Por Kleber Mendonça Filho | www.cinemascopio.com.br
Opinião São tão bons os filmes que nos dão uma janela generosa para a vida, levando o espectador numa viagem estranhamente completa
de situações e emoções com um
jogo de personagens que você vai conhecer, acompanhar
e, finda a sessão, sentir uma certa sensação de perda ao
deixá-los. Reis e Rainha, de Arnaud Desplechin, é esse tipo
raro de filme, equilibrando sabiamente ao longo de 150 nervosos
e apaixonados minutos uma série de temas e sensações que
resultam numa maratona emocional incomum.
Reis e Rainha traz um relato honesto, engraçado e muitas
vezes doído sobre a vida, cutucando o amor e a morte,
a arte e a loucura, e o faz com energia e afiado poder
de observação. Essencialmente, temos duas histórias paralelas sobre duas pessoas que, no passado, estiveram juntas.
Nora (Emmanuelle Devos), responsável por uma galeria de arte em Paris, é mãe de um garoto cujo pai morreu antes mesmo
de ele nascer. Aos 30 e poucos anos, ela tem um pai já idoso,
um escritor que finaliza seu último livro - de memórias - e que nutre enorme medo da morte. Nora também está para casar
com um homem rico que deverá dar-lhe carinho e segurança financeira. A presença de Devos é um dos trunfos de Reis
e Rainha, e sua composição é perfeita na construção
de uma mulher falha e contraditória.
A outra metade do filme pertence a um personagem fascinante: Ismael (Mathieu Almaric, também excelente em Munique)
é um músico que a família considera louco, seu contador
também (por motivos fiscais) e que, por isso, termina num
manicômio. Seu perfil psicológico, no entanto, não é o do
paciente sorumbático à beira do suicídio, mas o de uma casa
de força energizada e bem-humorada que vê a vida de maneira
diferente, com forte acentuação boêmia e uma sensibilidade
incomum que fez dele o principal responsável pela visão
de mundo do filho de Nora, mulher que foi seu grande amor.
Filmando em formato largo de tela e explorando um vocabulário
também largo de cinema, artes plásticas, psicologia e literatura,
Desplechin faz esse mix parecer fácil, com uma montagem
vertiginosa que insere realismo fantástico, voltas ao passado
e trocas de ponto de vista como se estivesse brincando,
mas com postura humana séria diante das coisas da vida.
Aumentando ainda mais o efeito geral, Reis e Rainha contém
alguns momentos sublimes de beleza e humanidade, sempre
marcados por um realismo inesperado (a corrida de Nora
para o aeroporto, estação de trem e estrada para Paris)
mas também não pega leve quando entra nas áreas mais
sombrias dos personagens. A leitura de uma carta, em especial,
revela-se uma das cenas mais fortes e tristes de todo
o filme, elemento que Desplechin desenvolve numa idéia maravilhosa que transforma emoção em efeito físico que, compreensivamente, parece fazer mal à pele...
Como um administrador talentoso, esse filme demonstra
interesse e carinho pelos seus personagens imperfeitos,
sendo talvez o maior exemplo 'a chinesa' Arielle (Magalie
Woch), a paixão de manicômio de Ismael, carente,
triste, mas sempre pronta para se apaixonar. Alguns espectadores talvez não se sintam à vontade com a franqueza
desse produto francês, mas poderão se achar envolvidos
numa bela demonstração de vida bem filmada.
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