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Kinemail Edição 582
Tomboy, Anderson, Reese, Denzel, Pina e o Papa
> Semana movimentada com muitas estreias e pré-estreias. O melhor
lançamento é Tomboy, pequena joia sobre gênero, infância e identidade,
em cartaz no Cine Rosa e Silva. Nos multiplexes, temos o premiado
documentário Anderson Silva - Como Água, sobre o ídolo brasileiro
de UFC; a comédia romântica Guerra é Guerra!, com Reese Whiterspoon,
Tom Hardy e Chris Pine;
Protegendo o Inimigo, com Denzel Washington
e Ryan Reynolds; o sucesso "found footage" Projeto X - Uma Festa Fora
de Controle e, para a gurizada, Pequenos Espiões 4, também em 3D.
Em pré-estreias, Pina, o filme de Wim Wenders em 3D, e Habemus Papam
de Nanni Moretti.
Nas sessões extras dos multiplexes entra Uma Incrível
Aventura e continua A Pele Que Habito. Sessão gratuita do Cineclube
Dissenso exibe médias-metragens de Dimitri Kirsanoff e Jean Vigo.
Assista, comente, opine, e-mails para fernando@kinemail.com.br
DICAS DE CINÉFILO Filipe Marcena resgata Negócio Arriscado, clássico
pop dos anos 80, com Tom Cruise e Rebecca De Mornay, em DVD AQUI
LEITOR VIP Ganhe convites para Anderson Silva - Como Água
e Guerra é Guerra! e convites para pré-estreia de Heleno AQUI
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CUPIDO NÃO TEM BANDEIRA
Billy Wilder | EUA | 1961
LEIA AQUI

TOMBOY ![]()
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Tomboy França 2011 1h22min
de Céline Sciamma com Zoé Héran, Malonn Lévana, Jeanne Disson, Mathieu Demy
CINE ROSA E SILVA | confira horários AQUI
por Fernando Vasconcelos
OPINIÃO Direto, curto e realizado com simplicidade e despretensão, Tomboy
é sobre uma garota que se parece com um menino. O primeiro mérito do filme
é a jovem atriz Zoé Héran, que vive Laure/Mikael. Ainda na indefinição física
dos 10 anos de idade, é preciso uma cena de banho, de forma alguma gratuita,
em que vemos o sexo da garota, para que possamos acreditar que não
estamos vendo um garoto fazendo papel de menina. Embora o filme tenha
seu público no nicho GLS, está longe se der um filme sobre homossexualidade.
É um filme sobre gênero, não sexo, e formação de identidade na fase da infância.
Filha mais velha de uma família de classe média, com uma irmã mais nova, Jeanne
(que quase rouba o filme, com uma naturalidade impressionante diante das câmeras)
e pais que parecem já conviver com o "problema", o filme começa com a família
de mudança (provavelmente por já ter tido justo esse tipo de "problema" com
a vizinhança). Vale notar que a mãe está grávida do terceiro filho, e sabe-se que
será um menino. Ao chegar no novo conjunto residencial, Laure logo se apresenta
para uma garota e um grupo de meninos como Mikael, e se sente muito bem
convivendo com eles, nos arredores de subúrbio que parecem outro planeta
para as gerações atuais: as crianças brincam na rua, no lago e na floresta,
remetendo a uma infância saudável em descobertas e experiências.
Além de toda a delicada questão de gênero, Tomboy é também um filme
sobre uma pequena mentira e suas consequências. Admirável que, quando
Laure é repreendida pela mãe, fica claro que a mãe não acha correto
e a pune por uma mentira, independente da questão de sua filha
comportar-se como um menino. São pequenos detalhes que revelam
que o filme busca a compreensão, a aceitação do outro, e não assume
nenhuma postura discursiva sobre o tema. A jovem diretora e roteirista
Céline Sciamma (Lírios D'água, também exibido no Brasil) faz um trabalho
admirável com as crianças, todas absolutamente naturais, sem vestígios
de encenação. As cenas em que Jeanne, a irmã de 6 anos, revela-se
cúmplice do truque de Laure é encantadora, captando toda a inocência
infantil, que não vê a questão como um "problema", mas como brincadeira
inocente. Como é de se esperar, Tomboy é um filme que não procura
responder dúvidas nem encerrar a questão. Um final doce e otimista,
mas em aberto, encerra bem o filme. Obviamente, na fase adolescente
e adulta, a sexualidade de Laure estará definida, mas até onde o filme
a acompanha, isso não importa, e mantém-se o mistério sobre seu futuro.
