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Kinemail Edição 587


American Pie, Dançarino, Ohana, Pitanga e Marilyn


> Semana tem estreias dos nacionais Eu Receberia as Piores Notícias
dos Seus Lindos Lábios
, de Beto Brant e Renato Ciasca, com Camila
Pitanga, e A Novela das Oito, de Odilon Rocha, com Claudia Ohana.
Estreia também American Pie - O Reencontro, reunindo o elenco
do sucesso de 13 anos atrás; A Perseguição, com Liam Neeson nos
multiplexes e O Último Dançarino de Mao, no Cinema da Fundação.

No multiplex Plaza, pré-estreia especial para Sete Dias Com Marilyn.
A sessão terá sorteio para a plateia de oito livros sobre Marilyn Monroe.

Titanic 3D permanece exibindo exclusivamente em 3D nos multiplexes
da UCI e ganha mais salas, agora também no BOX e no multiplex Caruaru.
A Toda Prova, de Steven Soderbergh, permanece nos multiplexes
e As Praias de Agnès e Pina ainda estão no Cinema da Fundação.
Assista, comente, opine, e-mails para fernando@kinemail.com.br
Programação completa da semana, cinemas e horários AQUI

DICAS DE CINÉFILO
Filipe Marcena comenta Mártires de Pascal Laugier AQUI

LEITOR VIP Convites e brindes Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, Último Dançarino de Mao e pré-estreia Os Vingadores AQUI

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CUPIDO NÃO TEM BANDEIRA

Billy Wilder | EUA | 1961
LEIA AQUI






EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS
Brasil 2011 1h43min
de Beto Brant e Renato Ciasca com Camila Pitanga, Gustavo Machado, Zé Carlos Machado


por Felipe André

OPINIÃO
Não existe nada mais importante em Eu Receberia as Piores Notícias de Seus
Lindos Lábios
do que o corpo de Camila Pitanga. Continuando uma preferência temática
iniciada em Crime Delicado, Brant transforma uma mulher em entidade, e atribui à imagem
dela todas as culpas e delícias da vida de um homem. Assim, qualquer movimento da pequena
e velada guerra que se instaura entre os personagens de Zé Carlos e Gustavo Machado não
tem outro motivo que não o desejo de ser o único possuidor dos lábios de Lavínia, interpretada
por Pitanga com precisão milimétrica, caminhando pelo limiar entre inocência e lascívia.
Muito recatada, para logo depois se expor uma força da natureza, a história da personagem
vai sendo revelada lentamente, acompanhando a crescente tensão entre seu marido, pastor
evangélico, e Cauby, fotógrafo que está de passagem pela região.

A primeira cena do longa, uma moça nativa posando sensualmente para a lente às margens
de um rio, estabelece muito daquilo que virá a acontecer depois. Cauby vê o mundo através
da câmera, e até mesmo se desaponta quando percebe um motivo interessante e não está
com ela nas mãos. Gustavo Machado acompanha muito bem esse olhar, fazendo do fotógrafo
um tipo boêmio, que trabalha quando quer e se entrega totalmente aos prazeres da bebida
e da arte. Sua relação com Lavínia, e com a vida, parece ser o reverso da que estabeleceu
com Marina Previato em O Amor Segundo B. Schianberg, também de Brant e Ciasca, onde ele
e seu corpo eram os motivos principais da arte de sua parceira. Aqui, após o primeiro encontro,
as paredes se enchem de fotos da moça, e não demora para aquele se tornar um amor proibido,
secreto, que termina por ganhar as bocas do povo através do jornalista interpretado por Gero Camilo.
É um emaranhado de pequenos momentos, como aqueles em que Gero ecita poemas sobre
a condição humana, ou quando o pastor de Zé Carlos Machado prega para uma plateia que parece
alheia a seus ensinamentos, que faz deste o trabalho mais peculiar de Brant em muito tempo.

