrem-se) para o dinamarquês Nicolas Winding Refn (Pusher, Valhalla Rising)
quase um ano atrás, o filme provocou a ansiedade dos downloaders em ver logo um filme
que as primeiras críticas destacavam ser um primor em imagem e som, para ser visto
no cinema. Enquanto os distribuidores aguardavam as importantes indicações ao Oscar
que o filme não recebeu (ficou com apenas uma indicação técnica para Mixagem de Som)
para lançar o filme no Brasil, Drive foi visto e revisto em casa por cinéfilos que não cansaram
de festejar a obra como "filmaço", "o melhor de 2011" e outras máximas apressadas.

Baixada a poeira, enfim assisti Drive no cinema. É um filme de qualidade irrepreensível
na sua feitura e está mesmo entre os melhores do ano passado. Um espanto que, em meio
a obras como Tão Forte e Tão Perto e Histórias Cruzadas, Drive tenha ficado de fora
das cobiçadas indicações às principais estatuetas da Academia. Não é nenhuma obra-prima,
porém um raro e estiloso filme de gênero, que pode ser definido como um retro-noir com
fortes referências ao cinema americano dos anos 80, desde os créditos em rosa choque
com tipografia manuscrita, passando pela trilha sonora com temas com sintetizadores
e, principalmente, pela violência gráfica potente, como o cinema americano fazia na época.
Eu destacaria também uma forte influência de David Lynch, no tom de estranheza surreal
nas cenas de violência e na atmosfera sombria do submundo da "Cidade dos Anjos."
Não por acaso, Winding Refn havia primeiramente escolhido o fiel colaborador de Lynch,
Angelo Badalamenti, para a trilha sonora, que acabou sendo feita por Cliff Martinez.


Ryan Gosling é The Driver, o Motorista, aquele que dirige, seu personagem não tem nome
(como não lembrar do Homem Sem Nome do Clint Eastwood eternizado por Sergio Leone?),
é um anjo loiro misterioso em Los Angeles, cujo passado talvez seja explicado/entendido
na trama que se desenrolará. O Motorista vive oficialmente como mecânico numa oficina
e fatura por fora como motorista de encomenda em assaltos e também como dublê de cinema,
em cenas perigosas com carros. Nada foge ao seu controle, sua vida segue fria e segura.
Até que aparece em seu caminho a linda garçonete Irene (Carey Mullingan) sozinha, com
um filho e vizinha de porta do Motorista numa espelunca típica de L.A. O pai da criança?
Está na prisão. E será solto em breve. Nada se desenvolve de forma muito realista, nem
também apresenta muitas novidades no gênero. Basta saber que o Motorista se envolve
com essa família maculada, num caminho sem volta, onde as coisas não vão sair como
eles esperavam. A galeria de sinistros coadjuvantes conta com Albert Brooks e Ron Pearlman
(o Hellboy) e vale destacar a ótima participação de Bryan Cranston, como o patrão
do Motorista na oficina mecânica. Ele é talvez o personagem mais humano e comovente.
Acompanhando o Motorista de forma quase erótica, incluindo câmeras lentas destacando
os jeans apertados e a jaqueta prateada com um escorpião amarelo que Ryan
Gosling
usa praticamente o filme inteiro, Nicolas Winding Refn homenageia os anti-heróis solitários
do cinema americano de forma estilosa - mas talvez sem muita substância - garantindo
uma boa sessão de filme que merece ser visto numa tela grande, realizado por
um olhar estrangeiro fascinado pelos ícones americanos. Vale notar, grande ironia,
que Nicolas Winding Refn nunca aprendeu a dirigir. Automóveis, que fique bem claro.




Chegando com tanto atraso no Brasil, Drive ainda é vendido como gato por lebre
num trailer que anuncia um filme de ação alucinante, com carros capotando, carros
em alta velocidade, carros, carros e mais carros, deixando vidrados os fãs da série
Velozes e Furiosos. O filme tem essas cenas, claro, mas são menores dentro da levada
lenta, de tensão meticulosa e romantismo estilizado que domina a maior parte da
duração. Mais fiel ao clima do filme é a cena acima, onde
Nicolas Winding Refn e Ryan
Gosling colocam o espectador na posição do protagonista, dando a sensação do suspense
verdadeiro que deve haver numa situação de fuga de um assalto. A sequência, uma
das mais brilhantes, abre o filme e define o tom e o personagem, sem palavras.

