Opinião O novo filme de Karim Aïnouz (Madame Satã) saiu
premiado do Festival do Rio e, desde que eu o assisti na Mostra
SP, vem colecionando prêmios mais que merecidos, inclusive
internacionais, como o do Festival de Cuba, onde levou
melhor filme e melhor atriz. O Céu de Suely faz uma boa
parelha com Cinema, Aspirinas e Urubus como cinema
de ambientação regional mas alcance universal, centrado
em personagens fortes e com roteiro simples, enxuto,
mas nunca simplista. Tranquilamente, é um dos nossos
melhores filmes da safra 2007, nesse cinema nacional anêmico
e em coma que a Globo Filmes empurra nos multiplexes.
O filme conta a história de Hermila (a pernambucana Hermila
Guedes, excelente), garota do interior do Ceará, Iguatu, que
fugiu apaixonada com o namorado para São Paulo. No início
do filme, ela está voltando pra Iguatu com o filho bebê.
Seu namorado, agora marido, chegará depois. Dias passam
e Hermila compreende que seu marido não voltará. E o filme
será sobre essa mulher, dolorosamente sozinha, sem conseguir
se encaixar de volta naquele fim-de-mundo sem perspectivas,
onde o antigo amigo João (João Miguel, também de Cinema,
Aspirinas...) parece ser o ideal para um recomeço de vida.
Hermila não tem escolha. Sofrendo de amor na mais clássica tradução da expressão, só resta a Hermila partir.
Sem dinheiro, ela tem a idéia de rifar o próprio corpo para apenas um felizardo, que receberá como prêmio uma noite
no paraíso com Suely, nome que ela inventa para a rifa.
O Céu de Suely poderia contar essa história como novela,
um melodrama, mas Karim escolhe o caminho mais rico dos
silêncios, do não-dito, dos cortes precisos nos poucos diálogos
e nos planos fechados no rosto de Hermila Guedes, de uma
presença cênica espetacular, em cena durante o filme inteiro
(não há uma única cena sem ela) . Não só Hermila, mas um conjunto de ótimas atrizes desconhecidas dão força ao universo
feminino desse conto de amor ferido que não se encaixa
no pobre cinema que a Rede Globo está formando para
o público atual. A ótima cena final, muito bonita, contradiz
o clássico final feliz hollywoodiano mas, de certa forma, deixa
o espectador feliz (e de coração partido) por Hermila ter,
à sua maneira, conquistado um caminho que escolheu.
O Céu de Suely tem temática popular, fala de gente real, que
reconhecemos na realidade brasileira das pequenas cidades
e periferias urbanas, mas pode esbarrar num rótulo de 'cinema
de arte' nacional que dificulte seu alcance com o grande público.
De fato, depois de larga projeção na mídia nacional,
o filme permanece com poucas cópias, ainda com público
em torno de 60 mil espectadores e estréia aqui, na cidade
onde mora a atriz principal Hermila Guedes, apenas
na sofisticada (instalação e programação) sala da Fundaj.
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