Adaptado do romance homônimo, que é provavelmente o melhor livro de Marçal Aquino, parceiro
constante dos realizadores, existe um caráter de urgência muito importante aqui. Para aqueles
que acompanham a carreira de Beto Brant, antes e depois de sua parceria com Renato Ciasca,
a curva de tom que tem ocorrido em seu cinema é óbvia. Antes interessado num cinema frenético,
violento, o diretor parece agora buscar os mais discretos movimentos da vida, e como na viagem
sentimental de Júlio Rocha em Cão Sem Dono, entender os motivos pelo qual o homem se move,
ou prefere permanecer estático. E aqui, apesar do final quase alegórico, e um pouco excessivo,
é perceptível esse desejo permanente de radiografar um pequeno momento da vida.
Visto em nov/2011 como convidado da Janela Internacional de Cinema do Recife
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para f_andre2@hotmail.com


AMERICAN PIE - O REENCONTRO
American Reunion EUA 2012 1h54min
de J. Hurwitz e H. Schlossberg com Jason Biggs, Tara Reid, Alyson Hannigan, Seann William Scott


por Felipe André

OPINIÃO
Treze anos atrás, American Pie estabeleceu um padrão que seria a base da comédia
americana na década seguinte. O filme cheio de escatologia, vulgaridade e sexo foi um sucesso
de público, tendo duas sequências e uma série de spin-offs, e ficando marcado para sempre
como uma espécie de sucessor das comédias dos National Lampoons, que faziam algo parecido
nos anos 80, ainda que em grau bem menor. Talvez não fosse algo natural, mas a ideia de trazer
de volta toda a trupe do colégio em uma reunião anos depois com certeza seria material para
um bom filme. Infelizmente, este American Pie - O Reencontro funciona apenas para quem
já gostava da série, já que muito pouca coisa parece ter mudado nesses anos todos.

Algo de muito importante acontece no roteiro de Hurwitz e Schlossberg, que assinam também
a direção: excetuando-se Stifler, que jamais conseguiu crescer e se tornar um adulto de verdade,
todos os outros rapazes da turma de Jim são homens responsáveis e não caricaturas de pais
de família. Em dado momento, quando rodeados por dezenas de adolescentes cheios de hormônios,
eles se questionam se eram "assim tão irritantes"' anos atrás. Existe uma preocupação muito
sincera com a vida conjugal, maternidade, futuro e especialmente com o passado, que parece
ser o grande motivo para toda a história. Apesar de aparentemente felizes, muita coisa ficou
sem resolução após o colégio, e esse reencontro fortuito vem para auxiliar os últimos pingos
a encontrarem seus is. Ainda que o lado dramático seja surpreendentemente bem desenvolvido,
é na comédia, que deveria ser o ponto forte, que surgem grande parte dos problemas.

Tantos anos depois, é difícil fazer com que piadas envolvendo excremento, mulheres nuas
e beijos gays tenham o mesmo impacto e valor cômico, deixando todo o conjunto extremamente
datado, com cara de filme-homenagem. O diálogo esperto se mostra mais interessante
do que as incessantes gags, o que deve decepcionar quem espera gente fazendo sexo
com tortas ou algo que o valha. De qualquer maneira, ver pessoas de mentira crescerem
de verdade na tela do cinema é sempre interessante, à exemplo de Antes do Amanhecer
e Antes do Pôr do Sol. Por isso, mesmo quem achava American Pie a parte mais
rasa da escória cinematográfica pode se perceber estranhamente emocionado.
Visto em 18/04 como convidado do UCI Kinoplex/Paramount
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para f_andre2@hotmail.com