Visto em 24/02/2012 como convidado do UCI Kinoplex
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br


PODER SEM LIMITES
Chronicle EUA 2012 1h30min
de Josh Trank com Dane DeHaan, Alez Russell, Michael B. Jordan, Ashley Hinshaw

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO
Desde o sucesso de A Bruxa de Blair, o gênero "found footage" (os falsos
"documentários" onde as imagens são registros em câmeras de vídeo encontrados
após o final da história contada) rendeu desde Cloverfield e REC até o nacional Desaparecidos.
Esse Poder Sem Limites é um caso curioso. Aqui o recurso é usado da forma muito forçada,
partindo da câmera caseira do protogonista, multiplicando-se por câmeras de terceiros,
câmeras de segurança e até registros aéreos (por motivos que explico mais na frente)
e deixa a impressão que o filme em si já é uma boa ideia e não existia motivo para ser
rodado em formato "found footage". Ou melhor, o motivo provável, num filme que
envolve muitos efeitos especias, foi beneficiar-se do visual sujo, amador, do gênero
para conseguir bons resultados com baixíssimo custo de produção - $ 12 milhões
de dólares, valor irrisório se comparado a blockbusters em CGI - o que o filme
consegue com eficiência e energia cada vez mais rara no milionário e tedioso ramo
dos filmes de super-heróis. Sim, Poder Sem Limites é um filme de super-heróis,
quer dizer, um filme onde jovens normais adquirem superpoderes. E não sabem muito
bem o que fazer com eles. No início, divertem-se com o dom da telecinese, movimentando
objetos à distância. Logo descobrem que podem flutuar e até voar. Também, podem
dominar uma câmera registrando tudo solta no ar (o que garante as tomadas aéreas
sem câmera trepidante, algo impensável nos princípios básicos do "found footage").

Assim, aos poucos, um grupo de três amigos começa a perceber o poder que tem em
mãos. O protagonista Andrew é um jovem tímido, sem amigos, que sofre com um pai
alcólico, enquanto sua mãe está presa numa cama com doença terminal. Tem como
único amigo seu primo Matt, um rapaz mais "normal", colega de Steve, que junta-se
a eles num final de festa, onde descobrem algo estranho (kriptonita?) num descampado.
Incluindo divertidas citações sobre o superhomem filosófico, passando pelo tradicional
drama teen de garoto virgem e rejeitado e sacadas visuais típicas de HQs, o grande achado
do filme é proporcionar boa diversão com a sensação bastante realista dos garotos
em experimentar ter superpoderes e pensar na possibilidade de largar suas vidinhas
suburbanas, livres para literalmente voar o mundo. Mas grandes poderes trazem
grandes responsabilidades... Os desdobramentos podem ser previsíveis e exagerados,
mantendo a fórmula cansada do terço final pirotécnico e barulhento, mas Poder Sem
Limites
fica acima da média em criatividade e bom entretenimento. Vale conferir.
Visto em 27/02/2012 como convidado do UCI Kinoplex/Fox Filmes
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br


MÃE E FILHA
Brasil 2011 1h20min
de Petrus Cariry com Zezita Matos, Juliana Carvalho


por Felipe André

OPINIÃO O sertão do cearense Petrus Cariry é o lugar onde as pessoas vem
para ser enterradas. Não se sabe ao certo se isso sugere uma forte ligação com
a terra natal ou seu oposto simétrico, fato é que todas as cenas de Mãe e Filha,
seu longa de estreia, jogam com essa dualidade de fazer, ou não, parte de um lugar.
Quem leva o espectador por essas questões é a Filha, que volta trazendo numa caixa
seu filho, morto, para que a Mãe o abençoe. Assim que põe os pés no lugar nenhum
que é a cidade fantasma onde sua mãe mora, ela é recebida por um verde muito
incomum nos sertões do cinema, e por vaqueiros, quatro, que se apresentam
quase como cavaleiros do apocalipse. Esse é só o primeiro de muitos e muitos
signos que Petrus insere seu filme, e um dos mais simples também.

