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Kinemail Edição 591


Neves do Kilimanjaro, O Corvo e Plano de Fuga

> Os Vingadores é o primeiro filme de 2012 a bater a marca de $ 1 bilhão
de dólares em bilheteria mundial. O Brasil é um dos países com melhor
bilheteria fora dos EUA e o filme continua firme no circuitão numa semana
com poucas novidades nas telas. No Cine Rosa e Silva, o belo melodrama
As Neves do Kilimanjaro
, de Robert Guediguian
, emociona com a dupla
Jean-Pierre Darroussin e Ariane Ascarid, em personagens de rara
grandeza humana, baseado em poema de Victor Hugo. Nos multiplexes,

O Corvo
com John Cusack e Plano de Fuga com Mel Gibson.

Ainda em cartaz, recomendamos: Jovens Adultos, somente no Rosa
e Silva; a animação Piratas Pirados! no circuitão; Minha Felicidade
e Girimunho no Cinema da Fundação. Nas sessões extras dos
multiplexes Meu Primeiro Casamento e A Fonte das Mulheres.
Programação completa da semana, cinemas e horários AQUI
Assista, comente, opine, e-mails para fernando@kinemail.com.br

DICAS DE CINÉFILO
Filipe Marcena comenta Coriolano em DVD AQUI

LEITOR VIP Ganhe pares de convites para ver O Corvo AQUI


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Os filmes da semana





CUPIDO NÃO TEM BANDEIRA

Billy Wilder | EUA | 1961
LEIA AQUI






AS NEVES DO KILIMANJARO
Les Neiges du Kilimandjaro França 2011 1h47min
de Robert Guediguian com Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin, Gregorie Leprince-Ringuet

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO
R
obert Guediguian é um dos raros cineastas atuais que mantém um íntegro
discurso socialista no seu cinema, pouco conhecido aqui no Brasil, mas que insere
as questões éticas e morais em melodramas, certo de que é mais eficiente pegar
o espectador pelo coração do que pela cartilha do discurso esquerdista, tão fora
de moda nos dias atuais. Num mundo onde os conceitos de esquerda e direita foram
vencidos pelo pragmatismo raso do capitalismo neoliberal, As Neves do Kilimanjaro
nos chega como seu filme mais otimista e generoso, levando em conta que o diretor
já fez dramas sociais exasperantes e dolorosos, como A Cidade Está Tranquila,
sobre a luta de uma mãe pobre para salvar a sua filha, perdida no vício das drogas
pesadas e marginalidade na região portuária de Marselha, onde sempre ambienta
seus filmes. Agora, na cena inicial, parece que estamos diante de um filme politizado
dos anos 70. Vemos uma reunião de trabalhadores no cais. No lugar de luta, greve
ou protesto, o que temos é um patético sorteio, onde operários de cabeça baixa são
sorteados. Os 20 "ganhadores" serão demitidos, num aperto de custos da empresa,
que representa bem o caos econômico que está acontecendo na Europa e no mundo.

O líder sindical cinquentão Michel (Jean-Pierre Darroussin) inclui-se no sorteio, embora
não precise pela sua condição hierárquica no grupo, e é um dos escolhidos. Aceita sua
nova condição de desempregado e o filme parece que será sobre as dificuldades de um
homem na sua idade diante dessa realidade econônima atual. Eis que entra em cena
sua esposa, Marie-Claire (Ariane Ascaride, mulher do diretor e sempre atriz principal
nos seus filmes) e o filme dá sua primeira guinada. O casal está completando 30 anos
de casamento e, numa linda festa ao ar livre no cais, com família e amigos, com
todos dançando Heart of Glass do Blondie, o filme segue num delicioso registro
naturalista, quase documental, do cotidiano dessa famíla, onde somos convidados
a conhecê-los sem pressa, numa levada que muitos chamam de "onde nada acontece".
Na festa, Michel e Marie-Clare são presenteados de surpresa com o que justifica o título
doce do filme: dinheiro e passagens para uma viagem à África, incluindo a famosa
montanha do Kilimanjaro, conhecida também do cinema pelo melodrama homônimo
hollywoodiano dos anos 50, estrelado por Ava Gardner e Gregory Peck. Não precisa
ser vidente para adivinhar que o Kilimanjaro nunca será visitado dessa vez.

Guediguian ameaça dar uma nova guinada no filme, quando um assalto muda
os planos do simpático casal radicalmente. Estamos agora num filme de gênero,
um mistério, suspense policial? De jeito nenhum. Os assaltantes são logo revelados
na cena seguinte. O inesperado assalto é o que traz à tona o dilema central do filme.
De que adiantou a luta trabalhadora do século passado? Ela não foi passada para
os jovens? Que parecem viver perdidos num mundo sem lastro ético, moral, onde
a vida passa a ser regrada pelo dinheiro, pelas urgências da sociedade de consumo?
Estamos enfim diante de um belo conto moral, onde Guideguian valoriza o melodrama,
a célula básica da família, do amor, que está anunciada nos créditos que dizem que
o filme é livremente inspirado num poema de Victor Hugo, How Good Are The Poor,
onde uma mulher pobre adota duas crianças órfãs numa lição de humanidade.