A NOVELA DAS OITO
Brasil 2011 1h45min
de Odilon Rocha com Claudia Ohana, Mateus Solano, Vanessa Giacomo, Andre Ramiro


por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO
A telenovela sempre teve uma influência forte no povo brasileiro, se não tanto hoje
mas nos anos 70 e 80, quando ditaram moda, levantaram debates e discutiram preconceitos.
Uma das mais marcantes foi Dancin’ Days (1978-1979) de Gilberto Braga, no horário nobre
das 20h, com sua música inesquecível das Frenéticas na vinheta de abertura, nos anos que
marcaram o final da ditadura militar no Brasil, repercutindo em toda um geração. A ideia
do filme, inicialmente promissora, envolvendo nostalgia, revisão histórica, metalinguagem,
cultura pop e entretenimento, resulta em A Novela das Oito, primeiro longa de Odilon Rocha,
estrelado por Claudia Ohana, num papel que faz referência à personagem Julia de Sonia Braga
em Dancin' Days. O ponto de partida da trama mostra as noveleiras Amanda (Vanessa Giácomo,
fraca) e sua empregada Dora (Cláudia Ohana, muito bem) fugindo de São Paulo para o Rio
de Janeiro, após envolverem-se numa morte acidental que colocará um policial militar
a persegui-las. Suas vidas se cruzarão com as de vários outros personagens, a maioria
tendo em comum o hábito de assistir a novela Dancin’ Days. Assim em sinopse, parece bom.

È uma pena que tantas boas ideias se percam num filme de roteiro pobre, mal resolvido entre
comédia e drama nostálgico, com um painel de personagens fracos, divididos caricaturalmente
em dois grupos, os alienados e as vítimas da ditadura, incluindo um jovem gay enrustido
que se envolve com um diplomata brasileiro (Mateus Solano), que mora em Londres e está
de passagem pelo Brasil pela morte do pai. Assim como nas tramas novelescas, o rapaz tem
ligações com Dora, que tem um passado secreto de guerrilheira torturada pelos militares,
entre outras revelações um tanto previsíveis. Tudo se desenvolve de maneira irregular,
a direção de arte é esforçada em recriar os anos 70 mas sofre pelo fato de que na tela grande
(e em CinemaScope muito mal filmado) todos os defeitos aparecem melhor do que na telinha.
O uso óbvio de canções das Frenéticas e da Donna Summer brasileira, Lady Zu, é simpático
e deve agradar aos que forem em busca de um entretenimento saudosista, mas o filme tem
bem mais problemas que qualidades, a notar o elenco fraco, que destoa bastante do esforço
de Claudia Ohana em alcançar um tom quase almodovariano. Ironicamente, foi lançado um box
de DVDs com a novela original Dancin' Days. O que torna o filme ainda mais dispensável.
Visto em 16/04 como convidado do Cinema São Luiz
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br



A PERSEGUIÇÃO
The Grey EUA 2012 1h57min
de Joe Carnahan com Liam Neeson, Dermot Mulroney, Jon Anderson, Frank Grillo


> Sinopse: Um grupo de petroleiros está voltando para casa após uma longa temporada
de trabalho no Alasca. Uma falha mecânica acaba derrubando o avião que os transportava.
Os sobreviventes lutarão contra ferimentos mortais, o intenso frio e a fome voraz.
Feridos e sem alimentos, começam uma luta pela sobrevivência. Mas o grupo não poderia
nem desconfiar que a principal ameaça ainda estaria por vir. O que eles não contavam
era que a região é dominada por uma matilha de lobos selvagens, igualmente faminta.

Visto em 28/04 como convidado da UCI Kinoplex


O ÚLTIMO DANÇARINO DE MAO
Mao's Last Dancer Australia 2010 1h57min
de Bruce Beresford com Chi Cao, Bruce Greenwood, Joan Chen, Kyle McLachlan


> Sinopse: O filme conta a vida de Li Cunxin, que durante a Revolução cultural de Mao Tse Tung,
na China, foi escolhido para abandonar sua família de camponeses e depois enviado para uma
das mais importantes escolas de balé nos EUA. Melhor filme, prêmio do público na Mostra SP 2010
.