As casas em ruínas, a galinha sacrificada, uma pintura clássica surgindo fora de seu
habitat, o apagar das velas, são todas imagens poderosas, mas que exigem muito
esforço para serem conectadas. Se o diretor propõe um jogo, ele não deixa muito
claro, especialmente quando chegamos ao final tão alegórico que pode não ser.
É mais fácil se concentrar num outro jogo, mais óbvio, que é a relação conturbada
entre as protagonistas. Ausente por quase 20 anos, a filha não se sente mais parte
daquele geografia, não conseguindo passar nem mesmo um dia inteiro sem avisar
que aquela é uma visita rápida. A mãe destila um rancor atravessado, por entre
os dentes, enquanto procura maneiras de não mais ficar sozinha. Esse comportamento
que beira a obsessão, incorporado tão bem por Zezita Matos, é uma das grandes
dualidades do roteiro de Cariry. Quem abandonou, quem foi abandonado e, mais
importante, quem fez mal a quem, são as perguntas que acompanham os lentos
80 minutos de duração, e provavelmente algumas horas após a sessão também.

Visto em 29/02/2012 como convidado do Cinema da Fundação
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para f_andre2@hotmail.com


BILLI PIG
Brasil 2012 1h38min
de José Eduardo Belmonte com Selton Mello, Grazi Massafera, Milton Gonçalves, Otavio Muller
MULTIPLEXES | confira cinemas e horários AQUI

> Sinopse: A aspirante a atriz Marivalda, seu marido Wanderley, um corretor de seguros
falido e um falso padre fazem de tudo para se dar bem da vida. Acabam nas mãos do chefe
do tráfico, a quem prometem salvar a vida de sua filha, atingida num tiroteio durante uma
festa. Uma grande recompensa em dinheiro está em jogo e agora os três têm que correr
atrás do milagre prometido. Um porco que fala é o grande conselheiro de Marivalda,
que a adverte sobre as trapaças e confusões que o marido arranja.



ANJOS DA NOITE - O DESPERTAR
Underworld Awakening EUA 2012 1h29min
de Mans Marlind e Bjorn Stein com Kate Beckinsale, Scott Speedman, Stephen Rea

> Sinopse: Depois de ser mantida em estado de coma por quinze anos, a vampira
Selene (Kate Beckinsale) descobre que tem uma filha híbrida (metade vampiro,
metade lycan, e mais forte que ambos) de quatorze anos, chamada Nissa.
Quando encontra sua filha, precisa defende-la de um grupo assassino de Lycans.



A SAGA MOLUSCO - ANOITECER
Breaking Wind EUA 2012 1h22min
de Craig Moss com Heather Ann Davis, Eric Callero, Frank Pacheco, Danny Trejo

> Sinopse: Sátira da saga Crepúsculo, que mostra Bella, o vampiro branquelo
Edward e o lobisomem gorducho Jacob. Bella está às voltas com o aguardado
casamento com Edward, uma possível gravidez do primeiro filho e também com
as trapalhadas de Jacob, o amigo de todas as horas, mas que não larga do pé.


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Sessões extras


DAWSON ILHA 10 - A Verdade Sobre a Ilha de Pinochet
Dawson Isla 10 Chile 2009 1h58min
de Miguel Littin com Benjamín Vicuna, Bertrand Duarte, Caco Monteiro, Cristian de la Fuente

CINEMA APOLO | confira cinemas e horários AQUI

> Sinopse: Em 1973, o general Augusto Pinochet lidera o golpe de estado que depõe
o governo democrático de Salvador Allende no Chile. Os ministros e autoridades depostas
tornam-se presos políticos dos militares e são levados para a ilha Dawson, no extremo sul
do país, utilizada como campo de concentração da ditadura chilena. Lá os presos políticos
são submetidos a violentos interrogatórios, trabalhos forçados, torturas físicas e psicológicas.
Dawson Ilha 10 representa um momento histórico que se propagou por toda América do Sul.