Visto em 10/03/2012 como convidado do Cine Rosa e Silva
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br
PROJETO X - UMA FESTA FORA DE CONTROLE ![]()
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Project X EUA 2012 1h27min
de Nima Nourizadeh com Thomas Mann, Oliver Cooper, Jonathan Brown, Dax Flame
por Fernando Vasconcelos
OPINIÃO Fazia tempo que eu não via um filme para jovens que me deixasse
tão perturbado me perguntando "mas o que diabos é isso que eu estou assistindo?"
Projeto X leva ao extremo o seu subtítulo, uma festa fora de controle,
a premissa nada original sobre adolescentes losers que resolvem fazer uma
festa para tornarem-se populares com as garotas e perderem a virgindade.
Você já viu isso inúmeras vezes, até em alguns filmes memoráveis, como
os ótimos Negócio Arriscado (1983, comentado no DICAS DE CINÉFILO desta
edição) e Superbad. O que impressiona em Projeto X é como as coisas saem
dos trilhos e o filme radicaliza tudo de demencial, sem noção e cretino
que pode ser feito a partir dessa premissa. Produzido por Todd Phillips
(Se Beber, Não Case 1 e 2), o filme faz uso da já cansada fórmula "found
footage" sem qualquer motivo. Além do trio de adolescentes centrais, um
quarto colega registra tudo com uma câmera caseira. Aqui a fórmula só
se justifica para dar ao filme a estética suja e rápida que barateia os
custos de produção, incluindo o elenco totalmente novato e amador, o que
no caso é uma vantagem que faz a festa funcionar como "documentário".
Sinal dos tempos (vale sempre lembrar que estamos no apocalíptico 2012),
o filme faz um registro de uma festa com 1500 jovens entre estúpidos
e desinteressantes (as garotas são, com exceção da namoradinha loira
do protagonista, todas periguetes) que devem causar identificação com
o público atual, amestrado com Jack Ass, Big Brother e reality shows MTV.
É uma comédia e, de fato, Projeto X se esforça em provocar risadas, incluindo
um anão louco e uma dupla infantil que responde pela segurança da festa,
mas o excesso de grosserias, garotas peladas, uso de drogas e anarquia passam
longe de subversão típica de qualquer jovem (quem nunca aloprou numa festa?),
deixando mais a sensação de esgotamento da piada muito antes do final do filme,
que envolve agressão, violência e a literal destruição não só da casa da festa
como da rua inteira, incluindo um louco incendiário que nem na festa estava.
É preciso ver para crer. O que me provocou o estranhamento definitivo foi
a resolução final cinicamente inconsequente, com direito a forçado momento
romântico, a compreensão dos pais do garoto e créditos mostrando que ninguém
pagou o pato. Projeto X deixa a pergunta: Depois dessa, como será o próximo
filme sobre adolescentes que promovem uma festa que foge do controle?
Eu não quero ver. Filme difícil de definir em estrelinhas, leva duas estrelas
porque merece mesmo ser visto, de tão bizarro, doentio e desagradável.