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Pré-estreia




SETE DIAS COM MARILYN
My Week With Marilyn EUA 2011 1h46min
de Simon Curtis com Michelle Williams, Eddie Redmayne, Kenneth Branagh, Emma Watson, Judi Dench
MULTIPLEX PLAZA
| sábado 21, 11h

>
Neste sábado 21/04, às 11h, o UCI Kinoplex Casa Forte fará uma pré-estreia especial
para Sete Dias Com Marilyn. O filme conta a história de Colin Clark, um jovem inglês
de 23 anos que conseguiu um emprego como terceiro assistente de direção no set do filme
O Príncipe Encantado, que tinha como atriz principal o maior símbolo sexual de Hollywood,
a frágil garota Norma Jean Baker, então já conhecida como a estrela Marilyn Monroe (Michelle
Williams). Com a função de mediar o relacionamento entre Marilyn e o grande ator inglês
Lawrence Olivier (Kenneth Branagh) durante as filmagens, logo o jovem Colin se apaixonará
por Marilyn, numa aventura amorosa que mudará a vida dele e revelará vários mistérios
de um dos maiores mitos do século XX. O filme recebeu duas indicações ao Oscar 2012, para
Michelle Williams como melhor atriz e Kenneth Branagh como melhor ator coadjuvante.
Visto em 21/04 como convidado do UCI Kinoplex

A pré-estréia sorteará, para o público presente, oito livros. Quatro Minha Semana com Marylin,
o livro de Colin Clark que deu origem ao filme, cedidos pela Editora Pansamento, e quatro
Fragmentos, cedidos pela Tordesilhas Livros, um livro ilustrado com fotos e trechos, versos
e cartas escritas por Marilyn, desconhecidas do grande público até 2010, quando o livro foi lançado.

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Crônicas cinéfilas, opinião, cartas do leitor etc


65º Festival de Cannes - Seleção Oficial


> Foram anunciados essa semana os 22 filmes que competem à Palma de Ouro no 65º Festival Cannes,
que acontece de 16 a 27 de maio. A lista inclui os pesos-pesados David Cronenberg, Michael Haneke,
Alain Resnais, Abbas Kiarostami e Ken Loach, e teve como surpresa a seleção do novo filme de Walter
Salles, o aguardado Na Estrada, road movie inspirado no livro On The Road de Jack Kerouac, estrelado por
Kristen Stewart, Viggo Mortensen, Kirsten Dunst e grande elenco jovem. O filme estreia em junho no Brasil.





David Cronenberg compete com Cosmopolis, baseado no livro do americano Don DeLillo, sobre
um dia na vida de um jovem milionário (Robert Pattinson) que atravessa de limusine uma Nova York
em convulsão num futuro próximo. Samantha Morton, Mathieu Amalric e Juliette Binoche estão no elenco.





O vencedor da Palma em 2009 com A Fita Branca, Michael Haneke, apresenta Amor, sobre um casal
octogenário. O filme marca o retorno do ator Jean-Louis Trintignant às telas. Prestes a completar 90 anos,
o francês Alain Resnais retorna com Você Ainda Não Viu Nada. O iraniano Abbas Kiarostami volta
a competir com Like Someone I Love, rodado no Japão. O francês Jacques Audiard, de O Profeta,
está em competição com De Rouille et d’Os, drama com Marion Cottilard no elenco. O russo Sergei Loznitsa,
que esteve presente na Janela Internacional do Recife com Minha Felicidade, concorre com In The Fog.
O único filme da América Latina é o mexicano Post Tenebras Lux, de Carlos Reygadas (Luz Silenciosa).
Moonrise Kingdom, de Wes Anderson, com Bruce Willis e Edward Norton, será o filme de abertura.