Visto em 03/02/2012 como convidado do UCI Kinoplex


DAISY MILLER
Daisy Miller EUA 1974 1h31min
de Peter Bogdanovich com Cybill Shepherd, Barry Brown, Cloris Leachman
CINEMA DA FUNDAÇÃO | Cineclube Dissenso | sábado 14h
ENTRADA FRANCA

>
Neste sábado 03/03, às 14h, o Cineclube Dissenso exibe Daisy Miller, dirigido
pelo norte-americano Peter Bogdanovich (A Última Sessão de Cinema, Lua de Papel),
integrante, junto a nomes como Cimino, Scorsese, De Palma e Coppola, do que ficou
conhecida nos anos 70 como a “Nova Hollywood”. O longa é baseado no romance
de Henry James, onde uma leviana jovem americana (Cybill Shepherd) viaja, no
século XIX, à Europa com sua família nouveau riche e conhece Frederick (Barry Brown),
um cavalheiro aristocrata que, por algum motivo, a acha misteriosamente fascinante.
Nesse filme é possível experienciar o modo sofisticado com que Bogdanovich se utiliza
do plano subjetivo (quando o espectador olha exatamente o que um personagem
estaria olhando) para narrar uma história cujos personagens são assombrados
pelo peso do passado e pela amargura do arrependimento.
A sessão e o debate serão realizados na Sala João Cardoso Aires.

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Crônicas cinéfilas, opinião, cartas do leitor etc


Hugo lindo

> Assisti A Invenção de Hugo Cabret e senti vontade de falar dele, porque
me surpreendeu muito. Para mim, a estratégia marqueteira prejudicou o filme.
Foi vendido como uma espécie de aventura infantil, com 3D e o escambau, só
que menos fantasiosa — o trailer aponta para isso, e uma análise do cartaz revela
muito a coisa meio Bússola de Ouro, meio Crônicas de Nárnia (inclusive está escrito lá:
“uma aventura extraordinária”). O que importa é que A Invenção de Hugo Cabret
mostra uma grande sensibilidade de Scorsese, proporcionando várias formas de
interagirmos com sua obra: o nível mais elementar da trama, o nível histórico/didático,
o nível emocional/simbólico, etc. Além de visualmente lindo, da fotografia à direção
de arte, o filme arranca excelentes interpretações do elenco (o menino é fantástico).

Os efeitos especiais são um recurso usado de forma moderada e muito precisa,
sem excessos, servindo apenas para agregar à história, como deveria sempre ser.
A trilha é tão discreta que funciona somente como uma moldura, o que é um refresco
para os ouvidos com tanto filme por aí usando música como muleta emocional da trama.
A homenagem ao cinema mostra toda a paixão do cineasta que é uma enciclopédia cinéfila.
Certa vez li que ele assiste a tudo que é filme que consegue ver. Tem muito diretor
precisando fazer isso... Martin Scorsese pode não ser o melhor diretor de todos os tempos,
mas A Invenção de Hugo Cabret é mais um esforço digno para elevar os padrões
do cinema. O filme é tão bom que nem o fato de ver dublado estragou.
Heber Costa | hocs_x@terra.com.br


Hugo cabreiro

> Posso não gostar do filme? Claro, claro, meu direito de pagante. Pois, parece que todo mundo
se enterneceu com a megaprodução do Scorsese. Não me comoveu de forma alguma. Mais me
pareceu uma réplica do ex-gangster ao Meia Noite em Paris do Woody Allen, homenageando
suas influências e ídolos de outrora. E, da mesma forma que Allen, creio que essa vontade
sobrepõe a qualidade do filme. A Invenção de Hugo Cabret tem roteiro fraquíssimo.
Vi buracos e inconsistências gritantes. Aparições súbitas, coisas mal-explicadas, reviravoltas
que ninguém viu. Ora, o pai de Hugo morre e o pobre mal tem tempo de sofrer? O menino
é arrastado pelo tio e nem sequer contesta o ocorrido, ele simplesmente se agarra ao tal
boneco, esperando que este psicografe alguma mensagem do além, pulando uma etapa
da perda. E o livreiro, que, numa cena destila olhares de ódio pelo menino, na outra
instantaneamente se afeiçoa e dá um livro ao coitado? A cena após a bagunça no quarto
do Papa Georges parece que não tem nenhum desdobramento, é uma coisa isolada, a menina
passa incólume. E mais tantas outras coisas que não vou relatar para não parecer chato.