Visto em 14/03/2012 como convidado do UCI Kinoplex/Warner Bros
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br
ANDERSON SILVA - COMO ÁGUA ![]()
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Anderson Silva - Like Water EUA 2011 1h16min
documentário de Pablo Croce
por Felipe André
OPINIÃO Junto com o crescente desencanto do brasileiro pelo futebol, surgiu o interesse
em outros esportes como, por exemplo, este MMA, luta conhecida como vale-tudo, que
ganhou vez voz e regras durante os anos 90, e que é pano de fundo em Como Água,
estreia do americano Pablo Croce no cinema. Pano de fundo porque este não é, nem
de longe, um documentário sobre esporte; construído em volta da figura quase mitológica
do lutador brasileiro Anderson Silva, o filme de Croce utiliza técnicas discretas de cinema
direto e foge da estrutura comum de entrevista. O problema é o fato de Croce não saber
que história ele quer contar. Iniciando com a performance de Silva numa luta do UFC
que lhe concedeu o status de persona non grata pelo próprio Dana White, dono do torneio,
o diretor ignora o perfil minucioso que começara a criar ao redor do seu ícone e transforma
o filme numa escalada para a próxima luta. É o próximo desafiante que faz de Como Água
algo a ser notado. A personalidade quase caricatural e levemente sociopata de Chael Sonnen
faz dele quase que um vilão saído das páginas de alguma história em quadrinhos. Sonnen
não mede esforços para criticar e ridicularizar Silva e recebe em resposta, monossílabos
e piadas espertas. Não existe rixa já que apenas um lado se dá ao trabalho de criar
desconforto, assim como não há qualquer expressão da parte do brasileiro. Quase todo
o tempo focado em seu treinamento, Anderson pouco dá verdadeira abertura para a câmera
nervosa de Croce, e mantém uma distancia razoável do público; não só no filme, mas também
na carreira. Não se sabe o quanto isso é saudável, já que o mundo das lutas vive do espetáculo,
e uma técnica perfeita não vive sem uma boa propaganda, mas se o lutador não quer ser
um showman, não restam duvidas de que seu caráter é irretocável. Em tempo: a trilha
sonora original composta pelo experiente Alec Puro é das mais coerentes e instigantes
dos últimos tempos; vale ser conferida durante e depois da sessão.
Visto em 12/03/2012 como convidado do UCI Kinoplex/California Filmes
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para f_andre2@hotmail.com
GUERRA É GUERRA!
This Means War EUA 2012 2h00min
de McG com Reese Whiterspoon, Chris Pine, Tom Hardy, Til Schweiger, Chelsea Handler
MULTIPLEXES | confira cinemas e horários AQUI
> Sinopse: Nessa comédia romântica de ação, dois agentes da CIA são parceiros inseparáveis
e melhores amigos até que ficam interessados pela mesma mulher. Assim, começa um jogo
de gato e rato para saber quem conquista o coração da atraente garota, que acaba afetando
a amizade entre os rapazes. Lauren (Witherspoon) é a ponta desse triângulo, que envolve
o malandro sedutor FDR (Chris Pine) e o romântico e bonzinho Tuck (Tom Hardy).
A batalha pelo coração da garota toma inesperados rumos de grandes proporções.
PROTEGENDO O INIMIGO
Safe House EUA 2012 1h54min
de Daniel Espinosa com Denzel Washington, Ryan Reynolds, Vera Farmiga, Brendan Gleeson
MULTIPLEXES | confira cinemas e horários AQUI
> Sinopse: Denzel Washington é o mais perigoso renegado da CIA, que está de volta
depois de uma década como fugitivo. Quando o esconderijo na África do Sul onde ele
está detido é atacado por mercenários, um inexperiente oficial (Ryan Reynolds) foge
junto com ele. Agora, numa corrida contra o tempo, os mais improváveis aliados têm
que permanecer vivos para descobrirem quem os quer mortos.
PEQUENOS ESPIÕES 4
Spy Kids 4 - All The Time in The World in 4D EUA 2011 1h29min
de Robert Rodriguez com Jessica Alba, Jeremy Piven, Alexa Vega, Daryl Sabara
MULTIPLEXES | também em 3D | confira cinemas e horários AQUI
> Sinopse: Os irmãos Rebecca e Cecil descobrem que a sua madrasta Marissa (Jessica Alba) é,
na verdade, uma agente super secreta, que está em uma missão para derrotar "Time Keeper".