Entre as atrações especiais, Dracula, novo terror do italiano Dario Argento, rodado em 3D. O brasileiro
Nelson Pereira dos Santos apresenta seu documentário mais recente, A Música Segundo Tom Jobim,
mal exibido no Brasil no início do ano. O novo Mekong Hotel de Apichatpong Weerasethakul, vencedor
da Palma de Ouro em 2010 com Tio Boonmee. Havia a expectativa de que o americano Terrence Malick,
Palma de Ouro ano passado com A Árvore da Vida, concluísse a tempo seu novo longa, The Funeral
e Wong Kar-Wai sua cinebiografia de Bruce Lee, The Grand Master, mas ambos continuam em finalização.

Na segunda mostra oficial do festival, Un Certain Regard, o jovem canadense Xavier Dolan volta com
Laurence Anyways, sobre um homem que quer se transformar em mulher por amor a um outro homem.
O argentino Pablo Trapero retoma a parceria com o ator Ricardo Darin em Elefante Blanco e Brandon
Cronenberg, filho de David Cronenberg, exibe seu primeiro longa, Antiviral. Confira abaixo a lista completa:

COMPETIÇÃO

Moonrise Kingdom, de Wes Anderson
De Rouille et d’Os, de Jacques Audiard
Holy Motors, de Leos Carax
Cosmopolis, de David Cronenberg
The Paperboy, de Lee Daniels
Killing Them Softly, de Andrew Dominik
Reality, de Matteo Garrone
Love, de Michael Haneke
Lawless, de John Hillcoat
In Another Country, de Sangsoo Hong
Taste of Money, de Sangsoo Im
Like Someone in Love, de Abba Kiarostami
The Angel’s Share, de Ken Loach
In the Fog, de Sergei Loznitsa
Beyond the Hills, de Christian Mungiu
After the Battle, de Yoursry Nasrallah
Mud, de Jeff Nichols
Vous n'avez Encore Rien Vu, de Alain Resnais
Post Tenebras Lux, de Carlos Reygadas
On The Road, de Walter Salles
Paradise: Love, de Ulrich Seidl
The Hunt, de Thomas Vinterberg

UN CERTAIN REGARD

Seven Days in Havana, filme coletivo de Benicio del Toro, Pablo Trapero,
Julio Medem, Elia Suleiman, Juan Carlos Tabio, Gaspar Noe e Laurent Cantet
11.25 The Day He Chose His Own Fate, de Koji Wakamatsu
Antiviral, de Brandon Cronenberg
Beasts of the Southern Wild, de Benh Zeitlin
Confession of a Child of the Century, de Sylvie Verheyde
Despues de Lúcia, de Michel Franco
La Pirogue, de Moussa Toure
La Playa, de Juan Andres Arango
Laurence Anyways, de Xavier Dolan
Le Grand Soir, de Benoit Delepine e Gustave Kervern
Les Chevaux de Dieu, de Nabil Ayouch
Loving Without Reason, de Joachim Lafosse
Miss Lovely, de Ashim Ahluwalia
Mystery, de Lou Ye
Student, de Darezhan Omirbayev
Trois Mondes, de Catherine Corsini
White Elephant, de Pablo Trapero


Dicas de Cinéfilo - Mártires




MÁRTIRES
Martyrs France 2008 1h37min

de Pascal Laugier com Morjana Alaoui, Mylène Jampanoï, Catherine Begin, Xavier Dolan
Disponível para Download