Um filme que busca apenas comover. Comoção barata. Daquelas onde põem uma sequência
musical de cordas nas cenas mais emocionantes. É óbvio, é cheio de clichês. É triste até dizer
que a melhor atuação do filme foi de Sasha Baron Cohen. É um filme sobre uma criança
pobre parida pela revolução industrial como tantos outros que existem por aí. Nem parece
um Scorsese. É como se ele não estivesse confortável em ter que assumir um filme assim.
Fez um filme que naturalmente já teria cara de Oscar. Levando a assinatura dele, então...
Paulo Oliveira | pauloolivieri@gmail.com


Um brasileiro no Oscar

> Não, não vamos falar de Carlinhos Brown... O brasileiro no Oscar nesse caso é o gaúcho
Rodrigo Teixeira, que saiu premiado da festa, como parte da equipe de Efeitos Visuais
de A Invenção de Hugo Cabret. A revista digital MENSCH, produzida por André Porto,
deu capa para ele na semana do Oscar. Leia a matéria completa aqui www.revistamensch.com.br

Desde jovem fascinado por efeitos especiais no cinema, Rodrigo investiu numa viagem
a Los Angeles em 2001, aos 24 anos, com apenas 500 dólares no bolso, e apresentou
cópias em VHS de seu portfolio de trabalhos para várias produtoras de efeitos especiais,
enquanto trabalhava num restaurante de um amigo brasileiro. Demorou, mas Rodrigo
foi convidado para trabalhar em uma pequena produção e não parou mais. Depois
de chegar a participar de superproduções como O Dia Depois de Amanhã,
Sin City
, Superman Returns e Alice no País das Maravilhas 3D, hoje
ele é especialista em Efeitos Visuais dos mais requisitados em Hollywood.

Rodrigo, como foi o início nos EUA? Foi difícil. Cheguei em Los Angeles com
apenas 500 dólares no bolso. Fui morar em West Hollywood, na casa de um ex-vizinho
de Porto Alegre que trabalhava no restaurante brasileiro Bossa Nova. No primeiro
dia em L.A., eu já gastei 150 dólares! Fui a um lugar onde se fazia cópia de fitas
e fiz cópias do meu material. No dia seguinte, me ensinaram onde ficavam
os ônibus. Todos os lugares em que eu queria ir ficavam em Santa Monica.

O que você pode nos contar sobre A Invenção de Hugo cabret, que você
filmou com Martin Scorsese?
Hugo foi um projeto de efeitos invisíveis em grande escala,
algo que eu já queria fazer há anos. Foi difícil para nós no começo fazermos essa roda toda
começar a andar, já que tínhamos por volta de 500 pessoas espalhadas em 9 países. Mais
uma vez eu tive a oportunidade de trabalhar com o mesmo grupo de amigos lá do começo
e isso sempre torna tudo muito mais fácil. O Ben Grossmann, Adam Watkins e eu ficamos aqui
em Los Angeles montando todo esse quebra-cabeça, enquanto Alex Henning ficou em Londres
comandando toda a operação europeia. Desde o começo, já sabíamos que seria grande o desafio
de fazer um filme 3D de efeitos que fosse confortável para os olhos mas no final todo o trabalho,
que durou quase 14 meses, valeu a pena. Ficamos muito felizes com as 11 indicações ao Oscar.