Diante de uma missão tão incrível, os dois irmãos contarão com as armas mais fantásticas:
jatos supersônicos, luvas mega poderosas e até um cão-robô! Pequenos Espiões 4 conta
com uma participações especiais de Antonio Banderas e Carla Gugino.
Nos EUA, a exibição nos cinemas incluiu a novidade dos cartões de cheiro. Aromascope,
o "efeito 4D" consiste em papeizinhos com números correspondentes a cenas específicas
do filme, quando devem ser raspados, exalando odores. No Brasil, chegando com bastante
atraso, o filme não terá a brincadeira, sendo
lançado normalmente, apenas em 2D e 3D.
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Sessões extras
UMA INCRÍVEL AVENTURA
Africa United Inglaterra/Rwanda 2010 1h28min
de Debs Gardner Paterson com Eriya Ndayambaje, Roger Nsengiyumva, Yves Dusenge
MULTIPLEX RECIFE | sex 21h, sáb e dom 12h30, ter a qui 19h
> Sinopse: Um garoto pobre e determinado, que adora futebol, acredita no talento de
um amigo para o esporte e o convence a participar da Copa do Mundo, na África do Sul.
Sem dinheiro e a milhares de quilômetros daquele país, eles partem, sem olhar pra trás,
em busca desse objetivo. Ao longo do caminho, juntam-se a eles novos companheiros
que passam a acreditar nesse mesmo sonho. Nada os fará desistir. Na longa caminhada,
eles descobrem o verdadeiro significado da amizade, lealdade e perseverança.
MÉNILMONTANT / ZERO DE COMPORTAMENTO
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO | Cineclube Dissenso | sábado 14h ENTRADA FRANCA
> Neste sábado 17 de março, às 14h, o Cineclube Dissenso exibe na Sala João
Cardoso Ayres da Fundação Joaquim Nabuco, os médias-metragens franceses
Ménilmontant (1926), de Dimitri Kirsanoff, e Zero de Comportamento (1933),
de Jean Vigo. "Partindo das sinfonias urbanas, o primeiro constrói a tragédia de duas
irmãs, órfãs de pais assassinados, que tentam sobreviver à realidade da metrópole
parisiense. Já o segundo utiliza-se da comédia para apresentar a insurreição anarquista
de um grupo de alunos internos, abraçando o surrealismo próprio às primeiras fases
da vida de seus protagonistas. Filiando-se a movimentos cinematográficos de forte
contraste formal - o Impressionismo Francês e sua utilização de efeitos pictóricos
para evocar o subjetivo e o inefável, no caso de Kirsanoff, e o Realismo Poético
e sua ênfase no caráter imanente das tragédias sociais cotidianas, caso de Vigo."
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Crônicas cinéfilas, opinião, cartas do leitor etc
Revistas de março/abril
> Após o hype da edição de Lindsay Lohan, a PLAYBOY americana continua mantendo
a diversidade editorial além do apelo de "revista de mulher pelada". Na onda do momento,
a edição de março dá capa para Brittney Palmer, apresentadora de programas de luta UFC
ao lado de entrevista com o economista premiado com o Nobel Paul Krugman e ensaio
sobre o Carnaval do Rio
de Janeiro. A edição temática de abril, Sex + Music 2012 , dá capa
para o cantor Bruno Mars (o décimo homem a aparecer na capa, em quase 60 anos
da publicação) com a Playmate da edição, tem entrevista com Jon Hamm de Mad Men
e um capítulo inédito em quadrinhos da série de TV The Walking Dead. www.playboy.com
Em março, a brasileira STATUS apresenta na capa e em ensaio sensual a supermodelo
Emanuela de Paula, que saiu do interior de Pernambuco para carreira internacional.