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Começarei esse texto com um desabafo. Mártires foi uma das experiências
mais desgastantes da minha vida. Quando o filme enfim acabou eu estava exausto física,
emocional e psicologicamente. Assisti ao filme há cerca de três dias e ele continua
vívido em minha memória, suas imagens grotescas me atacando quando estou distraído.
Dito isso, é um dos filmes mais interessantes que vi esse ano (foi lançado em 2008,
mas nunca no Brasil), uma surpresa, já que os únicos comentários que li/ouvi sobre
ele eram sempre relacionados à carnificina que o francês Pascal Laugier mostra
em detalhes. Mártires foi arremessado por muitos na lixeira dos filmes torture porn,
como se fosse vazio de substância como qualquer um dos Jogos Mortais da vida.
Superando-se a dificuldade de manter os olhos na tela, você vai testemunhar
um filme inteligente em sua estrutura, rico em subtextos e, diferente dos irresponsáveis
torture porn, surpreendentemente humanista. Nunca vi um exercício tão sangrento
em niilismo ser tão pró-vida. Talvez seja a maneira com que interpretei, e não
exatamente a intenção de Laugier, mas não é possível eu ter lido os claros sinais
do filme de maneira tão errada. Sim, ao longo de intermináveis 1h37min somos
vítimas e cúmplices de horrores inomináveis, mas a provocação de Laugier é mais
pretensiosa que carnes dilaceradas: ele nos envolve, comove, tortura e questiona
a necessidade de observar o horror para depois dar um belo soco na boca do estômago.
Em dois momentos eu considerei desistir da sessão. Felizmente eu não o fiz,
pois a recompensa final tem uma qualidade rara, a coragem.

Em Mártires, nenhuma conclusão imediata deve ser tirada antes do fim (e dificilmente
você conseguirá tirar alguma imediatamente após). O filme funciona como bonecas russas,
uma história dentro da outra, muda-se de rumo o tempo todo e a soma do suspense
com o que de fato acontece na cena seguinte garantem a energia e a tensão para nos
deixar simultaneamente ansiosos e atentos. Parece que estou falando de um trem fantasma,
mas a naturalidade com que o roteiro desconstrói a história é o que coloca o filme acima
da média enquanto cinema. Acima de qualquer coisa, é uma história bem contada.
Ressalto aqui o trabalho das atrizes Morjana Alaoui e Mylène Jampanoï. Se você chegar
a chorar em algum momento, a culpa é quase toda dessas meninas. 'Quase' porque elas
devem ao roteiro, também de Laugier, as personagens Anna e Lucie. Em meia hora de filme
eu estava totalmente entregue a elas. Impressionante a capacidade de Laugier em apresentá-las,
caracterizá-las e humanizá-las com tanta concisão e impacto. A representação do trauma
de Lucie é um bom exemplo do potencial do cinema de gênero. A primeira metade
de Mártires é cinema narrativo de primeira, seja de gênero ou não. É quando vem
a segunda metade e a sanidade, nossa e do filme, é posta em cheque.

Uma personagem que acaba de ver o resultado do tormento de duas outras garotas
se vê prestes a embarcar no mesmo processo que elas. Não me lembro de experimentar
no cinema uma sensação de desolação e desespero com a agudez em que senti nessa
reviravolta. Foi um dos momentos em que quase desisti. A partir daí, Mártires
se transforma em algo obsceno e cruel, pronto para nos desorientar com uma barbárie
desamparada, despida de afetações e por isso mesmo quase inassistível. Passei a odiar
o filme. Por alguns minutos, acreditei que Laugier havia se rendido ao torture porn,
passei a duvidar da existência de um propósito naquele horror. Forcei-me a encarar
cena por cena ou, para aproveitar a temática, martirizei-me. Mal sabia que estava
fazendo exatamente o que Laugier queria. Os dez minutos finais são inesquecíveis.
A resolução traz reflexões metafísicas que alfinetam o fundamentalismo e contesta
a representação da violência do próprio filme (e o nosso consentimento em vê-la).
Nesse sentido, Mártires é primo de Onde Os Fracos Não Têm Vez, um anti-O Albergue,
por trazer uma profunda crítica da violência cotidiana e representada na mídia e no cinema.
Acaba sendo um paradoxo, mas o fato de Mártires reconhecer e defender tal ideia
com veemência o torna um bom filme sob a minha ótica. Não gostar do filme é saudável,
Mártires separa o espectador de sensibilidade humana intacta do espectador com
problemas de sanidade mental. Sofri cada segundo desse filme, mas o acho válido
por ser cinema inquieto, destemido, bem realizado e provocativo.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com

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