Não por acaso, a pista que leva aos criminosos é um inocente gibi do Homem-Aranha,
levado pelos ladrões e encontrado depois por Michel, sendo lido por duas crianças.
Ainda, há uma pequena cena maravilhosa onde um jovem garçom de um pequeno
bistrô oferece uma bebida a Marie-Claire, revelando sua habilidade para indicar
a bebida certa para cada dor humana. Um achado puramente cinematográfico.
É preciso olhar para As Neves do Kilimanjaro como uma fábula. Apesar do
naturalismo realista predominante, há muito em comum com o recente O Porto,
que trata dos problemas da Europa globalizada em formato de conto fantástico,
também tomando partido pelos pobres e abandonados. Guediguian comete o deslize
de tratar alguns personagens, os "capitalistas conformados", como caricaturas fáceis,
apresentando em poucos minutos uma das mães mais vilanescas já vistas no cinema.

Mas há que se dar o desconto de que esse mundo de pessoas pobres, felizes com
suas vidas simples, cheias de generosidade e sentimentos cristãos, embora o cineasta
e seus personagens sejam certamente ateus (não vi um único signo religioso no
filme), é mesmo coisa de pura ficção hoje em dia, especialmente quando se fala
de gente, esse artigo cada vez mais raro num cinema mecanizado, sem vida e cheio
de bonecos (e eu não estou falando em animações da Pixar...). Por fim, por se passar
numa região portuária, repare como há semelhança geográfica com Brasília Teimosa
e a região do Cais José Estelita. Comparando com a Marselha de Guediguian, o filme
ainda dá mais o que pensar sobre o atual estado urgente das coisas aqui no Recife.
Mas não tenha medo, As Neves do Kilimanjaro não é filme de tese, de debate
econômico/social. É, num olhar mais amplo, um generoso melodrama humanista.
Visto em 16/05 como convidado do Cine Rosa e Silva
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br


O CORVO
The Raven EUA 2012 1h45min
de James McTeigue com John Cusack, Alice Eve, Brendan Gleeson, Luke Evans

por Fernando Vasconcelos

OPINIÃO O
Corvo mereceria mais atenção se fosse um projeto original. Mas o que se
vê é mais um projeto de resultado falho, apostando numa fórmula que parece ter sido
inaugurada pelo sucesso do Sherlock Holmes moderninho de Robert Downey Jr. Pegue
algum personagem histórico famoso, um ator de forte apelo popular e um parque temático
ambientado em filme de época com algum mistério secundário a ser desvendado (um
serial killer, pode ser?) e está pronto um novo sucesso para os cinemas. Nem sempre
a fórmula funciona. O Corvo passou em branco nas bilheterias ianques. Apesar de
nada empolgante, o filme não é um desastre. Há boas ideias no argumento, o que
faltou foi ambição, um diretor mais empenhado em criar uma aventura mais charmosa,
inventiva, e menos burocrática. O que resta é um filme frio, formulaico e sem nenhum
momento de brilho, apesar de assistível sem maiores danos colaterais. Isso, claro,
se você não for um fã de Edgar Allan Poe. Melhor evitar, para não se sentir ofendido.

Edgar Allan Poe, o célebre escritor americano, pioneiro em contos de suspense e terror,
morreu em circustâncias até hoje misteriosas, como logo informam os créditos inicias.
Parece interessante a informação de que o herói protagonista morrerá no final, raro
no gênero, mas o que se segue não satisfaz a expectativa de ver algo diferente. A trama
de O Corvo se passa em 1849 e acompanha um serial killer nas ruas de Baltimore, que
se inspira nas histórias de Allan Poe para matar suas vítimas, reproduzindo as situações
dos contos mais populares do escritor. Quando o interesse romântico (Alice Eve, loira)
do escritor é raptada, o próprio Allan Poe precisa ajudar a polícia a deter o criminoso.
Como que juntando pedaços de filmes do gênero, temos as cenas gore de terror,
o baile de máscaras, a perseguição na névoa da floresta etc, e o mistério sobre
o assassino vai se desenrolando com quase nenhum senso de suspense. O diretor
James McTeigue, que fez um trabalho correto em V de Vigança sob o controle
dos irmãos Wachowski, aqui é completamente incompetente para criar qualquer
clima ou tensão. Da identidade do assassino ao romance de Poe com a filha
de um poderosos de Baltimore, tudo soa inócuo, insosso, carente de emoção.