Entrevista com o cartunista Laerte, matéria sobre o centenário de Nelson Rodrigues,
uma história sobre a máfia de Chicago,
além de esportes radicais, gastronomia, cinema,
música, viagem,
no melhor conteúdo de revista masculina do Brasil. www.revistastatus.com.br
Sempre surpreendente, a TRIP continua a sua linha editorial de edições temáticas,
com uma capa ousada para a edição de março: LUZ, na praia, na fotografia, na mente,
no espírito e na música. A capa 2 tem a Trip Girl oriental Andy Nakamura. www.revistatrip.com.br
A GQ americana dá capa para a dupla Jennifer Aniston e Paul Rudd, reunidos
desde o simpático A Razão do Meu Afeto, de 1998, na nova comédia Wanderlust,
uma rara fita com Jennifer Aniston bem recebida pela crítica. www.gq.com
A Esquire vem com capa desdobrável com a modelo Kate Upton e Jon Hamm,
em destaque na matéria principal, com o sucesso de Mad Men. www.esquire.com
Dicas de Cinéfilo - Negócio Arriscado

NEGÓCIO ARRISCADO ![]()
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Risky Business EUA 1983 1h39min
de Paul Brickman com Tom Cruise, Rebecca De Mornay, Curtis Armstrong, Joe Pantoliano
em DVD pela Warner Bros.
por Filipe Marcena
OPINIÃO Esses filmes sobre jovens, no alto da inexperiência e da ansiedade por algo
que ainda não sabem, costumavam ter colhões de questionar a vida e como a sociedade
a molda para eles, e o fazia muito sutilmente, lembrando-se que estavam se comunicando
com seres da mesma faixa etária de seus protagonistas. Jovens, Loucos e Rebeldes, Ghost World,
Loucuras de Verão e Picardias Estudantis são só alguns exemplos, sem falar em John Hugues,
que fez pelo menos cinco bons exemplares do gênero. Desse grupo faz parte Negócio Arriscado,
sucesso de 1983 que deu a Tom Cruise seu primeiro papel como protagonista. Embora transpire
anos 80 (haja neon), o filme envelheceu razoavelmente bem. Satiriza temas que ainda são
relevantes, como a necessidade de se provar enquanto adulto, a frustração de sempre agradar
aos pais, o desejo de independência, a cultura do dinheiro. E ainda conta com um personagem
que, mesmo sendo algo como um primo banana do Ferris Bueller (que veio três anos depois),
é interpretado com talento e simpatia pelo jovem Cruise. Ter Rebecca de Mornay como uma
prostituta mal resolvida deixa as coisas interessantes. Mas confesso que, reassistindo ao filme hoje,
me incomodou a volta de 180º que o filme dá no final no que se refere à sua própria crítica social.
O filme não é menos divertido do que deve ter sido em sua época, e é inclusive muito bem filmado,
como na exemplar sequência em que os pais de Joel estão prestes a viajar. Roteiro e direção são
do sumido Paul Brickman, que constrói bom ritmo e visual estiloso. O que me incomoda é que,
no final da jornada, o personagem não parece ter aprendido muita coisa. Os jovens de Hugues
sofriam (e se divertiam), e no fim podiam ou não ser as mesmas pessoas, mas algo dentro deles
mudava, havia uma revelação íntima através da identificação com o próximo (e nossa, através
da identificação com eles). Não senti nada por Joel. Seu sofrimento é por afundar o Porsche do pai
num lago, ser roubado por um cafetão e perder sua vaga na universidade de Princeton – embora
ele só sofra mesmo pelo Porsche. Mas depois de tudo, com uma ligeira ajuda da sorte e da mão
de Brickman, ele ainda será o mesmo ‘Futuro Homem de Negócios’ que o filme parecia satirizar
no começo, e agora ao lado de Lana, uma linda garota que, no geral, serve apenas para realizar
suas fantasias sexuais. O que Negócio Arriscado significa afinal? Produzir um bordel em casa
te traz sorte? A piadinha no final onde Joel assume a posição de prostituto no diálogo com Lana
talvez defina melhor seu caráter: um vendido. Se só a ambiguidade do filme não me incomodasse
tanto. Ainda assim tem sua importância, e é inegável o talento de Brickman na direção. Vale uma
olhada, mas, gosto por gosto, prefiro os teens contemporâneos de Greg Mottola (Superbad).
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com
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