Opinião Steven Spielberg continua produzindo um filme
interessante atrás do outro. Desde o final da década
de 90, mesmo depois de festejado com uma penca
de Oscars por A Lista de Schindler, ele não descansa.
Filmes interessantes, mas não memoráveis, como é o caso
do novo Munique, seu filme mais ambicioso em anos
e também o mais adulto, quer dizer, o quanto adulto
Spielberg pode ser... Vá lá, é seu filme mais humanista.
O filme resgata a famosa tragédia terrorista de Munique 72,
quando palestinos tomaram esportistas israelenses
como reféns nas Olimpíadas daquele ano. Eu me lembro,
já tinha 8 anos na época. Mas o filme não é sobre o atentado.
É sobre a ação de caça aos terroristas determinada pela
então primeira-ministra Golda Meir, através da Mossad,
serviço secreto israelense. É onde entra nosso 'herói',
o assassino e líder de um grupo de matadores profissionais
vivido com empenho por Eric Bana (Hulk). Entre eles, está
também Daniel Craig, o novo 007. Por falar em 007, aí
está o Calcanhar de Aquiles de Munique. Embora bem
equilibrado entre a mensagem política pacifista e o filme
de ação sofisticado, o filme adota tom fantasioso, pouco
realista na narrativa. Mas Munique flui bem em suas quase
três horas de duração, afinal é um filme do experiente
homem-entretenimento de Hollywood, que sabe como
prender a atenção do espectador como ninguém e é dono
de um domínio singular em construção cinematográfica.
O filme evita pieguice ao retratar o grupo como seres
humanos. É também adulto na abordagem do sexo, na
maneira como mostra a relação do matador com a esposa
e tem até uma raríssima cena de nu frontal na filmografia
spielberguiana (judeus nus em A Lista de Schindler não
contam, OK?), na figura de uma das mais belas assassinas
já vistas nas telas em filmes de espionagem (a francesa
estonteante Marie-Josée Croze, de As Invasões Bárbaras)
mas, na questão política, Spielberg morde e assopra.
Quer mostrar os dois lados da questão, mas não consegue
aprofundar-se na complexidade da situação. É no suspense
das ações terroristas, filmadas com impressionante nível
de violência, que ele fica mais à vontade. E assim, Spielberg
proporciona quase três horas de empolgante (se é que se pode
chamar assim) cinema, com um claro esforço em fazer
algo mais relevante, refletindo sobre tema tão atual e delicado.
Quanto à carpintaria cinematográfica, o filme é deslumbrante,
recriando o início dos anos 70 perfeitamente, dos figurinos
à direção de fotografia absurda de Janusz Kaminski, tudo
impecável, incluindo aí um excelente elenco internacional.
Mas querendo fazer um cinema que agrade a todos, Spielberg
nem satisfaz o público intelectual, que pode sentir superficialidade
e falta de ponto de vista na abordagem, nem o público médio
multipléxico, que deverá achar o filme muito complicado,
difícil, se não tiver um mínimo de cultura sobre fatos históricos.
Mas não há como negar que é um grande espetáculo, cinema
de boa qualidade. E, já no finalzinho, Spielberg acertou
na ferida (e me emocionou) fazendo uma bela e sóbria
referência ao atentado às torres do World Trade Center.
TRIVIAS O filme Um Dia em Setembro ganhou
O Oscar 2000 de Melhor Documentário. O premiado
cineasta Kevin MacDonald entrevistou os dois lados
do atentado. Filme inédito no Brasil.
Os dois atores do filme israelense Yossi & Jagger - Delicada
Relação também atuam em Munique. Yehuda Levi, o Jagger,
tem uma fala com Eric Bana, como um soldado motorista
em Israel. Sobre um caso de amor entre dois militares,
Yossi & Jagger tem muito em comum com o mais festejado
Brokeback Mountain. Nas locadoras em DVD. |