John Cusack não dá muita credibilidade ao seu Allan Poe, mas parece esforçado
em trazer alguma emoção ao personagem. Não ajuda muito que todos os outros
atores e personagens sejam tão interessantes quanto ilustrações de fundo. O Corvo
não funciona como homenagem à Edgar Allan Poe, pois não tem um vestígio sequer
do talento do escritor, reduzido aqui apenas ao terror gráfico. O maior mérito talvez
é que o filme não apela para explosões e montagem epiléptica, seguindo a cartilha
de um cinema bem filmado tecnicamente. Na direção de arte, por exemplo, optou
por reproduzir as ruas de Baltimore em cenários reais filmados no Leste Europeu,
ao contrário da tendência atual de usar cenários digitais. Se, pelo menos, o filme
gerar interesse no espectador em ler alguns contos de Poe, já tem alguma utilidade.
Visto em 17/05 como convidado do UCI Kinoplex/Paris Filmes
Concorda? Discorda? Mande sua opinião para fernando@kinemail.com.br


PLANO DE FUGA
Get the Gringo EUA 2012 1h35min
de Adrian Grunberg com Mel Gibson, Roberto Sosa, Dolores Heredia, Peter Stormare

>
Sinopse: Numa perseguição policial na fronteira entre o México e os Estados
Unidos, Mel Gibson é um assaltante de bancos que consegue escapar da polícia
americana. Obrigado a cruzar a fronteira do México, ele é capturado pela polícia local.
Jogado numa prisão controlada por bandidos e policiais corruptos, ele terá somente
a ajuda de um garoto para sobreviver dentro da prisão e planejar sua fuga.

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Crônicas cinéfilas, opinião, dicas, festivais etc


Dicas de Cinéfilo




CORIOLANO
Coriolanu Inglaterra 2011 2h02min
de Ralph Fiennes com Fiennes, Gerard Butler, Vanessa Redgrave, Jessica Chastain
Em DVD pela California Filmes

por Filipe Marcena

OPINIÃO
Tinha tudo pra ser mais um filme de vaidade de estrela hollywoodiana,
mas na verdade Coriolano é uma promissora primeira experiência na direção para
Ralph Fiennes, e se tratando de uma adaptação de Shakespeare não é pouca coisa.
Aliás, assistir a esse filme depois de encarar A Tempestade, da muito mais experiente
Julie Taymor, é um alívio. Há um abismo entre esses dois filmes. O desafio é maior
ainda considerando que Fiennes é também o protagonista. O roteiro, escrito por John
Logan, é bastante fiel ao texto original, e Fiennes o respeita, criando uma modernização
estranha e fascinante da história, mas preservando a lógica da sociedade britânica
do século XVI e o sentido da obra. A direção do invejável elenco, que além de Fiennes
conta com Vanessa Redgrave, Jessica Chastain, Brian Cox, Lubna Azabal, James Nesbitt
e o sempre suspeito Gerard Butler, é tão segura e eficiente que mesmo declamando
as palavras rebuscadas de Shakespeare, as cenas nunca caem no ridículo (como o filme
de Taymor cai constantemente), e isso seria muito fácil de acontecer dentro da abordagem
realista de Fiennes (a fotografia é do oscarizado Barry Ackroyd, de Guerra ao Terror).
Se bem que, convenhamos, ter Redgrave em longos monólogos shakespereanos
já é garantia de um filme no mínimo assistível. E Corilano é mais que isso.

O filme é um estudo de personagem, Caius Martius Coriolano, o herói de Roma, violento
soldado de valores inflexíveis e total misantropia. Fiennes o encarna com a devida fúria
e dureza, embora muitas vezes evoque Voldemort na composição, uma distração
curiosa. Manipulado por políticos, pela faminta população romana e sua família, a mãe
Volumnia (Redgrave) e a esposa Virgilia (Chastain), o egotista soldado tem seus ideais
confrontados. Butler interpreta Tullus Aufidius, guerrilheiro civil e maior inimigo de Coriolano.
Ele é o laço fraco do elenco. Mesmo tendo uma forte presença e um rosto expressivo,
parece estar fazendo uma continuação do Leônidas de 300. Ainda assim não prejudica
o efeito visceral do filme. Fiennes entende que Shakespeare ainda comove, provoca,
questiona, ainda é atual, e isso fica impresso no filme graças a excelente contextualização
do trágico Coriolano, que por oscilar entre ideais conflitantes, jamais atinge uma rendenção
particular. Pode ser um filme antiquado em alguns momentos, mas jamais é acomodado.
Assim como George Clooney, Ralph Fiennes pode encontrar sucesso como diretor cinema.
Filipe Marcena | filipeap1988@hotmail.com


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