Opinião O cinema de Terrence Malick, espécie de ermitão hippie
do cinema americano, é composto de apenas quatro filmes
(e que filmes!). Do impressionante Terra de Ninguém (1971),
passando por Cinzas no Paraíso (1978), considerado
um dos filmes com as mais belas imagens já capturadas
por uma câmera, Além da Linha Vermelha (1999), um filme
de guerra como nenhum outro, e chegando a esse belo
O Novo Mundo, o cinema de Malick tem uma linguagem
muito especial, que não dialoga com o público moderno,
mediocrizado pela televisão. Basta ver a reação da sessão
multipléxica em que eu estava. Davam risadas nos delicados
e poéticos momentos românticos da fita, um horror...
Se você ainda acredita em lirismo, poesia audiovisual
e narrativas oníricas, descompromissadas com o bê-a-bá tradicional de Hollywood, esse é O FILME.
O que convencionalmente se chama de 'história', aqui é
o romance entre o capitão inglês John Smith e a nativa
Pocahontas, de uma América virgem. É, aquela historinha
que você conhece do desenho da Disney... Conhecidos como
um mito americano, esses personagens existiram de fato.
Mas Terrence Malick não busca fidelidade histórica. Em nenhum
momento a índia é chamada de Pocahontas e, na verdade,
o capitão Smith a conheceu como uma criança. O que não
impede Malick de construir um delírio romântico de uma
beleza estonteante, de uma delicadeza sem fim. Mas, assim
como no belo filme nacional Desmundo, Malick está mais
interessado em transportar o espectador para um universo
sensorial e imagético de um tempo perdido e faz isso
de forma magnífica, lembrando Stanley Kubrick na sabedoria
de que uma época não é só representada por figurinos
e diálogos adequados. O que Malick capta é um ritmo,
um modo de vida, um comportamento, diferentes do que
vivemos hoje em dia. O filme foi muito criticado pela
montagem, feita por quatro editores que, segundo alguns
críticos, criaram uma confusão fragmentada. Sinto dizer
que eles não entenderam nada... A montagem abrupta,
fragmentada, sem linha narativa óbvia, é um dos trunfos
do filme para colocar o espectador em estranho estado
de percepção. Como bem falou um crítico que li, 'é preciso
um esforço para livrar-se da pobreza gramática narrativa
do cinema moderno, para mergulhar numa poesia visual
alienígena para as platéias atuais'. O esforço vale a pena.
Ou seja, não é cinema para quem quer passar quase três
horas lentas, ao som de silêncios e arrebatora música clássica
(Wagner e Mozart) , com baldes de pipoca e coca-cola.
Sobre o elenco, vale notar que Terrence Malick sempre
trabalha com os grandes nomes de Hollywood, uma forma
de viabilizar comercialmente seus projetos. Colin Farrell
está OK, limitado como ator, mas filmado pela câmera
de Malick mais pela sua presença física e masculinidade,
contrastando com a beleza delicada e exuberante da novata
Q'Orianka Kilcher, a verdadeira estrela do filme, devorada
com inspiração pela câmera apaixonada de Malick. Christian
'Batman' Bale participa do terço final da fita, comprovando
ser um dos melhores atores da nova geração. Fazendo um
cinema 'antiquado', 'hiponga', como dizem seus detratores,
Terrence Malick não poderia ser mais moderno. O Novo
Mundo é um filme de sensibilidade e estilo pessoal
ousado, original e de uma beleza raríssima no cardápio
cinematográfico dos nossos multiplexes. Não perca. |