Como é isso de você inserir "pequenas assinaturas" suas nos filmes, como O “T”
na placa do carro de Bruce Willis em Sin City?
Isso começou de uma forma engraçada
durante O Dia Depois de Amanhã, quando o diretor Roland Emmerich pediu para colocar
um logo da NASA na estação especial perto da câmera. No dia seguinte eu tinha colocado
o logo do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e não falei nada. Quando mostramos
a cena, ele apontou na tela com um laser e perguntou o que era aquilo. Volker Engel respondeu:
O Rodrigo é brasileiro e colocou o logo do INPE ali e o da NASA mais pro lado. O Emmerich só
respondeu: Ótimo! Nada mais justo, já que a estação é internacional! Cada filme foi assinado
por nós de uma forma engraçada, ao ponto que em 2012 fui inserido na cena de destruição
de Los Angeles onde estou no meio da rua tentando escapar da freeway que desaba!! (risos)


Dicas de Cinéfilo - Cassy Jones




CASSY JONES - O Magnífico Sedutor
Brasil 1972 1h33min

de Luis Sergio Person com Paulo José, Sandra Bréa, Hugo Bidet, Carlos Imperial
em DVD pela VideoFilmes

por Filipe Marcena

OPINIÃO
O último filme de Luís Sérgio Person, Cassy Jones – O Magnífico Sedutor
segue por um caminho bem diferente das obras que o tornaram uma figura importante
da cinematografia brasileira, os dramas São Paulo S/A e O Caso dos Irmãos Naves.
Ambos são estudos sociológicos do Brasil dos anos 60, onde processo de industrialização,
a corrupção e a hipocrisia atropelavam o indivíduo. Ainda são atualíssimos, como se percebe.
Cassy Jones, é uma pornochanchada que, se não é contundente, oferece uma fantasia
satírica do brasileiro playboy garanhão setentista, o personagem título que é interpretado
pelo contagiante Paulo José. Esqueça qualquer compromisso com realismo, Cassy Jones
é humor nonsense onde a narrativa toma rumos necessitados mais pelo timing cômico
e simbologias falocêntricas surreais do que por motivos narrativos. O tal do Cassy é um
homem rico – nunca sabemos o porquê - que mora numa cobertura no litoral do Rio de Janeiro
e tem um imensurável poder de atrair mulheres. Está sempre acompanhado, seja por uma
de suas estonteantes amantes, seja por seu descontrolado amigo Roubout (Hugo Bidet).
Person sintetiza e critica o que me pareceu o sonho consumista e o pesadelo machista
do carioca deslumbrado da tropicália: o malandro international popular e pegador que
tem pavor de ter sua masculinidade e heterossexualidade ser questionada ou ameaçada
pela sociedade e sua liberdade tolhida por uma mulher, mesmo que ele a ame.

A mulher amada, no caso, é Clara, personagem que marcou a estreia no cinema da sex symbol
Sandra Bréa. Clara é a donzela no alto da torre do castelo, torturada pela governanta Frida
(Glauce Rocha). Cassy entra em crise consigo mesmo quando se vê como homem objeto,
perseguido por sedutoras ninfomaníacas, e desconfia de sua própria sexualidade (a clássica
e surreal cena em que o Maracanã inteiro o chama de bicha resume seu pânico). A solução
aparentemente está no amor romântico, mas será que o incorrigível Cassy Jones consegue
dividir os trapos com Clara? Enquanto você se pergunta isso já sabendo a resposta, Person
propõe uma experiência estética muito interessante. A direção de arte do filme é inspirada,
fazendo uma antropofagia da cultura do luxo e da ostentação modernosa com figurinos e objetos
de cena indescritíveis de tão cafonas e extravagantes (os robes, a cama d’água). Em uma das
cenas de delírio, Person me remeteu diretamente à Laranja Mecânica, lançado nos EUA um ano
antes. Não sei se Person assistiu ao filme na época, mas aquela grande angular distorcida,
as luzes coloridas, as mulheres seminuas de peruca e o design retrô-futurista parecem ter
saído diretamente da cabeça de Stanley Kubrick. A trilha sonora de Carlos Imperial, que
inclusive faz uma participação, casa perfeitamente com o conceito do filme e a canção tema
do Cassy é marcante. Cassy Jones – O Magnífico Sedutor não envelheceu tão bem quanto
os outros filmes do Person, mas o tom irônico e satírico garante sua sobrevivência como
curiosa fenda temporal para um Brasil de outrora, e que parece não ter mudado muito.
O DVD vem com biografia do cineasta e seu curta O Otimista Sorridente.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

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