Opinião Após a chamada 'retomada' do cinema brasileiro
em produção e reconquista de público, já estava na hora
de, em meio a diversidade de gêneros e estilos, surgir um
filme que brilhasse acima da média, como cinema de qualidade
não só técnica, mas de linguagem cinematográfica madura,
um filme acima de comentários insuficientes como 'a fotografia
é ótima', 'a qualidade de som é perfeita' ou 'os atores estão
excelentes, nem parece filme nacional', um filme que
permaneça na memória por um conjunto de qualidades sólidas
e inseparáveis, que conta a sua história ancorado na riqueza
de seus personagens, com um roteiro sem muletas narrativas
para conquistar um público viciado em linguagem televisiva
ou hollywoodiana, sem a necessidade de uma trilha sonora
que passe a mão na cabeça do espectador, telegrafando
com antecedência a sua reação melodramática ao que se vê
na tela, sem recursos como narração em off para descrever
diretamente geografias, personagens e sentimentos. Enfim,
um filme brasileiro que seja universal na sua comunicação
com a platéia, a maior qualidade que só um cinema grande
de intenções pode oferecer. Quem diria, uma obra brasileira
com todas estas indiscutíveis qualidades foi produzida aqui
em Pernambuco, orquestrada com impressionante sensibilidade
e firmeza pelo diretor estreante (em longas) Marcelo Gomes.
O nome desse filme é Cinema, Aspirinas e Urubus.
Conta o encontro, em 1942 no sertão nordestino, do alemão
Johann, fugindo da guerra na Europa, com o nordestino Ranulpho,
fugindo da miséria com a esperança de uma vida melhor
no sul do Brasil. O alemão vende pelo interior do país
a grande novidade farmacêutica Aspirina, do laboratório
alemão Bayer, que promete a felicidade do fim da dor
de cabeça e promove uma das mais ternas homenagens
da filmografia brasileira ao Cinema na insólita exibição
de filmes publicitários de Aspirina, em praças do interior,
para uma platéia que nunca foi ao cinema. A história
da amizade casual estre esses dois homens tão diferentes
entre si não envolverá reviravoltas, surpresas espantosas,
violência, tensão sexual ou qualquer coisa fora do comum.
A convivência entre Ranulpho, Johann, os que passam pelo
caminho deles e, vale dizer, o caminhão do alemão (um terceiro
personagem central, 'protagonista' de belíssima cena final)
lentamente conquistam o espectador pelo que têm de real,
palpável, humano, naturalmente emocionante, nesse filme
que curiosamente trabalha de forma pessoal e original dois
ícones narrativos do cinema pop americano: o road movie
e o buddy movie. Aliás, fazia tempo que eu não via um
buddy movie tão bonito assim. Conta muita vantagem
o feliz investimento que o filme fez em dois ótimos atores
desconhecidos: o baiano João Miguel (já premiado pelo papel)
e o alemão Peter Ketnath. São atuações que se complementam,
impossível elogiá-los em separado. Notável ainda é o perfeito
senso de geografia e época. Repare como, mesmo com uma
produção muito simples, Cinema, Aspirinas e Urubus
faz você acreditar logo nos primeiros minutos (e durante
o filme inteiro) que você está assistindo uma história
que se passa em 1942. Com a sutileza que vai do figurino
a uma trilha sonora só com músicas da época, em gravações
originais. É incrível como o filme funciona nesse aspecto
sem fazer qualquer esforço artificial. É muito raro ver isso
no cinema nacional. Eu poderia continuar elogiando por
parágrafos e mais parágrafos, mas paro por aqui, apenas
insistinto para que você não deixe de ver esse belo filme.
Dizer que o filme conta uma história real, sendo Ranulpho
o avô do diretor Marcelo Gomes, engrandece mais ainda
a beleza do filme, mas não é uma informação essencial
para emocionar-se com ele. Acima de tudo, é um filme que
honra todos os envolvidos pelo resultado de puro cinema.
Para aqueles que não acharem o filme grande coisa, apenas
um filme 'bonzinho', aí eu vou dar uma de crítico, ser chato,
pedante: Você precisa urgentemente reeducar o seu olhar, para
perceber a jóia que é esse pequeno filme Cinema, Aspirinas
e Urubus. Nem parece brasileiro, parece filme argentino eh eh
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